{"id":389,"date":"2005-03-09T00:00:00","date_gmt":"2005-03-09T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=389"},"modified":"2005-03-09T00:00:00","modified_gmt":"2005-03-09T00:00:00","slug":"mulher-poltica-territrio-a-ser-conquistado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/03\/mundo\/mulher-poltica-territrio-a-ser-conquistado\/","title":{"rendered":"Mulher: Pol&iacute;tica, territ&oacute;rio a ser conquistado"},"content":{"rendered":"<p>Montevid&eacute;u, 09\/03\/2005 &ndash; As mulheres que exercem poder pol&iacute;tico na Am&eacute;rica Latina s&atilde;o poucas. Algumas adotam pr&aacute;ticas masculinas e outras resistem aos costumes machistas, como a linguagem sexista. Mas, v&aacute;rios fatos indicam uma nova din&acirc;mica. O acesso feminino aos poderes constitucionais continua sendo escasso. Apenas umas poucas aventuradas em um territ&oacute;rio moldado por e para os homens. No Brasil, muitos legisladores ainda se dirigem aos seus pares mulheres como &quot;meu amor&quot; ou &quot;querida&quot;, o que causa indigna&ccedil;&atilde;o a senadoras e deputadas, contou &agrave; IPS a assessora parlamentar Milena Calaznas, da organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-governamental Cf&ecirc;mea, que acompanha projetos de interesse feminino no Congresso.<br \/> <!--more--> <br \/> Na Argentina, Silva Augsbeurger, vereadora pelo Partido Socialista, prop&otilde;es em janeiro ao legislativo de sua cidade, Ros&aacute;rio, a elabora&ccedil;&atilde;o de um manual de linguagem administrativa n&atilde;o-sexista, primeira iniciativa desse tipo no pa&iacute;s. Um jornalista de r&aacute;dio decidiu responder afirmando que Augsbeurger precisava de &quot;um homem&quot;. As legisladoras argentinas at&eacute; pouco tempo se queixavam porque em seus gabinetes continuavam sendo identificadas como &quot;senador Mar&iacute;a L&oacute;pez&quot;, ou recebiam cartas e convites endere&ccedil;ados a &quot;o\/a deputado e senhora&quot;.<\/p>\n<p> A propor&ccedil;&atilde;o de parlamentares mulheres na Am&eacute;rica Latina &eacute; de 15%, e &eacute; escassa a presen&ccedil;a de mulheres em cargos pol&iacute;ticos n&atilde;o eletivos de import&acirc;ncia, segundo o &Iacute;ndice de Compromisso Cumprido divulgado na semana passada, que revisou avan&ccedil;os e retrocessos em 18 pa&iacute;ses no cumprimento da plataforma da IV Confer&ecirc;ncia das Na&ccedil;&otilde;es Unidas sobre a Mulher, realizada em 1995 na China. As &quot;leis ou cotas&quot;, que obrigam a incluir uma porcentagem m&iacute;nima de candidatas nas listas eleitorais marcam a diferen&ccedil;a entre bons e maus resultados, embora nos pa&iacute;ses onde existam &quot;sejam usadas como m&aacute;ximo, em lugar de m&iacute;nimo&quot;, afirma o estudo feito pela Faculdade Latino-Americana de Ci&ecirc;ncias Sociais.<\/p>\n<p> A Argentina &eacute; um exemplo positivo da aplica&ccedil;&atilde;o da lei de cotas, vigente desde 1991. Entre 71 senadores h&aacute; 31 mulheres, e na C&acirc;mara s&atilde;o 124 entre 131 deputados. Al&eacute;m disso, 22 das 24 prov&iacute;ncias do pa&iacute;s adotaram legisla&ccedil;&atilde;o semelhante. &quot;A mudan&ccedil;a mais significativa ocorre nas pr&aacute;ticas institucionais, que agora s&atilde;o mais respeitosas em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s mulheres&quot;, disse &agrave; IPS a diretora do Instituto Social e Pol&iacute;tico da Mulher, Mar&iacute;a Jos&eacute; Libertino. O mesmo acontece quanto ao &quot;avan&ccedil;o de leis sobre viol&ecirc;ncia contra a mulher e sa&uacute;de sexual e reprodutiva&quot;, acrescentou. Mas, no Poder Executivo argentino existe apenas uma ministra, enquanto para Suprema Corte de Justi&ccedil;a, pela primeira vez na hist&oacute;ria, em 2004 foram nomeadas duas mulheres.<\/p>\n<p> No Brasil, a lei de cotas instaurada em 1996 n&atilde;o teve o mesmo resultado. Os partidos devem apresentar pelo menos 30% de candidatas em suas listas, mas estas s&atilde;o abertas e n&atilde;o h&aacute; puni&ccedil;&atilde;o para o partido que n&atilde;o cumpre essa determina&ccedil;&atilde;o. Dos 513 deputados, apenas 45 s&atilde;o mulheres e h&aacute; nove senadoras entre 81 integrantes do Senado. N&atilde;o faz muito tempo, as parlamentares tiveram de lutar por &quot;banheiros femininos pr&oacute;ximo ao plen&aacute;rio, n&atilde;o previstos para algumas &aacute;reas na constru&ccedil;&atilde;o da sede legislativa&quot;, contou &agrave; IPS a legisladora por Minas Gerais Mar&iacute;a do Carmo Lara, do Partido dos Trabalhadores. Em 2003, as bancadas de senadoras e deputadas protestaram contra um desagrad&aacute;vel incidente.<\/p>\n<p> Durante os debates sobre redu&ccedil;&atilde;o da idade penal de 18 para 16 anos o deputado Jair Bolsonaro chamou de &quot;vagabunda&quot; sua colega Maria do Ros&aacute;rio Nunes, que garantiu que n&atilde;o mudaria sua opini&atilde;o, contr&aacute;ria &aacute; proposta, caso um homem violasse sua filha. No entanto, houve avan&ccedil;os, como a elimina&ccedil;&atilde;o do crime de adult&eacute;rio do C&oacute;digo Penal, embora continue vigorando a &quot;leg&iacute;tima defesa da honra&quot;, que permite absolver homens que assassinam suas companheiras por ci&uacute;mes ou infidelidade. Outros &ecirc;xitos foram a cria&ccedil;&atilde;o da Secretaria de Pol&iacute;ticas para Mulheres, a amplia&ccedil;&atilde;o dos servi&ccedil;os para mulheres na sa&uacute;de p&uacute;blica e das Delegacias da Mulher, que agora existem em pelo menos 10% dos 5.560 munic&iacute;pios brasileiros. No gabinete de 34 membros do presidente Luiz In&aacute;cio Lula da Silva h&aacute; apenas quatro mulheres ocupando minist&eacute;rios.<\/p>\n<p> No Uruguai, a incorpora&ccedil;&atilde;o feminina no novo governo constitui &quot;uma mudan&ccedil;a muito importante, que ultrapassa o que a cidadania propunha nesta mat&eacute;ria&quot;, disse &agrave; IPS a feminista Cristina Grela, m&eacute;dica, fundadora da organiza&ccedil;&atilde;o Cat&oacute;licas pelo Direito de Decidir e diretora do programa Mulher e G&ecirc;nero ligado ao Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de P&uacute;blica. Na legislatura iniciada em15 de fevereiro, h&aacute; apenas uma d&uacute;zia de mulheres entre 129 legisladores, apesar de a presid&ecirc;ncia da C&acirc;mara estar em m&atilde;os femininas. Segundo Grela, &quot;tudo o que a sociedade fez para impulsionar a agenda das mulheres n&atilde;o rendeu na luta pol&iacute;tica, porque ali h&aacute; outras quest&otilde;es em jogo&quot;.<\/p>\n<p> Por&eacute;m, o trabalho do movimento de mulheres e da bancada feminina no parlamento (que coordena a&ccedil;&otilde;es suprapartid&aacute;rias) &quot;teve muito a ver com esta mudan&ccedil;a, que &eacute; hist&oacute;rica para o pa&iacute;s&quot;, afirmou Grela. Existem tr&ecirc;s ministras (uma delas na pasta da Defesa), duas vice-ministras, v&aacute;rias diretoras-gerais e dezenas de diretoras, 17 somente no Minist&eacute;rio da Sa&uacute;de P&uacute;blica. Al&eacute;m disso, o rec&eacute;m criado Minist&eacute;rio de Desenvolvimento e Participa&ccedil;&atilde;o Social tem todo seu estado-maior ocupado por mulheres; uma mulher dirigir&aacute; o canal de televis&atilde;o oficial e outra estar&aacute; &agrave; frente da poderosa companhia estatal de telefonia. E, pela primeira vez, a pol&iacute;cia de tr&ecirc;s departamentos ser&aacute; chefiada por mulheres.<\/p>\n<p> Em Cuba, as mulheres ocupam 36% dos cargos e 35% dos postos de dire&ccedil;&atilde;o na economia estatal. S&atilde;o seis ministras e 31 vice-ministras. Mas, a maioria dos postos de dire&ccedil;&atilde;o continua nas m&atilde;os dos homens e muitas mulheres, quando assumem algumas dessas tarefas, encarnam os m&eacute;todos masculinos de dire&ccedil;&atilde;o, que s&atilde;o os que contam com aprova&ccedil;&atilde;o social. J&aacute; na Venezuela a participa&ccedil;&atilde;o feminina em altos cargos p&uacute;blicos n&atilde;o variou nos &uacute;ltimos 10 anos. No gabinete do presidente Hugo Ch&aacute;vez h&aacute; quatro ministras em 22 minist&eacute;rios, duas governadoras em 24 departamentos e 29 prefeitas em 335 distritos. Na Assembl&eacute;ia Nacional de 165 membros, h&aacute; 19 legisladoras, enquanto o Superior Tribunal de Justi&ccedil;a h&aacute; 8 ju&iacute;zas em um total de 32 magistrados.<\/p>\n<p> A nova Constitui&ccedil;&atilde;o venezuelana, em vigor desde 1999, e algumas leis que foram desenvolvidas introduziram a linguagem de g&ecirc;nero. Assim, em lugar de &quot;cidad&atilde;os&quot; se diz &quot;cidad&atilde;os e cidad&atilde;s&quot;, &quot;eleitores e eleitoras&quot;, &quot;o presidente ou a presidente da Rep&uacute;blica&quot;. &quot;Nas estruturas de poder pode ser que as mulheres com cargos sustentem uma agenda pol&iacute;tica e ideol&oacute;gica, mas, nas bases sociais se imp&otilde;e com perspectiva de g&ecirc;nero a defesa dos interesses dos lares pobres e das fam&iacute;lias&quot;, disse &agrave; IPS Marta Chac&oacute;n, uma das diretoras do estatal Instituto Nacional da Mulher.<\/p>\n<p> No Chile, as prefer&ecirc;ncias para a elei&ccedil;&atilde;o presidencial se centram em duas mulheres, a ex-ministra da Defesa Michele Bachelet e a ex-chanceler Soledad Alvear, ambas da coaliz&atilde;o de centro-esquerda no poder que em 2006 enfrentar&aacute; a oposi&ccedil;&atilde;o direitista. &quot;O fato de se necessitar de uma presidente que possa colocar em xeque o conservadorismo da direita chinela me parece um &ecirc;xito para o movimento das mulheres, para o feminismo&quot;, disse &agrave; IPS a presidente da organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-governamental La Morada, Mar&iacute;a P&iacute;a Matta. No Poder executivo existem apenas tr&ecirc;s ministras e oito subsecret&aacute;rias, uma prefeita e 13 governadoras.<\/p>\n<p> No parlamento, h&aacute; apenas duas senadoras em um corpo de 60 e 15 deputadas num total de 120 cadeiras da C&acirc;mara. O Chile demorou at&eacute; 2004 para colocar em vigor uma lei de div&oacute;rcio. &quot;As mulheres est&atilde;o na vida social e na vida p&uacute;blica, o problema &eacute; como est&atilde;o. As novas perguntas s&atilde;o por que as mulheres continuam nos pegando, por que permitimos que nos peguem,o que ocorre com as mulheres que foram mortas por seus maridos, amantes, companheiros&quot;, questionou Matta.<\/p>\n<p> Na C&acirc;mara dos Deputados do M&eacute;xico, 22,6% das cadeiras s&atilde;o ocupadas por mulheres. No Senado, a porcentagem &eacute; de 18,8%, segundo o estatal, mas aut&ocirc;nomo, Instituto Nacional das Mulheres. A participa&ccedil;&atilde;o feminina no mundo da pol&iacute;tica continua abaixo dos 30%, apesar da lei de cotas em vigor, afirma o instituto. Somente 3,7% das prefeituras do pa&iacute;s s&atilde;o encabe&ccedil;adas por mulheres. &quot;N&oacute;s mulheres conquistamos espa&ccedil;os que eram imposs&iacute;veis de imaginar h&aacute; cerca de 20 anos. Mas, o mais grave &eacute; o que acontece com as que t&ecirc;m menos escolaridade e as mais pobres, que por ignor&acirc;ncia e tradi&ccedil;&atilde;o quase n&atilde;o possuem direitos&quot;, disse &agrave; IPS a pesquisadora Carmen Morales <\/p>\n<p> Os sinais da linguagem oficial s&atilde;o poderosos. Em seus discursos, o presidente esquerdista do Uruguai, Tabar&eacute; V&aacute;zquez, costumar dizer &quot;uruguaias e uruguaios&quot;. Do mesmo modo, o mandat&aacute;rio mexicano, Vicente Fox, utiliza frases como &quot;as e os mexicanos&quot;. &quot;Claro que h&aacute; mudan&ccedil;as. As mulheres deputadas, por exemplo, entram at&eacute; nos banheiros de seus colegas homens, utilizando uma linguagem figurada&quot;, afirmou Morales. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p> (*) Com colabora&ccedil;&otilde;es de Marcela Valente (Argentina), Mario Osava (Brasil), Daniela Estrada e Mar&iacute;a Cecilia Espinosa (Chile), Dalia Acosta (Cuba), Diego Cevallos (M&eacute;xico) e Humberto M&aacute;rquez (Venezuela).<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Montevid&eacute;u, 09\/03\/2005 &ndash; As mulheres que exercem poder pol&iacute;tico na Am&eacute;rica Latina s&atilde;o poucas. Algumas adotam pr&aacute;ticas masculinas e outras resistem aos costumes machistas, como a linguagem sexista. Mas, v&aacute;rios fatos indicam uma nova din&acirc;mica. O acesso feminino aos poderes constitucionais continua sendo escasso. Apenas umas poucas aventuradas em um territ&oacute;rio moldado por e para os homens. No Brasil, muitos legisladores ainda se dirigem aos seus pares mulheres como &quot;meu amor&quot; ou &quot;querida&quot;, o que causa indigna&ccedil;&atilde;o a senadoras e deputadas, contou &agrave; IPS a assessora parlamentar Milena Calaznas, da organiza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-governamental Cf&ecirc;mea, que acompanha projetos de interesse feminino no Congresso.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/03\/mundo\/mulher-poltica-territrio-a-ser-conquistado\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":57,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-389","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/389","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/57"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=389"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/389\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=389"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=389"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=389"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}