{"id":3903,"date":"2008-05-23T15:04:01","date_gmt":"2008-05-23T15:04:01","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3903"},"modified":"2008-05-23T15:04:01","modified_gmt":"2008-05-23T15:04:01","slug":"reportagem-divorcio-entre-agricultura-e-biodiversidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/05\/america-latina\/reportagem-divorcio-entre-agricultura-e-biodiversidade\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: Div\u00f3rcio entre agricultura e biodiversidade"},"content":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, 23\/05\/2008 &ndash; (Tierram\u00e9rica) A humanidade consumiu mais de sete mil esp\u00e9cies vegetais em sua hist\u00f3ria. Hoje, depende de apenas tr\u00eas para satisfazer a maior parte de suas necessidades cal\u00f3ricas.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_3903\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/amaranto.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3903\" class=\"size-medium wp-image-3903\" title=\"Caravelitas de amaranto, doce tradicional do M\u00e9xico. - Photo Stock\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/amaranto.jpg\" alt=\"Caravelitas de amaranto, doce tradicional do M\u00e9xico. - Photo Stock\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3903\" class=\"wp-caption-text\">Caravelitas de amaranto, doce tradicional do M\u00e9xico. - Photo Stock<\/p><\/div>  A imensa diversidade biol\u00f3gica da Am\u00e9rica Latina contribuiu pouco para a agricultura comercial da regi\u00e3o, apesar de ser lugar de origem de duas das quatro esp\u00e9cies mais consumidas no mundo, o milho e a batata. A carestia dos alimentos aqueceu o debate sobre produ\u00e7\u00e3o e com\u00e9rcio agr\u00edcola, incluindo a forte queda da biodiversidade na agricultura comercial. A humanidade consumiu mais de sete mil esp\u00e9cies vegetais em sua hist\u00f3ria. Mas, nos \u00faltimos cem anos, deixou de cultivar mais de tr\u00eas quartos, e depende de apenas tr\u00eas \u2013 milho, trigo e arroz \u2013 para atender quase 70% de suas necessidades cal\u00f3ricas, afirmam dados das Na\u00e7\u00f5es Unidas. Muitos cultivos antigos, como o amaranto (do g\u00eanero Amaranthus) e a quinoa (Chenopodium quinoa), promissoras esp\u00e9cies latino-americanas, hoje s\u00e3o pouco exploradas diante da expans\u00e3o de cereais como o arroz e o trigo. Junto com essas culturas, tamb\u00e9m se perde conhecimentos a elas associados, empobrecendo a agricultura e a nutri\u00e7\u00e3o, afirmam especialistas. O amaranto foi declarado \u201co melhor alimento de origem vegetal para consumo humano\u201d, em 1979, pela Academia Nacional de Ci\u00eancias dos Estados Unidos, por suas prote\u00ednas e seus amino\u00e1cidos singulares e por n\u00e3o requerer cuidados especiais, muita \u00e1gua nem terra muito f\u00e9rtil. Muito plantado por maias, astecas e incas, esteve esquecido at\u00e9 a d\u00e9cada de 60, mas atualmente se limita a apenas dois mil hectares plantados. \u201cExiste uma cultura que faz com que se prefira outros produtos com menos propriedades aliment\u00edcias\u201d, lamenta Alberto Martinez, secret\u00e1rio da cooperativa Sistema Produto Amaranto, de 250 produtores de escassos recursos ao sul da capital mexicana. Em 2007, venderam 300 toneladas de amaranto por US$ 1 mil a tonelada, valor que era o dobro em 2006. Existem planta\u00e7\u00f5es de amaranto nos Estados Unidos, na China e na \u00cdndia, todas em pequena escala. \u201cAo depender de n\u00e3o mais de seis cultivos, a popula\u00e7\u00e3o \u00e9 mais vulner\u00e1vel \u00e0s crises de estoque, oferta e demanda\u201d, em especial a mais pobre, disse ao Terram\u00e9rica Juan Izquierdo, oficial principal de Produ\u00e7\u00e3o Vegetal da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO) na Am\u00e9rica Latina. \u00c9 o que acontece agora, com as enormes altas dos pre\u00e7os dos alimentos em todo o mundo, que amea\u00e7am ampliar em cem milh\u00f5es de pessoas o contingente de 850 milh\u00f5es de famintos, segundo o Programa Mundial de Alimentos. Os protestos violentos j\u00e1 afetam dezenas de pa\u00edses. Este quadro \u00e9 resultado de processos que fizeram mais de cem pa\u00edses muito dependentes dos alimentos importados, come\u00e7ando pela ajuda alimentar, como a dos Estados Unidos. Desde os anos 50 se \u201ctransfere padr\u00f5es alimentares\u201d para na\u00e7\u00f5es pobres, lembra Jean Marc von der Weid, coordenador da n\u00e3o-governamental Assessoria e Servi\u00e7os para Projetos de Agricultura Alternativa do Brasil. Depois, a abertura comercial \u201cdesigual \u201c das \u00faltimas d\u00e9cadas permitiu que Europa e Estados Unidos \u2013 muito protecionistas \u2013 \u201cinundassem o mundo com alimentos baratos\u201d, bem-vindos por um tempo, at\u00e9 que a crise revelou a armadilha, comenta Von der Weid ao Terram\u00e9rica. A perda de diversidade \u00e9 outra conseq\u00fc\u00eancia. O fonio (do g\u00eanero Digitaria) \u00e9 um nutritivo e saboroso cereal da \u00c1frica ocidental, que acabou confinado \u00e0 \u00e1rea rural. No Brasil, o trigo substituiu boa parte do consumo de mandioca (Manihot esculenta), milho (Zea mays) e feij\u00f5es (Phaseolus). O problema afeta esp\u00e9cies e variedades, causando uma eros\u00e3o gen\u00e9tica que torna mais vulner\u00e1veis as semeaduras. Apenas dois tipos de feij\u00e3o preto dominam o mercado brasileiro, destaca Von der Weid.<\/p>\n<p>O papel das pessoas As mulheres exercem pap\u00e9is opostos na diversidade alimentar. Como consumidoras, esmagadas pela dupla ou tripla jornada de trabalho, \u201ccontribuem para a homogeneiza\u00e7\u00e3o\u201d, pois buscam alimentos r\u00e1pidos e f\u00e1ceis de cozinhar, afirma Emma Siliprandi, agr\u00f4noma e soci\u00f3loga que pesquisa as rela\u00e7\u00f5es entre g\u00eanero e comida. Contudo, na agricultura as mulheres s\u00e3o \u201cdeposit\u00e1rias da biodiversidade, de sementes e de conhecimentos\u201d sobre numerosos alimentos, infus\u00f5es e hortali\u00e7as plantadas nos quintais, enquanto os homens tendem a seguir a l\u00f3gica do mercado, descartando as \u201cmiudezas\u201d, disse ao Terram\u00e9rica. S\u00e3o mulheres que iniciaram, na rede internacional Via Camponesa, o movimento em defesa das sementes como patrim\u00f4nio da humanidade, acrescenta. Por outro lado, a preocupa\u00e7\u00e3o dos ind\u00edgenas vai al\u00e9m. \u201cN\u00e3o s\u00f3 \u00e9 preciso resgatar os mal chamados velhos cultivos com alto poder nutritivo, mas tamb\u00e9m reafirmar nossa concep\u00e7\u00e3o da M\u00e3e Terra\u201d, afirma o senador Ramiro Est\u00e1cio, do Movimento de Autoridades Ind\u00edgenas do Sudeste Colombiano (Aico). Isso significa \u201cresgatar todo um sistema que implique fortalecer os conhecimentos, a cultura, a variedade produtiva e nutritiva e permita a reafirma\u00e7\u00e3o dos saberes milenares\u201d, explica ao Terram\u00e9rica.<\/p>\n<p>Agroecologia versus agroneg\u00f3cio Recuperar a diversidade depende da agricultura familiar e requer pr\u00e1ticas de agroecologia e reforma agr\u00e1ria, afirma Von der Weid. Tamb\u00e9m \u00e9 indispens\u00e1vel a educa\u00e7\u00e3o culin\u00e1ria, porque os h\u00e1bitos impedem diversificar os alimentos, com comprovaram tentativas sem sucesso de difundir hortali\u00e7as no Brasil, acrescenta. Por outro lado, um projeto chileno de hortas urbanas, com educa\u00e7\u00e3o nutricional e esp\u00e9cies de v\u00e1rias colheitas por ano, teve sucesso. A agroecologia, que descarta os produtos qu\u00edmicos, \u00e9 \u201cuma proposta interessante\u201d, mas atende apenas \u201cnichos de mercado e n\u00e3o substitui\u201d a grande cultura comercial, afirma Ariovaldo Luchiari J\u00fanior, chefe-adjunto do Centro de Meio Ambiente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecu\u00e1ria (Embrapa). Luchiari reconhece uma tend\u00eancia ascendente, pela maior demanda por produtos in\u00f3cuos, a queda dos fertilizantes n\u00e3o renov\u00e1veis e os bons resultados de combina\u00e7\u00f5es agrossilvopastoris e horticultura. As exig\u00eancias atuais do mercado marcam prefer\u00eancias por produtos de maior qualidade, seguros, rastre\u00e1veis e com valor agregado, como a cenoura que j\u00e1 vem ralada ou a soja com mais conte\u00fado de isoflavona, subst\u00e2ncia que atenua os sintomas da menopausa, acrescenta. Enquanto isso, as esp\u00e9cies comerciais t\u00eam usos cada vez mais diversos: o milho \u00e9 alimento humano e animal e mat\u00e9ria-prima de muitos produtos e de um combust\u00edvel, o etanol. A cana h\u00e1 muito deixou de ser apenas \u201cde a\u00e7\u00facar\u201d, \u00e9 fertilizante e origem de pl\u00e1sticos, enquanto o trigo n\u00e3o \u00e9 apenas p\u00e3o, mas biscoitos, macarr\u00e3o e doces. A biodiversidade de nossa regi\u00e3o pode gerar novos produtos de consumo maci\u00e7o, mas \u00e9 \u201cum processo longo\u201d, com investimento e pesquisa para responder \u00e0s exig\u00eancias nutricionais e ambientais. \u201cN\u00e3o \u00e9 um caminho f\u00e1cil\u201d, alerta Luchiari. \u201cProdutividade, uniformidade e processamento\u201d s\u00e3o princ\u00edpios necess\u00e1rios para um cultivo \u201c\u00fatil\u201d, explica Izquierdo, da FAO. A \u201cconsci\u00eancia\u201d para aproveitar oportunidades \u00e9 outro fator, acrescenta. Os Estados Unidos s\u00e3o o maior produtor mundial de quinoa, porque em um condado do Estado de Nebrasca a ela s\u00e3o dedicados 25 mil hectares. A colheita se destina a um alimento infantil da companhia Nestl\u00e9. \u201cOs cultivos objeto de intenso melhoramento gen\u00e9tico, como milho, arroz e trigo, rendem muito mais por unidade de superf\u00edcie\u201d, afirma Edmundo Acevedo, especialista em Produ\u00e7\u00e3o Agr\u00edcola da Universidade do Chile. Sem melhorias semelhantes, \u00e9 dif\u00edcil que esp\u00e9cies nativas, como o amaranto e a quinoa, possam competir no mercado, acrescenta. No M\u00e9xico, apesar da carestia, a tortilha de milho n\u00e3o perde a lideran\u00e7a no consumo. \u201cSe o pre\u00e7o do milho subir ainda mais, isso pesar\u00e1 no bolso de todos, mas \u00e9 imposs\u00edvel imaginar que se deixe de consumir. Uma cultura milenar sustenta esta dieta\u201d, afirma ao Terram\u00e9rica Marcelino Vela, economista e assessor de empresas de alimentos. <\/p>\n<p>* Com as colabora\u00e7\u00f5es de Daniela Estrada (Santiago), Diego Cevallos (M\u00e9xico) e Helda Martinez (Bogot\u00e1).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, 23\/05\/2008 &ndash; (Tierram\u00e9rica) A humanidade consumiu mais de sete mil esp\u00e9cies vegetais em sua hist\u00f3ria. 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