{"id":3954,"date":"2008-06-10T13:55:07","date_gmt":"2008-06-10T13:55:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3954"},"modified":"2008-06-10T13:55:07","modified_gmt":"2008-06-10T13:55:07","slug":"reportagem-producao-coletiva-substitui-latifundio-esteril","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/06\/america-latina\/reportagem-producao-coletiva-substitui-latifundio-esteril\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: Produ\u00e7\u00e3o coletiva substitui latif\u00fandio est\u00e9ril"},"content":{"rendered":"<p>BARINAS, Venezuela, 10\/06\/2008 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- Uma pequena cooperativa leiteira obt\u00e9m seus primeiros \u00eaxitos em meio \u00e0 savana da Venezuela, pa\u00eds dependente dos alimentos importados.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_3954\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/371_381_Foto-11.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-3954\" class=\"size-medium wp-image-3954\" title=\"Dois membros da cooperativa no campo arado pelo trator. Ao fundo v\u00ea-se as gar\u00e7as - Humberto M\u00e1rquez\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/371_381_Foto-11.jpg\" alt=\"Dois membros da cooperativa no campo arado pelo trator. Ao fundo v\u00ea-se as gar\u00e7as - Humberto M\u00e1rquez\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-3954\" class=\"wp-caption-text\">Dois membros da cooperativa no campo arado pelo trator. Ao fundo v\u00ea-se as gar\u00e7as - Humberto M\u00e1rquez\/IPS<\/p><\/div>  \u201cEm tudo isto que voc\u00ea v\u00ea n\u00e3o se produzia um \u00fanico litro de leite, nem uma espiga de milho\u201d, diz o venezuelano Jos\u00e9 Tapia Coir\u00e1n, apontando com seus bra\u00e7os estendidos para o horizonte da savana salpicada de \u00e1rvores. \u201cAqui obtemos 500 litros de leite por dia e colhemos mil toneladas de milho\u201d, acrescenta. S\u00e3o as plan\u00edcies de Barinas, sudoeste da Venezuela, onde trabalha a cooperativa Brisas del Masparro, em raz\u00e3o do nome dos rios que nascem nos Andes e levam suas \u00e1guas ao Orenoco. Coir\u00e1n, como \u00e9 chamado por todos, ex-pe\u00e3o e tratorista em fazendas da regi\u00e3o, \u00e9 seu presidente.<\/p>\n<p>\u201cAqui, uma vez, existiu uma floresta, mas os latifundi\u00e1rios levaram toda a madeira. Deixaram umas poucas \u00e1rvores e milhares de hectares de res\u00edduos que pouco a pouco fomos limpando e semeando com pasto ou milho\u201d, conta o dirigente. \u201cIsto estava abandonado, sem produ\u00e7\u00e3o, e por isso ocupamos a \u00e1rea\u201d, acrescenta. Coir\u00e1n e seus companheiros percorrem com o Terram\u00e9rica quil\u00f4metros de terras, planas como mesa de bilhar, entre mato, algum p\u00e2ntano, pastagens ou terras sendo aradas para semear, a fim de ressaltar seus motivos ao ocupar o que foi terra improdutiva. Passam bandos de gar\u00e7as, corocoras vermelhas e alguns gavi\u00f5es. \u201cQueremos conservar tudo o que pudermos. Decidimos n\u00e3o cortar \u00e1rvores, embora retiremos o mato e as pragas enquanto avan\u00e7amos\u201d, diz Miguel M\u00e9ndez, outro integrante da cooperativa.<\/p>\n<p>O presidente do pa\u00eds, Hugo Ch\u00e1vez, lan\u00e7ou uma \u201cguerra ao latif\u00fandio\u201d com uma lei de terras, em 2001, que pautou o \u201cresgate\u201d estatal de fazendas cuja propriedade privada e condi\u00e7\u00e3o produtiva n\u00e3o ficassem suficientemente demonstradas. No terreno houve, e continua havendo, os choques entre propriet\u00e1rios e camponeses. Os latif\u00fandios ocupavam cerca de seis milh\u00f5es de hectares em 1999. Dois milh\u00f5es foram confiscados pelo governo, que entregou 60% dessa \u00e1rea a mais de cem mil fam\u00edlias camponesas, segundo dados oficiais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, 98.500 unidades produtivas, que ocupam 4,3 milh\u00f5es de hectares, regularizaram sua situa\u00e7\u00e3o mediante a carta agr\u00e1ria, que concede a posse mas n\u00e3o a propriedade dessas terras, que continuam sendo estatais. A fazenda Santa Rita, \u00e0s margens do Masparro, ocupava 31 mil hectares com n\u00e3o mais do que 1.800 cabe\u00e7as de gado, segundo a cooperativa. Grupos camponeses a ocuparam em 2002 e 2003, e o Estado lhes destinou 16 mil hectares, deixando o restante com os antigos propriet\u00e1rios.<\/p>\n<p>Com seus 56 associados, a cooperativa que mais progrediu foi a Brisas del Masparro, com 803 hectares. H\u00e1 cinco anos receberam um cr\u00e9dito de US$ 156 mil que investiram em bovinos, eq\u00fcinos, implementos e insumos, e, ainda, nas primeiras semeaduras. J\u00e1 t\u00eam um rebanho de duplo prop\u00f3sito, carne e leite, \u00e0 base de cruzamento entre animais aclimatados \u00e0 plan\u00edcie tropical das ra\u00e7as zebu e holstein.<\/p>\n<p>Bens comuns<\/p>\n<p>Um casar\u00e3o usado como abrigo de pe\u00f5es e dep\u00f3sito da antiga fazenda se converteu em sede comunit\u00e1ria. A primeira impress\u00e3o \u00e9 de desordem. Restos de um trator no p\u00e1tio vazio indicam o \u00fanico ponto da \u00e1rea onde \u00e9 poss\u00edvel captar sinal de telefone via sat\u00e9lite. Porcos e galinhas seguem atr\u00e1s de um jovem que vai desfazendo algumas espigas de milho. Outro limpa um pouco o ch\u00e3o do corredor, cen\u00e1rio das assembl\u00e9ias. As paredes h\u00e1 tempos n\u00e3o recebem uma pintura. Ao fundo h\u00e1 uma cozinha e uma longa mesa de restaurante para os que trabalham nessa jornada e as fam\u00edlias que se instalaram em casas improvisadas nos arredores. Em uma parede h\u00e1 cartazes descoloridos pelo tempo, de Ch\u00e1vez e do revolucion\u00e1rio salvadorenho Farabundo Mart\u00ed (1893-1932).<\/p>\n<p>\u201cSomos socialistas. Trabalhamos em comum, segundo a capacidade de cada um, e existe um rod\u00edzio para n\u00e3o fazermos sempre a mesma coisa e aprendermos de tudo. N\u00e3o daremos conta se cada um for por seu lado, assim \u00e9 muito dif\u00edcil ir em frente e deixar de ser como \u00e9ramos, pe\u00f5es, empregados, enriquecendo os outros\u2019, diz o veterano Neptal\u00ed Quintana, durante muitos anos inseminador de vacas em fazendas da comarca. Fala recostado em uma varanda do curral, onde os mais jovens ordenham algumas vacas, pela segunda vez no dia. \u201cConseguimos cerca de cinco litros de leite di\u00e1rios por animal, acima da m\u00e9dia\u201d nesta regi\u00e3o, que \u00e9 inferior a quatro litros por animal, diz Quintana.<\/p>\n<p>Diariamente, a cooperativa doa 20 litros de leite para duas escolas da regi\u00e3o, contam orgulhosos. \u201cColocamos o copo que cada crian\u00e7a precisa\u201d explica M\u00e9ndez. \u201cMas, se, al\u00e9m dos animais em comum, algum de n\u00f3s tem uma vaca ou um cavalo ou consegue um leit\u00e3o, pode cri\u00e1-lo com os demais e ao vender o dinheiro \u00e9 seu. Alguma coisa entregar\u00e1 \u00e0 cooperativa, mas n\u00e3o nos opomos a essa propriedade. O que queremos \u00e9 a terra e os demais projetos de vida\u201d, diz Coir\u00e1n. O dinheiro obtido \u201c\u00e9 usado para os gastos, que tamb\u00e9m s\u00e3o comuns, para produzir ou comer, e cada s\u00f3cio recebe mensalmente 400 bol\u00edvares (US$ 180) como antecipa\u00e7\u00e3o pelo que lhe caberia pela gest\u00e3o anual da cooperativa\u201d, explica Iraima Benaventa, jovem m\u00e3e de dois filhos e \u201crespons\u00e1vel pela log\u00edstica\u201d.<\/p>\n<p>Aluna de um programa de estudos secund\u00e1rios \u00e0 dist\u00e2ncia, Benaventa mostra as compras que trouxe da cidade com outro s\u00f3cio \u2013 macarr\u00e3o, arroz, vacinas para o gado \u2013 e supervisiona o trabalho de limpeza e de cozinha (nesse dia arroz e carne) que \u00e9 feito pelos mais jovens. Brisas del Masparro come\u00e7ar\u00e1 a construir este ano 56 casas para igual n\u00famero de fam\u00edlias, com um plano de autoconstru\u00e7\u00e3o apoiado pelo governo. \u201cAs juntaremos em forma de povoado para facilitar e baratear os servi\u00e7os, a \u00e1gua, a luz, o g\u00e1s, uma quadra, uma casa comunit\u00e1ria, talvez at\u00e9 uma piscina\u201d, explicam.<\/p>\n<p>A este recanto do Masparro, chamado Las Piedras, se chega ao fim de uma hora de estrada partindo de Barinas, capital regional, passando junto a Sabaneta, o povoado natal de Ch\u00e1vez. Depois, viaja-se mais uma hora por um caminho de terra e cascalho que a cooperativa pede que seja asfaltado para benef\u00edcio de toda a comunidade. \u201cAs fazendas desse setor estavam muito improdutivas h\u00e1 cinco anos. Mas com nossa luta chegaram programas do governo. Foi feita a estrada, come\u00e7ou um cadastro de terras, deram pap\u00e9is de posse aos ocupantes particulares ou cooperativistas, se conseguiu cr\u00e9ditos\u201d, conta Coir\u00e1n.<\/p>\n<p>Em Las Piedras \u201cpassamos de quase zero para 21 mil litros di\u00e1rios de leite (a produ\u00e7\u00e3o nacional \u00e9 de 1,3 a 1,7 milh\u00e3o de litros por dia, segundo diferentes fontes). Agora h\u00e1 gente criando mais gado, plantando milho, frutas e pastagens\u201d, argumenta o dirigente. Caracciolo Ram\u00edrez, agricultor independente, tem sua parcela de aproximadamente 40 hectares dos terrenos da cooperativa. \u201cO governo ajudou com cartas agr\u00e1rias, com algum financiamento e a estrada. Melhorei minha casa, minha filha mais velha come\u00e7ou a universidade, vieram os resultados\u201d, conta Ram\u00edrez, ao mesmo tempo que oferece um refresco de aveia com gelo a este rep\u00f3rter em uma \u00e1rea coberta ao lado de sua casa de tijolos.<\/p>\n<p>A cooperativa prepara uma \u00e1rea maior que a do ano passado para plantar milho, constr\u00f3i um novo curral e reforma o velho para implantar a ordenha mec\u00e2nica, e busca financiamento para instalar dois tanques de esfriamento, o que permitir\u00e1 maior lucro em cada litro de leite. \u201cEm todo o mundo, h\u00e1 crise de alimentos, querem us\u00e1-los para fazer combust\u00edvel. N\u00e3o concordamos e devolvemos o apoio do governo produzindo mais comida. Este pa\u00eds n\u00e3o pode continuar alimentando as pessoas \u00e0s custas de importa\u00e7\u00f5es, enquanto h\u00e1 tanta terra esperando para ser trabalhada\u201d, diz Coir\u00e1n.<\/p>\n<p>No per\u00edodo 2004-2007, a produ\u00e7\u00e3o alimentar venezuelana cresceu 3,4%, passando de 18,9% para 19,6% ao ano, segundo o governo. Por\u00e9m, o ex-ministro da Agricultura, Hiram Gaviria, aponta a insufici\u00eancia desse avan\u00e7o: por habitante, a Venezuela produz hoje 88% dos alimentos que gerava em 1998, afirmou ao Terram\u00e9rica. Longe de Barinas, em Roma, l\u00edderes mundiais discutiram, entre 3 e 5 de junho, mecanismos para superar a atual carestia dos alimentos, na c\u00fapula da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO).<\/p>\n<p>Na antiga fazenda Santa Rita, milhares de hectares \u201crecuperados\u201d pelo Estado foram entregues a outras cooperativas ou associa\u00e7\u00f5es camponesas, que n\u00e3o exibem \u00eaxitos como Brisas del Masparro. \u201cFazemos assembl\u00e9ias na regi\u00e3o e lhes oferecemos apoio, inclusive mais longe. Ao Apure (extremo sudoeste do pa\u00eds) levamos nossa experi\u00eancia e as novilhas que produzimos, que lhes vendemos a pre\u00e7os menores, mas o individualismo de muitos compatriotas os leva a buscar uma parcela\u201d, contam Quintana e Coir\u00e1n.<\/p>\n<p>De volta a Barinas, um dos parceiros, Alejandro, acompanha o Terram\u00e9rica. \u201cQueremos formar uma cooperativa para trabalhar, mas que cada um tenha sua parcela, que possamos vender. Com a carta agr\u00e1ria, a terra n\u00e3o pode ser vendida e sempre ser\u00e1 do Estado\u201d. Alejandro afirma que os vizinhos de Brisas del Masparro v\u00eaem com simpatia a experi\u00eancia e querem t\u00ea-lo como testemunho do que pode o trabalho comum. \u201cEles t\u00eam suas raz\u00f5es, o apoio do governo revolucion\u00e1rio, tudo bem, mas o que acontecer\u00e1 amanh\u00e3 se o governo mudar? Algu\u00e9m quer um peda\u00e7o de terra para trabalhar, mas tamb\u00e9m a quer para seus filhos\u201d, acrescenta Alejandro quando o sol j\u00e1 alaranjado desaparece entre as pastagens do sudoeste venezuelano.<\/p>\n<p>* O autor \u00e9 correspondente da IPS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BARINAS, Venezuela, 10\/06\/2008 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- Uma pequena cooperativa leiteira obt\u00e9m seus primeiros \u00eaxitos em meio \u00e0 savana da Venezuela, pa\u00eds dependente dos alimentos importados. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/06\/america-latina\/reportagem-producao-coletiva-substitui-latifundio-esteril\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,12,5,11],"tags":[21],"class_list":["post-3954","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","category-politica","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3954","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3954"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3954\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3954"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3954"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3954"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}