{"id":3991,"date":"2008-06-19T17:19:38","date_gmt":"2008-06-19T17:19:38","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=3991"},"modified":"2008-06-19T17:19:38","modified_gmt":"2008-06-19T17:19:38","slug":"desenvolvimento-angola-licoes-para-limpar-a-agua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/06\/africa\/desenvolvimento-angola-licoes-para-limpar-a-agua\/","title":{"rendered":"DESENVOLVIMENTO-ANGOLA: Li\u00e7\u00f5es para limpar a \u00e1gua"},"content":{"rendered":"<p>Luanda, 19\/06\/2008 &ndash; Vivia Paulino, de 6 anos, \u00e9 uma das milhares de crian\u00e7as v\u00edtimas da c\u00f3lera em Angola. <!--more--> Ao v\u00ea-la brincar alegremente na areia com sua irm\u00e3 g\u00eamea custa crer que h\u00e1 apenas alguns meses esteve \u00e0 beira da morte. O c\u00f3lera se propaga atrav\u00e9s da \u00e1gua suja. E, segundo o Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (Unicef), quase 40% dos angolanos usam \u00e1gua procedente de fontes inseguras. As doen\u00e7as originadas na \u00e1gua s\u00e3o uma causa-chave da diarr\u00e9ia, segundo motivo de morte entre menores de 5 anos neste pa\u00eds africano. Entre janeiro e in\u00edcio de mar\u00e7o houve 7.740 casos de c\u00f3lera registrados em Angola, al\u00e9m de 198 mortes. Isto representa mais de uma v\u00edtima por dia.<\/p>\n<p>A pequena Vivia reside em Boa Esperan\u00e7a, um assentamento nos arredores de Luanda. O assentamento se expandiu no come\u00e7o dos anos 90 para abrigar fam\u00edlias que fugiam das lutas nas prov\u00edncias. Hoje vivem ali dezenas de milhares de pessoas, que habitam casas feitas com blocos de cimento e metal, todas dependendo da \u00e1gua levada por caminhos do governo aos tanques comunit\u00e1rios. A m\u00e3e das g\u00eameas, Ingracia Domingos de 47 anos, faz cinco viagens ao tanque por dia, carregando baldes de 20 litros cada vez. Os transporta sobre a cabe\u00e7a de regresso \u00e0 sua pequena casa. Esta m\u00e3e solteira de sete filhos, que tamb\u00e9m cuida de quatro netos, encolhe os ombros e diz: \u201cOs baldes s\u00e3o muito pesados, mas \u00e9 isto que temos de fazer e estou acostumada\u201d.<\/p>\n<p>Cada balde custa 30 kwanzas, o que significa que Ingracia gasta cerca de US$ 2 por dia com \u00e1gua. Isto representa um s\u00e9rio problema para seu or\u00e7amento. A soma chega a US$ 730 no ano, mais do que algumas fam\u00edlias pagam em pa\u00edses com a Gr\u00e3-Bretanha. E a \u00e1gua que Ingracia recolhe n\u00e3o \u00e9 limpa, j\u00e1 que os baldes sujos s\u00e3o submersos diretamente no tanque comunit\u00e1rio diariamente. Mas, a apenas 16 quil\u00f4metros, no centro de Luanda, as coisas s\u00e3o muito diferentes.<\/p>\n<p>Isolados da realidade mais ampla em apartamentos luxuosos, os novos ricos de Angola (e os endinheirados trabalhadores imigrantes que chegaram ao pa\u00eds para participar do auge do petr\u00f3leo e da constru\u00e7\u00e3o da Angola do p\u00f3s-guerra) desfrutam da \u00e1gua filtrada que \u00e9 bombeada diretamente para seus lares. No ultimo dia 12, a empresa petrol\u00edfera estatal Sonangol abriu sua nova sede. Constru\u00edda ao custo superior a US$ 196 milh\u00f5es, \u00e9 uma maravilha da engenharia moderna, com 22 andares, dois gin\u00e1sios, um observat\u00f3rio, um restaurante e, naturalmente, abundante \u00e1gua corrente e limpa em cada um de seus banheiros de m\u00e1rmore.<\/p>\n<p>\u00c9 pouco prov\u00e1vel que Vivia e sua irm\u00e3 Edina alguma vez entrem nesse pr\u00e9dio e desfrutem de seu rico fornecimento de \u00e1gua. Nasceram do lado errado da agora extinta via f\u00e9rrea angolana. Mas, embora seja improv\u00e1vel que Boa Esperan\u00e7a obtenha \u00e1gua corrente em breve, o governo destina enormes somas a programas educacionais comunit\u00e1rios e produtos para tratamento da \u00e1gua. Ap\u00f3s a doen\u00e7a de Vivia, sua fam\u00edlia foi visitada por um agente sanit\u00e1rio treinado pelo Unicef que ensinou como purificar a \u00e1gua com um produto clorado. As garrafas usam tampas de cerveja como medidas \u2013 uma para cinco litros e duas para 20 litros \u2013 e depois se deixa a \u00e1gua repousar por 30 minutos e j\u00e1 est\u00e1 pronta para ser usada.<\/p>\n<p>Agora, explicou In\u00eas Dami\u00e3o, de 21 anos e a filha mais velha de Ingracia, toda a \u00e1gua da fam\u00edlia \u00e9 purificada antes do uso. \u201cN\u00e3o queremos nenhum risco depois que Vivia esteve t\u00e3o doente. Inclusive, limpamos a \u00e1gua com a qual nos lavamos\u201d, disse. Estes agentes sanit\u00e1rios trabalham desde o povoado de Cacuaco, que tem o principal centro de sa\u00fade da \u00e1rea e o hospital de c\u00f3lera, onde Vivia recebeu seu tratamento. No exterior do hospital \u2013 pouco mais que uma s\u00e9rie de barracas de campanha \u2013 um grupo destes agentes sanit\u00e1rios se reuniram para encher garrafas com a solu\u00e7\u00e3o clorada, prontos para uma distribui\u00e7\u00e3o no bairro pr\u00f3ximo de Kokolo.<\/p>\n<p>O diretor de educa\u00e7\u00e3o sanit\u00e1ria da municipalidade, Mantondo C\u00e2ndi Matos, explicou que houve alguns casos de c\u00f3lera em Kikolo, por isso a equipe quis ir at\u00e9 l\u00e1 e assegurar que as pessoas estivessem tratando a \u00e1gua corretamente. Tamb\u00e9m disse que iria \u00e0 maior quantidade de casas poss\u00edvel para treinar as fam\u00edlias e garantir o uso da solu\u00e7\u00e3o clorada. Este produto e os agentes que o distribuem s\u00e3o pagos pela autoridade local de sa\u00fade, evid\u00eancia de que o dinheiro do petr\u00f3leo de Angola finalmente est\u00e1 chegando a quem precisa.<\/p>\n<p>Infelizmente, a mensagem sanit\u00e1ria em si mesmo nem sempre alcan\u00e7a quem deve ouvi-la. \u201c\u00c0s vezes, as pessoas conseguem de n\u00f3s garrafas com o liquido e depois o jogam fora para usar o recipiente para transportar petr\u00f3leo para vender\u201d, disse Matos. \u201cE embora as pessoas n\u00e3o fa\u00e7am isto, \u00e0s vezes s\u00e3o negligentes em limpar a \u00e1gua. Por isso temos de continuar dizendo a elas o quanto isto \u00e9 importante\u201d, acrescentou. A enfermeira Berta Floren\u00e7a, que trabalha com os pacientes enfermos de c\u00f3lera em Cacuaco, acredita que a distribui\u00e7\u00e3o da solu\u00e7\u00e3o para o tratamento da \u00e1gua est\u00e1 conseguindo uma diferen\u00e7a real.<\/p>\n<p>\u201cVemos muito menos casos de c\u00f3lera. H\u00e1 dois anos havia muitas pessoas infectadas, mas agora, por exemplo, temos apenas dois aqui, recebendo tratamento. Parte disto se deve ao fato de estarmos na esta\u00e7\u00e3o seca e haver menos \u00e1gua suja nas ruas, mas penso que mais pessoas est\u00e3o limpando a \u00e1gua em suas casas e que isto est\u00e1 fazendo a diferen\u00e7a\u201d, afirmou Floren\u00e7a. \u201cAs equipes sanit\u00e1rias trabalham muito nesta \u00e1rea, e penso que isto tem um impacto. Creio que Angola finalmente est\u00e1 vencendo a guerra contra o c\u00f3lera\u201d, acrescentou. Certamente, enquanto o pa\u00eds entra em sua temporada seca, pode esperar uma redu\u00e7\u00e3o nos casos de c\u00f3lera, mas continuar\u00e1 at\u00e9 que as chuvas voltem, para ver se o c\u00f3lera realmente pode ser abatido em Angola. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luanda, 19\/06\/2008 &ndash; Vivia Paulino, de 6 anos, \u00e9 uma das milhares de crian\u00e7as v\u00edtimas da c\u00f3lera em Angola. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/06\/africa\/desenvolvimento-angola-licoes-para-limpar-a-agua\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1679,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,12,5,7],"tags":[],"class_list":["post-3991","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa","category-desenvolvimento","category-economia","category-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3991","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1679"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3991"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3991\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3991"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3991"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3991"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}