{"id":4003,"date":"2008-06-24T09:51:03","date_gmt":"2008-06-24T09:51:03","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4003"},"modified":"2008-06-24T09:51:03","modified_gmt":"2008-06-24T09:51:03","slug":"direitos-africa-austral-a-xenofobia-tem-impacto-em-mocambique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/06\/africa\/direitos-africa-austral-a-xenofobia-tem-impacto-em-mocambique\/","title":{"rendered":"DIREITOS-\u00c1FRICA AUSTRAL: A Xenofobia Tem Impacto em Mo\u00e7ambique"},"content":{"rendered":"<p>MAPUTO, 24\/06\/2008 &ndash; H\u00e1 um m\u00eas, Catarina Manungo, de 47 anos, possu\u00eda uma casa com dois quartos em Boksburg, onde vivia com os quatro filhos e uma neta. Algumas semanas mais tarde, Manungo e os dois filhos mais novos est\u00e3o a viver numa tenda no bairro de Matola Garre, em Maputo. <!--more--> Manungo e os filhos fazem parte do contingente de 37.000 mo\u00e7ambicanos que fugiram da viol\u00eancia xen\u00f3foba na \u00c1frica do Sul no \u00faltimo m\u00eas. Dezenas de milhar de outros migrantes provenientes de toda a \u00c1frica est\u00e3o a viver em abrigos superlotados na \u00c1frica do Sul. Funcion\u00e1rios em Maputo afirmam que o n\u00famero de mo\u00e7ambicanos mortos chegou a 23 &#8212; a viol\u00eancia ceifou a vida de mais de 50 pessoas. <\/p>\n<p>Manungo juntou-se ao marido &#8212; mineiro &#8212; na \u00c1frica do Sul em 1982. Economizaram o suficiente para comprarem uma casa antes de ele falecer em 2003. Como muitos mo\u00e7ambicanos na \u00c1frica do Sul, Manungo trabalhava no sector informal, ganhando a vida com dificuldade a vender legumes. Ficou na \u00c1frica do Sul em vez de regressar a Mo\u00e7ambique quando a guerra civil terminou em 1992 porque achava que as condi\u00e7\u00f5es de vida eram melhores e tamb\u00e9m porque n\u00e3o tinha fam\u00edlia naquele pa\u00eds. <\/p>\n<p>Diz que vivia em relativa paz com os vizinhos sul africanos at\u00e9 uma multid\u00e3o saqueadora ter pilhado a sua casa e queimado a maior parte dos seus bens no dia 21 de Maio. Conseguiu juntar os filhos e fugiu. Com a voz embargada pela emo\u00e7\u00e3o, contou a uma reuni\u00e3o convocada em Maputo esta semana para discutir o impacto regional da crise que nunca imaginou que algo como isto pudesse acontecer. <\/p>\n<p>A reuni\u00e3o de 174 representantes de organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil de Mo\u00e7ambique, \u00c1frica do Sul, Botsuana, Z\u00e2mbia e Zimbabu\u00e9 foi organizada pelo Trust da \u00c1frica Austral (SAT) e pela Funda\u00e7\u00e3o para o Desenvolvimento Comunit\u00e1rio de Mo\u00e7ambique (FDC), no dia 10 de Junho, para avaliar a situa\u00e7\u00e3o das pessoas deslocadas pelos ataques e para examinar as causas prim\u00e1rias da viol\u00eancia. <\/p>\n<p>A presidente da FDC, Gra\u00e7a Machel, disse \u00e0 reuni\u00e3o que ouvira relatos directos dif\u00edceis da viol\u00eancia quando visitou os centros estabelecidos na \u00c1frica do Sul pelo Governo e por organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil destinados aos migrantes em fuga. Machel afirmou que a maioria dos deslocados exprimira a sua c\u00f3lera contra os sul africanos, mas acrescentou que o desafio consistia em canalizar essa c\u00f3lera e desespero numa for\u00e7a que &#8220;nos permita dizer nunca mais. Temos de encontrar formas de construir pontes s\u00f3lidas que nos levem aonde est\u00e1vamos antes.&#8221; <\/p>\n<p>As cidades da \u00c1frica do Sul sob press\u00e3o <\/p>\n<p>Machel referiu que uma das principais causas da viol\u00eancia era o afluxo de estrangeiros \u00e0s cidades sul africanas, associado \u00e0 migra\u00e7\u00e3o dos pr\u00f3prios sul africanos das zonas rurais para as cidades; adicione-se os recentes aumentos dos pre\u00e7os dos g\u00e9neros aliment\u00edcios a esta enorme press\u00e3o sobre as infra-estruturas urbanas e chega-se a uma mistura explosiva. &#8220;Os bairros sul africanos mais pobres deixaram de ter a capacidade para absorver mais pessoas. J\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edver viver al\u00ed,&#8221; declarou. <\/p>\n<p>Machel atribu\u00edu a responsabilidade por esta situa\u00e7\u00e3o aos modelos de desenvolvimento adoptados pelos governos. Se no passado a \u00c1frica Austral estava dividida pelo colonialismo e pelo apartheid, disse, hoje est\u00e1 dividida pela pobreza. &#8220;A pobreza extrema desumaniza as pessoas e leva-as \u00e0 loucura,&#8221; apontou. &#8220;O \u00f3dio e a intoler\u00e2ncia foram dirigidos contra as condi\u00e7\u00f5es em que as pessoas vivem. As pessoas manifestaram a sua oposi\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es sub-humanas em que vivem.&#8221; <\/p>\n<p>Jody Kollapen, Director da Comiss\u00e3o Sul Africana para os Direitos Humanos, disse \u00e0 IPS que era essencial que os autores dos hediondos crimes a que se assistiu nas \u00faltimas semanas fossem punidos. Acrescentou que tamb\u00e9m era necess\u00e1rio um debate franco sobre as repara\u00e7\u00f5es. Mas, para que isto tenha \u00eaxito, ser\u00e1 preciso incluir um plano de reintegra\u00e7\u00e3o, com o apoio de assist\u00eancia financeira, que permita \u00e0s v\u00edtimas da xenofobia come\u00e7ar de novo. Mas esse plano ter\u00e1 de levar em linha de conta os sul africanos pobres, de modo a n\u00e3o alimentar o ressentimento naquelas pessoas que t\u00eam necessidade quase igualmente desesperada de aux\u00edlio. <\/p>\n<p>O Presidente mo\u00e7ambicano Armando Guebuza apelou aos seus compatriotas que mostrem toler\u00e2ncia e evitem retaliar contra os sul africanos. Falando aos retornados num centro de tr\u00e2nsito, Guebuza descreveu os ataques xen\u00f3fobos na \u00c1frica do Sul como sendo obra de pessoas que se op\u00f5em \u00e0 integra\u00e7\u00e3o regional, que dever\u00e1 conduzir \u00e0 plena liberdade de circula\u00e7\u00e3o de pessoas e bens em toda a regi\u00e3o da Comunidade de Desenvolvimento da \u00c1frica Austral (SADC ). &#8220;Continuaremos a trilhar o caminho da solidariedade e da unidade&#8221;, afirmou, &#8220;mas n\u00e3o devemos nunca optar pela viol\u00eancia, visto sabermos muito bem qual \u00e9 o pre\u00e7o da viol\u00eancia.&#8221; <\/p>\n<p>Alguns dos retornados disseram a Guebuza que queriam regressar \u00e0 \u00c1frica do Sul logo que as condi\u00e7\u00f5es o permitissem. Mas outros ficaram t\u00e3o abalados que decidiram ficar em Mo\u00e7ambique permanentemente. Embora exista uma calma prec\u00e1ria neste momento na \u00c1frica do Sul, Catarina Manungo prefere afrontar o frio e as duras condi\u00e7\u00f5es invernais que fustigam a sua tenda desabrigada do que arriscar o regresso \u00e0 sua casa em Boksburg. &#8220;\u00c9 melhor dormir numa tenda debaixo duma \u00e1rvore do que regressar sabe-se l\u00e1 para qu\u00ea.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MAPUTO, 24\/06\/2008 &ndash; H\u00e1 um m\u00eas, Catarina Manungo, de 47 anos, possu\u00eda uma casa com dois quartos em Boksburg, onde vivia com os quatro filhos e uma neta. 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