{"id":4004,"date":"2008-06-24T10:01:30","date_gmt":"2008-06-24T10:01:30","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4004"},"modified":"2008-06-24T10:01:30","modified_gmt":"2008-06-24T10:01:30","slug":"saude-africa-do-sul-criancas-no-caminho-da-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/06\/africa\/saude-africa-do-sul-criancas-no-caminho-da-pandemia\/","title":{"rendered":"SA\u00daDE-\u00c1FRICA DO SUL: Crian\u00e7as no Caminho da Pandemia"},"content":{"rendered":"<p>JOANESBURGO, 24\/06\/2008 &ndash; Mal existe um carreiro pela descida \u00edngreme e atrav\u00e9s do denso mato at\u00e9 \u00e0 casa dos Mabuyakhulu. Seria f\u00e1cil passar por al\u00ed sem encontrar Zanele*, de 13 anos, e a irm\u00e3 Andiswa, de oito anos, que vivem sozinhas. <!--more--> O pai morreu h\u00e1 muito tempo e a m\u00e3e est\u00e1 hospitalizada com SIDA. As duas meninas est\u00e3o completamente sozinhas. <\/p>\n<p>A m\u00e3e, Hlengiwe, est\u00e1 no hospital Mosvold em Ingwavuma, situado num local remoto no norte do KwaZulu Natal, na fronteira com a Suazil\u00e2ndia, e n\u00e3o sabe o que ir\u00e1 acontecer \u00e0s filhas quando falecer. <\/p>\n<p>Zanele vai buscar \u00e1gua e limpa a casa enquanto Andiswa constr\u00f3i uma casa de bonecas de pedra. Antes, tinham estado a trabalhar na horta. A casa &#8212; uma estrutura feita de galhos secos entrela\u00e7ados cobertos com uma fina camada de lama &#8212; parece que vai desabar a qualquer momento e, quando chove, a \u00e1gua escorre pela colina abaixo e jorra para dentro da casa atrav\u00e9s de grandes buracos nas paredes. <\/p>\n<p>A m\u00e3e est\u00e1 no hospital h\u00e1 alguns meses mas nenhum dos vizinhos as veio visitar desde que ela se foi embora, diz Zanele. &#8220;Temos saudades dela mas rezamos por ela &#8212; e para que continuemos a estudar,&#8221; acrescenta. T\u00eam medo porque pela noite dentro estranhos d\u00e3o pancadas na porta. &#8220;Trancamos a porta e ficamos aqui dentro,&#8221; diz. <\/p>\n<p>O irm\u00e3o mais velho partiu h\u00e1 alguns meses e n\u00e3o sabem se vai regressar. A m\u00e3e tamb\u00e9m tinha recebido um beb\u00e9 orf\u00e3o, mas os parentes do beb\u00e9 vieram busc\u00e1-lo quando Hlengiwe foi internada. <\/p>\n<p>Hlengiwe diz que n\u00e3o falou com as filhas sobre o facto de ter SIDA e de estar a morrer. &#8220;Mas elas sabem que morte \u00e9 morte e que toda a gente morre,&#8221; declara. &#8220;Preocupo-me com elas porque est\u00e3o no mato sozinhas e n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que cuide delas. Penso naquilo que pode acontecer quando eu j\u00e1 n\u00e3o estiver aqui e custa-me pensar que v\u00e3o ficar sozinhas.&#8221; <\/p>\n<p>A caminho da casa de Zanele e Andiswa, passa-se pela casa de Nhlanhla Maziya, de 16 anos, cuja m\u00e3e faleceu com SIDA alguns meses antes. Passou a tomar conta da irm\u00e3 g\u00e9mea &#8212; que tem um beb\u00e9 de tr\u00eas meses &#8211;, outra irm\u00e3 com 11 anos e os irm\u00e3os g\u00e9meos de quatro anos. <\/p>\n<p>A m\u00e3e esteve doente durante tr\u00eas anos antes de falecer, e Nhlanhla teve de sair da escola para poder ganhar dinheiro para manter a fam\u00edlia. Trabalhou como pastor ganhando $13 por m\u00eas, tendo recentemente conseguido trabalho a limpar estradas por $32 por m\u00eas. Durante anos teve de cozinhar, buscar \u00e1gua e lenha, e cuidar da m\u00e3e acamada &#8212; que tinha muitas dores &#8212; e ainda dos irm\u00e3os mais novos. A irm\u00e3 g\u00e9mea foi procurar trabalho, portanto ele era o \u00fanico a governar a casa. <\/p>\n<p>N\u00e3o sabe quem \u00e9 o pai, mas disseram-lhe que morreu. N\u00e3o tem av\u00f3s nem tias ou tios. Nas \u00faltimas semanas, os g\u00e9meos mais novos t\u00eam estado com outros parentes que vivem mais longe, mas estes parentes disseram-lhe que os fosse buscar porque tinham um n\u00famero excessivo de crian\u00e7as e n\u00e3o tinham recursos para tamb\u00e9m tomar conta dos g\u00e9meos. <\/p>\n<p>Os vizinhos de Nhlanhla n\u00e3o os v\u00eam visitar. Costumavam visitar quando a m\u00e3e estava bem, afirma, mas deixaram de aparecer quando ela ficou doente. &#8220;Custa ficar sozinho com as crian\u00e7as pequenas, choram quando t\u00eam fome,&#8221; diz. &#8220;Os mais pequenos esperam que eu tome conta deles.&#8221; <\/p>\n<p>Encontrei estas crian\u00e7as quando desci s\u00f3 um caminho no remoto distrito de Ingwavuma, nas Montanhas Lebombo. Espalhadas ao longo de outros caminhos encontram-se muitas mais crian\u00e7as na mesma situa\u00e7\u00e3o. No distrito existem mais de 3.000 crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s ou vulner\u00e1veis cujos pais morreram ou est\u00e3o demasiado doentes para cuidarem delas. <\/p>\n<p>O Projecto Cuidar dos \u00d3rf\u00e3os de Ingwavuma foi criado por Ann Dean, m\u00e9dica inglesa, com o intuito de ajudar fam\u00edlias a obterem subs\u00eddios de amparo a crian\u00e7as, subs\u00eddios esses a que \u00e9 muito dif\u00edcil ter acesso nesta zona remota. A cada fam\u00edlia com quem trabalha, o projecto tamb\u00e9m fornece comida para um m\u00eas, mas o objectivo consiste em fazer com que as fam\u00edlias cultivem os seus pr\u00f3prios legumes. O projecto organizou com os chefes locais a disponibiliza\u00e7\u00e3o de terra aos \u00f3rf\u00e3os para que estes possam criar hortas colectivas; tamb\u00e9m proporcionou veda\u00e7\u00f5es, ferramentas e sementes. <\/p>\n<p>Os \u00f3rf\u00e3os re\u00fanem-se em &#8220;clubes de \u00f3rf\u00e3os&#8221; para discutirem assuntos como a preven\u00e7\u00e3o da SIDA, nutri\u00e7\u00e3o e lavras com regos. As reuni\u00f5es tamb\u00e9m lhes d\u00e3o a oportunidade de verem que n\u00e3o est\u00e3o sozinhos e que a sua situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 diferente. O projecto encorajou muitas das escolas na zona a receberem \u00f3rf\u00e3os e crian\u00e7as vulner\u00e1veis, apesar de estas n\u00e3o poderem pagar as propinas. <\/p>\n<p>O projecto tamb\u00e9m tem 18 equipas de prestadores de cuidados de sa\u00fade baseados na comunidade para cuidarem de pessoas com SIDA em suas casas, para que n\u00e3o caia sobre os filhos a responsabilidade de tomarem conta do pai ou da m\u00e3e moribundos. Mas o projecto apenas consegue ajudar metade dos \u00f3rf\u00e3os no distrito. <\/p>\n<p>\u00c0 medida que os pais morrem, muitas das casas que tinham constru\u00eddo est\u00e3o a ruir, especialmente com a chuva torrencial das montanhas. Os conhecimentos de constru\u00e7\u00e3o est\u00e3o a perder-se com o tempo e uma casa segura no terreno da fam\u00edlia \u00e9 uma das necessidades mais urgentes para as fam\u00edlias dirigidas por crian\u00e7as na zona, a fim de evitar que sejam obrigadas a procurar abrigo noutro local e separadas dos irm\u00e3os. \u00c9 tamb\u00e9m crucial se tiverem de proteger o seu direito de posse sobre o terreno. <\/p>\n<p>O projecto de Ingwavuma est\u00e1 assente na convic\u00e7\u00e3o de que \u00e9 melhor que os \u00f3rf\u00e3os fiquem no ambiente familiar, ligados \u00e0s suas redes sociais, e muitas comunidades responderam absorvendo \u00f3rf\u00e3os com resili\u00eancia e compaix\u00e3o. Mas h\u00e1 ind\u00edcios de que as fam\u00edlias est\u00e3o a ter cada vez mais dificuldades e n\u00e3o est\u00e3o a conseguir suprir todas as necessidades das crian\u00e7as. <\/p>\n<p>Os vizinhos em Ingwavuma e noutros locais est\u00e3o a ser encorajados a receber \u00f3rf\u00e3os em suas casas mas, presentemente, o cuidado de \u00f3rf\u00e3os com base na comunidade est\u00e1 a exacerbar a pobreza de muitos agregados familiares. Continua a existir o desafio para se encontrar uma solu\u00e7\u00e3o que condiga com a escala e a longevidade da situa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>*Os nomes dos \u00f3rf\u00e3os e dos seus pais foram alterados a fim de proteger a sua privacidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JOANESBURGO, 24\/06\/2008 &ndash; Mal existe um carreiro pela descida \u00edngreme e atrav\u00e9s do denso mato at\u00e9 \u00e0 casa dos Mabuyakhulu. 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