{"id":4060,"date":"2008-07-11T14:21:15","date_gmt":"2008-07-11T14:21:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4060"},"modified":"2008-07-11T14:21:15","modified_gmt":"2008-07-11T14:21:15","slug":"soja-argentina-este-inferno-tao-rentavel","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/07\/america-latina\/soja-argentina-este-inferno-tao-rentavel\/","title":{"rendered":"SOJA-ARGENTINA: este inferno t\u00e3o rent\u00e1vel"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 11\/07\/2008 &ndash; No momento em que o pre\u00e7o da soja, principal cultivo de exporta\u00e7\u00e3o da Argentina, atinge n\u00edveis recordes nos mercados internacionais, especialistas em agricultura familiar e entidades ambientalistas alertam sobre o grave impacto social e ambiental da monocultura. <!--more--> Com 16,6 milh\u00f5es de hectares, mais do que a metade da terra cultivada hoje no pa\u00eds, a soja, que j\u00e1 \u00e9 cotada em torno dos US$ 600 a tonelada, se expande \u00e0 custa do milho, do trigo, dos c\u00edtricos e da pecu\u00e1ria, entre outras atividades agropecu\u00e1rias. Este avan\u00e7o continuar\u00e1 apesar do pol\u00eamico aumento do imposto sobre exporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O governo aumentou em mar\u00e7o de 35% para 44% o imposto e o declarou flex\u00edvel, isto \u00e9, pode aumentar se os pre\u00e7os subirem. Mas, para torcer a resist\u00eancia empresarial ofereceu em troca generosas reintegra\u00e7\u00f5es a pequenos produtores, que s\u00e3o maioria. Desse modo, em lugar de deter vai incentivar esse cultivo, afirmam os especialistas. \u201cO modelo da soja \u00e9 considerado um \u201cboom e colapso\u201d, como corre com a pesca, a minera\u00e7\u00e3o ou a explora\u00e7\u00e3o intensiva da madeira\u2019, disse Jorge Cappato, da Funda\u00e7\u00e3o Proteger. \u201cS pressiona um ecossistema acima de sua capacidade para obter enormes lucros no curto prazo \u00e0 custa dos recursos\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>\u201cCom a grande rentabilidade assegurada, quem vai querer produzir trigo ou leite?\u201d, perguntou Cappato. \u201cO modelo da soja joga por terra o impacto social, ambiental, sanit\u00e1rio e econ\u00f4mico no m\u00e9dio e curto prazos. Destr\u00f3i a agricultura familiar e empurra os trabalhadores rurais para as cidades\u201d, acrescentou Cappato. A \u00e1rea semeada de soja cresceu 126% em uma d\u00e9cada e, segundo organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais, se propaga em preju\u00edzo n\u00e3o apenas de outros cultivos e outras atividades. Avan\u00e7a sobre florestas nativas com sua rica biodiversidade e \u00e1reas de agricultura familiar e pertencentes a povos origin\u00e1rios.<\/p>\n<p>\u201cNos \u00faltimos nove anos, segundo dados oficiais, foram perdidos 2,5 milh\u00f5es de hectares de florestas nativas, sobretudo no norte do pa\u00eds, e isto, em grande parte, se deve ao desmatamento para plantar soja, um cultivo que vai espremendo as demais atividades\u201d, explicou \u00e0 IPS Hernan Giardini, do Greenpeace Argentina. O Centro de Direitos Humanos e Ambiente disse este m\u00eas que no ano passado se perdeu, em m\u00e9dia, 821 hectares de floresta por dia, apesar da aprova\u00e7\u00e3o de uma lei para a prote\u00e7\u00e3o e explora\u00e7\u00e3o sustent\u00e1vel dessas florestas, teme-se que a vontade de aplic\u00e1-la nas prov\u00edncias fraqueje diante da press\u00e3o dos pre\u00e7os internacionais.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da perda de biodiversidade, os especialistas indicam que o glifosato, o herbicida que \u00e9 combinado com a soja transg\u00eanica para controle total de pragas, contamina as camadas de \u00e1gua. E sua aplica\u00e7\u00e3o a\u00e9rea tem impacto negativo na sa\u00fade de moradores rurais que vivem junto \u00e0s planta\u00e7\u00f5es. Em conversa com a IPS, o engenheiro agr\u00f4nomo Walter Pengue, pesquisador do Grupo de Ecologia da Paisagem e do Meio Ambiente da Universidade de Buenos Aires (estatal), disse que no come\u00e7o dos anos 90 se vendia na Argentina um milh\u00e3o desse herbicida, enquanto no ano passado j\u00e1 passava dos 180 milh\u00f5es de litros.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 um insumo estrat\u00e9gico interessante, como pode ser o gasoil, mas \u00e9 preciso usar com racionalidade\u201d, recomendou. Apesar disso, den\u00fancias do chamado Grupo de Reflex\u00e3o Rural, outra organiza\u00e7\u00e3o ambientalista, disseram que a fumiga\u00e7\u00e3o sem controle causa alergias, intoxica\u00e7\u00f5es, m\u00e1s-forma\u00e7\u00f5es, aborto espont\u00e2neo e c\u00e2ncer. Sobre a planta\u00e7\u00e3o direta, associada ao cultivo de soja transg\u00eanica, Pengue concordou que \u00e9 uma pr\u00e1tica que permitiu diminuir a eros\u00e3o do solo, mas alertou que essa melhora tamb\u00e9m permite chegar a sistemas l\u00e1biles onde o mesmo cultivo resulta ser de risco, por exemplo em prov\u00edncias do norte do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Para este professor de Economia Agr\u00edcola e Ambiente em v\u00e1rias universidades, o \u201csorgo de Alepo\u201d, uma praga que est\u00e1 ficando resistente ao glifosato, j\u00e1 apareceu em seis prov\u00edncias, e as alternativas que se discute para combat\u00ea-lo implicam voltar a pesticidas descartados nos anos 80 por serem muito t\u00f3xicos. \u201cCom este sistema de soja transg\u00eanica fomos ficando sem especialistas em pragas, e os que h\u00e1, est\u00e3o vendidos para empresas (produtoras de sementes modificadas e do herbicida)\u201d, denunciou. Al\u00e9m disso, o solo vai perdendo nutrientes que n\u00e3o recupera na mesma medida nem com grandes quantidades de fertilizantes.<\/p>\n<p>Desde os anos 70, quando se come\u00e7ou a plantar soja, o solo perdeu 11,3 milh\u00f5es de toneladas de nitrog\u00eanio (descontada a reposi\u00e7\u00e3o natural), 2,5 milh\u00f5es de toneladas de f\u00f3sforo, e valores muito altos de outros nutrientes, disse Pengue. Por fim, os analistas agropecu\u00e1rios ressaltam que o modelo tampouco \u00e9 socialmente sustent\u00e1vel. \u201cH\u00e1 uma prosperidade pontual em algumas cidades pelos bons pre\u00e7os. Pequenos produtores arrendam sua terra e conseguem mais dinheiro do que j\u00e1 viram na vida\u201d, acrescentou. Mas essa bonan\u00e7a \u201cn\u00e3o \u00e9 desenvolvimento\u201d, ressaltou Pengue.<\/p>\n<p>\u201cUm pa\u00eds n\u00e3o pode depender exclusivamente dos pre\u00e7os de um produto, tem de apontar para todos os alimentos, como faz o Brasil\u201d, disse Pengue. No campo hoje, disse, a tecnologia desloca pe\u00f5es rurais por uma m\u00e3o de obra mais qualificada, capaz de manejar colheitadeiras e outras maquinas. \u201cS\u00e3o os novos atores do campo e relegaram os outros, que ficaram fora do sistema\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Giardini, do Greenpeace, tamb\u00e9m apontou esta quest\u00e3o. Na prov\u00edncia de Chaco, tradicional produtora de algod\u00e3o, o avan\u00e7o da soja diminuiu de 40% para 20% a popula\u00e7\u00e3o rural. Essas mudan\u00e7as se notam nos sub\u00farbios cheios das capitais provinciais. Segundo dados oficiais, a pobreza na Argentina afeta 20,6% de seus 38 milh\u00f5es de habitantes. Mas na regi\u00e3o nordeste, onde reina a soja, o fen\u00f4meno aumenta para 37% dos quais 13,6% s\u00e3o indigentes, isto \u00e9, n\u00e3o t\u00eam renda para enfrentar gastos com alimenta\u00e7\u00e3o b\u00e1sica.<\/p>\n<p>\u201cCamponeses de prov\u00edncias como Salta ou Santiago del Estero, com uma posse prec\u00e1ria da terra, est\u00e3o amea\u00e7ados pela venda de campos com eles dentro e isso tamb\u00e9m est\u00e1 relacionado com a soja em grande escala\u201d, disse Giardini. \u201cEm algumas localidades pequenas s\u00e3o erguidos hot\u00e9is, cassinos e at\u00e9 cabar\u00e9s, mas n\u00e3o h\u00e1 giro de dinheiro (dos altos lucros concentrados) e muitos desses locais ainda n\u00e3o possuem nem privadas\u201d, acrescentou. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 11\/07\/2008 &ndash; No momento em que o pre\u00e7o da soja, principal cultivo de exporta\u00e7\u00e3o da Argentina, atinge n\u00edveis recordes nos mercados internacionais, especialistas em agricultura familiar e entidades ambientalistas alertam sobre o grave impacto social e ambiental da monocultura. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/07\/america-latina\/soja-argentina-este-inferno-tao-rentavel\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2,5],"tags":[],"class_list":["post-4060","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","category-economia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4060","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4060"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4060\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4060"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4060"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4060"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}