{"id":4084,"date":"2008-07-17T08:51:14","date_gmt":"2008-07-17T08:51:14","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4084"},"modified":"2008-07-17T08:51:14","modified_gmt":"2008-07-17T08:51:14","slug":"agricultura-chade-agricultores-e-pastores-em-conflito-nos-campos-de-refugiados-no-sul-do-pais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/07\/africa\/agricultura-chade-agricultores-e-pastores-em-conflito-nos-campos-de-refugiados-no-sul-do-pais\/","title":{"rendered":"AGRICULTURA-CHADE: Agricultores e Pastores em Conflito nos Campos de Refugiados no Sul do Pa\u00eds"},"content":{"rendered":"<p>GORE, 17\/07\/2008 &ndash; Picture Cr\u00e9dito:David Axe\/IPS Refugiados centro-africanos com uma nova charrua, campo de Gondje, no sul do Chade Clarisse Larlombaye ficou quase arruinada quando uma manada de vacas entrou no seu arrozal uma noite. O min\u00fasculo terreno com 900 metros quadrados, fora do campo de refugiados de Gondje, gerido pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas, na luxuriante zona sul do Chade, representa a \u00fanica fonte de rendimento para Larlombaye e para os outros dois refugiados centro-Africanos com quem ela o partilha. <!--more--> Nos \u00faltimos anos, Larlombaye e os seus co-agricultores conseguiram produzir cada um uma m\u00e9dia de 225 quilogramas de arroz por ano a partir do seu pequeno terreno. Larlombaye declarou que ela e a fam\u00edlia normalmente consomem dois ter\u00e7os; o outro ter\u00e7o \u00e9 vendido por cerca de 75 c\u00eantimos por quilo nos mercados locais. Mas as vacas saqueadoras deixaram-lhe apenas 70 quilos no ano passado, quantidade que mal \u00e9 suficiente para aliment\u00e1-la e \u00e0 sua fam\u00edlia. <\/p>\n<p>O contacto de Larlombaye com a cat\u00e1strofe \u00e9 demasiado comum no sul do Chade, onde 60.000 refugiados centro-africanos competem com os residentes locais, e uns com os outros, por terra. A crescente crise assemelha-se \u00e0s tens\u00f5es que se agravam no Chade oriental entre 250.000 refugiados do Darfur e residentes locais sobre escassos recursos h\u00eddricos e lenha. <\/p>\n<p>O gado faminto que invade os terrenos agr\u00edcolas n\u00e3o \u00e9 um problema novo no Chade. Mas os incidentes est\u00e3o a tornar-se cada vez mais frequentes e contenciosos, especialmente nos campos de refugiados do sul, e ainda em seu redor. <\/p>\n<p>Apesar da tens\u00e3o, as Na\u00e7\u00f5es Unidas apontaram os seus quatro campos no sul do Chade &#8212; que albergam refugiados fugindo da agita\u00e7\u00e3o na Rep\u00fablica Centro-Africana &#8212; como modelos de auto-sufici\u00eancia agr\u00edcola, especialmente quando comparados com os campos a oriente, ainda extremamente dependentes dos donativos alimentares canalizados atrav\u00e9s do Programa Mundial Alimentar das Na\u00e7\u00f5es Unidas. <\/p>\n<p>O car\u00e1cter de relativa abund\u00e2ncia do sul do Chade comparado com o oriente \u00e1rido \u00e9 a chave. &#8220;O sul do Chade n\u00e3o \u00e9 uma zona saariana. \u00c9 um local onde pode haver agricultura,&#8221; disse Serge Male, o representante do Alto Comiss\u00e1rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas para os Refugiados no Chade. <\/p>\n<p>Male afirmou que, nos tr\u00eas anos desde que foram criados os campos no sul, os programas agr\u00edcolas administrados pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas reduziram ao m\u00ednimo o aux\u00edlio alimentar externo. Num campo situado perto da cidade de Gore, 40 quil\u00f3metros a norte da fronteira com a Rep\u00fablica Centro-Africana, cerca de 4.300 agricultores e 1.700 pastores refugiados alimentam cerca de 24.000 outros refugiados. <\/p>\n<p>Muitos dos agricultores e dos pastores at\u00e9 t\u00eam suficiente para vender comida e gado no mercado aberto, chegando a ganhar 25 d\u00f3lares por uma caixa de amendoim de 100 quilos e 150 d\u00f3lares por cabe\u00e7a de gado, num pa\u00eds onde 25 c\u00eantimos compram uma carca\u00e7a de p\u00e3o. <\/p>\n<p>No sul, o aux\u00edlio alimentar \u00e9 reservado para os que est\u00e3o doentes e para os idosos, m\u00e3es solteiras e outras &#8220;popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis.&#8221; <\/p>\n<p>Mas a auto-sufici\u00eancia alimentar dos refugiados centro-africanos \u00e9 amea\u00e7ada pela falta de terra\u2026 e pelas rela\u00e7\u00f5es med\u00edocres entre agricultores e pastores dentro e fora dos campos. O arrozal de Larlombaye n\u00e3o \u00e9 o \u00fanico a ser devastado por manadas no \u00faltimo ano. Para muitos agricultores em Gore, incluindo residentes n\u00e3o refugiados, \u00e9 a queixa n\u00famero um. <\/p>\n<p>Etienne N&#39;Doubatar, presidente n\u00e3o refugiado de uma cooperativa agr\u00edcola de arroz, afirmou que os animais vagueiam \u00e0 noite quando os pastores est\u00e3o a dormir. O que \u00e9 que N&#39;Doubatar e os outros agricultores podem fazer? Encolheu os bra\u00e7os quando lhe colocaram essa pergunta. &#8220;Apanh\u00e1-los e libert\u00e1-los,&#8221; disse. Com faltas de materiais e de ferramentas de toda a esp\u00e9cie, \u00e9 pouco pr\u00e1tico construir veda\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Os pastores t\u00eam as suas pr\u00f3prias queixas. Dizem que as suas manadas t\u00eam fome. Com o crescente aumento de refugiados e animais &#8212; o Chade aceitou mais 10.000 refugiados centro-africanos este ano &#8211;, os pastores t\u00eam agora de andar 15 quil\u00f3metros com os seus animais para encontrar forragem. E n\u00e3o existem quaisquer recintos nos campos ou em seu redor, novamente devido \u00e0 falta de ferramentas e animais &#8212; e de espa\u00e7o. <\/p>\n<p>Pior ainda, de acordo com Ali Moussa, pastor refugiado, s\u00e3o as acusa\u00e7\u00f5es. Diz que quando h\u00e1 uma disputa sobre animais soltos, devia ser resolvida como se fosse &#8220;entre amigos.&#8221; Mas quando os agricultores descobrem que as suas colheitas foram mastigadas de um dia para o outro at\u00e9 pouco ficar, t\u00eam tend\u00eancia para fazerem &#8220;acusa\u00e7\u00f5es falsas,&#8221; apontando os pastores mais pr\u00f3ximos, independentemente das provas. <\/p>\n<p>As Na\u00e7\u00f5es Unidas encorajam a media\u00e7\u00e3o. &#8220;H\u00e1 mecanismos locais &#8211; comit\u00e9s mistos compostos por locais e refugiados &#8211; para reconciliar os problemas existentes com as manadas,&#8221; asseverou Boubacar Amadou, t\u00e9cnico agr\u00edcola que trabalha para o ACNUR em Gore. Referiu que os comit\u00e9s patrocinados pelas Na\u00e7\u00f5es Unidas conseguiram evitar a viol\u00eancia motivada pelos animais saqueadores. <\/p>\n<p>Mas os comit\u00e9s n\u00e3o podem resolver as causas subjacentes do conflito. N\u00e3o h\u00e1 terra aproveit\u00e1vel suficiente. Boubacar sublinhou o termo &#8221; aproveit\u00e1vel &#8220;. O sul do Chade n\u00e3o parece sobrepovoado, mas as densas florestas fazem com que uma grande parte das terras n\u00e3o seja apropriada para a agricultura, incluindo a cria\u00e7\u00e3o de animais. <\/p>\n<p>Uma solu\u00e7\u00e3o consiste em trazer tractores para ajudar a desbravar mais terra. Mas com os agricultores locais a endividarem-se para conseguirem adquirir simples charruas puxadas por animais, que podem custar mil d\u00f3lares localmente, ningu\u00e9m tem os meios necess\u00e1rios para adquirir tractores. <\/p>\n<p>O grupo de assist\u00eancia Africare, que oferece conhecimentos t\u00e9cnicos agr\u00edcolas aos escrit\u00f3rios locais das Na\u00e7\u00f5es Unidas, tem tractores que oferece a t\u00edtulo de empr\u00e9stimo &#8211; mas n\u00e3o h\u00e1 tractores suficientes para todos. No dia 8 de Julho, N&#39;Doubatar, o agricultor de arroz, conseguiu obter os servi\u00e7os de um tractor para revolver um velho arrozal, mas noutros s\u00edtios na zona, os agricultores preparavam os campos manualmente, nalguns casos esperando em filas de dez pessoas de lado a lado para utilizar um n\u00famero insuficiente de enxadas. <\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o do agricultor refugiado Kondjom Joker \u00e9 mais simples mas, em \u00faltima an\u00e1lise, menos sustent\u00e1vel. Disse que, mesmo depois de um longo dia de trabalho, n\u00e3o dorme durante a noite, passeando pelo seu campo de 18 hectares plantado recentemente, vigiando para ter a certeza que as vacas n\u00e3o entram nele.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>GORE, 17\/07\/2008 &ndash; Picture Cr\u00e9dito:David Axe\/IPS Refugiados centro-africanos com uma nova charrua, campo de Gondje, no sul do Chade Clarisse Larlombaye ficou quase arruinada quando uma manada de vacas entrou no seu arrozal uma noite. 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