{"id":4167,"date":"2008-08-08T17:42:59","date_gmt":"2008-08-08T17:42:59","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4167"},"modified":"2008-08-08T17:42:59","modified_gmt":"2008-08-08T17:42:59","slug":"aids-entre-a-aldeia-global-e-o-gueto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/08\/mundo\/aids-entre-a-aldeia-global-e-o-gueto\/","title":{"rendered":"AIDS: Entre a Aldeia Global e o gueto"},"content":{"rendered":"<p>M\u00e9xico, 08\/08\/2008 &ndash; Tratar com as pessoas transg\u00eanero pode ser confuso. Mesmo os organizadores da XVII Confer\u00eancia Internacional sobre Aids que acontece no M\u00e9xico n\u00e3o conseguiram oferecer ao terceiro g\u00eanero banheiros separados. <!--more--> \u201cFui ao banheiro masculino e me disseram que deveria usar o feminino, onde me indicaram para voltar ao dos homens\u201d, disse indignada \u00e0 IPS Agniva Lahiri, de 28 anos, na Aldeia Global, o local mais animado de todo o Centro Banamex, onde acontece a reuni\u00e3o que come\u00e7ou no domingo e termina hoje.<\/p>\n<p>Lahiri afirmou que sua \u201cidentidade pol\u00edtica \u00e9 transg\u00eanero\u201d e \u201cn\u00e3o gay\u201d. Ela \u00e9 um homem que mant\u00e9m sexo com homens e tem um companheiro masculino, mas assume um papel passivo na rela\u00e7\u00e3o. Entretanto, se nega a fazer o trabalho dom\u00e9stico em sua casa em Mumbai (\u00cdndia). Lahiri admitiu que as coisas est\u00e3o mudando nas conferencias internacionais. Na \u00faltima d\u00e9cada, esteve em cinco. \u201cA visibilidade dos transg\u00eaneros \u00e9 muito melhor aqui do que nas anteriores\u201d, insistiu.<\/p>\n<p>Susan L\u00f3pez, da norte-americana Desiree Alliance, elogiou a confer\u00eancia de maneira semelhante. \u201cAs trabalhadoras sexuais s\u00e3o muito vis\u00edveis e sem d\u00favida h\u00e1 muitas outras sess\u00f5es em torno de seus temas do que no passado\u201d, afirmou. Ex-stripper, L\u00f3pez se descreve como trabalhadora sexual e diz que e admira \u201cterrivelmente\u201d sua atividade. De fato, pela primeira vez na hist\u00f3ria da confer\u00eancia sobre Aids (s\u00edndrome de defici\u00eancia imunol\u00f3gica adquirida), uma sess\u00e3o plen\u00e1ria teve uma trabalhadora sexual como oradora.<\/p>\n<p>\u201cEste \u00e9 um grande \u00eaxito\u201d, disse a argentina Elena Reynaga, da RedeTraSex (Rede de Trabalhadoras Sexuais da Am\u00e9rica Latina e do Caribe), dando um comovente depoimento pelo pleno reconhecimento do trabalho sexual e dos direitos de quem o exerce. Reynaga afirmou que n\u00e3o se pode ignorar a contribui\u00e7\u00e3o das trabalhadoras sexuais na resposta cada vez mais efetiva na pandemia do HIV. Citou o exemplo de Kolkata, onde um forte movimento dessas trabalhadoras da \u00e1rea de prost\u00edbulos de Songachi ajudou a aumentar o uso de camisinhas de apenas 1,1% em 1992 para 90% em 1998. \u201cElas lutaram por sua sa\u00fade defendendo que o trabalho sexual fosse reconhecido como legitimo e defendendo os direitos humanos das trabalhadoras sexuais\u201d, disse Reynaga.<\/p>\n<p>Esta ativista afirmou que se concede financiamento sem compreender as \u201cnecessidades reais\u201d de quem realiza trabalhos sexuais. \u201cEm muitas partes do mundo, os trabalhadores sexuais nem mesmo t\u00eam acesso a elementos b\u00e1sicos como suficientes camisinhas masculinas e femininas\u201d, ressaltou. Tamb\u00e9m recordou as \u00e9pocas em que os financiamentos eram dados sob condi\u00e7\u00f5es. \u201cComo voc\u00eas pensam que as trabalhadoras sexuais podem usar ABC (sigla em ingl\u00eas de abstin\u00eancia, fidelidade e camisinha) como uma ferramenta efetiva para prevenir o HIV? \u00c9 uma afronta ao nosso trabalho. A \u00fanica letra que nos \u00e9 \u00fatil e a C\u201d, insistiu.<\/p>\n<p>Mas, h\u00e1 pessoas com Janaki Vidanapathirana, uma m\u00e9dica comunit\u00e1ria do Sri Lanka, que est\u00e3o desconcertadas pelo fato de se dar tanta aten\u00e7\u00e3o ao trabalho sexual. \u201cNingu\u00e9m em seu f\u00f3rum intimo quer ingressar nessa atividade. Falam disto como se estivesse tudo em\u201d, disse. Embora acredite que as trabalhadoras sexuais deveriam receber tratamento e cuidados e que se deveria criar programas preventivos para elas, j\u00e1 que \u00e9 seu direito, se pergunta por que \u201cas pessoas aqui n\u00e3o s\u00e3o capazes de encontrar a ra\u00edz para o fato de essas pessoas estarem vendendo sexo, que \u00e9 pobreza, e apenas pobreza\u201d.<\/p>\n<p>Para Vidanapathirana, os especialistas falam sobre mudan\u00e7a de comportamento. Mas, a \u201ca\u00e7\u00e3o universal agora\u201d, que \u00e9 o tema da confer\u00eancia, tamb\u00e9m deveria incluir um desenvolvimento do comportamento. Tem de falar a quem ainda n\u00e3o se dedica \u00e0 profiss\u00e3o de vender sexo, mas que, devido \u00e0 pobreza extrema, \u00e9 vulner\u00e1vel a entrar nessa atividade. \u201cPor que n\u00e3o falam mais em educa\u00e7\u00e3o, assuntos relativos ao sustente e no poder econ\u00f4mico, para que elas abandonem este trabalho\u201d, perguntou. Porem, a m\u00e9dica n\u00e3o conheceu L\u00f3pez, que enfatiza que as pessoas devem entender que \u201calgumas de n\u00f3s escolhemos isto como profiss\u00e3o por livre vontade\u201d.<\/p>\n<p>Bhanu Buduk, de 23 anos, \u00e9 dalit (intoc\u00e1vel, uma das castas mais baixas da \u00cdndia) e transg\u00eanero, e ganha a vida dan\u00e7ando em casamentos. \u201cN\u00e3o podemos encontrar trabalho, por isso fazemos isto. N\u00e3o s\u00f3 nos pagam mal como, tamb\u00e9m, enfrentamos um ass\u00e9dio extremo, da pol\u00edcia, de nossos clientes e, inclusive, \u00e0s vezes, de nossos amos. Quando nos violam e denunciamos, a pol\u00edcia nos pergunta como podemos ser violados se somos homens\u201d, contou. Lahiri trabalha com este grupo para \u201creduzir a viol\u00eancia\u201d em seu trabalho. \u201cEstas bailarinas podem oferecer seus servi\u00e7os, \u00e0s vezes, a uma d\u00fazia de homens em uma \u00fanica noite, e se n\u00e3o podem ter um desempenho suficientemente bom apanham e sofrem ataques s\u00e1dicos\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Algo semelhante acontece nos Estados Unidos, onde, segundo L\u00f3pez, quando uma prostituta \u00e9 encontrada morta os arquivos policiais s\u00e3o apontados com as letras NHI (siga em ingl\u00eas para nenhum humano envolvido). \u201cSomos consideradas lixo, menos que seres humanos\u201d, lamentou. \u201cNo ano passado, uma stripper de Irvine, no Estado da California, foi violada mas perdeu a causa na justi\u00e7a porque o juiz lhe disse que ela era abertamente sexual e havia obtido o que queria\u201d, contou L\u00f3pez. Em outro caso, uma prostituta foi violentada por integrantes de um bando e a ju\u00edza do caso disse que se tratou de \u201croubo em servi\u00e7o e n\u00e3o viola\u00e7\u00e3o\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>L\u00f3pez considera a Aldeia Global como um \u201cgueto onde todos n\u00f3s estamos reclu\u00eddos\u201d, e acrescentou: \u201cPagam \u00e0s companhias farmac\u00eauticas para nos manter fora dali\u201d. De todo modo, \u00e9 o lugar onde os especialistas e l\u00edderes que lutam por um mundo sem aids podem encontrar respostas para os problemas sobre os quais debatem dentro de salas fechadas e ac\u00e9ticas. Na Aldeia Global se pode encontrar exemplos gr\u00e1ficos de pr\u00e1ticas sexuais entre homens e maneiras de colocar a camisinha, seja a masculina ou a feminina. H\u00e1 mulheres fazendo a \u201cdan\u00e7a do cano\u201d ou \u201cbarra americana\u201d e preservativos por todo lado, em uma oferta de cores e formas. Aqui, poucos t\u00eam tempo para ouvir o que os especialistas t\u00eam a dizer ou para o constante interc\u00e2mbio sobre a epidemia e sua preven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Um desfile de modas organizado pela Davida, uma organiza\u00e7\u00e3o brasileira de trabalhadoras sexuais foi um enorme sucesso e reuniu multid\u00f5es. Redes, peles, couros, beijos ao ar, poses sugestivas e camisinhas estourando. Tudo fez parte do espet\u00e1culo. \u201cQueremos mostrar ao mundo que as trabalhadoras sexuais n\u00e3o s\u00e3o v\u00edtimas e queremos nossos direitos. Tenho um rosto e n\u00e3o estou envergonhada de meu trabalho\u201d, disse Gabriella. \u201cQuero mais respeito das pessoas\u201d, afirmou Carmen, de 40 anos, que foi trabalhadora sexual comercial durante os \u00faltimos 24 anos. \u201cGrandioso! Espetacular!\u201d, foi como Palo Gomex, uma drag queen de 44 anos e HIV positivo, qualificou o show do qual tamb\u00e9m participou.<\/p>\n<p>\u201cTomara que Peter Piot, diretor-executivo do Programa Conjunto das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre HIV\/Aids (Onusida), passasse um tempo conosco\u201d, disse Tara Abbe Sawyer, uma transexual dos Estados Unidos. Sawyer tamb\u00e9m se mostrou descontente com a curta apari\u00e7\u00e3o do secret\u00e1rio-geral da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, Ban Ki-moon, na abertura oficial da Aldeia Global. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e9xico, 08\/08\/2008 &ndash; Tratar com as pessoas transg\u00eanero pode ser confuso. 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