{"id":4191,"date":"2008-08-14T15:51:04","date_gmt":"2008-08-14T15:51:04","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4191"},"modified":"2008-08-14T15:51:04","modified_gmt":"2008-08-14T15:51:04","slug":"indigenas-brasil-raposa-serra-do-sol-marca-o-caminho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/08\/america-latina\/indigenas-brasil-raposa-serra-do-sol-marca-o-caminho\/","title":{"rendered":"IND\u00cdGENAS-BRASIL: Raposa Serra do Sol marca o caminho"},"content":{"rendered":"<p>Boa Vista, Roraima, 14\/08\/2008 &ndash; A iminente decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal sobre a demarca\u00e7\u00e3o da reserva ind\u00edgena Raposa Serra do Sol mant\u00e9m a tens\u00e3o em todas as etnias abor\u00edgines do Pa\u00eds.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_4191\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/IMG_3_baja_achicada.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4191\" class=\"size-medium wp-image-4191\" title=\"Familia macux\u00ed, comunidad Do Barro - Gentileza CIP\u00d3\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/IMG_3_baja_achicada.jpg\" alt=\"Familia macux\u00ed, comunidad Do Barro - Gentileza CIP\u00d3\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4191\" class=\"wp-caption-text\">Familia macux\u00ed, comunidad Do Barro - Gentileza CIP\u00d3<\/p><\/div>  Raposa Serra do Sol est\u00e1 situada na Amaz\u00f4nia, no nordeste do Estado de Roraima, extremo norte do Brasil. \u00c9 uma terra de \u00e1gua em abund\u00e2ncia, de 1,7 milh\u00e3o de hectares, cuja demarca\u00e7\u00e3o foi homologada pelo governo do Presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva em 2005, depois de quase duas d\u00e9cadas de questionamentos judiciais, com base nos princ\u00edpios da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. O STF deve aprovar ou rejeitar essa demarca\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Na \u00e1rea vivem mais de 19 mil ind\u00edgenas dos povos macuxi, wapixana, taurepang, patamona e ingarik\u00f3. Desde 1992, multiplicaram-se as invas\u00f5es de latifundi\u00e1rios do arroz. Em apenas 13 anos, as planta\u00e7\u00f5es cresceram sete vezes, at\u00e9 chegarem a 14 mil hectares. Em mar\u00e7o, o Presidente Lula enviou a Policia Federal para expulsar um grupo desses agricultores que resistem em deixar a terra. Os produtores responderam com viol\u00eancia. Dez ind\u00edgenas foram feridos. \u201cCome\u00e7aram a atirar contra n\u00f3s, jogaram bombas e fomos retrocedendo. Fui ferido na perna, nas costas e na cabe\u00e7a\u201d, nos conta um jovem macuxi.<\/p>\n<p>Santinha da Silva tamb\u00e9m estava l\u00e1 com seus tr\u00eas filhos no dia da agress\u00e3o. \u201cN\u00e3o vou dizer que n\u00e3o sinto medo. Tenho medo, mas vou enfrent\u00e1-los. Se eles querem me matar, que me tirem a vida, mas deixando a terra para meus filhos\u201d. Duas semanas depois de iniciada a opera\u00e7\u00e3o policial o STF n\u00e3o s\u00f3 decidiu suspend\u00ea-la como admitiu um recurso que, se prosperar, permitir\u00e1 aos produtores de arroz continuar ocupando esta terra ind\u00edgena, criando um perigoso precedente. \u201cEstar\u00e3o em risco n\u00e3o apenas Raposa Serra do Sol, mas todas as reservas ind\u00edgenas do Pa\u00eds\u201d, afirma Rosane Lacerda, professora de direito na Universidade de Bras\u00edlia.<\/p>\n<p>Nenhum produtor pagou as multas por deteriora\u00e7\u00e3o ambiental e tampouco tem algu\u00e9m preso pelas agress\u00f5es aos ind\u00edgenas. \u201cJ\u00e1 foram presas algumas dessas pessoas, mas por per\u00edodos muito curtos, pois disp\u00f5em de recursos e muita influ\u00eancia pol\u00edtica que conseguem transformar os processos em intermin\u00e1veis disputas jur\u00eddicas\u201d, afirma Paulo Santille, coordenador da Identifica\u00e7\u00e3o e Delimita\u00e7\u00e3o das Terras Ind\u00edgenas, da Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio (Funai). Para Lacerda, pode-se falar de \u201cuma guerra declarada contra os povos ind\u00edgenas por parte dos setores que t\u00eam interesses econ\u00f4micos em suas terras\u201d.<\/p>\n<p>Durante cinco s\u00e9culos os povos ind\u00edgenas de Raposa Serra do Sol sofreram reiteradas invas\u00f5es: conquistadores portugueses, pecuaristas, garimpeiros e latifundiarios. Todos os usaram como pe\u00f5es. Os pecuaristas chegaram a marcar os nativos como gado. Orlando Perez da Silva, tuxaua (chefe ind\u00edgena) da aldeia de Uiramut\u00e1, confirma com seu relato de vida a tr\u00e1gica hist\u00f3ria. \u201cOs n\u00e3o-\u00edndios chegaram e invadiram nossas terras. Come\u00e7aram a nos contratar em suas fazendas. Quando um \u00edndio reclamava do sal\u00e1rio, lhe davam uma surra e se livravam dele\u201d, recorda. Orlando passou seis anos como escravo. \u201cViv\u00edamos totalmente escravizados. Para comprar uma rede t\u00ednhamos de trabalhar um m\u00eas inteiro\u201d, conta.<\/p>\n<p>Uma das entidades que se dedica a coordenar a luta dos ind\u00edgenas \u00e9 a Comiss\u00e3o de Organiza\u00e7\u00f5es Ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia Brasileira, presidida pelo sater\u00e9-mau\u00e9 Gecinaldo Barbosa, para quem o problema transcende as fronteiras do Brasil. \u201cA Amaz\u00f4nia \u00e9 do Brasil, mas o problema \u00e9 do mundo inteiro, o problema \u00e9 de quem defende a vida\u201d, disse. A press\u00e3o do agroneg\u00f3cio sobre as terras dos \u00edndios aumentou a partir da \u201crevolu\u00e7\u00e3o dos biocombust\u00edveis\u201d e da necessidade de produzir para alimentar a cabana pecu\u00e1ria mundial, afirma.<\/p>\n<p>Beto Ricardo, coordenador do n\u00e3o-governamental Instituto S\u00f3cioambiental do Brasil (ISA), considera que o governo Lula \u00e9 \u201cum governo desenvolvimentista\u201d imerso em um clima de \u201ccerta euforia econ\u00f4mica\u201d e \u201ca press\u00e3o sobre os ind\u00edgenas \u00e9 m\u00faltipla. N\u00e3o apenas por parte do agroneg\u00f3cio, mas tamb\u00e9m por obras p\u00fablicas como estradas, hidrel\u00e9tricas, diques\u201d. Para Nilva Bara\u00fana, superintendente do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) em Roraima, Raposa Serra do Sol constitui \u201ca \u00faltima fronteira agr\u00edcola\u201d ambicionada pelo agroneg\u00f3cio. Aqui \u201cteremos uma modifica\u00e7\u00e3o importante da paisagem, dos recursos h\u00eddricos, da fauna e da flora devido \u00e0s planta\u00e7\u00f5es de arroz. Os agrot\u00f3xicos utilizados pelos latifundi\u00e1rios est\u00e3o contaminando os rios e a fauna aqu\u00e1tica\u201d, afirma Bara\u00fana.<\/p>\n<p>Gercimar Moraes Malheiro, macuxi e coordenador em Boa Vista, capital de Roraima, do Projeto de Prote\u00e7\u00e3o das Popula\u00e7\u00f5es e Terras Ind\u00edgenas da Amaz\u00f4nia, confirma o dano ambiental: \u201cTodo o veneno, todos os res\u00edduos da pulveriza\u00e7\u00e3o do arroz, v\u00e3o para os rios\u201d. Apesar das agress\u00f5es e dos relat\u00f3rios do Ibama sobre o impacto ambiental, a imensa maioria da popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o-ind\u00edgena de Roraima ap\u00f3ia a perman\u00eancia dos produtores de arroz, pois \u201ctrazem riqueza e emprego\u201d. Muitas pessoas ouvidas em Boa Vista demonstravam o temor de uma disparada do pre\u00e7o do arroz ou de uma crise econ\u00f4mica se os agricultores forem expulsos.<\/p>\n<p>Para a superintendente do Ibama, o bem-estar oferecido pelas planta\u00e7\u00f5es de arroz \u00e0 popula\u00e7\u00e3o \u00e9 m\u00ednimo, j\u00e1 que \u201ca maioria do trabalho \u00e9 mecanizada\u201d, n\u00e3o cria postos de trabalho, n\u00e3o paga impostos e os benef\u00edcios se concentram em poucas m\u00e3os. Para o coordenador do ISA, \u201cas terras ind\u00edgenas n\u00e3o sobreviver\u00e3o se n\u00e3o houver um reordenamento ecol\u00f3gico e econ\u00f4mico do pa\u00eds e da Amaz\u00f4nia\u201d. Como met\u00e1fora do que ocorre, afirma que \u201co Brasil \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds com nome de uma \u00e1rvore extinta\u201d, em refer\u00eancia ao pau Brasil (Caesalpinia echinata), de cuja madeira era extra\u00edda uma tinta vermelha muito apreciada e que est\u00e1 em risco de extin\u00e7\u00e3o, embora ainda subsistam florestas e \u00e1rvores dispersas.<\/p>\n<p>No Pa\u00eds h\u00e1 605 terras ind\u00edgenas habitadas por 215 povos, que somam cerca de 600 mil pessoas. Na cosmogonia ind\u00edgena n\u00e3o h\u00e1 fronteiras, burocracia, nem posse da terra a nenhuma pessoa. Lutam por defender seu modelo de desenvolvimento em um momento em que a natureza \u201cest\u00e1 se rebelando contra o mundo\u201d, como nos disseram. Os habitantes origin\u00e1rios de Raposa Serra do Sol desenvolveram uma economia de autoabastecimento. Cultivam milho, feij\u00e3o, banana, mandioca, possuem 35 mil cabe\u00e7as de gado e combinam a \u201cmedicina dos brancos\u201d com a tradicional, fundamentada nas plantas com poderes de cura. \u201cCom os povos ind\u00edgenas vamos defender a natureza porque temos essa concep\u00e7\u00e3o da vida, essa cosmogonia do mundo para o futuro da humanidade\u201d, assegura Barbosa.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental espanhola Povos Irm\u00e3os e a empresa de audiovisual Companhia de Informa\u00e7\u00e3o e Projetos Originais (Cip\u00f3) lan\u00e7ou uma campanha sobre a vulnerabilidade dos povos ind\u00edgenas. A iniciativa inclui o envio de mensagem de apoio aos ind\u00edgenas e de cartas pedindo a expuls\u00e3o dos produtores de arroz ao Supremo Tribunal Federal, atrav\u00e9s do site da ong, http:\/\/www.puebloshermanos.org.es. Em setembro, apresentar\u00e3o um document\u00e1rio rodado em Raposa Serra do Sol. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p>* A autora \u00e9 respons\u00e1vel de conte\u00fado e comunica\u00e7\u00e3o da Cip\u00f3.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Boa Vista, Roraima, 14\/08\/2008 &ndash; A iminente decis\u00e3o do Supremo Tribunal Federal sobre a demarca\u00e7\u00e3o da reserva ind\u00edgena Raposa Serra do Sol mant\u00e9m a tens\u00e3o em todas as etnias abor\u00edgines do Pa\u00eds. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/08\/america-latina\/indigenas-brasil-raposa-serra-do-sol-marca-o-caminho\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1771,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6],"tags":[21],"class_list":["post-4191","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1771"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4191"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4191\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}