{"id":4198,"date":"2008-08-19T14:23:46","date_gmt":"2008-08-19T14:23:46","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4198"},"modified":"2008-08-19T14:23:46","modified_gmt":"2008-08-19T14:23:46","slug":"grandes-nomes-decrescimo-ou-desconstrucao-da-economia-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/08\/mundo\/grandes-nomes-decrescimo-ou-desconstrucao-da-economia-parte-i\/","title":{"rendered":"GRANDES NOMES: Decr\u00e9scimo ou desconstru\u00e7\u00e3o da economia \u2013 Parte I"},"content":{"rendered":"<p>M\u00c9XICO, 19\/08\/2008 &ndash; (Tierram\u00e9rica) A aposta no decr\u00e9scimo \u00e9 uma tomada de consci\u00eancia dos limites do crescimento e da necessidade de desconstruir a economia, afirma neste artigo exclusivo o mexicano Enrique Leff.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_4198\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/384_Leff.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4198\" class=\"size-medium wp-image-4198\" title=\" - Fabricio Vanden Broeck\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/384_Leff.jpg\" alt=\" - Fabricio Vanden Broeck\" width=\"200\" height=\"188\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4198\" class=\"wp-caption-text\"> - Fabricio Vanden Broeck<\/p><\/div>  Os anos 60 convulsionaram a id\u00e9ia do progresso. Depois da explos\u00e3o populacional, soou o alarme ecol\u00f3gico. Foram questionados os pilares ideol\u00f3gicos da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental: a supremacia e o direito do homem de explorar a natureza e o mito do crescimento econ\u00f4mico ilimitado. Pela primeira vez, desde que o Ocidente abriu a hist\u00f3ria da modernidade, guiada pelos ideais da liberdade e do iluminismo da raz\u00e3o, questionou-se o princ\u00edpio do progresso impulsionado pela pot\u00eancia da ci\u00eancia e da tecnologia, que logo se converteram nas mais servis e serv\u00edveis ferramentas do ac\u00famulo de capital.<\/p>\n<p>A bioeconomia e a economia ecol\u00f3gica propuseram a rela\u00e7\u00e3o entre o processo econ\u00f4mico e a degrada\u00e7\u00e3o da natureza, o imperativo de internalizar os custos ecol\u00f3gicos e a necessidade de agregar contrapesos distributivos aos mecanismos do mercado. Em 1972, um estudo do Clube de Roma apontou, pela primeira vez, \u201cOs limites do crescimento\u201d. Dali surgiram as propostas do \u201ccrescimento zero\u201d de uma \u201ceconomia de estado estacion\u00e1ria\u201d.<\/p>\n<p>Quatro d\u00e9cadas depois, a destrui\u00e7\u00e3o das florestas, a degrada\u00e7\u00e3o ambiental e a polui\u00e7\u00e3o aumentaram de forma vertiginosa, gerando o aquecimento do planeta pelas emiss\u00f5es de gases causadores do efeito estufa e pelas inelut\u00e1veis leis da termodin\u00e2mica, que desencadearam a morte entr\u00f3pica do planeta. Os ant\u00eddotos produzidos pelo pensamento cr\u00edtico e a inventiva tecnol\u00f3gica resultaram ser pouco diger\u00edveis pelo sistema econ\u00f4mico. O desenvolvimento sustent\u00e1vel se mostra pouco duradouro, porque n\u00e3o \u00e9 ecologicamente sustent\u00e1vel!<\/p>\n<p>Hoje, diante do fracasso dos esfor\u00e7os para deter o aquecimento global (o Protocolo de Kyoto havia estabelecido a necessidade de reduzir gases causadores do efeito estufa ao n\u00edvel de 1990), surge novamente a consci\u00eancia dos limites do crescimento e a chamada ao decrescimento. Embora Lewis Mumford, Ivan Illich e Ernst Schumacher voltem a ser evocados por sua cr\u00edtica \u00e0 tecnologia e seu elogio \u201cdo pequeno\u201d, o decrescimento se apresenta diante do fracasso do prop\u00f3sito de desmaterializar a produ\u00e7\u00e3o, o projeto impulsionado pelo Instituto Wuppertal que pretendia reduzir em quatro, e at\u00e9 dez vezes, os insumos da natureza por unidade de produto.<\/p>\n<p>Ressurge, assim, o fato indiscut\u00edvel de que o processo econ\u00f4mico globalizado \u00e9 insustent\u00e1vel. A ecoefici\u00eancia n\u00e3o resolve o problema de um mundo de recursos finitos em perp\u00e9tuo crescimento, porque a degrada\u00e7\u00e3o entr\u00f3pica \u00e9 irrevers\u00edvel. A aposta pelo decrescimento n\u00e3o \u00e9 apenas uma moral cr\u00edtica e reativa, uma resist\u00eancia a um poder opressivo, destrutivo, desigual e injusto; n\u00e3o \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o de cren\u00e7as, gostos e estilos alternativos de vida; n\u00e3o \u00e9 um simples decrescimento, mas uma tomada de consci\u00eancia sobre um processo que se instaurou no cora\u00e7\u00e3o do mundo moderno, que atenta contra a vida do planeta e a qualidade da vida humana.<\/p>\n<p>O chamado para decrescer n\u00e3o deve ser um simples recurso ret\u00f3rico para dar v\u00f4o \u00e0 critica do modelo econ\u00f4mico imperante. Deter o crescimento dos pa\u00edses mais opulentos, mas continuar estimulando o dos mais pobres ou menos \u201cdesenvolvidos\u201d \u00e9 uma sa\u00edda falsa. Os gigantes da \u00c1sia despertaram para a modernidade; apenas China e \u00cdndia est\u00e3o alcan\u00e7ando e ultrapassando as emiss\u00f5es de gases causadores do efeito estufa produzidas pelos Estados Unidos. A eles se somariam os efeitos conjugados dos pa\u00edses de menor grau de desenvolvimento levados pela racionalidade econ\u00f4mica hegem\u00f4nica.<\/p>\n<p>Decrescer n\u00e3o implica apenas em desacelerar ou se desvincular da economia. N\u00e3o equivale a desmaterializar a produ\u00e7\u00e3o, porque isso n\u00e3o evitaria que a economia em crescimento continuasse consumindo e transformando natureza at\u00e9 ultrapassar os limites de sustentabilidade. A abstin\u00eancia e a frugalidade de alguns consumidores respons\u00e1veis n\u00e3o desativam a mania de crescimento instaurada na raiz e na alma da racionalidade econ\u00f4mica, que cont\u00e9m um impulso ao ac\u00famulo do capital, \u00e0s economias de escala, \u00e0 aglomera\u00e7\u00e3o urbana, \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o do mercado e \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o da riqueza.<\/p>\n<p>Saltar do trem andando n\u00e3o conduz diretamente a desandar o caminho. Para decrescer n\u00e3o basta baixar da roda da fortuna da economia. As excresc\u00eancia do crescimento, o pus que brota da pele gangrenada da Terra, ao ser drenada a seiva da vida pela esclerose do conhecimento e a reclus\u00e3o do pensamento, n\u00e3o se retroalimenta no corpo enfermo do planeta. N\u00e3o se trata de reabsorver seus dejetos, mas de extirpar o tumor maligno. A cirrose que corr\u00f3i a economia n\u00e3o ser\u00e1 curada com a inje\u00e7\u00e3o de mais \u00e1lcool na m\u00e1quina de combust\u00e3o dos carros, das ind\u00fastrias e dos lares. Al\u00e9m da rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 mercantiliza\u00e7\u00e3o da natureza, \u00e9 preciso desconstruir a economia realmente existente e construir outra economia, baseada em uma racionalidade ambiental.<\/p>\n<p>* O autor \u00e9 ambientalista, escritor e ex-coordenador da Rede de Forma\u00e7\u00e3o Ambiental para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe do Pnuma. Direitos exclusivos do Terram\u00e9rica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00c9XICO, 19\/08\/2008 &ndash; (Tierram\u00e9rica) A aposta no decr\u00e9scimo \u00e9 uma tomada de consci\u00eancia dos limites do crescimento e da necessidade de desconstruir a economia, afirma neste artigo exclusivo o mexicano Enrique Leff. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/08\/mundo\/grandes-nomes-decrescimo-ou-desconstrucao-da-economia-parte-i\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,5,4],"tags":[],"class_list":["post-4198","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-economia","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4198","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4198"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4198\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4198"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4198"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4198"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}