{"id":421,"date":"2005-03-18T00:00:00","date_gmt":"2005-03-18T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=421"},"modified":"2005-03-18T00:00:00","modified_gmt":"2005-03-18T00:00:00","slug":"educao-pobreza-gua-e-globalizao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/03\/mundo\/educao-pobreza-gua-e-globalizao\/","title":{"rendered":"Educa&ccedil;&atilde;o: Pobreza, &aacute;gua e globaliza&ccedil;&atilde;o"},"content":{"rendered":"<p>Lovaina, 18\/03\/2005 &ndash; No dia 22 de mar&ccedil;o, Dia Mundial da &Aacute;gua, as Na&ccedil;&otilde;es Unidas proclamar&atilde;o a segunda D&eacute;cada Internacional para a a&ccedil;&atilde;o (2005-2015) sob o lema &quot;A &aacute;gua, fonte de vida&quot;. A primeira d&eacute;cada havia estabelecido a meta de garantir &aacute;gua pot&aacute;vel para todos os habitantes do planeta at&eacute; 2000. Como &eacute; not&oacute;rio, esse objetivo esteve muito longe de ser alcan&ccedil;ado. O fracasso foi causado principalmente pela atitude das classes dirigentes dos pa&iacute;ses ricos, que n&atilde;o colocaram em pr&aacute;tica as medidas que eles mesmos haviam considerado indispens&aacute;veis, como a concess&atilde;o de 0,70% de seu produto interno bruto &agrave; ajuda para os pa&iacute;ses subdesenvolvidos. Concederam somente entre 1975 e 2000 uma m&eacute;dia conjunta de 0,23%, menos de um ter&ccedil;o do prometido.<br \/> <!--more--> <br \/> Em conseq&uuml;&ecirc;ncia, no ano 2000 existia 1,5 bilh&atilde;o de pessoas sem acesso &agrave; &aacute;gua pot&aacute;vel e 2,4 bilh&otilde;es sem servi&ccedil;os necess&aacute;rios, que eram a causa da morte di&aacute;ria de 15 a 30 mil pessoas devido a enfermidades originadas por tais car&ecirc;ncias. Em n&uacute;mero de v&iacute;timas, isto equivale entre 26 e 52 tsunamis por ano. Diante de semelhante desastre humanit&aacute;rio, os chefes de Estado de todos os pa&iacute;ses do mundo se reuniram em Nova York em 2000 para aprovar os Objetivos de Desenvolvimento para o Mil&ecirc;nio, que eles parecem ter considerado &quot;ambiciosos&quot;. Pelo contr&aacute;rio, implicam o abandono do objetivo precedente de erradicar a pobreza e assim o acesso universal &aacute; &aacute;gua.<\/p>\n<p> Os chefes de Estado de todo o mundo consideraram que o &uacute;nico grande objetivo realista &eacute; o de reduzir &agrave; metade at&eacute; 2015 a pobreza extrema e portanto a quantidade de pessoas sem acesso &agrave; &aacute;gua pot&aacute;vel e a servi&ccedil;os sanit&aacute;rios. Concordaram que em 2015 haver&aacute; mais de tr&ecirc;s bilh&otilde;es de pobres e entre 1,5 bilh&atilde;o e dois bilh&otilde;es sem &aacute;gua pot&aacute;vel, apesar de a riqueza mundial ter mais do que duplicado no per&iacute;odo 1975-2999 e em 2015 estar 1,5 vezes maior. Como se explica o abandono do objetivo de erradicar a pobreza, substituindo por reduzi-la &agrave; metade, que representa uma verdadeira abdica&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica e &eacute;tica por parte da comunidade internacional no alvorecer do s&eacute;culo XXI?<\/p>\n<p> H&aacute; um quarto de s&eacute;culo a globaliza&ccedil;&atilde;o da economia e a sociedade, julgada pelos dirigentes como um fen&ocirc;meno &quot;natural&quot;, &quot;inevit&aacute;vel&quot;, se baseia em quatro princ&iacute;pios. Em primeiro lugar, o &quot;princ&iacute;pio de mercado&quot;, segundo o \tqual a sociedade se reduz a um conjunto de transa&ccedil;&otilde;es entre indiv&iacute;duos nos mercados, cada vez mais globalizados, por meio dos quais se obt&eacute;m bens e servi&ccedil;os essenciais para a vida e o bem-estar, com o menor custo e maior benef&iacute;cio. O segundo, o &quot;princ&iacute;pio da empresa&quot;, afirma que a institui&ccedil;&atilde;o mais apta para organizar as multinacionais interindividuais nos diferentes n&iacute;veis territoriais dos mercados, de tal maneira que os indiv&iacute;duos consigam a otimiza&ccedil;&atilde;o mais racional de sua utilidade individual, &eacute; a empresa privada. O Estado faz obstru&ccedil;&atilde;o aos mercados, suas regulamenta&ccedil;&otilde;es impedem a otimiza&ccedil;&atilde;o dos recursos materiais e imateriais do planeta.<\/p>\n<p> O terceiro &eacute; o &quot;princ&iacute;pio do capital&quot;. Afirma-se que o par&acirc;metro de defini&ccedil;&atilde;o do valor nas sociedades contempor&acirc;neas deriva do capital, particularmente do financeiro. Tudo o que contribui com a cria&ccedil;&atilde;o da mais-valia tem, para o capital financeiro, um valor n&atilde;o apenas econ&ocirc;mico, mas tamb&eacute;m social e pol&iacute;tico. Por essa raz&atilde;o, as for&ccedil;as dominantes podem impor um direito da propriedade intelectual estendida at&eacute; aos algoritmos, os s&iacute;mbolos e os seres viventes, inclu&iacute;dos os humanos. O quarto &eacute; o &quot;princ&iacute;pio da ci&ecirc;ncia e da tecnologia&quot;, para o qual a globaliza&ccedil;&atilde;o atual &eacute; herdeira dos conhecimentos e das tecnologias que deram nascimento a um universo global da comunica&ccedil;&atilde;o virtual, do instante, dos bens e servi&ccedil;os mundiais.<\/p>\n<p> Neste contexto, a criatividade, as identidades e a sobreviv&ecirc;ncia de todos n&oacute;s passam pela competi&ccedil;&atilde;o nos mercados, cuja fun&ccedil;&atilde;o seria, precisamente, a de selecionar os &quot;melhores&quot; produtos e servi&ccedil;os, os lugares mais rent&aacute;veis para os investimentos, a produ&ccedil;&atilde;o e o consumo, permitindo que se imponham os mais &quot;competitivos&quot;. De acordo com estes princ&iacute;pios, a pobreza n&atilde;o pode ser erradicada. E, em todo caso, jamais poderia s&ecirc;-lo por vontade p&uacute;blica, mas apenas atrav&eacute;s dos mecanismos do mercado. Dessa maneira:<\/p>\n<p> &#8211; A &aacute;gua &eacute;, como toda outra &quot;coisa&quot;, uma mercadoria, integra a esfera comercial e deve submeter-se &agrave;s regras do mercado;<\/p>\n<p> &#8211; &Eacute; fun&ccedil;&atilde;o da empresa, preferencialmente multinacional, garantir o emprego &oacute;timo dos recursos h&iacute;dricos do planeta no contexto dos mercados internacionais de servi&ccedil;os h&iacute;dricos. Por isso, &eacute; necess&aacute;rio promover a liberaliza&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua gra&ccedil;as &agrave;s negocia&ccedil;&otilde;es no &acirc;mbito do Acordo Geral sobre Com&eacute;rcio e Servi&ccedil;os da Organiza&ccedil;&atilde;o Mundial do Com&eacute;rcio;<\/p>\n<p> &#8211; A justa remunera&ccedil;&atilde;o do capital deve inspirar a organiza&ccedil;&atilde;o da engenharia financeira destinada a financiar os custos do fornecimento da &aacute;gua e dos servi&ccedil;os h&iacute;dricos. Segundo o relat&oacute;rio do grupo de especialistas dirigido por Michel Camdessus, ex-chefe do Fundo Monet&aacute;rio Internacional, solicitado pelo Conselho Mundial da &Aacute;gua, o financiamento deste recurso passa pelo consumidor, de acordo com o princ&iacute;pio &quot;quem consome, paga&quot; &#8211; que desconhece o direito &agrave; &aacute;gua &#8211; e pelo mercado de capitais. Al&eacute;m disso, se os pa&iacute;ses pobres desejam confiar a gest&atilde;o da distribui&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua a capitais privados, devem garantir o direito &agrave; propriedade privada, &agrave; certeza da rentabilidade e &agrave; solv&ecirc;ncia dos consumidores locais;<\/p>\n<p> &#8211; Por &uacute;ltimo, deve-se acostumar ao fato de que a &aacute;gua doce ser&aacute; cada vez mais escassa e que haver&aacute; problemas graves de abastecimento particularmente na &Aacute;frica, Estados Unidos, China, &Iacute;ndia, que podem desembocar em conflitos. A tecnologia, sustentada pelo mercado, tem a aptid&atilde;o para resolver todos os problemas: dessaliniza&ccedil;&atilde;o da &aacute;gua marinha, biotecnologias para o cultivo de plantas que consomem pouca &aacute;gua, aumentar a produtividade da &aacute;gua e da terra, &aacute;gua virtual, grandes projetos transnacionais e continentais para o aproveitamento das contas h&iacute;dricas.<\/p>\n<p> A nova D&eacute;cada Internacional assumiu o objetivo de reduzir pela metade as pessoas privadas de &aacute;gua, alinhando-se, assim, na corrente da globaliza&ccedil;&atilde;o. A quest&atilde;o fundamental &eacute; a seguinte: o direito &agrave; vida de milhares de milh&otilde;es de pessoas pode ser contraposto &agrave; aceita&ccedil;&atilde;o do desastre humano atual durante os pr&oacute;ximos 10 anos? Creio que a maioria dos europeus, africanos, asi&aacute;ticos e americanos (inclu&iacute;dos os do Norte), n&atilde;o est&aacute; de acordo com que seja assim. E algu&eacute;m perguntou sua opini&atilde;o? (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p> (*) Riccardo Petrella, professor da Universidade Cat&oacute;lica de Lovaina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lovaina, 18\/03\/2005 &ndash; No dia 22 de mar&ccedil;o, Dia Mundial da &Aacute;gua, as Na&ccedil;&otilde;es Unidas proclamar&atilde;o a segunda D&eacute;cada Internacional para a a&ccedil;&atilde;o (2005-2015) sob o lema &quot;A &aacute;gua, fonte de vida&quot;. A primeira d&eacute;cada havia estabelecido a meta de garantir &aacute;gua pot&aacute;vel para todos os habitantes do planeta at&eacute; 2000. Como &eacute; not&oacute;rio, esse objetivo esteve muito longe de ser alcan&ccedil;ado. O fracasso foi causado principalmente pela atitude das classes dirigentes dos pa&iacute;ses ricos, que n&atilde;o colocaram em pr&aacute;tica as medidas que eles mesmos haviam considerado indispens&aacute;veis, como a concess&atilde;o de 0,70% de seu produto interno bruto &agrave; ajuda para os pa&iacute;ses subdesenvolvidos. Concederam somente entre 1975 e 2000 uma m&eacute;dia conjunta de 0,23%, menos de um ter&ccedil;o do prometido.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/03\/mundo\/educao-pobreza-gua-e-globalizao\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":355,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-421","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/421","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/355"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=421"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/421\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=421"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=421"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=421"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}