{"id":4230,"date":"2008-08-26T15:06:33","date_gmt":"2008-08-26T15:06:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4230"},"modified":"2008-08-26T15:06:33","modified_gmt":"2008-08-26T15:06:33","slug":"grandes-nomes-do-decrescimento-a-desconstrucao-da-economia-parte-ii","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/08\/mundo\/grandes-nomes-do-decrescimento-a-desconstrucao-da-economia-parte-ii\/","title":{"rendered":"GRANDES NOMES: Do decrescimento \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o da economia \u2013 Parte II"},"content":{"rendered":"<p>M\u00c9XICO, 26\/08\/2008 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- Desconstruir a economia seria uma tarefa mais complexa do que desmantelar um arsenal b\u00e9lico, derrubar o Muro de Berlim, demolir uma cidade ou refundar uma ind\u00fastria, afirma neste artigo o mexicano Enrique Leff.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_4230\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/385_Leff_22.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4230\" class=\"size-medium wp-image-4230\" title=\" - Fabricio Vanden Broeck\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/385_Leff_22.jpg\" alt=\" - Fabricio Vanden Broeck\" width=\"200\" height=\"198\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4230\" class=\"wp-caption-text\"> - Fabricio Vanden Broeck<\/p><\/div>  A transi\u00e7\u00e3o da modernidade para a p\u00f3s-modernidade significou passar da anticultura, inspirada na dial\u00e9tica, para o mundo \u201cp\u00f3s\u201d (p\u00f3s-estruturalismo, p\u00f3s-capitalismo), que anunciava o advento de algo novo. Mas esse algo novo ainda n\u00e3o tem nome, porque sabemos nomear somente o que existe e n\u00e3o o que est\u00e1 por vir. A filosofia p\u00f3s-moderna inaugurou a \u00e9poca \u201cdes\u201d, aberta pelo chamado \u00e0 desconstru\u00e7\u00e3o. A solu\u00e7\u00e3o para o crescimento n\u00e3o \u00e9 o decrescimento, mas a desconstru\u00e7\u00e3o da economia e a transi\u00e7\u00e3o para uma nova racionalidade que construa a sustentabilidade.<\/p>\n<p>Desconstruir a economia insustent\u00e1vel significa questionar o pensamento, a ci\u00eancia, a tecnologia e as institui\u00e7\u00f5es que instauraram a jaula da racionalidade da modernidade. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel manter uma economia em crescimento que se alimenta de uma natureza finita, sobretudo uma economia baseada no uso do petr\u00f3leo e do carv\u00e3o, transformados no metabolismo industrial do transporte e da economia familiar em di\u00f3xido de carbono, o principal g\u00e1s causador do efeito estufa e do aquecimento do planeta que hoje amea\u00e7a a vida humana.<\/p>\n<p>O problema da economia do petr\u00f3leo n\u00e3o \u00e9 apenas, nem fundamentalmente, o de sua gest\u00e3o como bem p\u00fablico ou privado. N\u00e3o \u00e9 o do aumento da oferta, da explora\u00e7\u00e3o de reservas e das jazidas dos fundos marinhos para baratear novamente o pre\u00e7o da gasolina, que passou dos US$ 4 o gal\u00e3o. O fim da era do petr\u00f3leo n\u00e3o resulta de sua escassez crescente, mas de sua abund\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 capacidade de absor\u00e7\u00e3o e dilui\u00e7\u00e3o na natureza, do limite de sua transmuta\u00e7\u00e3o e disposi\u00e7\u00e3o para a atmosfera em forma de di\u00f3xido de carbono.<\/p>\n<p>A busca do equil\u00edbrio da economia por uma superprodu\u00e7\u00e3o de hidrocarbonos para continuar alimentando a m\u00e1quina industrial (e agr\u00edcola pela produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis) coloca em risco a sustentabilidade da vida no planeta, e da pr\u00f3pria economia. A \u201cdespetroliza\u00e7\u00e3o\u201d da economia \u00e9 um imperativo diante dos riscos catastr\u00f3ficos da mudan\u00e7a clim\u00e1tica, se for ultrapassado o limite das 450-550 partes por milh\u00e3o de gases causadores do efeito estufa na atmosfera, como prev\u00eaem o Informe Sterne e o Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre a Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica. E isso apresenta um desafio \u00e0s economias que dependem de seus recursos petroleiros (Brasil, M\u00e9xico, Venezuela, em nossa Am\u00e9rica Latina), n\u00e3o apenas por seu consumo interno, mas por sua contribui\u00e7\u00e3o \u00e0 mudan\u00e7a clim\u00e1tica global.<\/p>\n<p>A racionalidade econ\u00f4mica se implanta sobre a Terra e se alimenta de sua seiva. \u00c9 o monstro que engole a natureza para expuls\u00e1-la por suas goelas, que exalam baforadas de fuma\u00e7a na atmosfera, contaminando o meio ambiente e aquecendo o planeta. O decrescimento da economia n\u00e3o implica apenas a desconstru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de seus modelos cient\u00edficos, mas de sua institucionaliza\u00e7\u00e3o social e da subjetiva\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios que tentam legitimar a racionalidade econ\u00f4mica como a forma inelut\u00e1vel do mundo. Desconstruir a economia seria, assim, uma tarefa mais complexa do que desmantelar um arsenal b\u00e9lico, derrubar o Muro de Berlim, demolir uma cidade ou refundar uma ind\u00fastria.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a obsolesc\u00eancia de uma m\u00e1quina ou de um equipamento, nem a reciclagem de seus materiais para renovar o processo econ\u00f4mico. A destrui\u00e7\u00e3o criativa do capital, que preconizava Joseph Schumpeter, n\u00e3o apontava para o decrescimento, mas para o mecanismo interno da economia que leva a \u201cprogramar\u201d a obsolesc\u00eancia e a destrui\u00e7\u00e3o do capital fixo, para reestimular o crescimento insuflado pela inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica como fole da reprodu\u00e7\u00e3o ampliada do capital.<\/p>\n<p>O crescimento econ\u00f4mico arrasta consigo o problema de sua medi\u00e7\u00e3o. O emblem\u00e1tico produto interno bruto, com o qual se avalia o sucesso ou fracasso das economias nacionais, n\u00e3o mede suas externalidades negativas. Mas o problema fundamental n\u00e3o se resolve com uma escala m\u00faltipla e um m\u00e9todo multicriterial de medida, como as \u201ccontas verdes\u201d, o c\u00e1lculo dos custos ocultos do crescimento, um \u201c\u00edndice de desenvolvimento humano\u201d ou um \u201cindicador de progresso genu\u00edno\u201d.<\/p>\n<p>Trata-se de desativar o dispositivo interno, o c\u00f3digo gen\u00e9tico da economia, e faz\u00ea-lo sem desencadear uma recess\u00e3o de tal magnitude que termine acentuando a pobreza e a destrui\u00e7\u00e3o da natureza. A descoloniza\u00e7\u00e3o do imagin\u00e1rio que sustenta a economia dominante n\u00e3o ter\u00e1 de surgir do consumo respons\u00e1vel ou de uma pedagogia das cat\u00e1strofes socioambientais, como pode sugerir Serge Latouche ao p\u00f4r na mira a aposta pelo decrescimento.<\/p>\n<p>A racionalidade econ\u00f4mica se institucionalizou e se incorporou \u00e0 nossa forma de ser no mundo: o \u201chomo economicus\u201d. Trata-se, portanto, de uma mudan\u00e7a de pele, de transformar em v\u00f4o um m\u00edssil antes que exploda no corpo minado do mundo. A economia real n\u00e3o pode ser desconstru\u00edda mediante uma rea\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica e um movimento social revolucion\u00e1rio. N\u00e3o basta model\u00e1-la incorporando outros valores e imperativos sociais para criar uma economia social e ecologicamente sustent\u00e1vel. \u00c9 necess\u00e1rio forjar Outra economia, baseada nos potenciais da natureza e na criatividade das culturas, nos princ\u00edpios e valores de uma racionalidade ambiental.<\/p>\n<p>* O autor \u00e9 ambientalista, escritor e ex-coordenador da Rede de Forma\u00e7\u00e3o Ambiental para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe do Pnuma. Direitos exclusivos Terram\u00e9rica.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00c9XICO, 26\/08\/2008 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- Desconstruir a economia seria uma tarefa mais complexa do que desmantelar um arsenal b\u00e9lico, derrubar o Muro de Berlim, demolir uma cidade ou refundar uma ind\u00fastria, afirma neste artigo o mexicano Enrique Leff. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/08\/mundo\/grandes-nomes-do-decrescimento-a-desconstrucao-da-economia-parte-ii\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,5,4],"tags":[],"class_list":["post-4230","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-economia","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4230","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4230"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4230\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4230"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4230"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4230"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}