{"id":4389,"date":"2008-10-13T19:56:24","date_gmt":"2008-10-13T19:56:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4389"},"modified":"2008-10-13T19:56:24","modified_gmt":"2008-10-13T19:56:24","slug":"financas-america-do-sul-a-crise-entra-por-qualquer-fresta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/10\/america-latina\/financas-america-do-sul-a-crise-entra-por-qualquer-fresta\/","title":{"rendered":"FINAN\u00c7AS-AM\u00c9RICA DO SUL: A crise entra por qualquer fresta"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 13\/10\/2008 &ndash; A crise financeira iniciada nos Estados Unidos evidencia, mais do que qualquer outra anterior, a dist\u00e2ncia que separa o mundo do capital do cidad\u00e3o comum, especialmente nos pa\u00edses em desenvolvimento. <!--more--> O grosso da popula\u00e7\u00e3o nas na\u00e7\u00f5es sul-americanas ainda n\u00e3o sente os efeitos do p\u00e2nico que tem lugar entre os que possuem investimentos nas bolsas de valores, em grandes empresas ou no exterior. Mas as not\u00edcias assustam a todos, pela magnitude dos dados e pelas experi\u00eancias j\u00e1 vividas.<\/p>\n<p>No Brasil, o real teve desvaloriza\u00e7\u00e3o de 31,6% desde agosto e a Bolsa de Valores de S\u00e3o Paulo acumula queda de 20% em outubro e de 44,2% desde o come\u00e7o deste ano. Segundo os especialistas, algum dia tais \u00edndices se converter\u00e3o em infla\u00e7\u00e3o, desemprego e agravamento de chagas sociais. Assim, se repete no Brasil a enorme volatilidade de crises anteriores. Parte da queda da bolsa se deveu ao fato de empresas industriais tamb\u00e9m especularem com outros valores, especialmente no mercado cambi\u00e1rio.<\/p>\n<p>Tr\u00eas grandes companhias industriais divulgaram perdas de R$ 4,9 bilh\u00f5es por terem apostado na continuidade da supervaloriza\u00e7\u00e3o do real. Teme-se que outras empresas tenham sua solidez desmentida por essas opera\u00e7\u00f5es danosas. A aventura se deveu em boa parte \u00e0 pol\u00edtica cambiaria do Banco Central, que favoreceu uma forte valoriza\u00e7\u00e3o do real, o que reduziu a competitividade da ind\u00fastria brasileira.<\/p>\n<p>De quase R$ 4 por d\u00f3lar em meados de 2002, quando o iminente triunfo eleitoral do Presidente Luis In\u00e1cio Lula da Silva atemorizou o mercado, a taxa de c\u00e2mbio passou para R$ 1,56 por d\u00f3lar em 1\u00ba de agosto passado. Desde ent\u00e3o, a moeda brasileira se desvalorizou aceleradamente e hoje o d\u00f3lar \u00e9 cotado em torno dos R$ 2,31. Essa volatilidade se deve \u00e0 \u201cexcessiva valoriza\u00e7\u00e3o anterior\u201d, por causa da eleva\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m excessiva das taxas de juros fixadas pelo Banco Central, que atraiu muito capital especulativo ao pa\u00eds, explicou \u00e0 IPS Carlos Thadeu de Freitas, ex-diretor do BC.<\/p>\n<p>A virada cambiaria dos \u00faltimos meses, uma \u201ccorre\u00e7\u00e3o\u201d, segundo muitos economistas, restabelece a competitividade da ind\u00fastria, mas aumentar\u00e1 a infla\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em 6,25 ao ano, quase no limite de toler\u00e2ncia da pol\u00edtica de metas a respeito adotada pelo governo. Teme-se que, por isso, o Banco Central continue aumentando sua taxa de juros, atualmente em 13,75%, a mais alta do mundo, acentuando a desacelera\u00e7\u00e3o da economia. De todo modo, os especialistas ainda prev\u00eaem um crescimento do produto interno bruto de 3% a 3,5% em 2009, contra 5% este ano.<\/p>\n<p>O agravamento da crise em todo o mundo industrializado fez com que o Presidente Lula reconhecesse, finalmente, que o Brasil sofrer\u00e1 conseq\u00fc\u00eancias, depois de desdenh\u00e1-las inicialmente e afirmar que o Pa\u00eds seria pouco afetado. Seu colega venezuelano, Hugo Ch\u00e1vez, tamb\u00e9m admitiu, depois de festejar a decad\u00eancia do capitalismo que tampouco \u201csomos imunes\u201d. A contamina\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses latino-americanos pode ocorrer de varias maneiras. M\u00e9xico, Caribe e Am\u00e9rica Central s\u00e3o obviamente vulner\u00e1veis pela grande depend\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o aos Estados Unidos, seja pelo com\u00e9rcio ou pelas remessas de dinheiro enviadas por seus emigrantes, que diminuir\u00e3o rapidamente.<\/p>\n<p>Na Venezuela, o calcanhar de Aquiles \u00e9 o petr\u00f3leo. \u201cSe o pre\u00e7o do \u00f3leo n\u00e3o se estabilizar em torno de um m\u00ednimo de US$ 80 o barril este pa\u00eds ver\u00e1 uma severa redu\u00e7\u00e3o entrada de divisas\u201d, afirmou \u00e0 IPS o economista Pedro Palma, diretor da consultoria Metroecon\u00f4mica. Por\u00e9m, o impacto da crise na vida cotidiana desse pa\u00eds demorar\u00e1 mais do que em outros lugares pela forte presen\u00e7a estatal na economia sob gest\u00e3o que prioriza aspectos pol\u00edticos. Quando ocorrer, no m\u00e9dio prazo, ser\u00e1 grave porque as exporta\u00e7\u00f5es de petr\u00f3leo, que somam US$ 44 bilh\u00f5es por ano, equivalem a 20% do produto interno bruto.<\/p>\n<p>A menor disponibilidade de divisas for\u00e7ar\u00e1 \u201cempresas, poupadores e consumidores a se voltarem ao d\u00f3lar paralelo, hoje mais caro, com impacto na infla\u00e7\u00e3o\u201d, previu Palma. Atualmente, a infla\u00e7\u00e3o na Venezuela chega a 30% ao ano, a mais alta da Am\u00e9rica, e no c\u00e2mbio paralelo o d\u00f3lar custa cerca de cinco bol\u00edvares por unidade, enquanto a cota\u00e7\u00e3o oficial \u00e9 de 2,15 bol\u00edvares. As dificuldades venezuelanas, al\u00e9m disso, podem ampliar os efeitos da crise em cerca de 15 na\u00e7\u00f5es que recebem sua ajuda petroleira, que chega a 200 mil barris\/dia oferecidos a pre\u00e7os favorecidos. Se a crise ganhar as dimens\u00f5es anunciadas, \u201cmuitos dos planos de coopera\u00e7\u00e3o vir\u00e3o abaixo\u201d, alertou \u00c1lvaro Silva, ex-ministro venezuelano da energia .<\/p>\n<p>Quanto \u00e0 Argentina, os impactos em cadeia s\u00e3o os que mais preocupam os empres\u00e1rios locais. Esse pa\u00eds ser\u00e1 duramente afetado pela poss\u00edvel desacelera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica do Brasil, seu principal s\u00f3cio no com\u00e9rcio e no Mercosul, que compartilham com Paraguai, Uruguai e Venezuela em processo de ades\u00e3o plena. A temida \u201cinvas\u00e3o\u201d de produtos industriais brasileiros, que j\u00e1 causou conflitos no passado, pode se repetir diante de uma deprecia\u00e7\u00e3o do real maior do que a do peso argentino.<\/p>\n<p>Isso agravar\u00e1 o descompasso no com\u00e9rcio bilateral, que j\u00e1 \u00e9 crescente. Em janeiro-agosto deste ano o Brasil teve super\u00e1vit de US$ 3,570 bilh\u00f5es, 40% a mais do que em igual per\u00edodo de 2007. Mas, \u201ca Argentina n\u00e3o aparece como um pa\u00eds diretamente afetado\u201d pela crise financeira mundial, j\u00e1 que sua \u201ceconomia real\u201d n\u00e3o mostra nenhum dado adverso, disse Mariano Lamoth, da abceb.com, uma consultoria econ\u00f4mica de Buenos Aires \u201cO Brasil desvalorizou sua moeda, mas n\u00e3o deixar\u00e1 de comprar produtos argentinos nem deixar\u00e1 de crescer de um dia para outro\u201d, afirmou Lamoth \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>Entretanto, este economista admitiu \u201cm\u00e1s expectativas e uma grande incerteza\u201d, com aumento das taxas de juros e desvaloriza\u00e7\u00e3o do peso, encarecimento do cr\u00e9dito, que reduzir\u00e1 o consumo e as exporta\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, manteve sua convic\u00e7\u00e3o de que n\u00e3o existe o \u201crisco de uma corrida\u201d (retirada em massa de dep\u00f3sitos) aos bancos nem a temida \u201cinvas\u00e3o de importados\u201d. Lamoth reconheceu que, no campo das id\u00e9ias, esta crise \u201crompeu toda l\u00f3gica\u201d e que \u201ca engenharia financeira falhou e a ortodoxia n\u00e3o est\u00e1 apresentando solu\u00e7\u00f5es. Existe uma grande desorienta\u00e7\u00e3o\u201d, concluiu. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 13\/10\/2008 &ndash; A crise financeira iniciada nos Estados Unidos evidencia, mais do que qualquer outra anterior, a dist\u00e2ncia que separa o mundo do capital do cidad\u00e3o comum, especialmente nos pa\u00edses em desenvolvimento. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/10\/america-latina\/financas-america-do-sul-a-crise-entra-por-qualquer-fresta\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,5,11],"tags":[14],"class_list":["post-4389","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","category-politica","tag-america-do-norte"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4389","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4389"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4389\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4389"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4389"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4389"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}