{"id":4416,"date":"2008-10-21T14:34:13","date_gmt":"2008-10-21T14:34:13","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4416"},"modified":"2008-10-21T14:34:13","modified_gmt":"2008-10-21T14:34:13","slug":"reportagem-aquicultura-entre-o-entusiasmo-e-a-cautela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/10\/america-latina\/reportagem-aquicultura-entre-o-entusiasmo-e-a-cautela\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: Aq\u00fcicultura entre o entusiasmo e a cautela"},"content":{"rendered":"<p>BUENOS AIRES, 21\/10\/2008 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- O cultivo industrial de peixes e moluscos cresce mais de 8% ao ano no mundo. Por\u00e9m, nem todos os pa\u00edses com extenso litoral podem aproveitar este boom que n\u00e3o est\u00e1 isento de riscos ecol\u00f3gicos.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_4416\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/393_FNL-1405981_1_2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4416\" class=\"size-medium wp-image-4416\" title=\"Fazendas mar\u00edtimas de peixes. - Photo Stock\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/393_FNL-1405981_1_2.jpg\" alt=\"Fazendas mar\u00edtimas de peixes. - Photo Stock\" width=\"200\" height=\"133\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4416\" class=\"wp-caption-text\">Fazendas mar\u00edtimas de peixes. - Photo Stock<\/p><\/div>  A aq\u00fcicultura avan\u00e7a na Am\u00e9rica Latina, alimentada por um mercado mundial que enfrenta a estagna\u00e7\u00e3o da pesca. Entretanto, h\u00e1 os que alertam para as limita\u00e7\u00f5es da cria\u00e7\u00e3o industrial de esp\u00e9cies aqu\u00e1ticas e de seus riscos ambientais e sociais. Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Agricultura e a Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO), 45% do pescado consumido no mundo prov\u00eam de criadouros. Hoje s\u00e3o 48 milh\u00f5es de toneladas, e at\u00e9 2030 ser\u00e1 preciso duplicar devido \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da pesca e \u00e0 maior demanda de uma popula\u00e7\u00e3o crescente.<\/p>\n<p>No M\u00e9xico, a aq\u00fcicultura remonta \u00e0 \u00e9poca pr\u00e9-hisp\u00e2nica. Os historiadores asseguram que v\u00e1rias esp\u00e9cies eram cultivadas em criadouros e que os maias faziam a reprodu\u00e7\u00e3o em mananciais. Hoje, Brasil, Col\u00f4mbia, Chile, Equador, M\u00e9xico e Peru obt\u00eam em criadouros volumes que s\u00e3o vistos com admira\u00e7\u00e3o por produtores argentinos. Entretanto, neste pa\u00eds, o mais austral do continente, as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e a topografia n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o favor\u00e1veis a um desenvolvimento de grande magnitude. Por\u00e9m, os ambientalistas dizem que os danos sociais e ambientais, que a implanta\u00e7\u00e3o da aq\u00fcicultura na Argentina pode representar, n\u00e3o justificam sua promo\u00e7\u00e3o industrial e recomendam o incentivo \u00e0 pesca respons\u00e1vel em mares e rios que ainda t\u00eam uma rica biodiversidade.<\/p>\n<p>Com 710 mil toneladas anuais, o Chile \u00e9 o maior produtor de peixes e moluscos em cativeiro da regi\u00e3o e um dos dez maiores do mundo, junto com China e \u00cdndia. Tamb\u00e9m \u00e9 o segundo produtor mundial de salm\u00e3o e trutas (ambos da fam\u00edlia Salmonidae) em criadouro, sendo a Noruega o primeiro. Mas a atividade n\u00e3o est\u00e1 isenta de risco. Em 2007, a irrup\u00e7\u00e3o da anemia infecciosa do salm\u00e3o fez com que fossem fechados muitos estabelecimentos no Chile. Dos 55 mil empregos, mil foram perdidos, segundo o governo, embora os sindicatos falem em tr\u00eas mil desempregados. <\/p>\n<p>A Argentina tem seu potencial, \u201cmas n\u00e3o \u00e9 igual ao do Chile ou do Brasil\u201d, disse ao Terram\u00e9rica a diretora nacional de Aq\u00fcicultura, Laura Luchini. \u201cAlguns governos provinciais incentivam esta atividade, mas nossa tarefa \u00e9 fazer as pessoas terem os p\u00e9s no ch\u00e3o\u201d, afirmou. O Chile tem uma extensa costa com fiordes no sul do Oceano Pacifico \u201cmuito prop\u00edcia para a atividade\u201d, explicou Luchini. Por outro lado, no litoral argentino do Atl\u00e2ntico n\u00e3o h\u00e1 locais abrigados, com exce\u00e7\u00e3o da Terra do Fogo, a prov\u00edncia mais austral do pa\u00eds, onde s\u00e3o cultivados mexilh\u00f5es.<\/p>\n<p>A piscicultura se desenvolve em pequena escala na Argentina. S\u00e3o cria\u00e7\u00f5es de trutas, linguados (Paralichthys patagonicus) e mexilh\u00f5es (fam\u00edlia Mytilidae). A produ\u00e7\u00e3o n\u00e3o chega a tr\u00eas mil toneladas anuais, volume insignificante se comparado com a pesca, que proporciona entre 850 mil e 1,1 milh\u00e3o de toneladas de pescados e moluscos silvestres. \u201cNosso pa\u00eds tampouco pode se comparar ao Brasil, que possui \u00e1guas tropicais\u201d, disse Luchini. O Brasil produz cerca de 250 mil toneladas por ano de pescado e camar\u00f5es provenientes de fazendas de \u00e1gua doce e no litoral, em uma enseada perto da cidade de Florian\u00f3polis. Luchini acredita que o entusiasmo de produtores argentinos, que v\u00eaem um enorme potencial na aq\u00fcicultura, responde ao ritmo de crescimento mundial da atividade. \u201cEnquanto, a produ\u00e7\u00e3o pesqueira est\u00e1 estagnada e a da carne bovina sobe ao ritmo de 2,5%, a aq\u00fcicultura aumenta 8,5% por ano, h\u00e1 oito anos\u201d, afirmou a funcion\u00e1ria. Esta atividade est\u00e1 em alta pela maior demanda mundial por alimentos e pela possibilidade de estabelecer o \u201crastreamento\u201d, procedimento para conhecer a hist\u00f3ria, localiza\u00e7\u00e3o e trajet\u00f3ria de um produto ao longo da cadeia de fornecimento. At\u00e9 2045, a FAO estima que as produ\u00e7\u00f5es pesqueira e aq\u00fc\u00edfera estar\u00e3o equiparadas. E os produtores argentinos acreditam que com cr\u00e9ditos, subs\u00eddios e melhor tecnologia poder\u00e3o aproveitar a oportunidade de fazer bons neg\u00f3cios, disse Luchini. Contudo, n\u00e3o h\u00e1 solu\u00e7\u00f5es m\u00e1gicas.<\/p>\n<p>Claudio Baig\u00fan, doutor em Ci\u00eancias Biol\u00f3gicas e especialista em Recursos Pesqueiros de \u00c1gua Doce, concorda que a expectativa dos produtores n\u00e3o leva em conta as limita\u00e7\u00f5es da Argentina. \u201cGuiam-se por pa\u00edses como Brasil e Chile, mas a Argentina \u00e9 diferente. H\u00e1 projetos para criar pacu (Piaractus mesopotamicus) em Ros\u00e1rio (na oriental prov\u00edncia de Santa F\u00e9). E, enquanto no Brasil e na Bol\u00edvia, com \u00e1gua quente, a esp\u00e9cie cresce em oito meses, aqui s\u00e3o necess\u00e1rios 18. A Argentina est\u00e1 no limite para as esp\u00e9cies cultivadas em pa\u00edses sul-americanos de \u00e1guas quentes\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>De todo modo, o especialista alerta que a aq\u00fcicultura n\u00e3o \u00e9 uma panac\u00e9ia. Existem as doen\u00e7as, o custo da energia e dos alimentos, e tamb\u00e9m os riscos associados \u00e0 falta de variedade gen\u00e9tica dos exemplares criados em cativeiro. \u201cAcredita-se que a cria\u00e7\u00e3o solucionar\u00e1 tudo, mas \u00e9 preciso preservar o que temos, promover um manejo respons\u00e1vel da pesca e n\u00e3o acreditar que a aq\u00fcicultura \u00e9 o que vai nos salvar\u201d, alertou Baig\u00fan, pesquisador do Instituto Tecnol\u00f3gico de Chascom\u00fas.<\/p>\n<p>Do ponto de vista ambiental, Jorge Cappato, diretor da Funda\u00e7\u00e3o Proteger, afirma que \u00e9 preciso diferenciar entre a aq\u00fcicultura comunit\u00e1ria e a industrial, que \u00e9 a que pode ter impacto social e ecol\u00f3gico negativo. A organiza\u00e7\u00e3o trabalha na preserva\u00e7\u00e3o da biodiversidade e em pesca sustent\u00e1vel. Em conversa com o Terram\u00e9rica, Cappato ressaltou que \u201cos produtos qu\u00edmicos utilizados na cria\u00e7\u00e3o \u2013 antibi\u00f3ticos, pesticidas, fertilizantes \u2013 t\u00eam efeitos na \u00e1gua. Comunidades locais, como as de pescadores artesanais perdem o acesso aos recursos e correm o risco de serem transformados em criadores\u201d.<\/p>\n<p>Na Col\u00f4mbia, s\u00e3o produzidas 70 mil toneladas anuais de peixes em cativeiro, segundo dados de 2006 do Instituto Colombiano Agropecu\u00e1rio. Quando desapareceu o bocachico (Prochilodus magdalenae), principal esp\u00e9cie de \u00e1gua doce, os pescadores artesanais passaram por uma reciclagem, lembrou Cappato. \u201cGanham menos, s\u00e3o mais pobres e se alimentam pior\u201d, acrescentou o especialista, que percorreu os criadouros do Rio Sin\u00fa, no departamento de C\u00f3rdoba. Cappato tamb\u00e9m mencionou o caso do Equador, onde foi promovida a produ\u00e7\u00e3o intensiva do camar\u00e3o em zonas costeiras de florestas de mangue. As empresas \u201cdestru\u00edram 60% dos mangues, deixaram sem ocupa\u00e7\u00e3o as mulheres que coletavam camar\u00f5es e quando apareceu um v\u00edrus foram embora, deixando os tanques de concreto vazios\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>A destrui\u00e7\u00e3o de mangues tamb\u00e9m \u00e9 um problema no M\u00e9xico, que em 2007 teve produ\u00e7\u00e3o aq\u00fc\u00edfera de 261 mil toneladas, com o camar\u00e3o em primeiro lugar. A ind\u00fastria do camar\u00e3o responde por grande parte do desaparecimento destes ecossistemas, segundo o Grupo Ecol\u00f3gico Mangue. Em 2007, de acordo com um invent\u00e1rio oficial, os mangues haviam diminu\u00eddo 27% em rela\u00e7\u00e3o a 2000 na costa mexicana do Pacifico, no Golfo do M\u00e9xico e no Caribe.<\/p>\n<p>* A autora \u00e9 correspondente da IPS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BUENOS AIRES, 21\/10\/2008 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- O cultivo industrial de peixes e moluscos cresce mais de 8% ao ano no mundo. 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