{"id":4489,"date":"2008-11-12T12:24:29","date_gmt":"2008-11-12T12:24:29","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4489"},"modified":"2008-11-12T12:24:29","modified_gmt":"2008-11-12T12:24:29","slug":"somalia-mulheres-asseguram-que-a-vida-continua-nas-ruas-violentas-de-mogadiscio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/11\/africa\/somalia-mulheres-asseguram-que-a-vida-continua-nas-ruas-violentas-de-mogadiscio\/","title":{"rendered":"SOM\u00c1LIA: Mulheres \u2018Asseguram que a Vida Continua&#39; nas Ruas Violentas de Mogad\u00edscio"},"content":{"rendered":"<p>NAIROBI, 12\/11\/2008 &ndash; Shamso Abdulle: As mulheres podem movimentar-se com mais facilidade porque n\u00e3o pertencem a cl\u00e3s. Cr\u00e9dito: Najum Mushtaq\/IPS No quinto dia de todos os meses, um grupo de empres\u00e1rias re\u00fane-se para partilhar as suas experi\u00eancias e discutir assuntos relacionados com o com\u00e9rcio. O que torna esta situa\u00e7\u00e3o excepcional \u00e9 o facto de estas mulheres serem provenientes da regi\u00e3o centro e sul da Som\u00e1lia e de se reunirem em Mogad\u00edscio, uma das cidades mais devastadas e perigosas do mundo. <!--more--> Com 780 membros registados, a maioria dos quais proveniente da regi\u00e3o de Banadir, a Associa\u00e7\u00e3o de Mulheres de Neg\u00f3cio de Banadir \u00e9 liderada por uma mulher de neg\u00f3cio com grande experi\u00eancia, Shamso Abdulle. Banadir \u00e9 uma das oito unidades administrativas no centro e sul da Som\u00e1lia, que inclui a capital do pa\u00eds, Mogad\u00edscio. <\/p>\n<p>M\u00e3e de nove filhos, coberta dos p\u00e9s \u00e0 cabe\u00e7a por um elegante v\u00e9u isl\u00e2mico ou hijaab, e insistindo em falar apenas na sua linguagem materna, Abdulle representa uma hist\u00f3ria de sucesso empresarial pouco prov\u00e1vel. O pa\u00eds na \u00c1frica Oriental onde vive n\u00e3o tem um Governo central h\u00e1 17 anos. <\/p>\n<p>A cidade onde vive tem sido assolada por uma guerra intestina intermin\u00e1vel entre cl\u00e3s de senhores da guerra e por interven\u00e7\u00f5es militares estrangeiras. <\/p>\n<p>&quot;Quando comecei o meu neg\u00f3cio de importa\u00e7\u00e3o de mobili\u00e1rio e outras mercadorias da \u00cdndia em 1984, a Som\u00e1lia era um pa\u00eds diferente,\u2019\u2019 contou Abdulle \u00e0 IPS em Nair\u00f3bi h\u00e1 duas semanas, onde participou num semin\u00e1rio sobre a economia de guerra da capital da Som\u00e1lia, organizado pelo Instituto Noruegu\u00eas para a Pesquisa Urbana e Regional. <\/p>\n<p>&quot;Durante seis anos consegui ter uma actividade comercial normal, ganhar o suficiente para ser independente e expandir o meu neg\u00f3cio para outros locais como o Dubai.\u2019\u2019 <\/p>\n<p>Em 1991, eclodiu a guerra. O Estado entrou em colapso e come\u00e7ou a era dos senhores da guerra. Tal como aconteceu com a maioria dos outros comerciantes, Abdulle teve de abandonar o seu neg\u00f3cio e fugir da cidade. <\/p>\n<p>&quot;Tive de deixar Mogad\u00edscio e viver com a minha fam\u00edlia no mato durante meses. As minhas poupan\u00e7as estavam a desaparecer rapidamente. Logo a que a luta baixou um pouco de intensidade, com a interven\u00e7\u00e3o de uma miss\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, regressei \u00e0 capital para a explorar a possibilidade de retomar o meu neg\u00f3cio,\u2019\u2019 recorda. <\/p>\n<p>Quando regressou, descobriu que as regras e as normas de explora\u00e7\u00e3o empresarial tinham mudado completamente. O porto de Mosgad\u00edscio estava fechado e n\u00e3o abriria at\u00e9 2006, o que for\u00e7ou as empresas a deslocarem-se para outros portos distantes como El Ma&#39;an, Merka e Kismayo. <\/p>\n<p>Em vez de regulamentos e institui\u00e7\u00f5es governamentais, os comerciantes tinham de negociar passagem segura para as suas mercadorais \u2014 e para eles pr\u00f3prios \u2014 junto de uma variedade de mil\u00edcias. As transfer\u00eancias de dinheiro atrav\u00e9s de bancos tinham sido substitu\u00eddas pelo sistema informal hawala, ou hundi. <\/p>\n<p>Para as mulheres, era dif\u00edcil conseguirem empr\u00e9stimos dos grandes homens de neg\u00f3cio que n\u00e3o tinham qualquer garantia de reembolso ou de obterem um retorno desse empr\u00e9stimo. O poder de compra do p\u00fablico tinha baixado; a viol\u00eancia e a inseguran\u00e7a eram elevadas, tal como continuam a ser at\u00e9 hoje. <\/p>\n<p>Mas tamb\u00e9m havia uma grande oportunidade para as mulheres entrarem na actividade comercial. <\/p>\n<p>&quot;Uma das principais raz\u00f5es pelas quais h\u00e1 tantas mulheres comerciantes em Mogad\u00edscio \u00e9 o facto de muitos homens terem morrido no conflito ou terem perdido os empregos no funcionalismo p\u00fablico. Por outro lado, trabalhar como vendedores ambulantes ou lojistas \u00e9 considerado abaixo da dignidade dos homens que, antes da guerra, trabalhavam como m\u00e9dicos, professors universit\u00e1rios e burocratas em Mogad\u00edscio,\u2019\u2019 explica Abdulle. <\/p>\n<p>&quot;A maioria das mulheres foi for\u00e7ada a entrar na actividade comercial para garantir a sobreviv\u00eancia da fam\u00edlia numa cidade ca\u00f3tica.\u2019\u2019 <\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m considerado aviltante para um homem somali fazer trabalhos dom\u00e9sticos como cozinhar, tomar conta de beb\u00e9s e limpar a casa. As mulheres comerciantes, diz Abdulle, tamb\u00e9m t\u00eam de desempenhar os seus pap\u00e9is tradicionais em casa. <\/p>\n<p>Um outro motivo pelo qual o n\u00famero de mulheres de neg\u00f3cio aumentou durante o conflito \u00e9 o sentido de seguran\u00e7a relativo que as comerciantes gozam por compara\u00e7\u00e3o aos homens. <\/p>\n<p>&quot;As mulheres n\u00e3o pertencem a cl\u00e3s e n\u00e3o est\u00e3o envolvidas na luta. Transportam mercadorias e vendem-nas nas zonas da cidade e noutras partes do centro e sul da Som\u00e1lia onde os homens n\u00e3o conseguem vender,\u2019\u2019 esclarece Abdulle. &quot;Podem tirar partido das piores condi\u00e7\u00f5es.\u2019\u2019 <\/p>\n<p>Em 2000, as mulheres de neg\u00f3cio de pequenos e m\u00e9dios rendimentos juntaram-se para formar uma associa\u00e7\u00e3o que visava proteger e promover comerciantes do sexo feminino. Abdulle divide os membros do seu grupo em diversas categorias. <\/p>\n<p>A maioria das mulheres comerciantes em Mogad\u00edscio vende qat ou miraa, uma planta moderamente narc\u00f3tica cujas folhas e caules s\u00e3o mastigados durante horas por pessoas em toda a Som\u00e1lia (e noutras partes da regi\u00e3o) como passatempo. Grandes quantidades de qat s\u00e3o importadas do Qu\u00e9nia e da Eti\u00f3pia e depois vendidas principalmente por vendedoras e lojistas do sexo feminino. <\/p>\n<p>&quot;\u00c9 comum a pilhagem de remessas de miraa do aeroporto para o mercado. T\u00eam de passar por cerca de 50 barricadas na estrada ou pontos de controlo e o qat \u00e9 talvez a mercadoria mais procurada na cidade,\u2019\u2019diz Abdulle, descrevendo as dificuldades que as mulheres comerciantes enfrentam todos os dias na cidade. <\/p>\n<p>Recorda-se que, embora houvesse paz durante o breve interregno de seis meses de regime da Uni\u00e3o dos Tribunais Isl\u00e2micos em 2006, foi uma m\u00e1 altura para as mulheres comerciantes <\/p>\n<p>&quot;N\u00e3o s\u00f3 tinham banido a venda de qat mas a Uni\u00e3o dos Tribunais Isl\u00e2micos tamb\u00e9m queria que todas as mulheres ficassem em casa e imp\u00f4s duras restri\u00e7\u00f5es sobre elas.\u2019\u2019 <\/p>\n<p>Depois existem mulheres que se aventuram no mercado apenas para &quot;ver se t\u00eam sorte\u2019\u2019 a vender g\u00e9neros alimentares. Uma outra categoria inclui as waqda, ou vendoras, que receberam algum empr\u00e9stimo dos grandes homens de neg\u00f3cio e est\u00e3o a tentar pag\u00e1-lo atrav\u00e9s de pequenos restaurantes ou como vendedoras de retalho. <\/p>\n<p>As mulheres tamb\u00e9m vendem bid\u00f5es de gasolina. Os produtos t\u00eaxteis e o mobili\u00e1rio representam uma outra \u00e1rea de actividade comercial para as mulheres. <\/p>\n<p>&quot;Muitos dos nossos membros transportam mercadorias aos ombros visto que n\u00e3o t\u00eam lojas e n\u00e3o podem alugar um ponto de venda. Estas comerciantes itinerantes fazem parte essencial da economia de Mogad\u00edscio. Uma grande maioria de mulheres comerciantes mal consegue ter o m\u00ednimo para sobreviver e continua a ser pobre. Mas elas est\u00e3o a tentar sair dessa situa\u00e7\u00e3o.\u2019\u2019 <\/p>\n<p>Ela pr\u00f3pria pertence ao outro lado do espectro, embora se descreva como mulher de neg\u00f3cio de n\u00edvel m\u00e9dio. Viajante regular ao Dubai, \u00cdndia e outros pa\u00edses, Abdulle identifica diversos problemas que as mulheres comerciantes somalis enfrentam no terreno. <\/p>\n<p>&quot;Claro, a inseguran\u00e7a na Som\u00e1lia, particularmente em Mogad\u00edscio, constitui a maior amea\u00e7a. Mas no terreno as mulheres de neg\u00f3cio somalis tamb\u00e9m sofrem devido \u00e0 falta de aptid\u00f5es b\u00e1sicas. A maioria \u00e9 analfabeta e precisa da ajuda dos homens para fazer contas b\u00e1sicas e comunicar com o mundo exterior.\u2019\u2019 <\/p>\n<p>Portanto, explica Abdulle, o desenvolvimento de capacidades, especialmente a n\u00edvel de educa\u00e7\u00e3o e do ingl\u00eas, \u00e9 uma das actividades centrais da sua associa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>&quot;Apesar da sua contribui\u00e7\u00e3o para o com\u00e9rcio em Mogad\u00edscio mau grado as dificuldades e as condi\u00e7\u00f5es extremamente violentas, as mulheres continuam sem voz,\u2019\u2019 observa Abdulle, acrescentando que n\u00e3o h\u00e1 representa\u00e7\u00e3o feminina no principal conselho da comunidade empresarial de Banadir, composto por 75 membros. <\/p>\n<p>&quot;Sem a participa\u00e7\u00e3o das mulheres, a economia de guerra de Mogad\u00edscio n\u00e3o podia ter sobrevivido ao conflito constante. Desde a limpeza das ruas at\u00e9 \u00e0 venda de artigos essenciais como produtos alimentares e qat, as mulheres s\u00e3o cruciais para que a vida continue no meio do violento caos de Mogad\u00edscio. <\/p>\n<p>&quot;Chegou a altura de tamb\u00e9m elas terem uma voz no principal \u00f3rg\u00e3o decisor dos homens de neg\u00f3cio,\u2019\u2019 conclui Abdulle.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NAIROBI, 12\/11\/2008 &ndash; Shamso Abdulle: As mulheres podem movimentar-se com mais facilidade porque n\u00e3o pertencem a cl\u00e3s. Cr\u00e9dito: Najum Mushtaq\/IPS No quinto dia de todos os meses, um grupo de empres\u00e1rias re\u00fane-se para partilhar as suas experi\u00eancias e discutir assuntos relacionados com o com\u00e9rcio. O que torna esta situa\u00e7\u00e3o excepcional \u00e9 o facto de estas mulheres serem provenientes da regi\u00e3o centro e sul da Som\u00e1lia e de se reunirem em Mogad\u00edscio, uma das cidades mais devastadas e perigosas do mundo. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/11\/africa\/somalia-mulheres-asseguram-que-a-vida-continua-nas-ruas-violentas-de-mogadiscio\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":154,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-4489","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4489","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/154"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4489"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4489\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4489"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4489"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4489"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}