{"id":4626,"date":"2008-12-30T12:11:36","date_gmt":"2008-12-30T12:11:36","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4626"},"modified":"2008-12-30T12:11:36","modified_gmt":"2008-12-30T12:11:36","slug":"reportagem-cafeicultores-peruanos-cultivam-educacao-na-selva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/12\/america-latina\/reportagem-cafeicultores-peruanos-cultivam-educacao-na-selva\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: Cafeicultores peruanos cultivam educa\u00e7\u00e3o na selva"},"content":{"rendered":"<p>JUN\u00cdN, Peru, 30\/12\/2008 &ndash; (Tierram\u00e9rica).-  No epicentro do boom do caf\u00e9 peruano, os pequenos produtores lutam contra a pobreza e a falta de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_4626\" style=\"width: 160px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/403_2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4626\" class=\"size-medium wp-image-4626\" title=\"Alunos e professoras da escola de gest\u00e3o comunit\u00e1ria de Alto Palomar, Peru - Milza Hinostroza\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/403_2.jpg\" alt=\"Alunos e professoras da escola de gest\u00e3o comunit\u00e1ria de Alto Palomar, Peru - Milza Hinostroza\/IPS\" width=\"150\" height=\"200\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4626\" class=\"wp-caption-text\">Alunos e professoras da escola de gest\u00e3o comunit\u00e1ria de Alto Palomar, Peru - Milza Hinostroza\/IPS<\/p><\/div>  \u201cSem caf\u00e9, n\u00e3o h\u00e1 futuro\u201d, dizem produtores de Selva Alta, na central regi\u00e3o peruana de Jun\u00edn, que promovem e dirigem escolas pr\u00f3ximas de suas propriedades, para que seus filhos n\u00e3o deixem de estudar. A produ\u00e7\u00e3o de caf\u00e9 ganhou grande impacto social no Peru nos \u00faltimos anos, quando e tornou o principal produto agr\u00edcola de exporta\u00e7\u00e3o, o sustento de mais de 160 mil fam\u00edlias das zonas cafeeiras de Selva Alta e fonte de emprego para dois milh\u00f5es de pessoas que participam da cadeia produtiva.<\/p>\n<p>Da produ\u00e7\u00e3o peruana de caf\u00e9, 90% \u00e9 vendida no exterior. Em 2007, as exporta\u00e7\u00f5es somaram US$ 415 milh\u00f5es e, segundo proje\u00e7\u00f5es da Junta Nacional do Caf\u00e9, principal sindicato de pequenos produtores, chegariam a US$ 600 milh\u00f5es este ano, dez vezes mais do que os valores de 1993.<\/p>\n<p>Entretanto, nem tudo o que brilha \u00e9 ouro no setor cafeeiro. O boom atrai mais fam\u00edlias e complica o j\u00e1 dif\u00edcil acesso de crian\u00e7as e jovens \u00e0 educa\u00e7\u00e3o nas regi\u00f5es cafeeiras de dez departamentos peruanos, por falta de meios de transporte e estradas ou simplesmente porque n\u00e3o h\u00e1 escolas nem material did\u00e1tico.<\/p>\n<p>Estudante, n\u00e3o h\u00e1 caminho<\/p>\n<p>\u201cMinha propriedade fica ao lado de San Pablo de Quimotari, no distrito de Pangoa\u201d, diz ao Terram\u00e9rica a jovem Norma Huaringa, filha de produtores da prov\u00edncia de Satipo, em Jun\u00edn. \u201cAli estudei o prim\u00e1rio, e tinha de andar meia hora da minha casa at\u00e9 a escola todos os dias. Completei o prim\u00e1rio e estudei (o secund\u00e1rio) no col\u00e9gio do distrito, mas tamb\u00e9m tinha de ir da minha ch\u00e1cara at\u00e9 o povoado de moto e, \u00e0s vezes, andando\u201d, conta.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria \u00e9 apenas uma pincelada do quadro nas prov\u00edncias de Chanchamayo e Satipo. Basta uma visita para encontrar no trajeto crian\u00e7as e jovens andando rapidamente para chegarem \u00e0 escola ou voltarem para casa. \u00c0s vezes, as caminhadas duram mais de uma hora, em caminhos abertos na selva, onde os menores est\u00e3o expostos a perigos t\u00e3o diversos como mordidas de cobra, abuso sexual ou um escorreg\u00e3o na margem de um rio.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as vivem na ch\u00e1cara e v\u00e3o a escolas que \u00e0s vezes ficam a mais de um quil\u00f4metro, e quando chega a idade de ir para o col\u00e9gio s\u00e3o levados ao povoado e a\u00ed come\u00e7am outros problemas\u201d, diz ao Terram\u00e9rica a gerente da Cooperativa Cafeeira Pangoa, Esperanza Dion\u00edsio. \u201cAlguns s\u00e3o trazidos de motocicletas, para serem melhor controlados, porque est\u00e3o propensos ao v\u00edcio das drogas e \u00e0s gangues, coisas que j\u00e1 est\u00e3o ocorrendo na regi\u00e3o\u201d, acrescenta.<\/p>\n<p>Escassos recursos<\/p>\n<p>O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o conduz a pol\u00edtica do setor com inst\u00e2ncias descentralizadas, com as Dire\u00e7\u00f5es Regionais de Educa\u00e7\u00e3o (DRE) e as Unidades de Gest\u00e3o Local, encarregadas de administrar e avaliar as institui\u00e7\u00f5es educacionais locais. Na Selva Central ficam 33% das institui\u00e7\u00f5es educacionais de Jun\u00edn, quase 1.300 entre p\u00fablicas e privadas, que incluem ensino inicial, prim\u00e1rio, secund\u00e1rio e superior, segundo o Brevi\u00e1rio Estat\u00edstico Educacional 2007-2008, elaborado pela DRE desta regi\u00e3o. Destas escolas, 95% est\u00e3o em zonas rurais, afirma o professor Jaime Soriano, da \u00e1rea estat\u00edstica de Satipo.<\/p>\n<p>A demanda por escolas e col\u00e9gios cresceu muito, afirma Soriano. \u201cEm 2006, foram criadas mais de 74 institui\u00e7\u00f5es educacionais nos diferentes n\u00edveis. Apesar disto, ainda h\u00e1 necessidade porque os problemas sociais da d\u00e9cada de 80 fizeram com que as pessoas partissem desta regi\u00e3o, e agora retornam com suas fam\u00edlias\u201d. Entre 1980 e 2000, o Peru viveu a guerra interna contra a insurg\u00eancia mao\u00edsta do Sendero Luminoso e do Movimento Revolucion\u00e1rio T\u00fapac Amaru. Hoje, h\u00e1 muito poucas escolas rurais com infra-estrutura adequada, segundo Soriano. Os livros \u00fateis s\u00e3o escassos, pois o \u201cor\u00e7amento do Estado \u00e9 limitado\u201d.<\/p>\n<p>O ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Jos\u00e9 Antonio Chang, anunciou, em outubro, um aumento, para o pr\u00f3ximo ano, de 4,3% do or\u00e7amento da \u00e1rea em 2008. Por\u00e9m, este valor passa pouco dos 3% do produto interno bruto e n\u00e3o cumpre com o aumento progressivo estabelecido na Lei Geral de Educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pouca escola e pouca comida<\/p>\n<p>Na comunidade nativa y\u00e1nesha de Alto Yurinaki, parte da prov\u00edncia de Chanchamayo, a escola 64441 conta com 28 alunos, agrupados em duas salas de aula, cada um com uma professora. \u201cEste ano, o Estado nos deu poucos livros e n\u00e3o foram recolhidos porque os tr\u00e2mites s\u00e3o muito caros\u201d, conta a professora Nancy Medina. \u201cSomos um pouco esquecidos, n\u00e3o contamos com giz nem materiais educativos porque, talvez, desconhe\u00e7am nossa realidade, somente a cidade tem prioridade\u201d, ressalta. H\u00e1 outro motivo para a m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o em zonas cafeeiras.<\/p>\n<p>A cesta familiar dos nativos da comunidade, e de quase toda a popula\u00e7\u00e3o rural, est\u00e1 baseada em produtos de subsist\u00eancia, como banana, mandioca, car\u00e1 e milho. Poucos podem ter acesso a uma dieta balanceada, com v\u00e1rios tipos de carne e leite todos os dias. Segundo o Censo Nacional de Talla, feito em 2005 com alunos de seis a nove anos, 83% dos estudantes de Jun\u00edn com desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica moram em Huancayo, Chanchamayoi, Satipo, Jauja e Tarma. Satipo fica entre as tr\u00eas prov\u00edncias com mais desnutri\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica, diz o estudo.<\/p>\n<p>M\u00e3os \u00e0 obra<\/p>\n<p>Como resposta, os cafeicultores empreenderam a tarefa de promover a educa\u00e7\u00e3o de seus filhos. Nos Centros Educacionais de Gest\u00e3o Comunit\u00e1ria os pais pagam o sal\u00e1rio dos professores e alguns gastos com infra-estrutura, \u00e0s vezes com apoio de autoridades locais, enquanto o Estado cuida de designar o pessoal, aprovar a escola e entregar algum material. \u201cO papel dos pais \u00e9 abnegado, porque se preocupam com os m\u00f3veis e a estrutura das escolas e assumem o gasto, apesar de seus poucos recursos\u201d, conta Soriano.<\/p>\n<p>A Cooperativa Agr\u00e1ria Ecol\u00f3gica Alto Palomar, em San Luis de Shuaro, Chanchamayo, instalou, h\u00e1 quase quatro anos, um centro diurno de educa\u00e7\u00e3o infantil dirigido por seus s\u00f3cios, pequenos cafeicultores, e com apoio da coopera\u00e7\u00e3o internacional. Nesse local h\u00e1 meninos e meninas de tr\u00eas a cinco anos. As escolas est\u00e3o bem pr\u00f3ximas da Cooperativa, encravada na zona de cultivo do gr\u00e3o. De segunda a sexta-feiras h\u00e1 aula, recrea\u00e7\u00e3o e alimenta\u00e7\u00e3o para as crian\u00e7as, o que permite que as m\u00e3es trabalhem em suas terras, sejam ou n\u00e3o s\u00f3cias da entidade.<\/p>\n<p>\u201cA cooperativa procura otimizar a qualidade e a produ\u00e7\u00e3o do caf\u00e9, mas tamb\u00e9m a qualidade humana de seus s\u00f3cios. A partir de um remoto lugar, damos um primeiro passo para melhorar a educa\u00e7\u00e3o\u201d, disse ao Terram\u00e9rica a presidente da Cooperativa, Marta Janampa. Busca-se que \u201cas demais organiza\u00e7\u00f5es cafeeiras repitam a experi\u00eancia do centro diurno ou das escolas comunit\u00e1rias\u201d, diz o assessor da Cooperativa, Feliz Marin. No entanto, \u00e9 preciso comprometer as autoridades, \u201cporque muitas cooperativas cafeeiras e muitos produtores est\u00e3o fazendo o papel que o governo deveria fazer\u201d, ressalta.<\/p>\n<p>Em Satipo funcionam 66 escolas comunit\u00e1rias, 46 em territ\u00f3rios de comunidades nativas. Em 1986, a Cooperativa Cafeeira Pangoa implementou um col\u00e9gio cooperativo, conta Dion\u00edsio. A educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica era deficiente, os pre\u00e7os do caf\u00e9 eram bons e os pais podiam pagar o estudo dos filhos no col\u00e9gio. Mas, com a queda no pre\u00e7o do caf\u00e9 a partir de 1998, a experi\u00eancia ficou insustent\u00e1vel e \u201ctivemos de vender o col\u00e9gio\u201d, recorda Marin.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JUN\u00cdN, Peru, 30\/12\/2008 &ndash; (Tierram\u00e9rica).-  No epicentro do boom do caf\u00e9 peruano, os pequenos produtores lutam contra a pobreza e a falta de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2008\/12\/america-latina\/reportagem-cafeicultores-peruanos-cultivam-educacao-na-selva\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1461,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12],"tags":[21],"class_list":["post-4626","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4626","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1461"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4626"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4626\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4626"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4626"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4626"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}