{"id":4650,"date":"2009-01-13T12:24:49","date_gmt":"2009-01-13T12:24:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4650"},"modified":"2009-01-13T12:24:49","modified_gmt":"2009-01-13T12:24:49","slug":"reportagem-mapa-verde-contra-furacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/01\/america-latina\/reportagem-mapa-verde-contra-furacoes\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: Mapa Verde contra furac\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>LOS PALACIOS, Cuba, 13\/01\/2009 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- O Mapa Verde, um retrato dos recursos culturais, sociais e ecol\u00f3gicos de um lugar, permitiu que as pessoas de um munic\u00edpio cubano reconstru\u00edssem, por elas mesmas, a escola destru\u00edda por um furac\u00e3o.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_4650\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/404_foto23.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4650\" class=\"size-medium wp-image-4650\" title=\"Alunos da restaurada escola de La Vigia e outros membros da rede do Mapa Verde. - Dalia Acosta\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/404_foto23.jpg\" alt=\"Alunos da restaurada escola de La Vigia e outros membros da rede do Mapa Verde. - Dalia Acosta\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4650\" class=\"wp-caption-text\">Alunos da restaurada escola de La Vigia e outros membros da rede do Mapa Verde. - Dalia Acosta\/IPS<\/p><\/div>  As telhas de sua casa voavam, seu sogro dizia que a carne tremia debaixo da pele e seu marido tentava proteg\u00ea-la com uma mesa e colch\u00f5es, mas a professora cubana Gladis San Jorges tinha apenas uma preocupa\u00e7\u00e3o, no pior momento de sua vida: \u201cAi, a escola, ai, a escola.\u201d, gritava. Terminava agosto de 2008 e o Furac\u00e3o Gustav arrasava a prov\u00edncia de Pinar del Rio, no extremo leste de Cuba. \u201cHav\u00edamos guardado tudo da escola, mas n\u00e3o pod\u00edamos impedir que o Furac\u00e3o levasse o teto. Eu s\u00f3 pensava que minhas crian\u00e7as iam ficar sem casa e tamb\u00e9m sem aula\u201d, conta esta professora de 41 anos, que trabalha no centro escolar do bairro La Vigia, no munic\u00edpio de Los Palacios.<\/p>\n<p>Gladis n\u00e3o \u00e9 uma professora qualquer. Sua vida mudou h\u00e1 alguns anos quando sua escola se integrou \u00e0 rede nacional do Mapa Verde e ela come\u00e7ou a coordenar um projeto que ia al\u00e9m de localizar \u00e1reas de interesse em um papel, para ter uma incid\u00eancia real na comunidade e em seu entorno. \u201cO Mapa Verde mudou minha vida, a de minha escola e a dessas crian\u00e7as\u201d, diz, tentando explicar os la\u00e7os que unem a constru\u00e7\u00e3o de uma \u00fanica sala que ficou sem teto, com as paredes \u00famidas, e as \u00e1reas de recrea\u00e7\u00e3o e a horta totalmente destru\u00eddas. \u201cTivemos que mudar a escola temporariamente para um terra\u00e7o\u201d, conta Gladis.<\/p>\n<p>Surgido a partir de uma metodologia criada pela ecodesenhadora norte-americana Wendy E. Brawer em 1992, o Sistema do Mapa Verde promove a participa\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria na elabora\u00e7\u00e3o de \u201cretratos\u201d dos recursos culturais, sociais e ecol\u00f3gicos de um lugar. Desde sua promo\u00e7\u00e3o como sistema global, em 1995, o Mapa Verde se estendeu a 400 cidades, povoados e bairros de 50 pa\u00edses, a partir de uma rede de n\u00facleos regionais e de projetos locais, que funcionam de acordo com as necessidades de cada lugar e com independ\u00eancia da iniciativa central.<\/p>\n<p>O projeto nacional cubano, coordenado pelo n\u00e3o-governamental Centro F\u00e9lix Varela, est\u00e1 presente em todo o pa\u00eds e envolve em torno de mil pessoas de escolas de todos os n\u00edveis educacionais, inclusive universidades. \u201cOs coletivos recebem assessoria t\u00e9cnica e materiais para o trabalho\u201d, explica ao Terram\u00e9rica Liana Bidart, coordenadora de Projetos do Centro e encarregada nacional do Mapa Verde. \u201cAp\u00f3s a capacita\u00e7\u00e3o metodol\u00f3gica, propiciamos a participa\u00e7\u00e3o dos integrantes da rede em oficinas sobre comunica\u00e7\u00e3o e acordos. A id\u00e9ia \u00e9 que estejam preparados para negociar, enfrentar os conflitos e encontrar solu\u00e7\u00f5es para um problema da comunidade junto com outros atores sociais\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Um mapa para agir Uma das primeiras coisas que Gladis e as demais professoras da Escola Prim\u00e1ria Rafael Morales aprenderam sobre o m\u00e9todo de trabalho da Rede Nacional do Mapa Verde foi que os problemas n\u00e3o tinham de ser necessariamente resolvidos pelo governo local, mas que a comunidade poderia solucion\u00e1-los. \u201cGotinha por gotinha, se vai conseguindo\u201d, esta \u00e9 a filosofia do coletivo que conseguiu, por exemplo, que uma cooperativa agropecu\u00e1ria vizinha deixasse de usar as \u00e1guas de uma lagoa contaminada para irriga\u00e7\u00e3o, eliminasse microdep\u00f3sitos de lixo e acabasse com a queima da cana-de-a\u00e7\u00facar antes do corte.<\/p>\n<p>\u201cO Mapa Verde nos dotou de conhecimentos que n\u00e3o t\u00ednhamos, e tamb\u00e9m nos mudou como pessoas. E as crian\u00e7as est\u00e3o felizes. Elas participam da confec\u00e7\u00e3o do Mapa e tamb\u00e9m de todo o processo de enfrentamento dos problemas. Muitas vezes s\u00e3o elas que v\u00e3o conversar com algu\u00e9m, convencer\u201d, conta Gladis. Quando o Furac\u00e3o Gustav atingiu a regi\u00e3o, o coletivo da escola decidiu que a magnitude do desastre poderia atrasar as solu\u00e7\u00f5es estatais e que era hora de aplicar o que haviam aprendido. \u201cVimos o estado da escola e decidimos n\u00e3o esperar os recursos do Estado. Fomos \u00e0 cooperativa pr\u00f3xima, conseguimos as telhas e as colocamos com nosso pr\u00f3prio esfor\u00e7o\u201d, conta a professora, convencida de que nada disso teria ocorrido sem a incorpora\u00e7\u00e3o da escola \u00e0 rede do Mapa Verde.<\/p>\n<p>O Centro F\u00e9lix Varela doou a pintura das paredes. Professores, pais, colaboradores do Centro e alguns alunos uniram-se em uma jornada de trabalho volunt\u00e1rio que deixou a escola pronta. Pode ser que a umidade acumulada nas paredes reapare\u00e7a, mas, no momento, \u201cas crian\u00e7as est\u00e3o de volta \u00e0s aulas\u201d. No come\u00e7o de novembro, a escola La Vigia era a \u00fanica recuperada em Los Palacios, um munic\u00edpio onde a combina\u00e7\u00e3o de dois furac\u00f5es afetou as 43 escolas prim\u00e1rias existentes. Nesse momento, o governo j\u00e1 contava com recursos para recuper\u00e1-las, mas, o processo apenas come\u00e7ava.<\/p>\n<p>Menos vulner\u00e1veis Ap\u00f3s destruir a Ilha da Juventude, no sul de Cuba, o Furac\u00e3o Gustav passou, na noite de 30 de agosto e na madrugada de 31, por Pinar del Rio. Na esta\u00e7\u00e3o meteorol\u00f3gica de Paso Real de San Diego, em Los Palacios, uma rajada de vento quebrou o anem\u00f4metro nos 340 km\/h, um recorde nacional. N\u00e3o havia se passado nem oito dias do ciclone tropical mais violento que j\u00e1 atingiu esta ilha do Caribe nos \u00faltimos 50 anos, quando a popula\u00e7\u00e3o de Pinar del Rio soube da amea\u00e7a do Furac\u00e3o Ike. O Ike, que entrou pelo leste cubano e afetou quase todo o territ\u00f3rio nacional e saiu de Cuba por onde o Gustav sa\u00edra, o norte de Los Palacios.<\/p>\n<p>\u201cDepois do Gustav, o Ike pareceu um ventinho, mas ainda assim causou danos\u201d, afirma Gladis. Mais do que a destrui\u00e7\u00e3o material, a professora pensa na ang\u00fastia desses dias, no terror de pensar que o desastre se repetiria e que as \u00e1rvores e as casas que ficaram de p\u00e9 poderiam cair. Mais de dois mil centros educacionais foram danificados em todo o pa\u00eds pelos dois furac\u00f5es. Fontes do Sistema das Na\u00e7\u00f5es Unidas em Cuba asseguram que o desastre causou consider\u00e1veis danos psicossociais e estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico na popula\u00e7\u00e3o, especialmente em quase 390 mil crian\u00e7as e adolescentes cujas escolas foram destru\u00eddas.<\/p>\n<p>\u201cEssas crian\u00e7as vivem um trauma imenso. O que vimos foi muito duro para os adultos, imagine para elas. A maioria quase n\u00e3o pode dormir em suas casas, muitos perderam tudo, sua \u00fanica sa\u00edda para estar melhor \u00e9 a escola\u201d, conta Gladis, que agora trabalha com seu grupo para reelaborar o Mapa Verde. A perspectiva ter\u00e1 de ser diferente. \u201cVamos utilizar o Mapa Verde como uma ferramenta comunit\u00e1ria para promover pr\u00e1ticas alternativas e reduzir o risco diante de desastres naturais\u201d, afirma Bidart.<\/p>\n<p>Ela e Gladis repassam juntas o Mapa de antes do Gustav: a paisagem mudou. Os locais que um dia foram de interesse talvez j\u00e1 n\u00e3o sejam mais. \u00c9 necess\u00e1rio localizar as zonas de inunda\u00e7\u00f5es, os abrigos e os lugares de reflorestamento, e propor esp\u00e9cies que possam suportar os ventos. \u201cAs crian\u00e7as v\u00e3o ter trabalho\u201d, diz a professora.<\/p>\n<p>* A autora \u00e9 correspondente da IPS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LOS PALACIOS, Cuba, 13\/01\/2009 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- O Mapa Verde, um retrato dos recursos culturais, sociais e ecol\u00f3gicos de um lugar, permitiu que as pessoas de um munic\u00edpio cubano reconstru\u00edssem, por elas mesmas, a escola destru\u00edda por um furac\u00e3o. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/01\/america-latina\/reportagem-mapa-verde-contra-furacoes\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":47,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2],"tags":[21],"class_list":["post-4650","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4650","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/47"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4650"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4650\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4650"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4650"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4650"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}