{"id":4675,"date":"2009-01-21T09:34:28","date_gmt":"2009-01-21T09:34:28","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4675"},"modified":"2009-01-21T09:34:28","modified_gmt":"2009-01-21T09:34:28","slug":"republica-democratica-do-congo-falar-dos-verdadeiros-autores-da-guerra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/01\/africa\/republica-democratica-do-congo-falar-dos-verdadeiros-autores-da-guerra\/","title":{"rendered":"REP\u00daBLICA DEMOCR\u00c1TICA DO CONGO:: Falar dos Verdadeiros Autores da Guerra"},"content":{"rendered":"<p>CIDADE DO CABO, 21\/01\/2009 &ndash; Cada epis\u00f3dio da prolongada guerra civil da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo tem pesado de forma particularmente violenta sobre as mulheres, embora estas tenham uma voz relativamente pequena nas negocia\u00e7\u00f5es para a paz. <!--more--> Os novos combates que eclodiram em Agosto de 2008 entre o Congresso Nacional para a Defesa do Povo (conhecido pela sigla francesa, CNDP) e o ex\u00e9rcito e mil\u00edcias aliadas da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo expuseram novamente as mulheres congolesas \u00e0 desloca\u00e7\u00e3o, \u00e0 morte e \u00e0 viol\u00eancia sexual generalizada. <\/p>\n<p>Como directora na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo da Sociedade das Mulheres contra a SIDA em \u00c1frica, Aim\u00e9e Mwadi Kady efectuou um estudo dos efeitos da viol\u00eancia sexual geral no leste do pa\u00eds. <\/p>\n<p>Katana G\u00e9g\u00e9 Bukuru formou a organiza\u00e7\u00e3o Solidariedade das Activistas pelos Direitos Humanos, que ensina as mulheres a defenderem os seus direitos. <\/p>\n<p>Ambas as mulheres t\u00eam um envolvimento activo nos esfor\u00e7os locais e regionais para trazer a paz para aquele pa\u00eds. S\u00e3o tamb\u00e9m consultoras do Fundo Global, que apoia as organiza\u00e7\u00f5es de mulheres que trabalham nas quest\u00f5es dos direitos humanos, incluindo a viol\u00eancia baseada no g\u00e9nero e a edifica\u00e7\u00e3o da paz. <\/p>\n<p>Falaram \u00e0 IPS na Cidade do Cabo durante a confer\u00eancia, em Novembro de 2008, da Associa\u00e7\u00e3o das Mulheres em Desenvolvimento; parte da entrevista \u00e9 publicada aqui. <\/p>\n<p>IPS: Vou come\u00e7ar com uma quest\u00e3o abrangente \u2013 qual \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o das mulheres na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo neste momento?<\/p>\n<p>AIM\u00c9E MWADI KADI: A situa\u00e7\u00e3o das mulheres no Congo n\u00e3o \u00e9 boa. A pobreza tem um rosto feminino. As mulheres que vivem em \u00e1reas urbanas costumavam ter uma situa\u00e7\u00e3o um pouco melhor, mas com a guerra, a pobreza sa\u00edu do campo e deslocou-se para a cidade. <\/p>\n<p>As mulheres enfrentam grandes dificuldades. H\u00e1 mais mulheres a viverem sozinhas, mais pessoas a viverem em lares encabe\u00e7ados por mulheres. Existe um n\u00famero crescente de m\u00e3es jovens, isto \u00e9, as raparigas s\u00e3o m\u00e3es muito cedo e tornam-se um fardo adicional para as suas pr\u00f3prias m\u00e3es, visto que continuam a viver em casa. Esta situa\u00e7\u00e3o piorou com a guerra. <\/p>\n<p>Existem muitos deslocados internos; as mulheres que abandonaram as zonas de conflito e ocupam espa\u00e7os ilegalmente nos centros urbanos enfrentam grandes dificuldades. Trabalham muito para sobreviver. <\/p>\n<p>IPS: Quem presta aux\u00edlio ou apoio a estas mulheres? <\/p>\n<p>KATANA GEGE BUKURU: \u00c9 primariamente o movimento feminista, as organiza\u00e7\u00f5es de mulheres que tentam congregar as mulheres para partilharem as dificuldades. <\/p>\n<p>As mulheres est\u00e3o profundamente envolvidas na busca da paz e algumas participaram directamente nas negocia\u00e7\u00f5es, enquanto que a maioria das mulheres participou indirectamente enviando abaixo-assinados, memorandos, fazendo manifesta\u00e7\u00f5es. Mesmo agora que a guerra come\u00e7ou outra vez, as mulheres continuam a organizar-se. <\/p>\n<p>IPS: As organiza\u00e7\u00f5es de mulheres t\u00eam contacto com os diversos intervenientes na guerra? <\/p>\n<p>KGB: A n\u00edvel de negocia\u00e7\u00f5es locais e esfor\u00e7os diplom\u00e1ticos, realiz\u00e1mos pequenas reuni\u00f5es com os diferentes grupos armados, mas n\u00e3o cimeiras. Tivemos encontros com alguns dirigentes locais que estavam abertos \u00e0 nossa vis\u00e3o sobre a paz, mas n\u00e3o \u00e9 tarefa f\u00e1cil. Por vezes algu\u00e9m diz-nos, N\u00e3o, n\u00e3o estamos a favor da guerra, mas por outro lado se o seu dirigente\/patrocinador insistir, \u00e9 dif\u00edcil dizer n\u00e3o. <\/p>\n<p>Conhecemos os actores que vemos no terreno, mas n\u00e3o conhecemos os que se encontram nos bastidores. \u00c9 esse o problema. <\/p>\n<p>IPS: O que \u00e9 que pensam do papel desempenhado pela miss\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas, a MONUC, neste momento? <\/p>\n<p>KGB: Posso dizer que, mesmo se desempenha um papel positivo e mesmo se faz parte do apelo a um cessar-fogo, o que realmente sobressai neste momento \u00e9 isto: por que motivo a guerra continua enquanto a MONUC est\u00e1 aqui? <\/p>\n<p>AMK: A MONUC \u00e9 uma institui\u00e7\u00e3o criada para manter a paz. Hoje em dia, trabalho frequentemente nas zonas onde h\u00e1 guerra. Estive em Goma, em Kiwanja, Tamugenga, Rumangabo, todos estes s\u00edtios. Mas nas aldeias o que \u00e9 que o povo diz? &#8220;Sem Nkunda, N\u00e3o h\u00e1 trabalho, N\u00e3o h\u00e1 dinheiro.&#8221; <\/p>\n<p>Entende? <\/p>\n<p>Quer isto dizer, nalguns s\u00edtios a MONUC tem desempenhado um papel que afirmo ser negativo, porque falei com muitas mulheres durante o meu trabalho a apoiar as mulheres v\u00edtimas de viol\u00eancia. E em todo o lado \u00e9 isso o que me dizem: N\u00e3o, a guerra vai come\u00e7ar outra vez porque os membros da MONUC encontram satisfa\u00e7\u00e3o nela, visto serem bem pagos. Se n\u00e3o houvesse guerra, n\u00e3o teriam dinheiro. <\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 trabalho, e sem Nkunda (dirigente do CNDP), N\u00e3o h\u00e1 trabalho, n\u00e3o h\u00e1 dinheiro. <\/p>\n<p>Portanto, \u00e9 muito importante, nesta altura, dizer a verdade. As pessoas devem compreender que a MONUC tamb\u00e9m tem desempenhado um papel no regresso \u00e0 guerra. <\/p>\n<p>KGB: O que eu tenho a dizer \u00e9 que toda a gente usa o nome de Nkunda. Nkunda \u00e9 apenas uma pessoa. Uma pessoa n\u00e3o pode fazer guerra sozinha. Nkunda \u00e9 e imagem, portanto n\u00e3o queremos continuar a falar de Nkunda, mas antes dos verdadeiros autores da guerra na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo. <\/p>\n<p>IPS: E quem s\u00e3o os verdadeiros autores? <\/p>\n<p>KGB: \u00c9 isso que queremos saber! Porque um indiv\u00edduo n\u00e3o pode fazer a guerra sozinho. N\u00e3o fabrica armas. Nkunda n\u00e3o tem os meios suficientes para continuar a guerra. N\u00e3o \u00e9 ele \u2013 \u00e9 por isso que queremos saber quem s\u00e3o esses autores. <\/p>\n<p>IPS: Parece que se avan\u00e7am sempre as mesmas solu\u00e7\u00f5es. Existe sempre um ex-presidente que \u00e9 chamado a servir de mediador, h\u00e1 sempre a busca de soldados adequados a uma miss\u00e3o de manuten\u00e7\u00e3o da paz quando n\u00e3o h\u00e1 paz para ser mantida. Que outras solu\u00e7\u00f5es proporiam? <\/p>\n<p>AMK: Essa \u00e9 uma pergunta pertinente. Deixe-me propor uma solu\u00e7\u00e3o. Porque fingimos sempre que o FDLR, o antigo ex\u00e9rcito ruand\u00eas, se encontra no Congo e cria uma situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil para o Ruanda. <\/p>\n<p>Mas, meu irm\u00e3o, o Ruanda tem \u2013 a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo foi dividida em duas partes durante quanto tempo? Durante tr\u00eas anos, a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo esteve dividida, e eles [Ruanda] tiveram todo o tempo que queriam para varrer tudo, at\u00e9 massacrar, matar todos os membros do FDLR at\u00e9 chegar ao \u00fatimo beb\u00e9. Mas n\u00e3o conseguiram. <\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o \u2013 a comunidade internacional tem de assumir a responsabilidade&#8230; Porque est\u00e1 a pedir \u00e0 Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo que desarme o FDLR, mas como? Desmobiliz\u00e1-los \u2013 com que meios? <\/p>\n<p>A comunidade internacional deve encontrar um meio. N\u00e3o estamos a insistir que regressem ao Ruanda e participem num di\u00e1logo como tiv\u00e9mos no Congo. <\/p>\n<p>Sent\u00e1mo-nos \u00e0 mesma mesa, at\u00e9 aceit\u00e1mos pessoas origin\u00e1rias do exterior da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo que hoje encontramos em altas posi\u00e7\u00f5es em Kinshasa. <\/p>\n<p>Tudo isto para dizer que n\u00f3s, congoleses, somos pacifistas. As pessoas disseram, Queremos paz. Agora juntos, vamos edificar a paz, esquecendo as nossas diferen\u00e7as. <\/p>\n<p>Mas hoje Nkunda declara, Vou lutar at\u00e9 que o FDLR tenha sa\u00eddo da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo. Est\u00e3o a lutar porque o FDLR \u00e9 suposto estar a evitar que o Ruanda se desenvolva? Isso \u00e9 loucura . <\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o&#8230; A comunidade internacional tem os meios. Sabe onde est\u00e1 o FDLR e pode formar um corridor e lev\u00e1-los at\u00e9 ao Ruanda. E se o Ruanda se recusar a falar com eles, com os seus irm\u00e3os, ent\u00e3o a comunidade internacional deve levar este FDLR para os Camar\u00f5es. H\u00e1 l\u00e1 espa\u00e7o, vamos coloc\u00e1-los al\u00ed e resolve-se a quest\u00e3o. <\/p>\n<p>E ent\u00e3o teremos paz. Fingimos constantemente que o FDLR \u00e9 a raz\u00e3o [do conflito]. Mas a raz\u00e3o \u00e9 o roubo. <\/p>\n<p>Olhe para o lago. Quantos sacos de cassiterite se encontram al\u00ed? Quantos sacos de coltran? Quantas aeronaves aterram em Walungu? E em Borega? Quantos? <\/p>\n<p>V\u00e1 ao Ruanda agora, est\u00e3o ocupados a construir o pa\u00eds. Com qu\u00ea? O Ruanda est\u00e1 a vender diamantes agora, est\u00e1 a assinar contratos para vender diamantes; pergunte a si pr\u00f3prio: de onde \u00e9 que v\u00eam estes diamantes? <\/p>\n<p>Deixe a comunidade internacional ouvir a voz de uma mulher que viu outras mulheres a chorar. A comunidade internacional precisa de pegar no FDLR e lev\u00e1-los&#8230;N\u00e3o sei para onde, at\u00e9 para o deserto. OK? Levem-nos para o deserto, porque n\u00e3o queremos guerra. <\/p>\n<p>V\u00e1 a Kinshasa; h\u00e1 tantos mutilados. M\u00e3es, jovens. Quando falamos com m\u00e3es ruandesas, tamb\u00e9m elas choram, porque muitos dos seus filhos v\u00eam morrer na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo. <\/p>\n<p>Portanto, as minhas palavras finais sobre este problema \u00e9 que a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 continuar a dizer \u00e0 Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo que tem de organizar o desarmamento. \u00c9 a comunidade internacional, que tem sido c\u00famplice nesta situa\u00e7\u00e3o, que tem de efectuar essa tarefa. <\/p>\n<p>Se n\u00e3o&#8230; iremos pegar em armas. <\/p>\n<p>Sou mulher, tenho mais de 50 anos, mas estou pronta para pegar em armas, e os nossos filhos tamb\u00e9m. Estamos no processo de criar bombistas suicidas \u2013 depois de dez anos de guerra, estamos a cri\u00e1-los. O meu alfaiate vem ter comigo e diz-me, Estou pronto, estamos prontos para pegar em armas e, n\u00e3o importa o que suceder, colocar bombas em todo o lado. <\/p>\n<p>\u00c9 isso que estamos a preparar aqui se nos deixarem assim, abandonados \u00e0 nossa pr\u00f3pria tristeza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CIDADE DO CABO, 21\/01\/2009 &ndash; Cada epis\u00f3dio da prolongada guerra civil da Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo tem pesado de forma particularmente violenta sobre as mulheres, embora estas tenham uma voz relativamente pequena nas negocia\u00e7\u00f5es para a paz. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/01\/africa\/republica-democratica-do-congo-falar-dos-verdadeiros-autores-da-guerra\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":480,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-4675","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4675","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/480"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4675"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4675\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4675"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4675"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4675"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}