{"id":4679,"date":"2009-01-22T17:50:52","date_gmt":"2009-01-22T17:50:52","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4679"},"modified":"2009-01-22T17:50:52","modified_gmt":"2009-01-22T17:50:52","slug":"infancia-somalia-jogados-na-rua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/01\/africa\/infancia-somalia-jogados-na-rua\/","title":{"rendered":"INF\u00c2NCIA &#8211; SOM\u00c1LIA: Jogados na rua"},"content":{"rendered":"<p>Mogad\u00edscio, 22\/01\/2009 &ndash; Desde que tinha 10 anos, Hassan Maye, hoje com 13, ganha o sustento para ele e sua fam\u00edlia nas ruas da capital da Som\u00e1lia. Engraxa sapatos no bairro de Sinai, sul da cidade. Em um dia bom ganha 18 mil chelines, equivalente a 50 centavos de d\u00f3lar. Todos os dias Maye enfrenta o perigo de obter esta magra renda. Os disparos s\u00e3o moeda corrente em torno do lugar onde trabalha. Tamb\u00e9m tem de estar alerta para os ladr\u00f5es independentes armados que perambulam pela cidade. Seu ganho constitui uma pequena contribui\u00e7\u00e3o para sua casa, que compartilha com seus av\u00f3s e irm\u00e3. <!--more--> A hiperinfla\u00e7\u00e3o converte a sobreviv\u00eancia em uma luta di\u00e1ria. Uma x\u00edcara de ch\u00e1 custa o dobro do que custava h\u00e1 dois meses. O custo de alimentos b\u00e1sicos como arroz e farinha, que j\u00e1 eram proibitivamente caros para muitos somalianos, aumentou 10% nesse per\u00edodo. Maye n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica crian\u00e7a que tenta sobreviver nas ruas de Mogad\u00edscio, onde a infra-estrutura b\u00e1sica quase se encontra em colapso, os servi\u00e7os sociais apenas est\u00e3o dispon\u00edveis e o pre\u00e7o dos alimentos disparou.<\/p>\n<p>Mas em um pa\u00eds envolto no caos e na viol\u00eancia mortal por quase duas d\u00e9cadas \u2013 a Som\u00e1lia n\u00e3o tem um governo central funcionando desde a queda de Mohammad Siad Barre em 1991 \u2013 \u00e9 dif\u00edcil ter acesso a estat\u00edsticas precisas sobre a quantidade de crian\u00e7as nas ruas. \u201cH\u00e1 v\u00e1rios fatores que levam a isso. Um \u00e9 a pobreza causada pelo desemprego do principal membro da fam\u00edlia, ou por sua morte\u201d, explicou o trabalhador social Mohammad Gaab. O desemprego abunda no pa\u00eds, e com o colapso da assist\u00eancia social que era dada pelas ag\u00eancias de ajuda, muitos pa\u00eds que n\u00e3o podem cuidar dos filhos permitem que v\u00e3o trabalhar ou mendigar, deixando-os expostos aos riscos nas ruas. \u201cAs outras raz\u00f5es incluem neglig\u00eancia por parte de seus pais, mas a causa primordial para haver crian\u00e7as nas ruas \u00e9 a pobreza\u201d, disse Gaab \u00e0 IPS em Mogad\u00edscio.<\/p>\n<p>Desde 2001, fecharam muitas organiza\u00e7\u00f5es beneficentes isl\u00e2micas que atendiam crian\u00e7as em situa\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel, depois que tiveram seus financiamentos cortados. \u201cDesde 11 de setembro (de 2001, quando mais de tr\u00eas mil pessoas morreram nos atentados terroristas de Nova York e Washington) muitas organiza\u00e7\u00f5es de caridade isl\u00e2micas ficaram sem financiamento dos pa\u00edses do golfo P\u00e9rsico (ou Ar\u00e1bico), principalmente da Ar\u00e1bia Saudita, depois que os Estados Unidos erroneamente as rotulou como favor\u00e1veis \u00e0s atividades terroristas. Desde ent\u00e3o, em Mogad\u00edscio foram fechados muitos orfanatos que dependiam de seu financiamento\u201d, afirmou Gaab, ele mesmo um ex-empregado da organiza\u00e7\u00e3o saudita Al-Haramain.<\/p>\n<p>No atual foco de viol\u00eancia, que obrigou quase metade dos dois milh\u00f5es de habitantes de Mogad\u00edscio abandonar suas casas, muitos \u00f3rf\u00e3os ficaram sem prote\u00e7\u00e3o, disse Gaab. Assim, est\u00e3o novamente nas ruas da capital, seja fazendo algum tipo de trabalho, com engraxar sapato, lavar carros ou pratos, ou realizando trabalhos dom\u00e9sticos para se manterem e \u00e0s suas fam\u00edlias. Maye, que j\u00e1 passou por tudo isso, disse que trabalhar nas ruas da capital para ganhar a vida representa uma luta pela sobreviv\u00eancia em um contexto perigoso. \u201cMeus amigos e eu engraxamos sapatos, mas \u00e0s vezes h\u00e1 brigas perto de onde estamos e frequentemente vemos mortos e feridos em todo lugar\u201d, contou.<\/p>\n<p>Muitas crian\u00e7as de rua morreram ou ficaram feridas pelas balas perdidas disparadas pelos dois lados do conflito, enquanto outras s\u00e3o assassinadas suspeitas de serem espi\u00e3s ou de colocarem bombas nos acostamentos das estradas. \u201cN\u00e3o chego perto de for\u00e7as do governo somaliano ou estrangeiras. Eles matam as crian\u00e7as que s\u00e3o engraxates. Acreditam que somos espi\u00f5es\u201d, disse Osman Dahir, amigo de Maye. H\u00e1 outras crian\u00e7as de rua que n\u00e3o trabalham, mas mendigam para sobreviver. A maioria pertence a grupos que recentemente abandonaram suas aldeias por causa da viol\u00eancia, da fome ou da seca, que os impede de continuar cultivando suas terras.<\/p>\n<p>Raramente encontram inclusive trabalhos mal remunerados como o de Maye, porque o custo inicial (comprar escova e graxa, agulha e linha para remendar sapatos) \u00e9 alto. Maye e seus companheiros tiveram a sorte de um parente ou vizinho lhes dar esses elementos. Alguns dos rec\u00e9m-chegados v\u00e3o pedir esmola. Come\u00e7am suas vidas na cidade destro\u00e7ada sentados no exterior de alguma mesquita, vestidos com farrapos, agradecendo aos gritos os que lhe d\u00e3o alguma moeda. Outros v\u00e3o de casa em casa pedindo esmola.<\/p>\n<p>Como seus amigos, Maye n\u00e3o vai \u00e0 escola. Em Mogad\u00edsico, pouqu\u00edssimas crian\u00e7as podem faz\u00ea-lo, j\u00e1 que a maioria das escolas foi destru\u00edda ou fechada pela incessante viol\u00eancia que atinge a cidade desde 2006, quando come\u00e7aram as lutas entre insurgentes isl\u00e2micos e soldados et\u00edopes que invadiram a Som\u00e1lia para ajudar a derrubar um governo isl\u00e2mico que controlava boa parte do sul e centro dopais. \u201cGostaria de aprender a ler e escrever e ir para a universidade, mas n\u00e3o posso porque n\u00e3o tenho dinheiro e aqui n\u00e3o tem escolas\u201d, lamenta Maye, acrescentando que se tivesse a oportunidade queria ser medico para ajudar os doentes e feridos de Mogad\u00edsicio.<\/p>\n<p>As ag\u00eancias humanit\u00e1rias nacionais e internacionais na Som\u00e1lia tentam aliviar o sofrimento das fam\u00edlias mais vulner\u00e1veis na capital e nos acampamentos de refugiados que se estendem nos sub\u00farbios, mas a viol\u00eancia cr\u00f4nica na cidade, os ilegais postos de controle nas estradas e a pirataria em \u00e1guas somalianas se combinam para frustr\u00e1-las. Em sua maior parte, as crian\u00e7as como Maye se esfor\u00e7am para sobreviver por conta pr\u00f3pria. Os custos que isto ter\u00e1 em sua gera\u00e7\u00e3o somente ser\u00e3o sentidos nas pr\u00f3ximas d\u00e9cadas. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mogad\u00edscio, 22\/01\/2009 &ndash; Desde que tinha 10 anos, Hassan Maye, hoje com 13, ganha o sustento para ele e sua fam\u00edlia nas ruas da capital da Som\u00e1lia. Engraxa sapatos no bairro de Sinai, sul da cidade. Em um dia bom ganha 18 mil chelines, equivalente a 50 centavos de d\u00f3lar. Todos os dias Maye enfrenta o perigo de obter esta magra renda. Os disparos s\u00e3o moeda corrente em torno do lugar onde trabalha. Tamb\u00e9m tem de estar alerta para os ladr\u00f5es independentes armados que perambulam pela cidade. 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