{"id":4754,"date":"2009-02-04T13:25:45","date_gmt":"2009-02-04T13:25:45","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4754"},"modified":"2009-02-04T13:25:45","modified_gmt":"2009-02-04T13:25:45","slug":"zimbabue-a-vida-e-como-um-casino-vivemos-um-dia-de-cada-vez","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/02\/africa\/zimbabue-a-vida-e-como-um-casino-vivemos-um-dia-de-cada-vez\/","title":{"rendered":"ZIMBABU\u00c9: \u2018A Vida \u00c9 Como um Casino: Vivemos Um Dia de Cada Vez\u2019"},"content":{"rendered":"<p>HARARE, 04\/02\/2009 &ndash; &quot;Esp\u00edrito empreendedor&quot;: Uma crian\u00e7a a vender espinafre. Cr\u00e9dito: Stanley Kwenda\/IPS Longas filas de bancas, exploradas por mulheres, apareceram ao lado de muitas das estradas nacionais do Zimbabu\u00e9, vendendo mel, leite, cogumelos, tomates, cebolas e galinhas. \u00c0 medida que os pre\u00e7os nas cidades sobem em flecha devido a n\u00edveis de infla\u00e7\u00e3o sem precedentes que atingem os milh\u00f5es percentuais, as pessoas est\u00e3o a abandonar as cidades para comprar bens essenciais. <!--more--> Esta forma prec\u00e1ria de sobreviv\u00eancia envolve trabalho infantil e exp\u00f5e os vendedores ambulantes a perigos que v\u00e3o do mau tempo ao roubo e ao atropelamento. <\/p>\n<p>As crian\u00e7as trabalham ao lado dos adultos para subsistirem com dificuldade. Crian\u00e7as de tenra idade, algumas com tr\u00eas anos, est\u00e3o envolvidas na venda de bens. Algumas pessoas justificam esta situa\u00e7\u00e3o afirmando que ela permite \u00e0s crian\u00e7as desenvolverem um esp\u00edrito empreendedor e serem capazes de se defenderem sozinhas. <\/p>\n<p>Normalmente os locais de venda ambulante n\u00e3o t\u00eam abrigos ou casas de banho, expondo as pessoas aos estragos causados pelo tempo e \u00e0 doen\u00e7a. <\/p>\n<p>A venda ambulante ao longo da estrada tamb\u00e9m pode ser perigosa por outros motivos. Diversos vendedores ambulantes na estrada t\u00eam sido atropelados por autom\u00f3veis quando tentam ultrapassar os outros para chegarem aos potenciais clientes em ambos os lados da estrada. Tamb\u00e9m correm o risco de serem despojados dos seus proventos pelos mesmos automobilistas que procuram servir. <\/p>\n<p>&quot;Estamos conscientes destes perigos mas n\u00e3o podemos fazer nada a esse respeito. \u00c9 como um casino: vivemos um dia de cada vez,\u2019\u2019 disse \u00e0 IPS Mai Chingwe, vendedor ambulante na estrada, em tom resignado. <\/p>\n<p>Outra vendedora ambulante, que se recusou a dar o nome, disse \u00e0 IPS que conseguira dar uma volta \u00e0 vida atrav\u00e9s da venda ambulante na estrada. <\/p>\n<p>&quot;Cuido dos meus quatro filhos e dos tr\u00eas deixados pela minha irm\u00e3, que morreu h\u00e1 cinco anos. Ao vender produtos ao longo desta estrada consigo mand\u00e1-los para a escola e comprar algumas cabras. Tudo o que pe\u00e7o \u00e9 apoio do governo com insumos agr\u00edcolas e fertilizantes e a cria\u00e7\u00e3o de lugares apropriados onde possamos trabalhar,\u2019\u2019 disse \u00e0 IPS. <\/p>\n<p>Muitas mulheres costumavam viajar centenas de quil\u00f3metros quase diariamente, empoleiradas em cima de cami\u00f5es com cargas pesadas, para venderem os seus produtos no principal mercado em Harare, a capital do pa\u00eds. <\/p>\n<p>&quot;Agora o neg\u00f3cio vai melhor porque os automobislistas passam sempre por este lugar para comprar coisas porque se tornaram dispendiosas na cidade. Se eu levar estes tomates para a cidade, o pre\u00e7o ser\u00e1 elevado porque tenho de pagar o transporte em d\u00f3lares americanos,\u201d explicou Alice Borerwa, vendedora ambulante na estrada que vende legumes ao longo da estrada nacional Harare-Mutare. <\/p>\n<p>Mas onde \u00e9 que estas mulheres obt\u00eam terra para plantar num pa\u00eds onde essa mesma terra \u00e9 um bem t\u00e3o contencioso e a posse da terra se baseia na autoriza\u00e7\u00e3o do Estado? <\/p>\n<p>&quot;Form\u00e1mos uma cooperativa em 2005 e contact\u00e1mos o deputado da nossa zona, a quem pedimos que obtivesse alguma terra para n\u00f3s. Deram-nos terra encharcada de \u00e1gua que usamos agora com a ajuda de pessoas amigas para fazer horticultura comercial,\u2019\u2019 disse \u00e0 IPS Borerwa, m\u00e3e de tr\u00eas filhos. <\/p>\n<p>Pedi-lhe que descrevesse um dia t\u00edpico para ela e para os outros 15 membros da CooperativaI ubatana. <\/p>\n<p>&quot;Acordamos por volta das quatro da manh\u00e3 e colhemos os tomates maduros, cebolas, cenouras e outros legumes antes de regar os produtos agr\u00edcolas. Fazemos isto por turnos, portanto ou se est\u00e1 na horta ou a vender ao longo da estrada. <\/p>\n<p>&quot;Felizmente hoje em dia n\u00e3o \u00e9 preciso regar os produtos por causa das chuvas. Normalmente estamos na estrada desde as cinco da manh\u00e3 at\u00e9 \u00e0s dez da noite,\u2019\u2019 contou Borerwa. <\/p>\n<p>A maioria dos automobilistas opta agora por sair da cidade para comprar legumes visto que os pre\u00e7os nas cidades est\u00e3o fora do alcance de muitos residentes. Os pre\u00e7os dos produtos variam entre 10 d\u00f3lares por um saco de 10 kg de tomates ou de cebolas e 20 d\u00f3lares por 5 kg da cogumelos. Mas a IPS foi informada que estes pre\u00e7os s\u00e3o altamente negoci\u00e1veis, dependendo da sua disponibilidade. <\/p>\n<p>Os pre\u00e7os tamb\u00e9m s\u00e3o afectados pela grande concorr\u00eancia: em determinada zona comercial na estrada pode haver mais de 50 mulheres a venderem os mesmos produtos. <\/p>\n<p>Nas cidades, os pre\u00e7os elevados s\u00e3o fixados de forma uniforme. &quot;Consigo vender dando extras aos clientes que compram mais. Se algu\u00e9m comprar algo que custe mais de 20 d\u00f3lares, incluo gratuitamente um punhado de legumes no valor de dois d\u00f3lares,\u2019\u2019 disse Chingwe. <\/p>\n<p>Nalguns casos, a venda realiza-se atrav\u00e9s da troca de g\u00e9neros, quando os vendedores ambulantes trocam mercadorias por bens para o lar como sabonete, \u00f3leo para cozinhar ou at\u00e9 roupa. <\/p>\n<p>&quot;Tentamos sempre calcular o que \u00e9 melhor para as nossas fam\u00edlias. Se algu\u00e9m trouxer sapatos para a escola ou roupa que a minha filha possa usar na escola, estou mais do que disposta a troc\u00e1-los por mercadorias. Ao fim e ao cabo, o dinheiro n\u00e3o compra muito quando se vai \u00e0s lojas,\u2019\u2019 explicou Chingwe. <\/p>\n<p>As mulheres usaram os rendimentos provenientes da venda ambulante na estrada para manterem os filhos na escola e cuidarem deles numa altura em que o pa\u00eds est\u00e1 a atravessar uma situa\u00e7\u00e3o econ\u00f3mica e pol\u00edtica dif\u00edcil. <\/p>\n<p>Milh\u00f5es de pessoas perderam os empregos na \u00faltima d\u00e9cada naquele pa\u00eds da \u00c1frica Austral em consequ\u00eancia dos encerramentos de empresas nos sectores da manufactura, servi\u00e7os, agricultura e minera\u00e7\u00e3o. Esta situa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m teve um efeito devastador nas ind\u00fastrias associadas. <\/p>\n<p>Segundo o Congresso dos Sindicatos do Zimbabu\u00e9 (ZCTU), a principal entidade sindical do pa\u00eds, milhares de zimbabueanos deambulam agora pelas ruas depois de perderem os seus postos de trabalho. O ZCTU calcula que a taxa de desemprego atinja os 90 por cento. <\/p>\n<p>No seu Relat\u00f3rio sobre a Manufactura de 2008, a Confedera\u00e7\u00e3o das Ind\u00fastrias do Zimbabu\u00e9 (CZI) afirmou que as companhias ainda operacionais est\u00e3o a funcionar a menos de 20 por cento de capacidade. Referiu ainda no mesmo relat\u00f3rio que a maior parte da m\u00e3o-de-obra trabalha agora no sector informal, que inclui a venda ambulante na estrada. <\/p>\n<p>O governo zimbabueano criou o Minist\u00e9rio de Desenvolvimento das Pequenas e M\u00e9dias Empresas mas este ainda n\u00e3o apresentou trabalho. <\/p>\n<p>Mas nem toda a gente compra nas bancas \u00e0 beira da estrada. Nalguns dos mercados \u00e0 beira da estrada, como Macheke ao longo da estrada entre Harare e Mutare, Ngundu ao longo da estrada entre Harare e Beitbridge e Mutoko no nordeste de Harare, ainda se v\u00eaem cami\u00f5es a transportarem produtos para os principais mercados de bens em Harare e Bulawayo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>HARARE, 04\/02\/2009 &ndash; &quot;Esp\u00edrito empreendedor&quot;: Uma crian\u00e7a a vender espinafre. 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