{"id":480,"date":"2005-04-07T00:00:00","date_gmt":"2005-04-07T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=480"},"modified":"2005-04-07T00:00:00","modified_gmt":"2005-04-07T00:00:00","slug":"haiti-ter-bush-tido-razo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/04\/mundo\/haiti-ter-bush-tido-razo\/","title":{"rendered":"Haiti: Ter&aacute; Bush tido raz&atilde;o?"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, 07\/04\/2005 &ndash; Nas &uacute;ltimas semanas, desde as elei&ccedil;&otilde;es legislativas, ocorridas em 30 de Janeiro, em Bagdad &#8211; ali&aacute;s elei&ccedil;&otilde;es muito sui generis, sublinhe-se &#8211; a imprensa internacional tem feito eco do que n&atilde;o pode deixar de ser uma campanha organizada, por servi&ccedil;os de intelig&ecirc;ncia, insinuando na opini&atilde;o p&uacute;blica esta id&eacute;ia: afinal, talvez Bush tivesse tido raz&atilde;o, ao atacar o Iraque e ao destruir o regime do ditador Saddam Hussein.<br \/> <!--more--> <br \/> Porqu&ecirc;? pergunta-se. Resposta: o caminho para a democracia come&ccedil;a a dar alguns sinais no Iraque e em outros pa&iacute;ses &aacute;rabes, como no L&iacute;bano, para n&atilde;o falar no acordo incipiente que parece ter come&ccedil;ado a esbo&ccedil;ar-se entre Israel e a Palestina, problema chave do Oriente M&eacute;dio. Por outro lado, velhas autocracias como a Ar&aacute;bia Saudita, a S&iacute;ria e o pr&oacute;prio Egito parecem ter come&ccedil;ado a tremer nos seus fundamentos&#8230; <\/p>\n<p> Ser&aacute; assim? S&oacute; uma vis&atilde;o muito superficial e necessariamente interessada, na propaga&ccedil;&atilde;o dessa id&eacute;ia, poder&aacute; pintar assim, t&atilde;o cor de rosa, a realidade do que est&aacute; ocorrendo no Iraque e em todo o Oriente M&eacute;dio, bem como as nefastas &#8211; e grav&iacute;ssimas &#8211; conseq&uuml;&ecirc;ncias da guerra &quot;ilegal&quot; do Iraque, como foi chamada por Kofi Annan. Vejamos&#8230;<\/p>\n<p> Primeiro faz-se t&aacute;bua rasa, ignoram-se as mentiras que justificaram o ataque ao Iraque: a exist&ecirc;ncia, que se revelou falsa, de armas de destrui&ccedil;&atilde;o maci&ccedil;a na posse de Saddam Hussein e o pseudo-apoio do ditador do Iraque ao terrorismo isl&acirc;mico ou global. Depois, finge-se desconhecer as devasta&ccedil;&otilde;es provocadas pela guerra do Iraque &#8211; no plano humano, civilizacional e material &#8211; e as suas nefastas conseq&uuml;&ecirc;ncias no plano do Oriente M&eacute;dio, do chamado Ocidente e do Mundo em geral. <\/p>\n<p> Porque a guerra preventiva e unilateral contra o Iraque &#8211; n&atilde;o nos esque&ccedil;amos &#8211; foi um verdadeiro divisor de &aacute;guas para o Mundo, visto que veio colocar a prova valores essenciais, que julg&aacute;vamos para sempre adquiridos, como o respeito pelo Direito Internacional, pelos Direitos Humanos, pelas Conven&ccedil;&otilde;es de Gen&egrave;ve, pelo plurilateralismo da ONU, pelo multiculturalismo e pelo di&aacute;logo ecum&ecirc;nico entre civiliza&ccedil;&otilde;es e religi&otilde;es, com exclus&atilde;o absoluta do recurso &agrave; for&ccedil;a. <\/p>\n<p> Para al&eacute;m das mortes que a guerra contra o Iraque provocou &#8211; tanto do lado mu&ccedil;ulmano (incomparavelmente maiores) como do lado anglo-americano (mesmo assim n&atilde;o negligenci&aacute;veis) e das devasta&ccedil;&otilde;es civilizacionais &#8211; a destrui&ccedil;&atilde;o de um dos ber&ccedil;os da civiliza&ccedil;&atilde;o &#8211; e materiais, a guerra n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o acabou com o terrorismo global como,ao contr&aacute;rio, transformou o Iraque num campo de recrutamento e de treino de terroristas. <\/p>\n<p> Mas o mais grave foi o desgaste que produziu em rela&ccedil;&atilde;o aos valores ocidentais, que consider&aacute;vamos universais. A revela&ccedil;&atilde;o de um choque de fanatismos de sinal contr&aacute;rio: o isl&acirc;mico e o evang&eacute;lico, o ortodoxo judaico e a intifada palestina. Ora quando se esquecem os valores, tantas vezes invocados, descredibilizam-se as causas e perde-se a autoridade moral, o pior que pode surgir numa confronta&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p> Acresce que n&atilde;o &eacute; pens&aacute;vel &#8211; nem realista &#8211; pretender impor a democracia de cima para baixo, e sobretudo pela for&ccedil;a das armas, que deixaram o Iraque em ru&iacute;nas e pior ainda: criaram ressentimentos profundos, que n&atilde;o se apagam numa gera&ccedil;&atilde;o, entre as popula&ccedil;&otilde;es que as sofreram na carne. <\/p>\n<p> Condoleezza Rice, no in&iacute;cio do segundo mandato de Bush,disse: &quot;que chegara a hora da diplomacia&quot;. Tratava-se de preparar a viagem de Bush &agrave; Europa, n&atilde;o para visitar os &quot;amigos&quot; &#8211; Blair, Berlusconi, Aznar, Barroso &#8211; esses est&atilde;o cooptados e, portanto, contam pouco. Mas t&atilde;o s&oacute; para fazer &quot;amende honorable&quot; (pedir perd&atilde;o) e distribuir sorrisos &quot;la noblesse oblige&quot;. Traduzo: no &quot;atoleiro&quot; em que a Am&eacute;rica se meteu, importa tranq&uuml;ilizar a &quot;Velha Europa&quot;, Chirac, Schr&ouml;eder e, curiosamente, Putin. Mas a turn&ecirc; de George W. Bush n&atilde;o mudou nada de substancial, nem anulou as diverg&ecirc;ncias de fundo quanto aos princ&iacute;pios e aos valores. Quando muito parece ter permitido que a Uni&atilde;o Europ&eacute;ia &quot;engolisse&quot; Paul Wolfowitz para Presidente do Banco Mundial, um &quot;falc&atilde;o&quot; ultraconhecido, agora com falas mansas&#8230; Uma vergonha! Como &eacute; muito negativo nomear John Bolton como embaixador junto da ONU quando se sabe que se trata de um ultra direita, que acha a ONU in&uacute;til e um empecilho para a pol&iacute;tica americana. <\/p>\n<p> Ser&aacute; que as elei&ccedil;&otilde;es alteraram alguma coisa de fundo no Iraque? H&aacute; uma Assembl&eacute;ia eleita, com larga maioria xiita, uma razo&aacute;vel representa&ccedil;&atilde;o curda e a constata&ccedil;&atilde;o do apagamento dos sunitas. Isso ir&aacute; funcionar? &Eacute; o que veremos. Para j&aacute;, constata-se a ironia da hist&oacute;ria: os xiitas vencedores, tradicionalmente muito pr&oacute;ximos dos xiitas do Ir&atilde;, certamente n&atilde;o estar&atilde;o de acordo que o Ir&atilde; continue inclu&iacute;do nos pa&iacute;ses do chamado &quot;eixo do mal&quot;. &Eacute; certo que os xiitas iraquianos j&aacute; pediram, pela voz do seu mais alto representante, &quot;a retirada dos americanos do Iraque&quot;. Mas como e quando? Agora que os pa&iacute;ses que enviaram tropas para o Iraque, aceitando a press&atilde;o americana, come&ccedil;am a retirar-se discretamente &#8211; dos italianos aos romenos e aos polacos?<\/p>\n<p> Note-se que a retirada dos americanos, no estado atual, seria provocar de novo o caos, com uma prov&aacute;vel secess&atilde;o curda e o apagamento dos sunitas, inclinados a um certo laicismo, logo os mu&ccedil;ulmanos mais pr&oacute;ximos do Ocidente. Pelo contr&aacute;rio, a domina&ccedil;&atilde;o xiita no Iraque trar&aacute;, a prazo, fatalmente, uma aproxima&ccedil;&atilde;o com o Ir&atilde;. Outra grande ironia da hist&oacute;ria&#8230; <\/p>\n<p> Na Palestina a situa&ccedil;&atilde;o est&aacute; longe de estar bem, embora tenham sido dados alguns passos no bom sentido, depois da morte de Arafat e do encontro entre Sharon e Abu Mazen. Est&atilde;o marcadas elei&ccedil;&otilde;es na Palestina para 17 de Julho. Mas segundo todos os observadores, as tens&otilde;es internas est&atilde;o longe de diminuir. O muro &#8211; que passa &agrave;s vezes por dentro das pr&oacute;prias casas, dividindo-as &#8211; &eacute; uma vergonha inaceit&aacute;vel e um fator permanente de conflitos. Mais de quinze anos ap&oacute;s a hist&oacute;rica queda do muro de Berlim!<\/p>\n<p> Sharon est&aacute; sendo atacado pelas fac&ccedil;&otilde;es de direita (ultras) do seu Partido e pelos ortodoxos a prop&oacute;sito da desloca&ccedil;&atilde;o dos colonatos. Do lado palestino, pensa-se que ser&aacute; o Hamas, mais radical que vai ganhar as elei&ccedil;&otilde;es. Donde resulta o refor&ccedil;o dos extremistas e o recuo dos moderados. Assim, os jogos est&atilde;o longe de estar feitos&#8230; <\/p>\n<p> Quanto ao L&iacute;bano, depois do assassinato do primeiro ministro Rafik Hariri, o Povo, cansado de conflitos, saiu &agrave; rua para reclamar por paz e democracia. Um bom sinal! Mas a&iacute; tamb&eacute;m, apesar da retirada parcial das tropas s&iacute;rias, dada a press&atilde;o conjugada de americanos e europeus, a incerteza quanto ao futuro, parece continuar a ser a regra. O Hezbollah, continua a dar cartas e os drusos, de Walid Jumblatt voltaram a reivindicar o seu lugar, o que anuncia novas complica&ccedil;&otilde;es &agrave; vista. <\/p>\n<p> Concluindo, Bush n&atilde;o tem raz&atilde;o para cantar vit&oacute;ria, nem para tentar fazer crer que fez avan&ccedil;ar a democracia &#8211; e muito menos a paz &#8211; no Oriente M&eacute;dio. Para n&atilde;o falar dos problemas econ&ocirc;micos internos, que a guerra agravou e do desprest&iacute;gio que continua causando a sua administra&ccedil;&atilde;o com as pol&iacute;ticas desastradas, unilateralistas e agressivas que continuamente promove. <\/p>\n<p> * M&aacute;rio Soares &eacute; ex-presidente de Portugal<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, 07\/04\/2005 &ndash; Nas &uacute;ltimas semanas, desde as elei&ccedil;&otilde;es legislativas, ocorridas em 30 de Janeiro, em Bagdad &#8211; ali&aacute;s elei&ccedil;&otilde;es muito sui generis, sublinhe-se &#8211; a imprensa internacional tem feito eco do que n&atilde;o pode deixar de ser uma campanha organizada, por servi&ccedil;os de intelig&ecirc;ncia, insinuando na opini&atilde;o p&uacute;blica esta id&eacute;ia: afinal, talvez Bush tivesse tido raz&atilde;o, ao atacar o Iraque e ao destruir o regime do ditador Saddam Hussein.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/04\/mundo\/haiti-ter-bush-tido-razo\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":421,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-480","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/480","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/421"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=480"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/480\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=480"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=480"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=480"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}