{"id":4825,"date":"2009-03-03T11:50:00","date_gmt":"2009-03-03T11:50:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4825"},"modified":"2009-03-03T11:50:00","modified_gmt":"2009-03-03T11:50:00","slug":"reportagem-expedicao-em-busca-de-quelonios-amazonicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/03\/america-latina\/reportagem-expedicao-em-busca-de-quelonios-amazonicos\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: Expedi\u00e7\u00e3o em busca de quel\u00f4nios amaz\u00f4nicos"},"content":{"rendered":"<p>SANTAR\u00c9M,, 03\/03\/2009 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- Dois rep\u00f3rteres navegaram pelo Lago Verde, na Amaz\u00f4nia oriental, para observar a pesquisa e a prote\u00e7\u00e3o de quel\u00f4nios que cientistas e experientes pescadores locais compartilham.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_4825\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/411_333.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4825\" class=\"size-medium wp-image-4825\" title=\"Navegando em busca de tartarugas. - Alejandro Kirk\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/411_333.jpg\" alt=\"Navegando em busca de tartarugas. - Alejandro Kirk\/IPS\" width=\"200\" height=\"112\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4825\" class=\"wp-caption-text\">Navegando em busca de tartarugas. - Alejandro Kirk\/IPS<\/p><\/div>  M\u00e1rio Maranh\u00e3o acredita que sempre teve alma de conservacionista. Quando precisava ca\u00e7ar para comer, \u201cmatava o necess\u00e1rio e nunca as f\u00eameas\u201d, conta. H\u00e1 cinco anos, come\u00e7ou a salvar quel\u00f4nios que nascem perto de Alter do Ch\u00e3o, um para\u00edso natural na Amaz\u00f4nia oriental. O trabalho ecol\u00f3gico deste guia tur\u00edstico de 52 anos se tornou sistem\u00e1tico e qualificado ao associar-se com pesquisadores acad\u00eamicos. Nos tr\u00eas \u00faltimos anos, percorreu as praias dos arredores todas as noites, entre final de setembro e come\u00e7o de dezembro, em busca de ninhos com ovos rec\u00e9m-enterrados pelos quel\u00f4nios, animais que as pessoas conhecem pelo nome de um grupo de suas esp\u00e9cies, as tartarugas.<\/p>\n<p>Os tracaj\u00e1s (Podocnemis unifilis) costumam desovar entre 18h e 22h e os piti\u00fas (Podocnemis sextuberculata) entre 1h e 4h, obrigando M\u00e1rio a prolongados e solit\u00e1rios passeios noturnos que quase lhe custaram o casamento, confessa. O acompanhamento dos ninhos acaba quase dois meses depois, quando nascem os animaizinhos. Seu protetor os leva para casa e cuida deles durante mais dois meses antes de solt\u00e1-los no Lago Verde, cujas belas praias atraem muitos turistas a Alter do Ch\u00e3o, uma localidade do munic\u00edpio de Santar\u00e9m, a 800 quil\u00f4metros do Oceano Atl\u00e2ntico pelo Rio Amazonas.<\/p>\n<p> Todo esse cuidado \u00e9 para evitar que as pessoas comam os ovos e que os predadores naturais, como gavi\u00f5es e peixes, deem conta das crias. A inten\u00e7\u00e3o \u00e9 recuperar a popula\u00e7\u00e3o de quel\u00f4nios, uma ordem da classe dos r\u00e9pteis. Estes animais s\u00e3o muito prol\u00edficos. Uma tartaruga amaz\u00f4nica (Podocnemis expansa), a maior esp\u00e9cie da regi\u00e3o, pode p\u00f4r mais de cem ovos em cada ninho. Por\u00e9m, pouqu\u00edssimas crias chegam \u00e0 idade adulta, devido \u00e0 intensa depreda\u00e7\u00e3o dos ovos e dos filhotes quando sua carapa\u00e7a ainda n\u00e3o endureceu.<\/p>\n<p>Por essa raz\u00e3o, o manejo praticado por popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas \u00e9 uma boa solu\u00e7\u00e3o para conservar e multiplicar os quel\u00f4nios, segundo Juarez Pezzuti, professor da Universidade Federal do Par\u00e1, que coordena v\u00e1rias pesquisas sobre fauna aqu\u00e1tica amaz\u00f4nica. Em animais de alta fecundidade e mortalidade como estes, com pequenos cuidados na reprodu\u00e7\u00e3o se consegue uma efic\u00e1cia multiplicadora, assegura.<\/p>\n<p>Um projeto governamental de cria\u00e7\u00e3o, que devolveu, a v\u00e1rios rios amaz\u00f4nicos, dezenas de milh\u00f5es de animaizinhos e que protege 115 \u00e1reas de reprodu\u00e7\u00e3o desde a d\u00e9cada de 80, conseguiu espantar o risco de extin\u00e7\u00e3o que pairava sobre as tartarugas e recuperar a popula\u00e7\u00e3o dessa e de outras esp\u00e9cies. Pezzuti aposta no manejo comunit\u00e1rio por raz\u00f5es ecol\u00f3gicas e sociais. A ca\u00e7a ou pesca de quel\u00f4nios \u00e9 proibida no Brasil desde 1967, como a de outros animais silvestres. Mas a popula\u00e7\u00e3o local continua comendo sua carne e seus ovos, em muitos casos por necessidade. Quando as esp\u00e9cies maiores faltam, como a tartaruga e o tracaj\u00e1, tamb\u00e9m pescam as menores.<\/p>\n<p>Evitar a captura de f\u00eameas durante a desova, por exemplo, elimina o principal fator de redu\u00e7\u00e3o de algumas esp\u00e9cies. Dirigir a coleta de ovos a ninhos vulner\u00e1veis \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o por inunda\u00e7\u00f5es, pelo pisoteio do gado ou por excesso de f\u00eameas desovando em um mesmo lugar tamb\u00e9m favorece a abund\u00e2ncia de animais, algo que interessa \u00e0s popula\u00e7\u00f5es locais para garantirem alimentos. A tartaruga, antes muito abundante, teve grande import\u00e2ncia alimentar na Amaz\u00f4nia brasileira nos tr\u00eas \u00faltimos s\u00e9culos. O aumento da popula\u00e7\u00e3o local, e a transforma\u00e7\u00e3o de sua carne em manjar de alto valor comercial, al\u00e9m do uso de seu \u00f3leo na ilumina\u00e7\u00e3o p\u00fablica, levaram \u00e0 superexplora\u00e7\u00e3o e \u00e0 amea\u00e7a de extin\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Pezzzuti, um etnoecologista que pesquisou em sua tese de mestrado e doutorado a reprodu\u00e7\u00e3o de quel\u00f4nios na Amaz\u00f4nia, valoriza o conhecimento da popula\u00e7\u00e3o local em seus estudos. Por isso, fala de manejo conjunto e procura integrar conhecimentos tradicionais e acad\u00eamicos. A ci\u00eancia \u201ceurocentrista\u201d geralmente ignora a experi\u00eancia popular, o que dificulta o avan\u00e7o das pesquisas e, n\u00e3o em poucas ocasi\u00f5es, conduziu a conclus\u00f5es equivocadas, segundo o professor. \u201cPara mim, seria imposs\u00edvel trabalhar sem recorrer \u00e0 sabedoria das popula\u00e7\u00f5es amaz\u00f4nicas, acumulada durante s\u00e9culos\u201d, reconhece.<\/p>\n<p>A pesquisa sobre os quel\u00f4nios no Lago Verde que Rachel Leite realiza, para sua tese de mestrado sob orienta\u00e7\u00e3o de Pezzuti, conta com a colabora\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de Maranh\u00e3o, de Paulo de Jesus, barqueiro e ex\u00edmio pescador de tartarugas. Em uma expedi\u00e7\u00e3o junto com os pesquisadores e os rep\u00f3rteres deste artigo, Jesus conseguiu pescar, agarrando-os com as m\u00e3os, cinco exemplares de tartarugas, tracaj\u00e1s e pirangas (Chelonoidis carbonaria), mergulhando a dois metros de profundidade em um igap\u00f3 (floresta inundada) de Lago Verde. <\/p>\n<p>Sua acuidade visual, que lhe permite descobrir os quel\u00f4nios onde nada viam os dois pesquisadores e um rep\u00f3rter que se aventuraram na \u00e1gua verde-terra, revela a capacidade que desenvolveu como ca\u00e7ador de sobreviv\u00eancia e em sua atual ocupa\u00e7\u00e3o, de captura de peixes ornamentais. Hoje sua habilidade est\u00e1 a servi\u00e7o da ci\u00eancia, talvez por isso evite responder se voltaria a comer tartaruga. <\/p>\n<p>Os quel\u00f4nios encontrados s\u00e3o identificados, medidos, marcados e devolvidos no mesmo lugar pela pesquisadora Rachel, que desde setembro os busca regularmente em v\u00e1rias partes do Lago Verde. O come\u00e7o foi \u201cdesesperador, n\u00e3o v\u00edamos os bichos\u201d, recorda. Mais tarde, os pescadores explicaram que os animais estavam \u201centerrados no lodo\u201d. Era a estiagem, quando o n\u00edvel das \u00e1guas do Lago pode baixar at\u00e9 seis metros. Agora, com a cheia do Rio Tapaj\u00f3s, que alimenta o Lago, \u00e9 mais f\u00e1cil encontr\u00e1-los tomando sol ou debaixo d\u2019\u00e1gua.<\/p>\n<p>O estudo de Rachel Leite estimar\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o das cinco esp\u00e9cies encontradas no Lago Verde, sua distribui\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica e estacional. As medi\u00e7\u00f5es e marca\u00e7\u00f5es na carapa\u00e7a de cada animal permitir\u00e3o conhecer seu crescimento numa captura posterior, explica a bi\u00f3loga. Para pesquisar a reprodu\u00e7\u00e3o ela conta com apoio de Maranh\u00e3o, outro especialista pr\u00e1tico que consegue identificar ninhos onde poucos vislumbram altera\u00e7\u00f5es na praia. Em seus passeios noturnos n\u00e3o encontra apenas ninhos, mas tamb\u00e9m apaga as pegadas deixadas pelas f\u00eameas para impedir que os ca\u00e7adores descubram os ovos.<\/p>\n<p>A voca\u00e7\u00e3o de Maranh\u00e3o tamb\u00e9m o converteu em educador ambiental: leva crian\u00e7as para ver o nascimento das tartarugas. A efetividade dessa experi\u00eancia \u00e9 comprovada por Roberto Santos, o barqueiro que transporta a equipe de pesquisas e os rep\u00f3rteres para observar cinco ninhos, em dois dos quais haviam nascido dez crias, levadas para o \u201cber\u00e7o\u201d de Maranh\u00e3o. Santos se sente \u201cemocionado\u201d ao v\u00ea-las e a partir dessa experi\u00eancia se declara \u201cdefensor das tartarugas. Agora vejo a vida que nasce, antes n\u00e3o tinha consci\u00eancia disso\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>* Os autores s\u00e3o correspondentes da IPS. Este artigo \u00e9 parte de uma s\u00e9rie produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Alian\u00e7a de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SANTAR\u00c9M,, 03\/03\/2009 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- Dois rep\u00f3rteres navegaram pelo Lago Verde, na Amaz\u00f4nia oriental, para observar a pesquisa e a prote\u00e7\u00e3o de quel\u00f4nios que cientistas e experientes pescadores locais compartilham. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/03\/america-latina\/reportagem-expedicao-em-busca-de-quelonios-amazonicos\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[8,2],"tags":[21],"class_list":["post-4825","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-ambiente","category-america-latina","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4825","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4825"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4825\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4825"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4825"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4825"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}