{"id":4849,"date":"2009-03-10T14:00:24","date_gmt":"2009-03-10T14:00:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4849"},"modified":"2009-03-10T14:00:24","modified_gmt":"2009-03-10T14:00:24","slug":"reportagem-uma-selva-no-asfalto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/03\/america-latina\/reportagem-uma-selva-no-asfalto\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: Uma selva no asfalto"},"content":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, 10\/03\/2009 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- A cidade do Rio de Janeiro come\u00e7ou a ser povoada por animais selvagens, jacar\u00e9s, capivaras, jib\u00f3ias e macacos. Ser\u00e1 o renascimento da selva em pleno concreto?  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_4849\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/412_carpincho2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4849\" class=\"size-medium wp-image-4849\" title=\"Capivaras passeiam pelo Rio de Janeiro. - Rodnei Bandeira de Mello\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/412_carpincho2.jpg\" alt=\"Capivaras passeiam pelo Rio de Janeiro. - Rodnei Bandeira de Mello\/IPS\" width=\"200\" height=\"132\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4849\" class=\"wp-caption-text\">Capivaras passeiam pelo Rio de Janeiro. - Rodnei Bandeira de Mello\/IPS<\/p><\/div>  Os moradores do Recreio, bairro da zona oeste do Rio de Janeiro, j\u00e1 quase n\u00e3o se surpreendem ao ver um jacar\u00e9 interromper o tr\u00e2nsito ou zanzar em suas piscinas. Quem n\u00e3o se acostumou a que cada vez mais pessoas invadam seus p\u00e2ntanos e lagoas s\u00e3o esses anf\u00edbios. \u201cVimos um enorme atravessando a rua e tivemos de parar o carro\u201d, conta espantado um morador. A presen\u00e7a de jacar\u00e9s (fam\u00edlia Alligatoridae), outrora donos e senhores deste territ\u00f3rio, \u00e9 cada vez mais frequente na cidade, assim como a de muitos outros animais da floresta nativa.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental SOS Mata Atl\u00e2ntica atribui a estes e outros anf\u00edbios uma \u201cextrema import\u00e2ncia para o equil\u00edbrio natural, porque controlam a popula\u00e7\u00e3o de insetos e outros invertebrados\u201d. Nas \u00e1reas inundadas que eram seus lares de procria\u00e7\u00e3o, os jacar\u00e9s hoje convivem com o lixo jogado pelas pessoas e os esgotos. E sobrevivem com o fruto de sua pr\u00f3pria pesca, ou com os peda\u00e7os de carne que alguns jogam \u00e0s suas mand\u00edbulas sempre alertas.<\/p>\n<p>Denise Monsores, administradora do Parque Chico Mendes, que protege estas e outras esp\u00e9cies nativas, explica que a explos\u00e3o imobili\u00e1ria da \u00faltima d\u00e9cada no Recreio limitou o habitat dos jacar\u00e9s. Encurralados, come\u00e7aram a vagar pelo asfalto. Este Parque \u00e9 praticamente o \u00fanico reduto livre de seres humanos que lhes resta. Monsores atribui o problema ao desordenado crescimento urbano. Para construir o Recreio, p\u00e2ntanos e zonas inundadas,onde viviam os jacar\u00e9s e outras esp\u00e9cies, foram drenados ou usados como dep\u00f3sitos do esgoto dos edif\u00edcios.<\/p>\n<p>As capivaras (Hydrochoerus hydrochaeris) tamb\u00e9m foram expulsas de seu meio original e costumam aparecer em lagoas ou praias da elegante zona sul da cidade, para alvoro\u00e7o dos banhistas. A cultura carnavalesca carioca captou o fen\u00f4meno. Uma capivara perdida inspirou o nome de uma banda. O bloco A Capivara Ensaboada (em alus\u00e3o ao animal que escorregava das m\u00e3os dos bombeiros que tentavam devolv\u00ea-lo ao seu habitat) comp\u00f4s um samba em sua homenagem.<\/p>\n<p>Afastando-se da Floresta da Tijuca, a enorme jib\u00f3ia (Boa constrictor constrictor), branca e vermelha, come\u00e7ou a aparecer mais do que o desejado em meios urbanos. No final de 2008, moradores da favela do Borel chamaram especialistas do Parque Nacional da Tijuca por causa de \u201cjib\u00f3ias em abund\u00e2ncia\u201d, recordou o chefe dessa reserva, Ricardo Calmon. Assim descobriram o que atra\u00eda as serpentes: o crescente n\u00famero de ratos, que por sua vez proliferam no lixo acumulado.<\/p>\n<p>O Rio de Janeiro convive com uma das maiores florestas urbanas do mundo: a Mata Atl\u00e2ntica, que se estende por 17 Estados e \u00e9 generosa em fontes h\u00eddricas, flora e fauna. Tem 1.020 esp\u00e9cies de aves, 350 de peixes, 340 de anf\u00edbios, 251 de mam\u00edferos e 197 de r\u00e9pteis, segundo o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). Embora ocupe 1,3 milh\u00e3o de quil\u00f4metros quadrados \u2013 cerca de 15% do pa\u00eds \u2013 conserva apenas 7% de seu tamanho original.<\/p>\n<p>As regi\u00f5es metropolitanas de S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro e Vit\u00f3ria desmataram 793 hectares, segundo o Atlas dos Remanescentes Florestais da Floresta Atl\u00e2ntica 2005-2008, da SOS Mata Atl\u00e2ntica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Nos Estados da Mata Atl\u00e2ntica vivem 62% da popula\u00e7\u00e3o, aproximadamente 110 milh\u00f5es de pessoas, que destroem as pr\u00f3prias florestas que precisam para garantir \u201co abastecimento de \u00e1gua, a regula\u00e7\u00e3o do clima e a fertilidade do solo, entre outros benef\u00edcios ambientais\u201d, afirma a SOS Mata Atl\u00e2ntica.<\/p>\n<p>Nesta \u00e1rea, as atividades humanas, a especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria, a ca\u00e7a e a pesca, a extens\u00e3o agropecu\u00e1ria e o mau planejamento urbano amea\u00e7am 383 esp\u00e9cies animais, das 633 em perigo no pa\u00eds. Algumas t\u00eam maior capacidade de adapta\u00e7\u00e3o e conviv\u00eancia com o ser humano, segundo o bi\u00f3logo Mario Moscatelli, titular da cadeira de Administra\u00e7\u00e3o de Ecossistemas do Centro Universit\u00e1rio da Cidade.<\/p>\n<p>Os macacos fazem acrobacias nas sacadas das casas vizinhas \u00e0 Floresta da Tijuca, para comer ou roubar frutas deixadas pelos moradores. Os jacar\u00e9s nadam em meio ao lixo com uma garrafa de pl\u00e1stico sobre a cabe\u00e7a. Os abutres vigiam a estrada do alto dos postes de ilumina\u00e7\u00e3o, \u00e0 espera de algum animal atropelado pelos autom\u00f3veis. Outros, como o guar\u00e1 (Eudocimus ruber), uma ave que quase desapareceu do Rio de Janeiro, \u201cs\u00e3o mais delicados e, como n\u00e3o resistem ao contato com as pessoas e sua produ\u00e7\u00e3o de lixo e esgoto, partem ou morrem\u201d, acrescentou. \u201cOs animais n\u00e3o invadem a cidade. Na realidade, a cidade est\u00e1 invadindo os \u00faltimos fragmentos de mangues, zonas inundadas, florestas\u201d, um processo que \u201cap\u00f3s 500 anos mostra uma nova etapa de ocupa\u00e7\u00e3o\u201d, acrescentou Moscatelli.<\/p>\n<p>No zool\u00f3gico municipal, os veterin\u00e1rios conhecem as consequ\u00eancias desse processo. \u201cAs entidades de captura trazem para c\u00e1 todos os animais origin\u00e1rios de nossas florestas\u201d, contou Vitor Hugo Mesquita, diretor t\u00e9cnico do Zool\u00f3gico. \u201c\u00c9 muito comum trazerem macacos, jib\u00f3ias, jacar\u00e9s, bichos-pregui\u00e7a, doninhas e diversas esp\u00e9cies de mam\u00edferos\u201d, disse. Paradoxalmente, algumas esp\u00e9cies protegidas por novas e rigorosas leis se salvaram da extin\u00e7\u00e3o e come\u00e7am a se tornar uma praga. Segundo Calmon, algumas esp\u00e9cies de primatas hoje s\u00e3o alvo de planos de esteriliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cComo fruto desse desequil\u00edbrio do ecossistema e da falta de um predador natural como a on\u00e7a-pintada (Panthera onca), que vivia na floresta, algumas esp\u00e9cies come\u00e7am a superpovoar a \u00e1rea. Pelo fato de a floresta estar cercada pela cidade, n\u00e3o existe uma escala suficiente para que sobrevivam outras esp\u00e9cies da cadeia alimentar\u201d, explicou o chefe do Parque da Tijuca. Moscatelli prefere n\u00e3o chamar de \u201cpraga\u201d os animais, mas o ser humano, que \u201cdesordenou toda a cadeia alimentar\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1ria uma \u201credistribui\u00e7\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o de animais em outras \u00e1reas\u201d para que \u201cn\u00e3o criem problemas no meio urbano\u201d, prop\u00f5e Moscatelli. As esp\u00e9cies silvestres podem espalhar doen\u00e7as, como a raiva ou a febre maculosa transmitida pelo carrapato, ou podem agredir as pessoas, como os jacar\u00e9s, para defender seus filhotes.<\/p>\n<p>* A autora \u00e9 correspondente da IPS. Este artigo faz parte de uma s\u00e9rie produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Alian\u00e7a de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (www.complusal<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, 10\/03\/2009 &ndash; (Tierram\u00e9rica).- A cidade do Rio de Janeiro come\u00e7ou a ser povoada por animais selvagens, jacar\u00e9s, capivaras, jib\u00f3ias e macacos. 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