{"id":4853,"date":"2009-03-11T15:44:58","date_gmt":"2009-03-11T15:44:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4853"},"modified":"2009-03-11T15:44:58","modified_gmt":"2009-03-11T15:44:58","slug":"mulheres-violencia-o-horror-por-tras-de-premiado-filme-peruano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/03\/america-latina\/mulheres-violencia-o-horror-por-tras-de-premiado-filme-peruano\/","title":{"rendered":"MULHERES-VIOL\u00caNCIA: O horror por tr\u00e1s de premiado filme peruano"},"content":{"rendered":"<p>Lima, 11\/03\/2009 &ndash; O filme \u201cA teta assustada\u201d, grande vencedor do Festival de Berlim, mostra as sequelas na filha de uma mulher violentada no conflito armado que viveu o Peru, e sua estr\u00e9ia nesse pa\u00eds devolveu a mem\u00f3ria a milhares de mulheres v\u00edtimas de anos de horror, que ainda continuam sem encontrar justi\u00e7a.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_4853\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Pacotaype_MilagrosSalazarIPS1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4853\" class=\"size-medium wp-image-4853\" title=\"Gladys Pacotaype junto com toda sua familia - Milagros Salazar\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Pacotaype_MilagrosSalazarIPS1.jpg\" alt=\"Gladys Pacotaype junto com toda sua familia - Milagros Salazar\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4853\" class=\"wp-caption-text\">Gladys Pacotaype junto com toda sua familia - Milagros Salazar\/IPS<\/p><\/div>  A pra\u00e7a da localidade de Manchay, na periferia de Lima, se converteu na noite do \u00faltimo dia 5 em uma improvisada sala de cinema, onde centenas de pessoas foram ver o filme no cen\u00e1rio onde justamente h\u00e1 um ano foi rodado pela cineasta peruana Claudia Llosa, que havia prometido voltar para apresent\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Havia muito de simbolismo nessa estr\u00e9ia em Manchay, porque cerca de tr\u00eas mil de seus 40 mil habitantes participaram das filmagens e porque o povoado foi levantado pelos que entre 1980 e 2000 escolheram essa terra de areia e pedra para refazer suas vidas quando tiveram de fugir da serra andina, o epicentro do enfrentamento entre Sendero Luminoso e for\u00e7as do Estado. \u201cNessa noite violentaram minha filha n\u00e3o nascida\u201d, canta com ironia em l\u00edngua qu\u00e9chua no come\u00e7o do filme uma idosa moribunda. Alguns riem nervosos e outros ouvem em respeitoso sil\u00eancio, como Gladys Pacotaype, uma jovem de 20 anos que nasceu em Ayacucho, a regi\u00e3o do pa\u00eds mais afetada pelos anos do terror e que assistiu a proje\u00e7\u00e3o junto com toda sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>\u201cMeus primos foram assassinatos, me contou minha m\u00e3e. Eu era muito pequena\u201d, disse Pacotaype \u00e0 IPS enquanto segurava sua pequena filha em uma manta coloria. Ao lado, seu marido, outro jovem ayacuchano que aos 6 anos viu morrer seu av\u00f4 pelas m\u00e3os de guerrilheiros repete um \u201cn\u00e3o esque\u00e7o\u201d que seus olhos reafirmam. As investiga\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o de Verdade e Reconcilia\u00e7\u00e3o (CVR), criada pelo governo de transi\u00e7\u00e3o no Peru (2000-2001), revelou ao mundo a dimens\u00e3o do conflito: foram cerca de 70 mil v\u00edtimas, e entre os sobreviventes as sequelas da dor se mant\u00eam vivas.<\/p>\n<p>As mulheres foram as mais afetadas. A CVR detalhou que 7.426 mulheres foram v\u00edtimas e sofreram desaparecimento for\u00e7ado, deten\u00e7\u00e3o ilegal, tortura e execu\u00e7\u00e3o extra-judicial. A maioria tamb\u00e9m suportou abusos sexuais. Os casos aconteceram em pelo menos 15 departamentos dos 24 em que o Peru \u00e9 dividido administrativamente. Ayacucho, na serra central, registrou o maior n\u00famero de casos de viol\u00eancia sexual, seguido de Huancavelica e Apur\u00edmac, e em toda a regi\u00e3o andina as mulheres foram salpicadas pela viol\u00eancia. Aproximadamente 75% dos casos eram de mulheres qu\u00e9chuas, 83% de origem rural, 36% camponesas e 30% chefes de fam\u00edlia. A maior parte das v\u00edtimas tinha entre 10 e 30 anos e 8% eram meninas menores de 10 anos.<\/p>\n<p>No Peru, com 28,7 milh\u00f5es de habitantes, existem atualmente 3,2 milh\u00f5es de qu\u00e9chuas e pouco menos de meio milh\u00e3o de aymaras, os dois povos origin\u00e1rios mais numerosos do pa\u00eds, assentados principalmente na \u00e1rea andina. A estr\u00e9ia de \u201cA teta assustada\u201d aconteceu na semana que culminou em 8 de mar\u00e7o, Dia Internacional da Mulher, que as Na\u00e7\u00f5es Unidas dedicaram este ano a exortar os homens e as mulheres a se unirem no combate da viol\u00eancia contra a mulher e as meninas.<\/p>\n<p>A sistem\u00e1tica viol\u00eancia<\/p>\n<p>\u201cCome\u00e7aram a me violentar: primeiro um, depois outro e outro, foram sete. Me deixaram como trapo no ch\u00e3o, como um carneiro degolado\u201d, recordou \u00e0 IPS Georgina Gamboa, cuja for\u00e7ada serenidade n\u00e3o pode impedir umas lagrimas de dor. Ela tinha apenas 16 anos quando alguns militares \u2013 assegura \u2013 a tiraram de sua casa no povoado de Pacco, em Ayacucho, a arrastaram pelos cabelos e a despojaram de tudo, quando dormia junto a nove irm\u00e3os menores do que ela. Isso ocorreu em 1981, quando come\u00e7avam os chamados anos de escurid\u00e3o. Dados da CVR indicam que 83% dos casos de viola\u00e7\u00f5es s\u00e3o atribu\u00eddos aos agentes do Estado.<\/p>\n<p>\u201cMe diziam: fala, voc\u00ea era terrorista, confessa porque matou. Falavam assim enquanto me mostravam uma lista de nomes. Eu n\u00e3o conhecia ningu\u00e9m, mas me bateram. Toda meu rosto estava inchado e minha blusa cheia de sangue\u201d, continuou Gamboa, de 45 anos e uma das poucas mulheres que se atreveu a denunciar seu caso diante da opini\u00e3o p\u00fablica e das autoridades em pleno conflito. Conta que vestiu sua dor de coragem depois de suportar torturas e mudan\u00e7as de delegacias e quart\u00e9is, at\u00e9 ser deixada em uma pris\u00e3o por quatro meses e constatar que estava gr\u00e1vida em consequ\u00eancia das viola\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Desse epis\u00f3dio nasceu sua filha, de 27 anos, mesmo tempo que Gamboa est\u00e1 sem encontrar justi\u00e7a. \u201cMinha fiz diz para eu n\u00e3o insistir, porque para os pobres n\u00e3o existe justi\u00e7a, e me pede para deixar como est\u00e1\u201d, contou. \u201cN\u00e3o h\u00e1 interesse em prosseguir com as investiga\u00e7\u00f5es: solicitam exames m\u00e9dicos legais \u00e0s mulheres quando os fatos aconteceram h\u00e1 muitos anos, tampouco s\u00e3o valorizadas as provas psicol\u00f3gicas\u201d, assegurou \u00e0 IPS a advogada Bettina Valdez, respons\u00e1vel pela quest\u00e3o de g\u00eanero e repara\u00e7\u00f5es das v\u00edtimas de viol\u00eancia sexual da Comiss\u00e3o de Direitos Humanos (Comisedh), a organiza\u00e7\u00e3o que representa o caso de Gamboa. Mas, al\u00e9m disso, \u201cas inst\u00e2ncias governamentais vinculadas aos agressores se negam a entregar informa\u00e7\u00f5es para esclarecer os fatos\u201d, acrescentou Valdez.<\/p>\n<p>A advogada da Associa\u00e7\u00e3o Pr\u00f3-direitos Humanos (Aprodeh), Gloria Cano, informou \u00e0 IPS que dos nove casos denunciados por viola\u00e7\u00e3o sexual por parte das organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais e que representam 31 mulheres v\u00edtimas, apenas um conseguiu ser atendido pelo Judici\u00e1rio. O restante continua parado na Promotoria. \u201cE s\u00f3 vou lutar mais este ano, se n\u00e3o houver nenhum fato novo, vou parar com tudo\u201d, confessou Gamboa. A Comisedh diz que o que mais se observa nas v\u00edtimas \u00e9 a afeta\u00e7\u00e3o de sua sa\u00fade mental, gravidez indesejada, exclus\u00e3o social e evas\u00e3o dos fatos, j\u00e1 que a maioria se nega a falar do que ocorreu.<\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 hoje, os traumas ps\u00edquicos e f\u00edsicos sofridos pelas v\u00edtimas de viola\u00e7\u00e3o sexual se refletem na maneira como elas se referem \u00e0 viol\u00eancia sexual: em muitos testemunhos, as mulheres n\u00e3o deixam claro se houve tentativa de viola\u00e7\u00e3o ou se esta chegou a se concretizar, por medo ou vergonha\u201d, explicou Valdez. Na mesma linha, a psic\u00f3loga do Estudo para a Defesa dos Direitos da Mulher, Paula Escribens, explicou \u00e0 IPS que estas mulheres \u201ccarregam fortes sentimentos de culpa e estigmatiza\u00e7\u00e3o, produzidos por uma sociedade que as condena quando elas decidem falar e denunciar tais fatos\u201d.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria por tr\u00e1s de \u201cA teta assustada\u201d<\/p>\n<p>O t\u00edtulo de \u201cA teta assustada\u201d se refere ao fantasma do temor a partir da cren\u00e7a ancestral na regi\u00e3o andina da passagem do medo e da tristeza da m\u00e3e ao filho atrav\u00e9s do leite materno, que foi investigada pela antrop\u00f3loga norte-americana Kimberly Theidon. O filme conta a vida de Fausta, uma jovem que herdou a \u201cdoen\u00e7a do medo\u201d que sua m\u00e3e, uma mulher violentada durante o conflito armado, lhe transmitiu atrav\u00e9s da amamenta\u00e7\u00e3o, a s\u00fabita morte de sua m\u00e3e obriga Fausta a enfrentar seus medos e o segredo que guarda consigo: ela introduziu uma batata na vagina como escudo para que ningu\u00e9m possa toc\u00e1-la.<\/p>\n<p>Llosa, de 33 anos e que ganhou o Urso de Ouro em Berlim, disse em Manchay na noite da estr\u00e9ia que o filme \u00e9 \u201csobre as sequelas da guerra e de como temos de curar feridas. N\u00e3o tentei apontar culpados, nem mostrar rostos, apenas a ferida que est\u00e1 a\u00ed\u201d. Isso \u00e9 sabido em Manchay, local escolhido por Llosa para rodar o filme porque se alarga sobre um vale des\u00e9rtico, pr\u00f3ximo ao mar, onde a areia e as rochas se misturam inclusive na pra\u00e7a onde foi projetado. E onde, tamb\u00e9m, como recordam os moradores em sua grande noite, a maioria chegou para recome\u00e7ar do zero em um lugar que lhes recordasse a terra perdida. \u201cO mesmo contado no filme\u201d, disse Pacotayope rodeada de sua fam\u00edlia.<\/p>\n<p>O governo iniciou um processo de repara\u00e7\u00e3o para as v\u00edtimas da viol\u00eancia principalmente em n\u00edvel coletivo, mediante a reconstru\u00e7\u00e3o da infra-estrutura econ\u00f4mica e produtiva para as comunidades afetadas e o desenvolvimento de suas capacidades, mas, em n\u00edvel individual h\u00e1 poucos avan\u00e7os porque ainda n\u00e3o se concluiu o registro \u00fanico de v\u00edtimas. A coordenadora do Programa Multianual do Plano Integra\u00e7\u00e3o de Repara\u00e7\u00f5es, Margot Quispe, informou \u00e0 IPS que j\u00e1 foram beneficiadas at\u00e9 o final de 2008 688 comunidades, mas, concorda os c\u00e1lculos indicam que pelo menos 3.600 comunidades deveriam ser reparadas.<\/p>\n<p>Mas, h\u00e1 algum n\u00edvel de interven\u00e7\u00e3o que priorize a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher? \u201cA lei exige que deve haver um enfoque de g\u00eanero na repara\u00e7\u00e3o e, al\u00e9m disso, a mulher tem uma ativa participa\u00e7\u00e3o na escolha dos projetos para as repara\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias e a fiscaliza\u00e7\u00e3o de sua execu\u00e7\u00e3o\u201d, disse Quispe. Entretanto, as organiza\u00e7\u00f5es consultadas coincidem em dizer que o Plano Integral de Repara\u00e7\u00f5es nem sua regulamenta\u00e7\u00e3o levam em conta o impacto diferenciado deste tipo de viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos em raz\u00e3o do g\u00eanero, porque n\u00e3o se reconhece os outros atos de viol\u00eancia informado pela CVR, como deixar a mulher nua e abortos for\u00e7ados ou, ainda, escravid\u00e3o sexual.<\/p>\n<p>Tampouco, insistiu Valdez, s\u00e3o regulamentados procedimentos especiais para que as v\u00edtimas de viola\u00e7\u00e3o sexual possam se inscrever no registro \u00fanico de v\u00edtimas, nem existe a flexibiliza\u00e7\u00e3o da entrega de provas documentais ou testemunhos. A d\u00edvida \u00e9 enorme para o grande dano cometido, insistem as especialistas. \u201cEu s\u00f3 quero que o Estado pe\u00e7a perd\u00e3o, exijo \u00e9 que os que me fizeram isto reconhe\u00e7am o que fizeram\u201d, insistiu Gamboa, que hoje tece chompas coloridas. Diz que \u00e9 para espantar as obscuras recorda\u00e7\u00f5es. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lima, 11\/03\/2009 &ndash; O filme \u201cA teta assustada\u201d, grande vencedor do Festival de Berlim, mostra as sequelas na filha de uma mulher violentada no conflito armado que viveu o Peru, e sua estr\u00e9ia nesse pa\u00eds devolveu a mem\u00f3ria a milhares de mulheres v\u00edtimas de anos de horror, que ainda continuam sem encontrar justi\u00e7a. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/03\/america-latina\/mulheres-violencia-o-horror-por-tras-de-premiado-filme-peruano\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":141,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6],"tags":[19,24],"class_list":["post-4853","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","tag-arte-y-cultura","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4853","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/141"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4853"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4853\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4853"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4853"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4853"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}