{"id":4860,"date":"2009-03-16T10:57:34","date_gmt":"2009-03-16T10:57:34","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4860"},"modified":"2009-03-16T10:57:34","modified_gmt":"2009-03-16T10:57:34","slug":"perguntas-e-respostas-disseram-nos-que-fossemos-para-a-casa-mortuaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/03\/africa\/perguntas-e-respostas-disseram-nos-que-fossemos-para-a-casa-mortuaria\/","title":{"rendered":"PERGUNTAS E RESPOSTAS: &#39; Disseram-nos Que F\u00f4ssemos para a Casa Mortu\u00e1ria&#39;"},"content":{"rendered":"<p>NAIROBI, 16\/03\/2009 &ndash; Duas cl\u00ednicas p\u00fablicas com falta de pessoal e mal apetrechadas que atendem 600.000 pessoas: \u00e9 em bairros como Dandora que se ganha ou se perde a batalha para reduzir a mortalidade materna. <!--more--> Os residentes deste bairro pobre na periferia de Nairobi muitas vezes t\u00eam de confiar na sua pr\u00f3pria experi\u00eancia \u2013 ou recorrer a charlat\u00f5es \u2013 no que diz respeito a cuidados maternos ou quaisquer outras necessidades m\u00e9dicas.<\/p>\n<p>A seis anos do prazo estabelecido para se alcan\u00e7ar os Objectivos de Desenvolvimento do Mil\u00e9nio (MDG) das Na\u00e7\u00f5es Unidas, o Qu\u00e9nia continua atrasado quanto \u00e0 redu\u00e7\u00e3o da mortalidade materna (MM) em tr\u00eas quartos at\u00e9 2015.<\/p>\n<p>Um novo inqu\u00e9rito de sa\u00fade dever\u00e1 estar conclu\u00eddo no fim de 2009; contudo, h\u00e1 seis anos o Inqu\u00e9rito de Sa\u00fade e Situa\u00e7\u00e3o Demogr\u00e1fica do Qu\u00e9nia apontava para uma taxa de mortalidade materna de 414 mortes por 100.000 nados-vivos. O objectivo das Na\u00e7\u00f5es Unidas \u00e9 147 mortes por 100.000 nados-vivos at\u00e9 2015.<\/p>\n<p>A IPS falou francamente com Evelyn Mutio, enfermeira reformada, que trabalha agora no sentido de proporcionar cuidados de qualidade \u00e0s pessoas de Dandora e de outros locais. A sua cl\u00ednica privada, Casa de Sa\u00fade Mkunga, fundada em 1995, oferece principalmente servi\u00e7os de sa\u00fade reprodutiva \u00e0 comunidade desfavorecida \u2013 a pre\u00e7os mais baixos do que os cobrados em estabelecimentos de sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n<p>IPS: Os \u00faltimos n\u00fameros oficiais relativos \u00e0 mortalidade maternal no Qu\u00e9nia datam de 2003. O pa\u00eds teve algum progresso desde ent\u00e3o?<\/p>\n<p>Evelyn Mutio: A situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o mudou desde 2003. Se mudou, n\u00e3o \u00e9 para melhor, pela simples raz\u00e3o que nem todas as mortes s\u00e3o registadas. H\u00e1 mulheres que v\u00e3o para os grandes hospitais, onde as mortes s\u00e3o registadas, mas o que \u00e9 que acontece com aquelas mulheres que morrem a dar \u00e0 luz em casa?<\/p>\n<p>Ou aquelas nos bairros de lata como este onde, quando me comunicam que uma mulher sofre de complica\u00e7\u00f5es devido \u00e0 gravidez, a comunidade j\u00e1 tentou ajud\u00e1-la, provocando um grande atraso na procura de ajuda profissional.<\/p>\n<p>Quando decidem lev\u00e1-la para o hospital, depois de deliberar qual \u00e9 o hospital que podem pagar, come\u00e7am com a minha cl\u00ednica, mesmo aqui no terreno. Mas nessa altura \u00e9 demasiado tarde, e n\u00e3o posso fazer o que \u00e9 necess\u00e1rio; encaminho ent\u00e3o o caso para o hospital Kenyatta (o principal hospital de refer\u00eancia do Qu\u00e9nia) ou a Maternidade Pumwani (a maior maternidade p\u00fablica do pa\u00eds).<\/p>\n<p>Quando juntam o dinheiro para chegar at\u00e9 l\u00e1, \u00e9 demasiado tarde. Por vezes voltam a falar comigo para me dizer, \u201cQuando l\u00e1 cheg\u00e1mos, disseram-nos que f\u00f4ssemos para a casa mortu\u00e1ria.\u201d<\/p>\n<p>IPS: Ent\u00e3o o que \u00e9 que pensa devia ser feito?<\/p>\n<p>EM: \u00c9 importante aumentar o n\u00famero de estabelecimentos de sa\u00fade, aproxim\u00e1-los das popula\u00e7\u00f5es e reduzir custos ou at\u00e9 oferecer servi\u00e7os gratuitos para que as pessoas possam ter acesso a tratamento profissional nos hospitais. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda pior nas zonas rurais, como no Qu\u00e9nia Oriental, onde tamb\u00e9m trabalho. Morrem mulheres com complica\u00e7\u00f5es derivadas das suas gravidezes no caminho, ao palmilharem quil\u00f3metros para terem acesso a um estabelecimento de sa\u00fade.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 se devia construir mais hospitais e cl\u00ednicas, mas estes estabelecimentos tamb\u00e9m deviam ter os trabalhadores de sa\u00fade profissionais necess\u00e1rios e estarem habilitados a lidar com complica\u00e7\u00f5es, em vez de encaminharem os pacientes para o Hospital Nacional Kenyatta em Nairobi, a agrande dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>IPS: Que outros factores que contribuem para a mortalidade materna a preocupam?<\/p>\n<p>EM: Tamb\u00e9m me preocupam as mortes causadas pelos abortos n\u00e3o seguros. As mulheres e as raparigas podem estar gr\u00e1vidas e as pessoas n\u00e3o sabem disso, porque elas escondem a gravidez por alguma raz\u00e3o. N\u00e3o querem a gravidez e t\u00eam de se livrar dela. Fazem tudo para acabarem com a gravidez.<\/p>\n<p>Por vezes v\u00eam ter connosco e dizem \u201cPreferia morrer a levar esta gravidez at\u00e9 ao fim.\u201d Estes s\u00e3o os casos que nos preocupam mais. Digo isto porque, se uma m\u00e3e n\u00e3o quer aquela gravidez, vai ter silenciosamente com parteiras clandestinas ou algum charlat\u00e3o, ter\u00e1 um aborto pouco seguro e depois aparecem as complica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Logo que descobre que n\u00e3o \u00e9 aquilo que esperava, que est\u00e1 a sangrar muito e pode at\u00e9 morrer, nessa altura grita \u2013 e uma vez que estamos mais pr\u00f3ximos da comunidade, trazem-na aqui a toda a pressa. A\u00ed podemos ministrar o tratamento necess\u00e1rio, parar a hemorragia e salvar a vida da m\u00e3e.<\/p>\n<p>IPS: Qu\u00e3o generalizado \u00e9 este problema?<\/p>\n<p>EM: Recebemos entre 20 a 30 pacientes todos os meses, n\u00famero que baixou ligeiramente. Mas est\u00e3o a fazer-se abortos n\u00e3o seguros, \u00e9 um problema grave que deve ser resolvido porque contribui muito para a mortalidade materna.<\/p>\n<p>IPS: Que desafios existem para resolver este problema?<\/p>\n<p>EM: H\u00e1 t\u00e3o poucos prestadores de servi\u00e7os de sa\u00fade que sabem o que \u00e9 necess\u00e1rio fazer. Portanto precisamos de ter mais trabalhadores de sa\u00fade, em primeiro lugar para consciencializar a comunidade sobre como evitar gravidezes n\u00e3o desejadas. Falta esta informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a informa\u00e7\u00e3o sobre os diferentes tipos de anticoncepcionais tamb\u00e9m \u00e9 crucial. A aceita\u00e7\u00e3o de alguns anticoncepcionais ainda \u00e9 muito baixa. Agora estamos a defender o DIU (dispositivo intra-uterino), que \u00e9 um m\u00e9todo de planeamento familiar a longo prazo t\u00e3o f\u00e1cil de usar, n\u00e3o havendo o risco de o esquecermos como acontece com a p\u00edlula. Mas muitas m\u00e3es n\u00e3o querem experimentar porque acreditam em mitos como aquele que diz que o dispositivo provoca cancro do colo do \u00fatero, ou que pode magoar o beb\u00e9 quando decidirem engravidar.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes s\u00e3o os homens que se queixam que est\u00e3o a ser picados durante as rela\u00e7\u00f5es sexuais e portanto pedem \u00e0s parceiras que removam o dispositivo. As mulheres v\u00eam \u00e0 cl\u00ednica e, entre elas e n\u00f3s, decidimos dizer que o removemos quando na realidade isso n\u00e3o foi feito. Quando regressam a casa, os maridos ficam contentes e v\u00eam dizer-nos \u201cmuito obrigado. Agora n\u00e3o estou a ser picado.\u201d<\/p>\n<p>Assim ficamos a saber que est\u00e1 tudo na sua mente.<\/p>\n<p>IPS: A disponibilidade de anticoncepcionais \u00e9 um problema?<\/p>\n<p>EM: Sim. Por vezes recebemos queixas que todos os m\u00e9todos de planeamento familiar est\u00e3o esgotados; n\u00e3o est\u00e3o dispon\u00edveis nas cl\u00ednicas governamentais. Uma vez que o governo nos fornece alguns desses produtos, quando se esgotam, tamb\u00e9m somos afectados. E depois temos de os comprar para dar aos nossos clientes.<\/p>\n<p>O governo deve assegurar a fiabilidade dos abastecimentos para que as mulheres n\u00e3o sintam a falta de op\u00e7\u00f5es de planeamento familiar e se exponham ao risco de gravidezes n\u00e3o desejadas. \u00c9 esta situa\u00e7\u00e3o que pode levar a abortos n\u00e3o seguros, que representam um ter\u00e7o das mortes maternas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>NAIROBI, 16\/03\/2009 &ndash; Duas cl\u00ednicas p\u00fablicas com falta de pessoal e mal apetrechadas que atendem 600.000 pessoas: \u00e9 em bairros como Dandora que se ganha ou se perde a batalha para reduzir a mortalidade materna. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/03\/africa\/perguntas-e-respostas-disseram-nos-que-fossemos-para-a-casa-mortuaria\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":472,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-4860","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4860","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/472"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4860"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4860\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4860"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4860"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4860"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}