{"id":4871,"date":"2009-03-17T15:22:19","date_gmt":"2009-03-17T15:22:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4871"},"modified":"2009-03-17T15:22:19","modified_gmt":"2009-03-17T15:22:19","slug":"agua-oriente-medio-a-solucao-esta-no-deserto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/03\/mundo\/agua-oriente-medio-a-solucao-esta-no-deserto\/","title":{"rendered":"\u00c1GUA-ORIENTE M\u00c9DIO: A solu\u00e7\u00e3o est\u00e1 no deserto"},"content":{"rendered":"<p>Madri, 17\/03\/2009 &ndash; Muitos preveem escassez de \u00e1gua no Oriente M\u00e9dio, e inclusive alertam sobre guerras por esse recurso. Mas, h\u00e1 muita riqueza h\u00eddrica no deserto, afirma o ge\u00f3grafo tunisino Habib Ayeb. <!--more--> Este professor da Universidade de Paris e da Universidade Norte-americana do Cairo, de 52 anos, \u00e9 autor de v\u00e1rias publica\u00e7\u00f5es, como \u201cConsequ\u00eancias econ\u00f4micas e ecol\u00f3gicas dos conflitos no mundo \u00e1rabe\u201d. Ayeb esteve em Madri para dar uma confer\u00eancia na Casa \u00c1rabe sobre os recursos h\u00eddricos e seu impacto no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>\u201cA disponibilidade de \u00e1gua na regi\u00e3o seria suficiente se \u00e0 \u00e1gua subterr\u00e2nea a das chuvas e dos rios\u201d, afirmou o professor. A quantidade total de \u00e1gua na regi\u00e3o excede os dois mil metros c\u00fabicos por pessoa ao ano, enquanto que a fronteira com a escassez \u00e9 de aproximadamente 500 metros c\u00fabicos\u201d. Ayeb disse que o problema da \u00e1gua no Oriente M\u00e9dio se deve a uma \u201chidropol\u00edtica\u201d que d\u00e1 seu aval ao controle por parte das \u201csuperpot\u00eancias da \u00e1gua\u201d, bem como \u00e0 falta de rigorosos tratados internacionais para fornecer acesso ao recurso.<\/p>\n<p>IPS &#8211; Como explicar o div\u00f3rcio entre a realidade hidrol\u00f3gica no Oriente M\u00e9dio e o que o senhor considera alarmes apocal\u00edpticos?<\/p>\n<p>Habib Ayeb &#8211; Temos de olhar alguns fatos geogr\u00e1ficos e geopol\u00edticos que se sobressaem na regi\u00e3o. Em primeiro lugar, o Oriente M\u00e9dio \u00e9 parte da grande plataforma de deserto que cobre uma \u00e1rea que vai do oceano Atl\u00e2ntico at\u00e9 as fronteiras das montanhas de Taurus e Zagros no Ir\u00e3 e no Iraque.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, a regi\u00e3o importa \u00e1gua do exterior. O rio Nilo toma suas \u00e1guas dos Grandes Lagos Africanos, enquanto o Tigre e o Eufrates nascem na Turquia. Esses rios contribuem com cerca de 160 milh\u00f5es de metros c\u00fabicos por ano, o que \u00e9 muito mais do que as reais necessidades de toda a popula\u00e7\u00e3o do Oriente M\u00e9dio, de 150 milh\u00f5es. H\u00e1 muita \u00e1gua ali.<\/p>\n<p>IPS &#8211; Ent\u00e3o, qual \u00e9 o problema?<\/p>\n<p>HA &#8211; O problema \u00e9 que a distribui\u00e7\u00e3o da \u00e1gua \u00e9 desigual, desequilibrada. Alguns pa\u00edses t\u00eam consider\u00e1veis recursos, como o Iraque, com mais de quatro mil metros c\u00fabicos por pessoa ao ano, comparados com os cerca de 200 metros c\u00fabicos em Gaza, por exemplo, Cisjord\u00e2nia e Israel de fato n\u00e3o possuem muita \u00e1gua. Este grande desequil\u00edbrio explica uma parte desses alertas catastr\u00f3ficos.<\/p>\n<p>IPS &#8211; A \u00e1gua \u00e9 um tema pol\u00edtico?<\/p>\n<p>HA &#8211; N\u00e3o posso ver outro tema mais pol\u00edtico do que a \u00e1gua.<\/p>\n<p>IPS &#8211; O mapa da \u00e1gua na regi\u00e3o pode determinar as fronteiras finais de Israel e do especulado Estado palestino?<\/p>\n<p>HA &#8211; Na realidade, n\u00e3o. Nem Israel nem os palestinos t\u00eam suficiente \u00e1gua pr\u00f3pria. Ambos dependem de recursos externos.<\/p>\n<p>IPS &#8211; Mas alguns dizem que no Congresso Judeu Mundial e na Confer\u00eancia da Ag\u00eancia sionista, ambos encontros realizados na Su\u00ed\u00e7a no final do s\u00e9culo XVIII, foi elaborado um mata de Israel que implicitamente leva o Nilo&#8230;<\/p>\n<p>HA &#8211; Isso tem a ver com o projeto sionista. Entretanto, n\u00e3o creio que se permita a Israel alargar suas fronteiras mais al\u00e9m das que tem hoje.<\/p>\n<p>IPS &#8211; Mas o senhor diz que Israel n\u00e3o tem suficiente \u00e1gua pr\u00f3pria e que depende de recursos externos. Israel poderia ter acesso \u00e0s \u00e1guas do Tigre e do Eufrates?<\/p>\n<p>HA &#8211; N\u00e3o diretamente. Sabemos da pr\u00e1tica de arrendar terras agr\u00edcolas de um pa\u00eds a outro. Muitos fazem isso hoje. A Israel poderia ser permitido arrendar vastas terras agr\u00edcolas pr\u00f3ximas aos dois rios, para cultivar e exportar seus produtos. Isso pode ocorrer neste novo Iraque. Esta pr\u00e1tica de arrendar terras \u00e9 conhecida como o fen\u00f4meno da \u201c\u00e1gua virtual\u201d, isto \u00e9, \u00e1gua \u201ccomprada\u201d de um pa\u00eds por outro na forma de produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola irrigada com recursos h\u00eddricos da na\u00e7\u00e3o que aluga a terra.<\/p>\n<p>IPS &#8211; Ent\u00e3o, o senhor n\u00e3o v\u00ea nenhuma pr\u00f3xima guerra no Oriente M\u00e9dio?<\/p>\n<p>HA &#8211; Na verdade, n\u00e3o. A principal raz\u00e3o destas guerras pela \u00e1gua n\u00e3o ocorrerem \u00e9 que nenhum pa\u00eds tem interesse em lan\u00e7\u00e1-la. Israel, Turquia e Egito, que re\u00fanem os principais recursos de \u00e1gua dispon\u00edveis na regi\u00e3o, n\u00e3o t\u00eam nenhum interesse em provocar guerras que poderiam lev\u00e1-los a qualquer parte. Por outro lado, os \u201cpa\u00edses v\u00edtimas\u201d, como Palestina, Jord\u00e2nia ou Iraque, n\u00e3o t\u00eam os meios para declarar uma guerra contra Israel ou Turquia.<\/p>\n<p>IPS &#8211; Mas h\u00e1 acordos regionais para compartilhar a \u00e1gua&#8230;<\/p>\n<p>HA &#8211; O problema da \u00e1gua no Oriente M\u00e9dio se agravou justamente pela falta de acordos que s\u00e3o plenamente aceitos por todas as partes. H\u00e1 algumas regulamenta\u00e7\u00f5es internacionais, mas n\u00e3o s\u00e3o politicamente vinculantes e s\u00e3o amb\u00edguas. Isto d\u00e1 a cada pa\u00eds o direito de interpret\u00e1-las e us\u00e1-las com acharem mais apropriado aos seus pr\u00f3prios interesses.<\/p>\n<p>Algumas destas regulamenta\u00e7\u00f5es definem um curso de \u00e1gua como um que cruza dois ou mais pa\u00edses e que seja naveg\u00e1vel. A primeira parte desta defini\u00e7\u00e3o \u00e9 clara. A segunda, entretanto, permite todo tipo de interpreta\u00e7\u00e3o e depende de muitos fatores, como a temporada, a embarca\u00e7\u00e3o, os obst\u00e1culos \u00e0 navega\u00e7\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>IPS &#8211; Pode dar exemplos?<\/p>\n<p>HA &#8211; Vejamos o caso da Turquia, que considera que nem o Eufrates nem o Tigre s\u00e3o rios internacionais por n\u00e3o serem naveg\u00e1veis em nenhum de seus cursos. Portanto, a Turquia se sente livre em usar suas \u00e1guas como desejar, e por fim ignora passados acordos com S\u00edria e Iraque. A Turquia \u00e9 militar e economicamente mais forte do que esses dois pa\u00edses e, portanto, pode lidar com acordos provis\u00f3rios para compartilhar a \u00e1gua, mas n\u00e3o com um tratado definitivo. Depois de muitas negocia\u00e7\u00f5es fracassadas, Ancara esteve disposta a assinar um protocolo de tr\u00eas partes em 1987 com S\u00edria e Iraque, no qual se comprometia a \u201cceder-lhes\u201d 500 metros c\u00fabicos de \u00e1gua por segundo de \u201csuas\u201d \u00e1guas do Eufrates.<\/p>\n<p>IPS &#8211; Ent\u00e3o, chegou-se a uma solu\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>HA &#8211; Bem, isto n\u00e3o est\u00e1 funcionando de forma adequada. A Turquia constr\u00f3i grandes represas, como a de Atarturk, iniciada em 1983, e o grande projeto hidrol\u00f3gico na regi\u00e3o de Anatolina, que S\u00edria e Iraque temem que tenham impacto em sua parte das \u00e1guas \u201cturcas\u201d.<\/p>\n<p>Por sua vez, a S\u00edria construiu em 175 a represa de Tabqa nesse rio, um projeto que despertou o perigo de um conflito armado ali e no Iraque. Bagd\u00e1 considerou que a S\u00edria estava roubando parte de sua \u00e1gua, enquanto Damasco dizia que de fato estava cedendo ao Iraque algo de sua pr\u00f3pria parte.<\/p>\n<p>IPS &#8211; Os vizinhos do Iraque podem privar esse pa\u00eds de \u00e1gua?<\/p>\n<p>HA &#8211; Isto de fato j\u00e1 ocorreu em 1991, durante a primeira guerra do Iraque. Sua parte dos recursos h\u00eddricos foi reduzida em 50%. A \u00e1gua sempre foi uma ferramenta pol\u00edtica, econ\u00f4mica e militar. H\u00e1 uma perigosa car\u00eancia de \u201cjusti\u00e7a da \u00e1gua\u201d, em termos de uma justa divis\u00e3o e acesso a ela.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas formas de negar acesso \u00e0 \u00e1gua. Por pre\u00e7o nela \u00e9 uma. Se h\u00e1 cobran\u00e7a pela \u00e1gua, o acesso somente ser\u00e1 permitido a quem puder pagar, sendo negada aos mais vulner\u00e1veis. A falta de justi\u00e7a na \u00e1gua afeta todos os pa\u00edses em desenvolvimento. h\u00e1 uma clara linha de separa\u00e7\u00e3o entre pa\u00edses com excedente de \u00e1gua e os que t\u00eam d\u00e9ficit. Isto coincide com as linhas entre o Norte e o Sul. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Madri, 17\/03\/2009 &ndash; Muitos preveem escassez de \u00e1gua no Oriente M\u00e9dio, e inclusive alertam sobre guerras por esse recurso. 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