{"id":4947,"date":"2009-04-07T14:39:19","date_gmt":"2009-04-07T14:39:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4947"},"modified":"2009-04-07T14:39:19","modified_gmt":"2009-04-07T14:39:19","slug":"reportagem-a-troca-navega-contra-a-crise","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/04\/america-latina\/reportagem-a-troca-navega-contra-a-crise\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: A troca navega contra a crise"},"content":{"rendered":"<p>BUENOS AIRES, 07\/04\/2009 &ndash; (Tierram\u00e9rica).-  O interc\u00e2mbio de bens e servi\u00e7os sem dinheiro cresce ou diminui na Argentina em rela\u00e7\u00e3o inversa \u00e0 prosperidade nacional, mas n\u00e3o naufragou nos mares bravios da economia globalizada.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_4947\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/416_2.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4947\" class=\"size-medium wp-image-4947\" title=\"\u201cProssumidoras\u201d no clube da troca do bairro portenho de Chacarita - Gabriela Cerioli\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/416_2.jpg\" alt=\"\u201cProssumidoras\u201d no clube da troca do bairro portenho de Chacarita - Gabriela Cerioli\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4947\" class=\"wp-caption-text\">\u201cProssumidoras\u201d no clube da troca do bairro portenho de Chacarita - Gabriela Cerioli\/IPS<\/p><\/div>  O antigo sistema de trocas completar\u00e1, em maio, 14 anos de nova vida na Argentina. Depois do auge que alcan\u00e7ou no colapso econ\u00f4mico de 2001, hoje funcionam cerca de 500 \u201cclubes de troca\u201d, que re\u00fanem dezenas de milhares de pessoas em todo o pa\u00eds. J\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o os quase tr\u00eas milh\u00f5es que, em 2002, buscavam ansiosamente o sustento nesse sistema econ\u00f4mico, mas duplicam a quantidade de gente implicada em 2008, afirmam seus defensores. Entretanto, os economistas n\u00e3o preveem um bom futuro para esse m\u00e9todo de interc\u00e2mbio. <\/p>\n<p>O Clube da Troca \u00e9 um espa\u00e7o de interc\u00e2mbio de alimentos caseiros, roupa, material escolar, trabalho de consertos em casa por carpinteiros, pedreiros e eletricistas, objetos de arte, servi\u00e7os m\u00e9dicos e odontol\u00f3gicos, educativos e tur\u00edsticos, entre outros. Os organizadores percebem aumento de 50% na quantidade de participantes desde o ano passado, coincidindo com o in\u00edcio de certa preocupa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica vinculada ao conflito entre o governo e os sindicatos agropecu\u00e1rios por causa de maiores impostos sobre a exporta\u00e7\u00e3o. Por essa aflu\u00eancia, o clube mais antigo do pa\u00eds, criado em 1\u00ba de maio de 1995, em Bernal, no sub\u00farbio sul de Buenos Aires, est\u00e1 se mudando para um local maior.<\/p>\n<p>\u201cA reabertura ser\u00e1 nas pr\u00f3ximas semanas\u201d, anunciou Rub\u00e9n Ravera, um dos fundadores do Clube da Troca, ou Rede Global da Troca (RGT), na Argentina. \u201c\u00c9 recomend\u00e1vel que o n\u00famero de participantes de cada unidade n\u00e3o supere os cem, \u00fanica maneira de estabelecer rela\u00e7\u00f5es face a face com fortalecimento da confian\u00e7a e de outros valores de rela\u00e7\u00e3o entre os membros\u201d, explicou. Ravera acrescentou que \u00e9 dif\u00edcil medir o volume dos interc\u00e2mbios. Por\u00e9m, \u201ccresce lentamente desde 1995. A troca ocorre por meio de acordos telef\u00f4nicos, correio eletr\u00f4nico e olho no olho\u201d, contou.<\/p>\n<p>Para o funcionamento de um mercado de troca \u201cmultirrec\u00edproco\u201d, todos os usu\u00e1rios devem \u201cprossumir\u201d. Isto \u201ctem um efeito formid\u00e1vel sobre a autoestima das pessoas, em especial no caso dos jovens e das donas de casa, que podem estabelecer um valor para habilidades antes n\u00e3o valorizadas\u201d, destacou Ravera. Bel\u00e9n Rodr\u00edguez, uma mulher na faixa dos 30 anos que nunca teve emprego formal, primeiro preparou comidas e reciclou roupas. \u201cEsse trabalho com as m\u00e3os me deu a capacidade para fazer artesanato que hoje troco por outros servi\u00e7os\u201d, contou enquanto era atendida por uma cabeleireira interessada em seus objetos.<\/p>\n<p>\u00c2ngela Mari\u00f1o aprecia \u201cessa contribui\u00e7\u00e3o simples das pessoas que tem ternura. As tortinhas nem sempre iguais, as empanadas com tempero caseiro, uma blusa com algum fio do tecido solto. Nada perfeito, mas tudo abundante\u201d, descreveu. Mas nem tudo \u00e9 t\u00e3o \u201ccaseiro\u201d. Esta prossumidora reconhece que a maior utilidade do Clube da Troca, para ela, foi conhecer um grupo de jovens que a ajudam a manter seu computador atualizado. As pessoas tamb\u00e9m comparecem em fam\u00edlia. Fausto Torres e a sua aparecem uma vez por semana. \u201cO resultado \u00e9 altamente positivo. Levamos pudins, tortas, meia-lua, empanadas, roscas, p\u00e3o doce e p\u00e3es de diversos sabores, que trocamos por uma gama inimagin\u00e1vel de coisas, desde alimentos e bebidas, artigos de limpeza e para casa (l\u00e2mpadas, lanternas, CDs, pilhas, fone de ouvido), roupa, at\u00e9 produtos \u00f3ticos\u201d, contou.<\/p>\n<p>Contudo, o mundo n\u00e3o est\u00e1 muito globalizado para voltar ao primitivismo da troca voltada \u00e0 subsist\u00eancia? \u201cEste sistema tem futuro no mundo atual na medida em que vemos com novos olhos o atraente neg\u00f3cio da associatividade. A troca n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de subsist\u00eancia, nem de se afastar da economia. \u00c9 um complemento para incorporar os exclu\u00eddos do sistema\u201d, afirma Horacio Krell, promotor da Uni\u00e3o de Permutas da Argentina, que impulsiona a troca de bens e servi\u00e7os.<\/p>\n<p>O retorno \u00e0 troca seria poss\u00edvel, segundo Krell, por meio da educa\u00e7\u00e3o, \u201crevalorizando uma cultura do trabalho, que promova um capitalismo sustent\u00e1vel na economia real e n\u00e3o na renda financeira\u201d. Para Ravera, \u201co modelo inclusivo\u201d do Clube da Troca tem \u201cum potencial enorme para desenvolver a economia de pequenas comunidades e conter as crises que se aproximam\u201d. V\u00e1rios economistas consultados, no entanto, consideram o sistema invi\u00e1vel no longo prazo, enquanto o Minist\u00e9rio da Economia n\u00e3o deu resposta a repetidas consultas.<\/p>\n<p>O desenvolvimento sustent\u00e1vel tem a ver com o n\u00edvel de consumo, que \u00e9 muito dif\u00edcil de reduzir, disse o economista e professor da Universidade de Buenos Aires (UBA), Carlos Leyba. \u201cSe o consumo fosse deixado de lado, cresceria o ex\u00e9rcito de desempregados\u201d, afirmou. Leyba, que dirige a equipe de pesquisa do Centro e Estrat\u00e9gias de Estado e Mercado, acredita que analisar a volta da troca \u00e9 entrar no terreno filos\u00f3fico. \u201cSoa como um forte retrocesso, porque ocorre quando a moeda deixa de ter sentido. Em um mundo que avan\u00e7a em fun\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio internacional, com multinacionais que fragmentam a produ\u00e7\u00e3o e fabricam em diferentes pa\u00edses, as compensa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas s\u00e3o imposs\u00edveis sem dinheiro\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>O economista da UBA Carlos Melconian, fundador e diretor da M&#038;S Consultores, foi categ\u00f3rico. \u201cA troca n\u00e3o tem nem espa\u00e7o nem futuro\u201d. O consultor e assessor Roberto Cachanosky, formado pela Universidade Cat\u00f3lica Argentina, aderiu a essa postura. A troca \u201c\u00e9 um mecanismo pr\u00e9-hist\u00f3rico. No caso de um colapso monet\u00e1rio internacional, qualquer tentativa de restabelec\u00ea-la seria transit\u00f3ria\u201d, afirmou. Antonio Brailovsky, economista, historiador e professor universit\u00e1rio, apresentou outra dimens\u00e3o.<\/p>\n<p>\u201cA troca funcionou na Argentina em um momento de emerg\u00eancia. As pessoas aceitam uma economia sem dinheiro ou preferem ser escandalosamente pobres e manejar alguma moeda? O manejo do dinheiro tem a ver com a identidade, \u00e9 um aspecto cultural muito forte\u201d, afirmou. Por isso, \u201ca id\u00e9ia da troca em uma economia de pobres sem dinheiro \u00e9 inst\u00e1vel\u201d, prosseguiu Brailosvky. Em contraste com essa instabilidade, est\u00e3o as redes sociais de microcr\u00e9ditos, acrescentou, concebidas no Banco Grameen, pelo economista de Bangladesh Muhammad Yunus, pr\u00eamio Nobel da Paz de 2006, como um projeto de longo prazo.<\/p>\n<p>Contrariando os progn\u00f3sticos, os clubes n\u00e3o se esvaziaram. E as raz\u00f5es nem sempre s\u00e3o econ\u00f4micas. Ricardo Jord\u00e1n \u00e9 prossumidor h\u00e1 muitos anos. Dessa forma cobre 25% de suas necessidades b\u00e1sicas. Descendente de escoceses, \u00e9 um h\u00e1bil artes\u00e3o, mas sua especialidade atual \u00e9 horta org\u00e2nica e carpintaria. \u201cQuando cheguei ao Clube da Troca havia perdido tudo: meu trabalho, meu amor pr\u00f3prio e minha dignidade. Estava morto. Agora, encontrei vida novamente\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>* Este artigo \u00e9 parte de uma s\u00e9rie produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Alian\u00e7a de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (www.complusalliance.org).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>BUENOS AIRES, 07\/04\/2009 &ndash; (Tierram\u00e9rica).-  O interc\u00e2mbio de bens e servi\u00e7os sem dinheiro cresce ou diminui na Argentina em rela\u00e7\u00e3o inversa \u00e0 prosperidade nacional, mas n\u00e3o naufragou nos mares bravios da economia globalizada. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/04\/america-latina\/reportagem-a-troca-navega-contra-a-crise\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":974,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,5],"tags":[21],"class_list":["post-4947","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4947","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/974"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=4947"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/4947\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=4947"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=4947"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=4947"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}