{"id":4979,"date":"2009-04-16T17:32:50","date_gmt":"2009-04-16T17:32:50","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=4979"},"modified":"2009-04-16T17:32:50","modified_gmt":"2009-04-16T17:32:50","slug":"brasil-a-condenacao-e-refletir-sobre-sua-violencia-machista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/04\/america-latina\/brasil-a-condenacao-e-refletir-sobre-sua-violencia-machista\/","title":{"rendered":"BRASIL: A condena\u00e7\u00e3o \u00e9 refletir sobre sua viol\u00eancia machista"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 16\/04\/2009 &ndash; Cabe discutir sobre \u201co olhar entre dois homens\u201d. Alguns consideram \u201ccoisa de homossexual\u201d, outros uma \u201cprovoca\u00e7\u00e3o\u201d sem lutar.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_4979\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/hombres_violentos_reunidos_SerH_Nova_Iguacu1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-4979\" class=\"size-medium wp-image-4979\" title=\" - Gentileza SerH Nova Igua\u00e7u\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/hombres_violentos_reunidos_SerH_Nova_Iguacu1.jpg\" alt=\" - Gentileza SerH Nova Igua\u00e7u\" width=\"200\" height=\"134\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-4979\" class=\"wp-caption-text\"> - Gentileza SerH Nova Igua\u00e7u<\/p><\/div>  S\u00e3o conceitos de um modelo machista que uma iniciativa do governo brasileiro tenta quebrar, como uma nova ferramenta na luta contra a viol\u00eancia de g\u00eanero. Os homens reunidos integram o grupo de reflex\u00e3o do Servi\u00e7o de Educa\u00e7\u00e3o e Responsabilidade para Homens Autores de Viol\u00eancia de G\u00eanero (SerH), do munic\u00edpio de Nova Igua\u00e7u, no Rio de Janeiro. Trata-se de um projeto-piloto que deve ser ampliado para 78 munic\u00edpios do Pa\u00eds e que representa a primeira vez que como pol\u00edtica p\u00fablica se envolve os homens em uma solu\u00e7\u00e3o social profunda para combater a viol\u00eancia contra a mulher.<\/p>\n<p>A iniciativa responde \u00e0 demanda de organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais como o Instituto Papai, que promove a inclus\u00e3o do homem em novos pap\u00e9is familiares para a igualdade de g\u00eanero. \u201cN\u00e3o basta promover iniciativas como estas se n\u00e3o forem refor\u00e7adas por pol\u00edticas p\u00fablicas\u201d, disse \u00e0 IPS Jorge Lira, codiretor da organiza\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9, precisamente, o contexto dos grupos de reflex\u00e3o criados pela Secret\u00e1ria Especial de Pol\u00edticas para Mulheres, vinculada \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Trata-se de grupos que t\u00eam como objetivo \u201cajudar os homens a questionar valores e id\u00e9ias respons\u00e1veis por atos violentos, sejam f\u00edsicos ou psicol\u00f3gicos, contra a mulher ou familiares\u201d, explicou \u00e0 IPS Fernando Acosta, diretor do SerH e promotor da iniciativa.<\/p>\n<p>Em 2007, um estudo do SerH mostrou que 5.760 mulheres foram agredidas por dia no Brasil e a maioria dos agressores era homem. Em 2001, a Funda\u00e7\u00e3o Perseu Abramo determinou que a cada 15 segundos uma mulher apanha neste pa\u00eds de aproximadamente 190 milh\u00f5es de habitantes, dos quais quase 51% s\u00e3o mulheres. Os grupos de reflex\u00e3o buscam, precisamente, desenvolver \u201cformas alternativas de rela\u00e7\u00e3o capaz de evitar e prevenir atitudes violentas dentro da fam\u00edlia\u201d, disse Acosta. Os agressores s\u00e3o enviados aos centros de reabilita\u00e7\u00e3o pelos juizados de Viol\u00eancia Dom\u00e9stica e Familiar e da Inf\u00e2ncia e da Juventude, como pena alternativa.<\/p>\n<p>\u00c9 como \u201ccondenar\u201d os homens \u00e0 reflex\u00e3o sobre o que os levou a agredir uma mulher. Uma obrigatoriedade que desagrada alguns setores do movimento feminista. \u201c\u00c9 como um tratamento para viciados em drogas. Ningu\u00e9m deveria ser obrigado a submeter-se a um tratamento\u201d, disse \u00e0 IPS Myllena Calasans, assessora do n\u00e3o-governamental Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea). Acosta destacou que os grupos n\u00e3o representam um tratamento, embora, na pr\u00e1tica, tenham efeitos terap\u00eauticos. \u201cN\u00e3o \u00e9 uma terapia, mas levar em conta a psicologia masculina ou subjetividades masculinas \u00e9 fundamental e transversal ao trabalho porque \u00e9 esse modo de pensar dos homens e, sobretudo de agir e sentir, que questionamos nos grupos\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>Construir uma nova masculinidade<\/p>\n<p>Sob a coordena\u00e7\u00e3o de psic\u00f3logos, soci\u00f3logos e assistentes sociais s\u00e3o realizados pain\u00e9is, din\u00e2micas de grupo e reflex\u00f5es que buscam \u201cconstruir uma masculinidade alternativa a essa masculinidade cultural, machista, patriarcal e homof\u00f3bica\u201d, disse Acosta. Como exemplo, citou a entrevista da IPS com um participante, Rog\u00e9rio, que contou ter chorado v\u00e1rias noites ap\u00f3s ser condenado por um juiz por agredir sua irm\u00e3. \u201cSe ele diz isso dentro do grupo, possivelmente alguns ririam dele, fariam alguma piada e seria discriminado por chorar. E n\u00f3s usar\u00edamos justamente esse fato para a reflex\u00e3o coletiva sobre essa id\u00e9ia de que os homens n\u00e3o podem chorar em um momento dif\u00edcil, para que analisassem a situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia que praticaram\u201d, disse Acosta.<\/p>\n<p>Acosta teve a id\u00e9ia dos grupos ap\u00f3s constatar que trabalhar apenas com mulheres n\u00e3o reduzia a viol\u00eancia porque ao se separar o agressor repetia a viol\u00eancia com sua nova companheira, enquanto a agredida buscava uma nova companhia, que tamb\u00e9m costumava ser violenta. Ele tamb\u00e9m concluiu que a maioria dos agressores tem medo das mulheres e que as agridem justamente por isso. \u201c\u00c9 um recurso que os homens usam em todas as situa\u00e7\u00f5es em que se sentem amea\u00e7ados em sua masculinidade, seja por medo das mulheres, seja por estarem impossibilitados de exercer seu papel de provedor, seja por ter alguma dificuldade relacionada com a sexualidade\u201d, explicou o especialista. \u201cQualquer coisa que pode questionar a identidade masculina dominante \u00e9 fator gerador de medo e, em consequ\u00eancia, um fator gerador de viol\u00eancia\u201d, resumiu.<\/p>\n<p>Uma identidade percebida nas reflex\u00f5es dos homens durante a reuni\u00e3o da qual a IPS participou. Rog\u00e9rio destacou que era a primeira vez que \u201cconversava consigo mesmo\u201d e considerou positivas \u201cas estrat\u00e9gias para se conhecer e se soltar mais. Como olhar outros homens, como conversar, como reagir quando outro te agride. Ser\u00e1 bom algu\u00e9m reagir como uma agress\u00e3o quando outro o ofende?\u201d, perguntou Rog\u00e9rio, ao estabelecer os par\u00e2metros de uma nova masculinidade.<\/p>\n<p>Paulo Sergio, pintor de 54 anos que s\u00f3 admite \u201cter dado tapinha\u201d em sua mulher e por isso \u201cter acabado na delegacia\u201d, recordou sua inf\u00e2ncia violenta, com uma m\u00e3e a quem via apenas uma vez por m\u00eas e que quando estavam juntos \u201cme batia cada vez que algu\u00e9m do bairro lhe contava alguma coisa sobre mim\u201d. Trata-se de outro elemento a considerar, segundo Acosta. Aproximadamente, 75% dos agressores foram v\u00edtimas de viol\u00eancia dom\u00e9stica ou social ou testemunharam agress\u00f5es em suas fam\u00edlias. Entre a social, destacou a viol\u00eancia policial, comum contra os jovens pobres brasileiros, mais ainda se forem negros.<\/p>\n<p>Destacou que tudo isto n\u00e3o diminui a responsabilidade do homem, cujo crime cabe \u00e0 policia reprimir e aos tribunais julgar. \u201cNosso papel \u00e9 que os homens assumam sua responsabilidade na viol\u00eancia que cometeram porque ao a assumirem t\u00eam a possibilidade de se recuperar\u201d e interromper o ciclo da viol\u00eancia, explicou Acosta. \u201cN\u00e3o estamos a favor dos homens ou das mulheres, somos a favor, e espero que isso fique muito claro, da igualdade entre homens e mulheres. Estamos contra a viol\u00eancia de g\u00eanero e, principalmente, da viol\u00eancia que os homens praticam historicamente contra as mulheres\u201d, acrescentou. Este esclarecimento busca responder cr\u00edticas das organiza\u00e7\u00f5es de mulheres do Brasil.<\/p>\n<p>Apoio condicional das feministas<\/p>\n<p>Myllena Calasans admitiu que o movimento de mulheres \u201cest\u00e1 muito dividido\u201d sobre esses centros de reabilita\u00e7\u00e3o. Pessoalmente, ap\u00f3ia o envolvimento do homem no processo de mudan\u00e7as, \u201cse n\u00e3o forem retirados recursos nem o foco da quest\u00e3o da mulher\u201d. Um temor \u00e9 que os grupos \u201cretirem recursos\u201d da Secret\u00e1ria de Pol\u00edticas para a Mulher destinados a projetos especificamente para as mulheres, embora essa entidade tenha informado que os US$ 600 mil que custar\u00e3o os centros ser\u00e3o financiados pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. Mas, a maior preocupa\u00e7\u00e3o do coletivo das mulheres \u00e9 que esta nova pena alternativa elimine \u201ca responsabilidade criminal\u201d para o agressor.<\/p>\n<p>Calasans disse que os juizes poderiam decidir mandar os agressores aos grupos e n\u00e3o para a pris\u00e3o, com o argumento de que a agress\u00e3o se deveu a problemas mentais ou ao v\u00edcio de drogas. A lei Maria da Penha, que desde agosto penaliza a viol\u00eancia dom\u00e9stica e familiar contra a mulher, estabelece penas de tr\u00eas meses a tr\u00eas anos pra os autores de les\u00f5es. A assessora do Cfemea recordou que dos 150 mil processos de viol\u00eancia de g\u00eanero aberto com base nessa lei, quase 42 mil foram causas penais e apenas 19.800 causas c\u00edveis. Tamb\u00e9m foram decretadas 88.972 medidas de \u201cprote\u00e7\u00e3o\u201d, entre as quais se destacam o afastamento do agressor de sua v\u00edtima ou a que determina sua sa\u00edda da casa.<\/p>\n<p>\u201cPara alguns juizes, os homens agridem as mulheres por estarem desempregados, b\u00eabados ou drogados, quando, na realidade, o movimento feminista entende que a viol\u00eancia \u00e9 pr\u00f3pria da cultura patriarcal\u201d, destaco Calasans. O diretor do SerH compartilha dessa id\u00e9ia. \u201cA base da viol\u00eancia contra a mulher tem um modelo masculino patriarcal e de virilidade, que parte do abuso de poder que temos. Com base nesse modelo, praticamos a viol\u00eancia, especialmente contra as mulheres porque culturalmente acreditamos que somos superiores a elas\u201d, analisou Acosta.<\/p>\n<p>O trabalho nos grupos \u00e9 fazer o homem perceber que como tal sofre de uma coisa chamada seletividade emocional, isto \u00e9, que sentimentos como amor, tristeza, medo ou perda s\u00e3o social e culturalmente proibidos para os homens\u2019, explicou o especialista. \u201cTentamos estimular os homens a entrarem em contato com esses sentimentos e a partir deles questionar as outras emo\u00e7\u00f5es que s\u00e3o socialmente permitidas aos homens como viol\u00eancia, agress\u00f5es, raiva, Ir\u00e3 ou \u00f3dio\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Acosta afirmou que quando se detecta que algum dos integrantes dos grupos pode voltar a agredir por ter um transtorno emocional grave, como um quadro de bipolaridade, \u00e9 enviado a um servi\u00e7o de sa\u00fade mental. Mas, destacou que apenas 6% dos homens desses grupos \u201csofrem algum transtorno grave mental ou emocional\u201d.<\/p>\n<p>Agredidas tamb\u00e9m t\u00eam seus centros<\/p>\n<p>Cec\u00edlia Soares, superintendente dos Direitos da Mulher do governo do Rio de Janeiro, ap\u00f3ia o projeto com algumas condi\u00e7\u00f5es, como estar integrado dentro da rede de servi\u00e7os de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 mulher. \u201cN\u00e3o basta criar servi\u00e7os para que os homens deixem de agredir se as mulheres n\u00e3o tiverem espa\u00e7o para trabalhar sobre como sair do papel de v\u00edtima. A origem n\u00e3o est\u00e1 em uma rea\u00e7\u00e3o doente desse casal, mas em um lugar criado socialmente pelas mulheres, em que n\u00e3o veem outra possibilidade de ser mulher que n\u00e3o seja sendo submissas\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Para romper esse padr\u00e3o, a mulher precisa de ajuda tamb\u00e9m. Essa \u00e9 justamente a fun\u00e7\u00e3o dos Centros de Aten\u00e7\u00e3o \u00e0 Mulher que ap\u00f3ia as v\u00edtimas de viol\u00eancia com assessoria jur\u00eddica, psicol\u00f3gica e cultural, de forma individual ou em grupo. Guiadas por uma orientadora, elas exp\u00f5em seus casos, desabafam, ouvem as outras, elogiam a que nesse dia veio \u201cmais bonita\u201d, riem ou abra\u00e7am a que chora. Seu tema \u00e9 comum: o homem que as maltrata. Maria, uma delas, contou \u00e0 IPS uma hist\u00f3ria parecida com tantas outras.<\/p>\n<p>Finalmente conseguiu acabar com 20 anos de casamento com um homem que a lei atual qualifica como autor de \u201cviol\u00eancia psicol\u00f3gica\u201d. Ele \u201cme humilhava, insultava, me chamava de prostituta, denegria minha imagem, me chamava de velha gorda e dizia que deveria beijar seus p\u00e9s por ter se casado comigo\u201d, tudo isso aos gritos e chantagem, recordou Maria. Como muitas outras, continuava casada porque \u201cnos educam para ser o suporte do lar, perdoar e suportar\u201d, e foi seu filho que lhe de for\u00e7a necess\u00e1ria quando, aos 17 anos, come\u00e7ou a repetir com ela o modelo agressivo de seu pai.<\/p>\n<p>\u201cSe n\u00e3o lhe ensinasse que isso era errado seria igual seu pai ao ter uma companheira, e quis mostrar que uma mulher deve ser respeitada em toda circunstancia\u201d, afirmou emocionada. Essa \u00e9 uma forma de quebrar o padr\u00e3o masculino imperante que tema pr\u00f3pria mulher e impedir que o modelo se reproduza nas novas gera\u00e7\u00f5es, disse Soares. Um modelo t\u00e3o arraigado que \u00e9 dif\u00edcil derrubar durante uma gera\u00e7\u00e3o,mas que come\u00e7a a desmoronar com o apoio da lei Maria da Penha. Seu nome homenageia uma brasileira que ficou paral\u00edtica aos sofrer tentativa de assassinato por parte de seu marido e inclui entre suas recomenda\u00e7\u00f5es criar os \u201ccentros de reabilita\u00e7\u00e3o e educa\u00e7\u00e3o para homens autores da viol\u00eancia\u201d, como os contemplados pelo SerH.<\/p>\n<p>Myllena Calasans destacou que o novo contexto jur\u00eddico estabelece que a agress\u00e3o de g\u00eanero \u00e9 uma viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos e tipifica com delitos penais com pris\u00e3o outras viol\u00eancias distintas da f\u00edsica ou psicol\u00f3gica, com a patrimonial, que limita a autosufici\u00eancia econ\u00f4mica da mulher com medidas bancarias, trabalhistas ou de moradia. Segundo Acosta, s\u00e3o medidas que ajudam n\u00e3o apenas a \u201cinterromper a viol\u00eancia\u201d contra as mulheres, mas, tamb\u00e9m, a viol\u00eancia entre vizinhos, colegas de trabalho ou no transito.<\/p>\n<p>Trata-se de um \u00eaxito que se manifesta em mais de 90% dos homens que s\u00e3o obrigados a participar de 20 reuni\u00f5es de grupo durante cinco meses, mais um m\u00eas pr\u00e9vio de entrevistas. \u201cVai se construindo com eles uma nova identidade masculina n\u00e3o violenta, um compromisso de n\u00e3o viol\u00eancia ativa e a favor de uma cultura de paz\u201d, concluiu Acosta. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 16\/04\/2009 &ndash; Cabe discutir sobre \u201co olhar entre dois homens\u201d. 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