{"id":5012,"date":"2009-04-24T16:12:09","date_gmt":"2009-04-24T16:12:09","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5012"},"modified":"2009-04-24T16:12:09","modified_gmt":"2009-04-24T16:12:09","slug":"mulheres-argentina-adolescentes-ni-ni","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/04\/america-latina\/mulheres-argentina-adolescentes-ni-ni\/","title":{"rendered":"MULHERES-ARGENTINA: Adolescentes \u201cni-ni\u201d"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 24\/04\/2009 &ndash; Com apenas 17 anos, C\u00edntia \u00e9 m\u00e3e de tr\u00eas filhos e est\u00e1 tentando retomar os estudos que abandonou v\u00e1rias vezes por causa engravidar e pelas doen\u00e7as das crian\u00e7as.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_5012\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/adolescente_argentina_Malena_BystrowiczIPS1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5012\" class=\"size-medium wp-image-5012\" title=\" - Malena Bystrowicz\/IPS.\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/adolescente_argentina_Malena_BystrowiczIPS1.jpg\" alt=\" - Malena Bystrowicz\/IPS.\" width=\"200\" height=\"133\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5012\" class=\"wp-caption-text\"> - Malena Bystrowicz\/IPS.<\/p><\/div>  Mas o diretor \u00e9 c\u00e9ptico. Acredita que quando come\u00e7ar o frio a jovem voltar\u00e1 a desertar. C\u00edntia* faz parte de um batalh\u00e3o de adolescentes da Argentina que n\u00e3o estudam nem trabalham. Tampouco procuram emprego. Os soci\u00f3logos as chamam de \u201cni-ni\u201d. S\u00e3o cerca de 7 S\u00e3o cerca de 756 mil jovens entre 15 e 24 anos que est\u00e3o inativos, dos quais 73% s\u00e3o mulheres.<\/p>\n<p>\u201cOs homens desta faixa et\u00e1ria deixam a escola e costuma ser carne da delinq\u00fc\u00eancia. Mas as meninas ficam em casa, por isso, apesar de maioria, est\u00e3o invis\u00edveis\u201d, explicou \u00e0 IPS o soci\u00f3logo Guillermo P\u00e9rez, coautor da pesquisa \u201cA quest\u00e3o social dos jovens\u2019, realizada atrav\u00e9s da Universidade Torcuato Di Tella. Na Argentina h\u00e1 6,4 milh\u00f5es de jovens entre 15 e 24 anos. Desse total, mais de 2,7 milh\u00f5es s\u00e3o vulner\u00e1veis por sua condi\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-econ\u00f4mica ou pela situa\u00e7\u00e3o familiar. Neste grupo est\u00e3o os jovens ni-ni e o grosso do setor \u00e9 formado por meninas que quase n\u00e3o se deixam ver.<\/p>\n<p>Para P\u00e9rez, a maioria destas jovens prov\u00e9m \u201cde lares monoparentais, de chefia feminina\u201d. Quando a m\u00e3e abandona as tarefas dom\u00e9sticas para se dedicar ao mercado de trabalho, as jovens devem deixar a escola e assumir a organiza\u00e7\u00e3o da casa e o cuidado dos irm\u00e3os menores. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 quest\u00f5es pessoais que precipitam o abandono dos estudos. O fator que mais se repete \u00e9 a gravidez. Nesse contexto, a deser\u00e7\u00e3o escolar, que no caso dos homens os empurra para a busca de um emprego prec\u00e1rio, no das mulheres as restringe ao \u00e2mbito dom\u00e9stico e as condena a um limbo de inatividade e resigna\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>P\u00e9rez afirma que as pol\u00edticas p\u00fablicas para jovens, que procuram fornecer apoio na forma de bolsas ou capacita\u00e7\u00e3o, n\u00e3o chegam a este setor especifico. \u201cAqui falta prevenir a gravidez e evitar a deser\u00e7\u00e3o escolar\u201d, destacou. Uma vez que deixam a escola \u00e9 dif\u00edcil atra\u00ed-las novamente. \u201cN\u00e3o tem muita vontade\u201d, disse. Em conversa com a IPS, Lourdes Dorronsoro, trabalhadora social da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental Cimientos, confirmou que as adolescentes abandonam a escola ap\u00f3s terem o primeiro filho, ou porque devem cuidar dos irm\u00e3os menores quando os pais conseguem uma \u201cchanga\u201d (trabalho tempor\u00e1rio).<\/p>\n<p>Cimientos desenvolve programas para a inclus\u00e3o atrav\u00e9s de bolsas e apoio escolar. Sua tarefa atinge 33 mil adolescentes de todo o pa\u00eds. Um dos programas onde trabalha Dorronsoro \u00e9 o de Reten\u00e7\u00e3o e Reingresso, que atua com 200 jovens que deixaram os estudos ou que t\u00eam mais de 70 faltas. Este programa acontece em quatro escolas da localidade de Berazategui, um dos sub\u00farbios de Buenos Aires. Dos 200 jovens envolvidos, metade \u00e9 de mulheres, e destas 17 abandonaram em 2007 devido ao nascimento do primeiro filho, informa a assistente. Apenas duas conseguiram voltar \u00e0 escola este ano ap\u00f3s serem m\u00e3es.<\/p>\n<p>Nas pesquisas de P\u00e9rez, feitas junto com Mariel Romero, se manifesta entre as jovens um d\u00e9ficit de desejo. \u201cN\u00e3o h\u00e1 projeto. N\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a. N\u00e3o h\u00e1 futuro. O presente \u00e9 t\u00e3o adverso, com tantas necessidades n\u00e3o satisfeitas, que n\u00e3o h\u00e1 lugar para o desejo ou uma meta a ser alcan\u00e7ada\u201d, diz o informe.<\/p>\n<p>C\u00edntia conta sua hist\u00f3ria<\/p>\n<p>Muito desse des\u00e2nimo se observa por tr\u00e1s do sorriso ing\u00eanuo de C\u00edntia durante a entrevista \u00e0 IPS. A jovem ficou gr\u00e1vida pela primeira vez aos 13 anos, mas n\u00e3o se deu conta disso at\u00e9 os s\u00e9timo m\u00eas. \u201cEu s\u00f3 tinha fome e sono, e minha m\u00e3e dizia que estava gorda, que precisava ir a uma nutricionista\u201d, contou rindo. No m\u00eas do nascimento de sua menina, o pai, um adolescente de 18 anos, foi embora. \u201cQuis me bater\u201d, recordou, mas n\u00e3o esclareceu se o jovem a deixou, ou se ela ou seus pais o puseram para fora. Ele n\u00e3o voltou a ter contato com a filha, que vai completar quatro anos. \u201cSei que teve outros dois filhos e agora foi preso por roubo\u201d, contou C\u00edntia.<\/p>\n<p>De acordo com a investiga\u00e7\u00e3o, que se baseia em centenas de entrevistas, as jovens \u201cvivem em um matriarcado. S\u00e3o quase todas mulheres abandonadas\u201d. Por sua vez, os homens n\u00e3o inclu\u00edram os filhos no desenho da fam\u00edlia. \u201cOs filhos ficam como propriedade das mulheres\u201d, conclui o estudo. Apesar de ter 13 anos e um beb\u00ea, C\u00edntia tentou voltar a estudar, mas a menina ficava doente seguidamente, foi preciso intern\u00e1-la, e a jovem perdeu a regularidade. Mais tarde voltou ter um companheiro, desta vez um homem 20 anos mais velho. Voltou a estudar, mas engravidou novamente. Outra menina nasceu e C\u00edntia abandonou novamente a escola.<\/p>\n<p>Houve uma terceira gravidez, outro filho e novas tentativas de retomar os estudos. Mas, com se fosse um jogo em que C\u00edntia apenas volta o pi\u00e3o nas casas. O diretor da escola noturna, que n\u00e3o quis dar seu nome, disse \u00e0 IPS que as jovens com filhos abandonam uma vez e outra vez. Ele permite que levem os filhos para a sala de aula, que brinquem nos corredores, e nunca as expulsa. V\u00e3o embora sozinhas. Com o tempo retornam porque a necessidade pode mais. A expectativa de C\u00edntia, por exemplo, \u00e9 terminar os estudos e conseguir trabalho.<\/p>\n<p>Ela se ilude com um emprego na limpeza de alguma das mais conhecidas redes de fast food, um recurso muito \u00e0 m\u00e3o para jovens de setores populares. Mas at\u00e9 isso parece uma ambi\u00e7\u00e3o desmedida. \u201cSem o diploma e com tr\u00eas filhos \u00e9 imposs\u00edvel que me chamem. Se tivesse apenas um seria mais f\u00e1cil\u201d, admitiu. Para a trabalhadora social, \u201ca vis\u00e3o de futuro destas jovens \u00e9 dif\u00edcil\u201d, sejam mulheres ou homens. \u201cDizem que v\u00e3o \u00e0 escola para ser algu\u00e9m, mas n\u00f3s trabalhamos muito para entenderem que j\u00e1 s\u00e3o algu\u00e9m e que a escola lhes d\u00e1 uma ferramenta para constru\u00edrem um futuro\u201d, afirmou Lourdes Dorronsoro.<\/p>\n<p>C\u00edntia buscou assist\u00eancia em diversos \u00f3rg\u00e3os do Estado, mas n\u00e3o teve sorte. Depois de ter sua primeira filha foi com a m\u00e3e pedir \u00e0 ginecologista que lhe colocasse um dispositivo intra-uterino (DIU) para n\u00e3o engravidar de novo. Mas a m\u00e9dica a desaconselhou porque era muito crian\u00e7a, e recomendou p\u00edlulas anticoncepcionais, menos seguras. Ap\u00f3s a segunda gravidez a jovem voltou \u00e0 m\u00e9dica e recebeu a mesma resposta. \u201cReceitavam p\u00edlulas que s\u00e3o usadas quando se est\u00e1 amamentando, mas n\u00e3o s\u00e3o efetivas\u201d, disse. Apenas depois do terceiro filho a m\u00e9dica concordou em prescrever o DIU, finalmente colocado.<\/p>\n<p>Com seu atual companheiro est\u00e1 desempregado, C\u00edntia tentou conseguir um subsidio para a fam\u00edlia, mas foi negado por ela \u201cser menor de idade\u201d. Buscou entre os programas para jovens com empreendimentos e n\u00e3o havia mais vagas. Apenas recebe leite gratuito para as crian\u00e7as e um b\u00f4nus para trocar por alimentos. Sua filha mais velha vai ao jardim de inf\u00e2ncia, mas a segunda, com quase dois anos e problemas de sa\u00fade, est\u00e1 na lista de espera. Apesar de sua curta idade, a menina est\u00e1 sob tratamento psicol\u00f3gico \u2013 conta a m\u00e3e \u2013 por ter presenciado reiteradas cenas de viol\u00eancia entre adultos da fam\u00edlia. A filha mais velha n\u00e3o sofreu o impacto porque \u201ccada vez que isso ocorria eu a mandava que fosse correndo para a casa da minha m\u00e3e\u201d, disse a jovem. Mas a segunda \u201cchora e tem de tomar rem\u00e9dio, n\u00e3o lembro qual, mas acho que \u00e9 calmante\u201d.<\/p>\n<p>Na pesquisa feita por P\u00e9rez, as adolescentes v\u00e3o \u00e0s entrevistas com as crian\u00e7as. Um grupo de psicopedagogas as entret\u00e9m para que as m\u00e3es possam completar os requerimentos da pesquisa. De maneira informal, as profissionais comentam que as crian\u00e7as \u201capresentam um importante atraso de maturidade\u201d. Em seu discurso \u201celas adiam o fracasso para mais adiante\u201d, concluiu P\u00e9rez. \u201cDizem que se sentiriam fracassar se seus filhos ficarem mal. Mas o certo \u00e9 que por tr\u00e1s de cada uma destas 600 mil jovens h\u00e1 pelo menos 1,5 filho que vai arrastar sua exclus\u00e3o colaborando para que n\u00e3o se rompa o c\u00edrculo da pobreza\u201d, acrescentou. IPS\/Envolverde<\/p>\n<p>* A entrevistada pediu para n\u00e3o citar seu sobrenome.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 24\/04\/2009 &ndash; Com apenas 17 anos, C\u00edntia \u00e9 m\u00e3e de tr\u00eas filhos e est\u00e1 tentando retomar os estudos que abandonou v\u00e1rias vezes por causa engravidar e pelas doen\u00e7as das crian\u00e7as. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/04\/america-latina\/mulheres-argentina-adolescentes-ni-ni\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[20,21,24],"class_list":["post-5012","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-educacion","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5012","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5012"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5012\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5012"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5012"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5012"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}