{"id":5096,"date":"2009-05-19T12:01:40","date_gmt":"2009-05-19T12:01:40","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5096"},"modified":"2009-05-19T12:01:40","modified_gmt":"2009-05-19T12:01:40","slug":"direitos-africa-do-sul-khumbula-ekhaya-lembra-te-de-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/05\/africa\/direitos-africa-do-sul-khumbula-ekhaya-lembra-te-de-casa\/","title":{"rendered":"DIREITOS-\u00c1FRICA DO SUL: Khumbula Ekhaya (Lembra-te de Casa)"},"content":{"rendered":"<p>CIDADE DO CABO, 19\/05\/2009 &ndash; Ap\u00f3s a inaugura\u00e7\u00e3o do novo presidente sul africano, Jacob Zuma, num espect\u00e1culo dispendioso que custar\u00e1 9 milh\u00f5es de dol\u00e1res, a maior parte dos l\u00edderes do pa\u00eds provavelmente ainda estar\u00e1 a recuperar da festa quando o sol nascer no dia 11 de Maio. <!--more--> Todos os olhos se ir\u00e3o concentrar no parlamento, onde o novo vice-presidente e os novos ministros tomar\u00e3o posse. <\/p>\n<p>\u00c9 pouco prov\u00e1vel que haja qualquer comemora\u00e7\u00e3o oficial para recordar o dia em que a viol\u00eancia xen\u00f3foba eclodiu no bairro de Alexandra h\u00e1 um ano, espalhando-se depois pelo pa\u00eds, causando muitas mortes ou viola\u00e7\u00f5es, e deixando 150.000 pessoas desalojadas e na pobreza. <\/p>\n<p>O porta-voz da presid\u00eancia, Thabo Masebe, afirmou \u201cN\u00e3o h\u00e1 nada planeado para comemorar esses eventos. N\u00e3o vai haver nenhum anivers\u00e1rio \u2013 j\u00e1 ultrapass\u00e1mos o que aconteceu\u201d. <\/p>\n<p>Segundo os peritos, uma vez que muito pouco foi feito para levar os autores dos crimes \u00e0 justi\u00e7a, \u201cser\u00e3o inevit\u00e1veis os ataques no futuro\u201d. <\/p>\n<p>\u201cA Autoridade Nacional do Minist\u00e9rio P\u00fablico (NPA) conseguiu algumas condena\u00e7\u00f5es, mas pouco se fez para encontrar os respons\u00e1veis da viol\u00eancia. Algumas das pessoas que foram detidas viram as acusa\u00e7\u00f5es contra elas retiradas devido \u00e0 press\u00e3o exercida pelas comunidades\u201d, disse a Dr\u00aa. Loren Landau, directora do Programa de Estudos sobre Migra\u00e7\u00f5es For\u00e7adas da Universidade de Witwatersrand. <\/p>\n<p>Landau disse \u00e0 IPS que o fim da \u201cviol\u00eancia de massas assinalou o fim do interesse pol\u00edtico na xenofobia\u201d e acrescentou que a aten\u00e7\u00e3o dos meios de comunica\u00e7\u00e3o social se virara para as elei\u00e7\u00f5es nacionais e para a crise econ\u00f3mica mundial. <\/p>\n<p>Enfrentando a sombria possibilidade de competir por recursos escassos em comunidades onde o Servi\u00e7o de Estat\u00edsticas da \u00c1frica do Sul apontou uma taxa de desemprego que ultrapassa os 23%, encontram-se 460 v\u00edtimas da viol\u00eancia do ano passado, que teimosamente t\u00eam recusado sair do \u00faltimo campo para pessoas desalojadas no pa\u00eds \u2013 t\u00eam de enfrentar a p\u00e9ssima situa\u00e7\u00e3o de terem de competir por recursos reduzidos.<\/p>\n<p>Os residentes do campo Blue Waters, situado numa remota praia a cerca de 20 quil\u00f3metros do centro da Cidade do Cabo, est\u00e3o em vias de despejo pelas autoridades no dia 26 de Maio. Entretanto, continuam a viver em tendas oferecidas pelo Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas Para os Refugiados (ACNUR), rasgadas pelas tempestades do \u00faltimo inverno, remendadas com peda\u00e7os de pl\u00e1stico e contraplacado apanhados do lixo, que pouca protec\u00e7\u00e3o v\u00e3o oferecer contra as chuvas deste ano. Os longos corpos de cobras mortas est\u00e3o espalhados numa sec\u00e7\u00e3o da cerca que rodeia o campo como prova dos protestos dos residentes sobre a exist\u00eancia destes r\u00e9pteis.<\/p>\n<p>\u201cDepois de lhes ter oferecido repetidamente oportunidades para mudarem para outro local, as autoridades camar\u00e1rias v\u00e3o obter uma ordem de despejo. Esperamos que as pessoas abandonem o local voluntariamente antes dessa altura\u201d, declarou Pieter Cronje, director de comunica\u00e7\u00f5es da Cidade do Cabo. <\/p>\n<p>Cronje explicou que 19.500 dos 20.000 desalojados na prov\u00edncia do Cabo Ocidental no ano passado \u201ctinham sido realojados ou tinham regressado aos seus pa\u00edses\u201d e que agora chegara a altura do o campo encerrar. <\/p>\n<p>Os residentes do campo dizem que est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil, visto que t\u00eam receio da reintegra\u00e7\u00e3o nas comunidades locais, n\u00e3o podem pode pagar rendas mais elevadas em comunidades um pouco mais ricas, mas tamb\u00e9m n\u00e3o se habilitam a repatria\u00e7\u00e3o de regresso aos seus pa\u00edses de origem. <\/p>\n<p>Abdullah Mohamed explicou que veio para o campo depois de ter apanhado dois tiros na perna durante os ataques do ano passado. Inscreveu-se nas listas do ACNUR, pedindo para ser repatriado para a Som\u00e1lia, mas foi-lhe dito que, de acordo com a pol\u00edtica daquela organiza\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel repatriar pessoas para pa\u00edses onde h\u00e1 guerra. <\/p>\n<p>Outro residente do campo, Jean-Claude Manoyi, origin\u00e1rio de Kivu, na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo, tamb\u00e9m quer ser repatriado. Acrescenta que o Alto Comissariado das Na\u00e7\u00f5es Unidas Para os Refugiados lhe disse que n\u00e3o o podia ajudar porque j\u00e1 tinha obtido o estatuto de refugiado antes dos ataques e, isso, tem o direito de viver em qualquer parte da \u00c1frica do Sul. <\/p>\n<p>Manoyi explicou que fugiu do bairro de lata Samora Machel em Maio passado, depois de ter sido esfaqueado na m\u00e3o no in\u00edcio dos ataques. Foi ent\u00e3o enviado, com a mulher e os filhos, nessa altura com um ano e tr\u00eas anos de idade, para o distante campo de Silverstroom em Atlantis, localizado a cerca de 60 quil\u00f3metros da Cidade do Cabo. <\/p>\n<p>Tr\u00eas meses mais tarde, depois do governo ter encerrado o campo de Silverstroom, Manoyi e a sua fam\u00edlia foram enviados para o campo de Harmony Park, na regi\u00e3o de Strand, nos arrabaldes da cidade. <\/p>\n<p>O governo ent\u00e3o decidiu encerrar o campo de Harmony Park e, mais uma vez, enviou Manoyi e a sua fam\u00edlia, juntamente com centenas de outras pessoas desalojados, para o \u00faltimo campo da cidade, o campo Blue, em Strandfontein. <\/p>\n<p>\u201cAt\u00e9 agora, ningu\u00e9m nos explicou porque \u00e9 que nos t\u00eam andado a mudar para todo o lado sem nos apresentarem uma solu\u00e7\u00e3o para o nosso problema\u201d, disse Manoyi. <\/p>\n<p>Manoyi est\u00e1 muito descontente em Blue Waters. O local \u00e9 normalmente usado como lugar de f\u00e9rias durante o ver\u00e3o mas, \u00e0 medida que se aproxima o inverno chuvoso da Cidade do Cabo, a vida passada em tendas no campo Blue Waters \u00e9 tudo menos f\u00e9rias.<\/p>\n<p>\u201cAs condi\u00e7\u00f5es s\u00e3o muito m\u00e1s aqui. Est\u00e1 frio, n\u00e3o h\u00e1 electricidade e o governo deixou de autorizar a entrada de todas as pessoas que nos traziam comida\u201d, explicou Manoyi. \u201cA cidade est\u00e1 a tentar congelar-nos e a expulsar-nos daqui\u201d. <\/p>\n<p>Agnes Saidi tamb\u00e9m continua a viver em Blue Waters, apesar duma tentativa anterior de reintegra\u00e7\u00e3o na comunidade. Saidi deu uma confer\u00eancia de imprensa em Outubro de 2008, onde informou que o seu marido e o filho de 17 anos tinham sido alvejados quando regressaram \u00e0 sua barraca no bairro de lata Samora Machel de onde j\u00e1 tinham fugido.<\/p>\n<p>Apresentando uma das balas como prova, Saidi referiu na altura que \u201ca comunidade disse ao meu marido \u201ckhumbula ekhaya\u201d (\u201clembra-te da tua casa\u201d na l\u00edngua isiXhosa local), e tamb\u00e9m \u201couve o que n\u00f3s te dizemos\u2019\u201d. <\/p>\n<p>Saidi n\u00e3o tem inten\u00e7\u00e3o de regressar \u00e0 sua cidade natal com os cinco filhos. Diz que escapou da guerra na Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo e que est\u00e1 decidida a ficar no campo, apesar das p\u00e9ssimas condi\u00e7\u00f5es e da ordem de despejo que se avizinha. <\/p>\n<p>\u201cJ\u00e1 lhes disse que a minha tenda est\u00e1 estragada, mas o funcion\u00e1rio da c\u00e2mara disse \u2019se est\u00e1 cansada deste lugar, regresse \u00e0 sua comunidade, porque n\u00e3o temos outra tenda\u201d, explicou Saidi. <\/p>\n<p>A recente decis\u00e3o do governo de conceder vistos de trabalho gratuitos de 90 dias para os zimbabueanos vai proporcionar algum al\u00edvio, visto que isso ir\u00e1 libertar pessoal governamental que pode agora prestar aten\u00e7\u00e3o a pessoas de outros pa\u00edses que procuram asilo, segundo Nkosikhulule Nyembezi, do grupo de direitos humanos Black Sash. <\/p>\n<p>Mas o governo tamb\u00e9m tem de criar um f\u00f3rum com a sociedade civil \u201cpara promover a reintegra\u00e7\u00e3o dos desalojados em comunidades seguras\u201d, explicou Nyembezi. <\/p>\n<p>Andile Mngxitama, autor e analista pol\u00edtico, diz que o governo precisa de tratar melhor os negros sul africanos se tiver inten\u00e7\u00f5es s\u00e9rias de acabar com os ataques contra outros negros provenientes de outras partes de \u00c1frica. <\/p>\n<p>Mngxitama disse que a viol\u00eancia que eclodiu em Maio do ano passado n\u00e3o se deveu \u201cao medo dos estrangeiros. Tratou-se de um ataque de \u00f3dio contra si pr\u00f3prio, aprendido no passado e copiado devido \u00e0 forma como o governo trata os africanos negros todos os dias\u201d. <\/p>\n<p>Entretanto, Laundau adverte que \u201cnos pr\u00f3ximos anos ir\u00e1 haver menos casas, menos empregos e menos dinheiro para distribui\u00e7\u00e3o\u201d. Landau explica que \u201cexpectativas elevadas e uma capacidade reduzida de resposta ir\u00e3o provavelmente conduzir ao desapontamento \u2013 s\u00e3o quase inevit\u00e1veis os ataques no futuro\u201d.<\/p>\n<p>O governo sul africano n\u00e3o d\u00e1 sinais de estar atento a estas opini\u00f5es. A seguran\u00e7a dos cinco milh\u00f5es de migrantes (segundo estimativas do Projecto de Migra\u00e7\u00f5es da \u00c1frica do Sul) que procuraram ref\u00fagio no pa\u00eds devido \u00e0 guerra ou persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica &#8211; ou simplesmente \u00e0 procura de trabalho &#8211; n\u00e3o \u00e9 uma prioridade imediata do novo governo. <\/p>\n<p>\u201cO que foi que fizemos ao vosso governo para sermos castigados desta maneira? Desligar a electricidade e suspender a comida, sem encontrar uma solu\u00e7\u00e3o para a nossa situa\u00e7\u00e3o?\u201d, pergunta Manoyi. <\/p>\n<p>Talvez exista uma cren\u00e7a enganosa nas palavras da constitui\u00e7\u00e3o que o novo governo \u00e9 obrigado a defender: \u201cN\u00f3s, o povo da \u00c1frica do Sul, reconhecemos as injusti\u00e7as do passado e honramos aqueles que sofreram pela justi\u00e7a e liberdade no nosso pa\u00eds, respeitamos aqueles que trabalharam para construir e desenvolver o nosso pa\u00eds e acreditamos que a \u00c1frica do Sul pertence a todos aqueles que nela vivem, unidos na nossa diversidade\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CIDADE DO CABO, 19\/05\/2009 &ndash; Ap\u00f3s a inaugura\u00e7\u00e3o do novo presidente sul africano, Jacob Zuma, num espect\u00e1culo dispendioso que custar\u00e1 9 milh\u00f5es de dol\u00e1res, a maior parte dos l\u00edderes do pa\u00eds provavelmente ainda estar\u00e1 a recuperar da festa quando o sol nascer no dia 11 de Maio. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/05\/africa\/direitos-africa-do-sul-khumbula-ekhaya-lembra-te-de-casa\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":664,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-5096","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5096","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/664"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5096"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5096\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5096"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5096"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5096"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}