{"id":5127,"date":"2009-05-27T11:30:58","date_gmt":"2009-05-27T11:30:58","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5127"},"modified":"2009-05-27T11:30:58","modified_gmt":"2009-05-27T11:30:58","slug":"liberia-mulheres-nas-zonas-rurais-enfrentam-o-vazio-da-fome-a-sua-maneira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/05\/africa\/liberia-mulheres-nas-zonas-rurais-enfrentam-o-vazio-da-fome-a-sua-maneira\/","title":{"rendered":"LIB\u00c9RIA: Mulheres nas Zonas Rurais Enfrentam o Vazio da Fome \u00e0 Sua Maneira"},"content":{"rendered":"<p>ZWEDRU, Lib\u00e9ria, 27\/05\/2009 &ndash; Tr\u00eas mulheres com roupas garridas caminham lentamente em redor das \u00e1rvores derrubadas e queimadas, espalhadas ao acaso na clareira enegrecida, cada uma delas com conchas de carac\u00f3is cheias de sementes de arroz local que v\u00e3o ser plantadas no solo f\u00e9rtil. <!--more--> As mulheres pertencem a uma cooperativa local, o Secretariado para o Desenvolvimento de Mulheres e Crian\u00e7as (WOCDES), e levantam-se cedo para uma caminhada de 5 quil\u00f3metros por uma estrada de terra batida que as leva \u00e0s suas terras perto de Zwedru, no Distrito de Grand Gedeh, na vasta regi\u00e3o florestal liberiana, na fronteira com a Costa do Marfim.<\/p>\n<p>Passam o dia a fazer trabalho manual duro, dobradas, a cavar o solo com pequenas p\u00e1s. Plantam sementes em tr\u00eas hectares de terra, sob um forte sol tropical, interrompendo o trabalho s\u00f3 para comerem uma simples refei\u00e7\u00e3o de arroz e folha de mandioca. <\/p>\n<p>Jeanet Gay \u00e9 uma dessas agricultoras. Trata-se de uma m\u00e3e de 35 anos que fugiu dos combates da guerra civil em direc\u00e7\u00e3o a Monr\u00f3via, capital da Lib\u00e9ria, e cujo marido foi assassinado por mil\u00edcias na principal ponte da cidade. A m\u00e3e, pai e sobrinhas foram todas mortas em casa. Nenhuma das suas companheiras de trabalho tem maridos que as sustentem, ou aos filhos.<\/p>\n<p>A cultura de arroz nas terras montanhosas onde estas mulheres trabalham vai demorar seis meses a crescer antes de ser colhida, e pelo menos 40 por cento da colheita poder\u00e1 perder-se devido aos p\u00e1ssaros, marmotas e outros animais daninhos. Entretanto, as terras pantanosas mais baixas, que s\u00e3o irrigadas naturalmente, est\u00e3o reservadas para a introdu\u00e7\u00e3o de um hectare de semente reprodutora de arroz chamada Nerica.<\/p>\n<p>A Nerica, uma abreviatura da express\u00e3o \u2018Novo Arroz para \u00c1frica\u2019, \u00e9 uma esp\u00e9cie h\u00edbrida asi\u00e1tico-africana que est\u00e1 a ser intensamente promovida pelo Minist\u00e9rio da Agricultura da Lib\u00e9ria devido ao seu curto per\u00edodo de crescimento (tr\u00eas meses) e que, segundo um estudo da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Agricultura e Alimenta\u00e7\u00e3o (FAO), conseguiu um aumento de produ\u00e7\u00e3o de 25 por cento por compara\u00e7\u00e3o a outras estirpes n\u00e3o-h\u00edbridas. <\/p>\n<p>As duas explora\u00e7\u00f5es comerciais de arroz da Lib\u00e9ria, incluindo uma com 17.000 hectares no f\u00e9rtil Distrito de Lofa, que conta com o apoio da L\u00edbia no valor de 30 milh\u00f5es de dol\u00e1res, est\u00e3o bem colocadas para oferecer a marca Nerica, tendo a capacidade financeira para repor as sementes de duas em duas colheitas, ter acesso a maquinaria eficiente, fertilizantes, sistemas de irriga\u00e7\u00e3o e de transporte. <\/p>\n<p>Trinta quilos de sementes reprodutoras de Nerica foram recentemente doados ao WOCDES pela sec\u00e7\u00e3o local da Ac\u00e7\u00e3o Alem\u00e3 pela Agricultura, institui\u00e7\u00e3o de caridade e desenvolvimento internacional, e ser\u00e3o plantadas nas pr\u00f3ximas duas semanas. <\/p>\n<p>A Nerica est\u00e1 a ser promovida como ant\u00eddoto contra o penoso \u2018vazio da fome\u2019 neste pa\u00eds da \u00c1frica Ocidental, uma realidade que se faz sentir durante a esta\u00e7\u00e3o chuvosa, desde Abril at\u00e9 Julho. \u00c9 nesta altura que os 75 por cento da popula\u00e7\u00e3o rural da Lib\u00e9ria, que vivem da agricultura de subsist\u00eancia, come\u00e7am a esgotar as suas reservas alimentares antes das novas colheitas estarem prontas. <\/p>\n<p>\u201cIsto representa um sonho para mim\u201d, disse a fundadora do WOCDES, Betty Doh, referindo-se \u00e0s actividades da organiza\u00e7\u00e3o no terreno da fam\u00edlia de 275 hectares. Apesar das leis da Lib\u00e9ria pro\u00edbirem as mulheres de herdarem terra, os irm\u00e3os de Doh, que herdaram a propriedade depois da morte do pai, encorajaram sem reservas a sua iniciativa agr\u00edcola. <\/p>\n<p>\u201cSabemos que existem necessidades alimentares. Especialmente entre as mulheres. Temos de ajud\u00e1-las\u201d, explicou Doh. \u201cAlgumas delas est\u00e3o a tentar encontrar algo que as possa ajudar. Os maridos desapareceram \u2013 morreram durante a guerra ou foram-se embora \u2013 e os filhos n\u00e3o t\u00eam apoio de ningu\u00e9m. Estas mulheres debatem-se com muitos problemas\u201d. <\/p>\n<p>Doh \u00e9 oriunda de Zwedru mas a sua carreira profissional decorreu no Minist\u00e9rio dos Neg\u00f3cios Estrangeiros em Monr\u00f3via, durante a guerra civil que devastou o pa\u00eds e que durou d\u00e9cadas. \u201cRegressei brevemente em 2003 s\u00f3 para ver \u2013 e vi muita terra vazia e muitas casas abandonadas\u201d, conta com tristeza. <\/p>\n<p>Contudo, para os agricultores de subsist\u00eancia como Jeanet Gay, a Nerica poder\u00e1 n\u00e3o oferecer uma solu\u00e7\u00e3o r\u00e1pida para o \u2018vazio da fome\u2019, podendo at\u00e9 p\u00f4r em perigo a sua sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cPara conseguirem bons resultados, os agricultores t\u00eam de ter f\u00e1cil acesso aos fertilizantes, pesticidas e servi\u00e7os de extens\u00e3o, que n\u00e3o s\u00e3o acess\u00edveis \u00e0 grande maioria\u201d explicou a GRAIN, organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental que promove o desenvolvimento sustent\u00e1vel e o uso da biodiversidade agr\u00edcola com base nos conhecimentos locais. \u201cTalvez a maior preocupa\u00e7\u00e3o com a Nerica \u00e9 o facto de estar a ser promovida como parte de um esfor\u00e7o alargado no sentido de expandir o agroneg\u00f3cio em \u00c1frica, que amea\u00e7a eliminar a verdadeira base da soberania alimentar africana, ou seja, os pequenos agricultores e os seus sistemas de semea\u00e7\u00e3o locais\u201d. <\/p>\n<p>No Distrito de Grand Gedeh, o WOCDES, organiza\u00e7\u00e3o a que pertence Betty Doh, assim como a Associa\u00e7\u00e3o de Desenvolvimento das Mulheres da Regi\u00e3o Sudeste (SEWODA) e o projecto das Mulheres Rurais de Grand Gedeh, s\u00e3o algumas das iniciativas de coopera\u00e7\u00e3o agr\u00edcola promovidas por mulheres que esperam fazer o salto da agricultura de subsist\u00eancia para um sistema de pequenos neg\u00f3cios agr\u00edcolas rent\u00e1veis. <\/p>\n<p>Mas ainda h\u00e1 um longo caminho a percorrer. Num pa\u00eds pobre, onde o desemprego ronda os 85 por cento, todos andam \u00e0 procura de fundos. Doh financiou ela pr\u00f3pria a aquisi\u00e7\u00e3o das sementes para a propriedade, mas ainda lhe faltam m\u00e1quinas, fertilizantes e pesticidas para poder cultivar a sua colheita de arroz com efic\u00e1cia. N\u00e3o tem a certeza se vai receber outro lote de sementes Nerica para as terras baixas, especialmente depois das que recebeu terem acabado. <\/p>\n<p>Para os agricultores de subsist\u00eancia habituais, existe a amea\u00e7a de que o ciclo anual de colheitas e fome ir\u00e1 continuar, o que pode confin\u00e1-los a toda uma vida de trabalho incessante para satisfazer as suas necessidades b\u00e1sicas. <\/p>\n<p>\u201cQuando regressei, chorava todos os dias depois de ter visto Zwedru destru\u00edda, e sentia-me sem for\u00e7as\u201d, recorda Jeanet Gay. \u201cO meu marido, m\u00e3e, pai e irm\u00e3os desapareceram. Mas adaptei-me passado algum tempo e nunca mais parti\u201d. <\/p>\n<p>\u201cQuero ganhar algum dinheiro e tomar conta dos meus filhos. Depois do trabalho, tento esquecer, vou para a cama e, no dia seguinte, sinto-me bem\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ZWEDRU, Lib\u00e9ria, 27\/05\/2009 &ndash; Tr\u00eas mulheres com roupas garridas caminham lentamente em redor das \u00e1rvores derrubadas e queimadas, espalhadas ao acaso na clareira enegrecida, cada uma delas com conchas de carac\u00f3is cheias de sementes de arroz local que v\u00e3o ser plantadas no solo f\u00e9rtil. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/05\/africa\/liberia-mulheres-nas-zonas-rurais-enfrentam-o-vazio-da-fome-a-sua-maneira\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":779,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-5127","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5127","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/779"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5127"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5127\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5127"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5127"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5127"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}