{"id":5137,"date":"2009-06-01T11:10:15","date_gmt":"2009-06-01T11:10:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5137"},"modified":"2009-06-01T11:10:15","modified_gmt":"2009-06-01T11:10:15","slug":"economia-china-em-africa-exploracao-sul-sul","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/06\/africa\/economia-china-em-africa-exploracao-sul-sul\/","title":{"rendered":"ECONOMIA: China em \u00c1frica \u2013 Explora\u00e7\u00e3o Sul-Sul?"},"content":{"rendered":"<p>WINDHOEK, 01\/06\/2009 &ndash; \u00c9 domingo, por volta das cinco horas da tarde, quando o carpinteiro Thomas Haimbodi deixa o trabalho. Est\u00e1 \u00e0 espera da carrinha que o vai levar, juntamente com os colegas, do local de constru\u00e7\u00e3o \u2013 o pr\u00e9dio de escrit\u00f3rios do novo Minist\u00e9rio da Terra e Reintegra\u00e7\u00e3o em Windhoek \u2013 para Katutura, cidade dormit\u00f3rio nos arredores da capital da Nam\u00edbia. <!--more--> \u201cTrabalho nove horas por dia, sete dias por semana\u201d, disse Haimbodi. \u201cNem todos n\u00f3s fazemos isso, mas eu preciso de trabalhar horas extraordin\u00e1rias\u201d. Os empregadores chineses encorajam essas horas de trabalho terr\u00edveis. \u201cEle oferece um acordo informal que \u00e9 um pouco mais do que o sal\u00e1rio normal\u201d. No caso de Haimbodi, \u201cnormal\u201d s\u00e3o 10 dol\u00e1res por dia. <\/p>\n<p>A maioria ganha muito menos do que isso, mas a chocante taxa de desemprego da Nam\u00edbia, rondando os 40 por cento, torna dif\u00edcil dizer n\u00e3o a qualquer tipo de trabalho. <\/p>\n<p>O empregador de Haimbodi, a China Nanjing International, tem orgulho em oferecer \u201cConstru\u00e7\u00e3o de Qualidade para o Desenvolvimento Nacional\u201d, segundo um grande cartaz no local de constru\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Contudo, as companhias de constru\u00e7\u00e3o namibianas locais levaram a Nanjing International a tribunal devido \u00e0 adjudica\u00e7\u00e3o de um contrato governamental de 8.7 milh\u00f5es de dol\u00e1res que acreditam ter sido concedido incorrectamente \u2013 n\u00e3o tendo, por\u00e9m, conseguido obter quaisquer resultados positivos. <\/p>\n<p>\u201cAs companhias estatais chinesas (CECs) eliminam as companhias locais porque desrespeitam a legisla\u00e7\u00e3o laboral\u201d, explicou Herbert Jauch, do Instituto dos Recursos e Pesquisa Laboral da Nam\u00edbia (LaRRI). Ele \u00e9 co-editor de um estudo sobre os investimentos chineses em \u00c1frica e o seu impacto no mercado de trabalho, estudo esse que vai ser publicado brevemente.<\/p>\n<p>O estudo revela que os efeitos laterais da pol\u00edtica de \u201cOlhar para o Oriente\u201d, que muitos pa\u00edses africanos adoptaram, \u00e9 alarmante. <\/p>\n<p>Dez pa\u00edses da \u00c1frica Austral participaram no estudo, elaborado pela Rede de Investiga\u00e7\u00e3o sobre a M\u00e3o-de-Obra Africana (ALRN). \u201cNo caso da Nam\u00edbia, descobrimos que, em 2008, a maior parte das companhias de constru\u00e7\u00e3o chinesas pagava 35 c\u00eantimos do d\u00f3lar por hora aos trabalhadores, enquanto que o sal\u00e1rio minimo nacional neste sector \u00e9 um d\u00f3lar\u201d. <\/p>\n<p>Segundo Jauch, quase 70 por cento dos grandes projectos de constru\u00e7\u00e3o s\u00e3o controlados por companhias chinesas. \u201cFrequentemente n\u00e3o t\u00eam a documenta\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria, como os certificados de igualdade de trabalho, mas continuam a receber valiosos contratos\u201d. <\/p>\n<p>Os investigadores africanos lamentam a perda de empregos que resulta do uso de um grande n\u00famero de trabalhadores chineses em projectos de constru\u00e7\u00e3o no continente, assim como a concorr\u00eancia causada pela importa\u00e7\u00e3o de produtos baratos \u201cnas lojas chinesas\u201d. <\/p>\n<p>Os investigadores explicam que a \u201cChina deu import\u00e2ncia aos benef\u00edcios pol\u00edticos e econ\u00f3micos e apresentou-se como parceiro econ\u00f3mico atraente e amigo pol\u00edtico\u201d. <\/p>\n<p>\u201cPara os governos africanos, isto representou numa alternativa ao chamado \u2018consenso de Washington\u2019, sendo agora intitulado \u2018consenso de Beijing\u2019, isto \u00e9, apoio sem interfer\u00eancia em assuntos internos\u201d.<\/p>\n<p>O estudo revela que os investimentos chineses em \u00c1frica est\u00e3o concentrados em sectores como energia, minera\u00e7\u00e3o, manufactura, constru\u00e7\u00e3o, retalho e sector financeiro. Os principais alvos s\u00e3o a \u00c1frica do Sul, Egipto, Nig\u00e9ria e Gana. <\/p>\n<p>A China \u00e9 o terceiro maior parceiro comercial do continente, depois dos Estados Unidos e da Fran\u00e7a. Por\u00e9m, \u00c1frica absorve s\u00f3 tr\u00eas por cento do investimento externo directo chin\u00eas. <\/p>\n<p>No terreno, os investimentos chineses t\u00eam causado problemas. <\/p>\n<p>\u201cExiste um padr\u00e3o de pr\u00e1ticas laborais injustas, falta de cumprimento dos regulamentos locais, viola\u00e7\u00e3o de conven\u00e7\u00f5es internacionais, viola\u00e7\u00f5es de pr\u00e1ticas banc\u00e1rias e regulamentos cambiais, sal\u00e1rios baixos e uma completa aus\u00eancia de benef\u00edcios e de contratos\u201d, disse Jauch \u00e0 IPS. <\/p>\n<p>A China oferece incentivos atraentes aos governos de forma a conseguir que os mesmos abram as portas ao investimento. Por exemplo, o volume do com\u00e9rcio entre a Nam\u00edbia e a China \u00e9 de 400 milh\u00f5es de dol\u00e1res mas, acima deste montante, o Presidente chin\u00eas, Hu Jintao, concedeu um empr\u00e9stimo de 100 milh\u00f5es de dol\u00e1res ao pa\u00eds, e ainda uma linha de cr\u00e9dito no valor de 72 milh\u00f5es de d\u00f3lares.<\/p>\n<p>Em troca dessa ajuda destinada ao desenvolvimento, explica Jauch, o governo chin\u00eas tem f\u00e1cil acesso aos mercados africanos \u2013 algo que precisa agora mais do que nunca. <\/p>\n<p>&quot;A situa\u00e7\u00e3o de desemprego na China, exacerbada pela crise do cr\u00e9dito, resulta no envio, pelo governo china, de um grande n\u00famero de trabalhadores para o estrangeiro\u201d, explica Jauch. \u201cEstes trabalhadores normalmente ganham mais que os seus cong\u00e9neres africanos\u201d. <\/p>\n<p>O estudo sobre o caso namibiano menciona rumores persistentes de prisoneiros chineses que s\u00e3o transferidos para trabalharem em projectos em \u00c1frica. <\/p>\n<p>O propriet\u00e1rio de uma companhia de constru\u00e7\u00e3o, que fala Oshiwambo, confirmou esta situa\u00e7\u00e3o \u00e0 IPS. \u201cTemos dificuldade em obter empregos do governo, ao passo que os chineses usam barcos para transportarem contentores cheios de prisoneiros para trabalharem em projectos p\u00fablicos\u201d. <\/p>\n<p>No local onde Haimbodi trabalha, em Windhoek, existem 15 capatazes, todos chineses. \u201cA comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 um grande problema\u201d, queixa-se Haimbodi. \u201c\u00c9 uma mistura de ingl\u00eas mal falado e gestos. Claro que, quando nos insultam na sua pr\u00f3pria l\u00edngua, percebemos a mensagem\u201d. <\/p>\n<p>Haimbodi e os colegas queixam-se dos baixos sal\u00e1rios, da aus\u00eancia de sindicaliza\u00e7\u00e3o, de rela\u00e7\u00f5es laborais tensas e da falta de vestu\u00e1rio protector adequado. \u201cOlhem para os p\u00e9s deles\u201d, diz Haimbodi quando se refere aos colegas. \u201cUsam sand\u00e1lias abertas\u201d. <\/p>\n<p>Hou Xue Cheng \u00e9 dono de uma loja na cidade chinesa localizada na zona industrial de Windhoek, onde vende legumes produzidos na sua explora\u00e7\u00e3o agr\u00edcola situada fora da cidade. Segundo ele, os seus 20 trabalhadores namibianos ganham perto de 50 dol\u00e1res por m\u00eas. \u201cN\u00e3o h\u00e1 qualquer problema, est\u00e3o contentes\u201d, insiste. <\/p>\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o namibiana n\u00e3o contempla um sal\u00e1rio m\u00ednimo. <\/p>\n<p>Hou n\u00e3o concede contratos. \u201cFrequentemente, os trabalhadores roubam e isso \u00e9 um grande problema. Tive de contratar seguran\u00e7as. Se as pessoas tiverem contratos, podem apresentar queixa ao comiss\u00e1rio do trabalho. Eu n\u00e3o quero isso. Se algu\u00e9m roubar, \u00e9 despedido. \u00c9 t\u00e3o simples quanto isso\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m dos legumas, a loja de Hou vende de tudo, desde produtos para cabelo at\u00e9 bebidas alco\u00f3licas \u2013 todos os produtos com r\u00f3tulos em canton\u00eas e cuidadosamente acondicionados em filas de prateleiras. <\/p>\n<p>Este propriet\u00e1rio acredita que os namibianos n\u00e3o s\u00e3o muito produtivos. \u201cV\u00e3o cedo para casa no fim de semana mas n\u00f3s ficamos aqui, sete dias por semana at\u00e9 as oito da noite. \u00c9 necess\u00e1rio porque as pessoas trabalham durante a semana e querem fazer compras no fim de semana\u201d. <\/p>\n<p>Jauch contesta estas opini\u00f5es acerca da produtividade. \u201cUm estudo do Banco Mundial de 2007 mostra que os trabalhadores namibianos est\u00e3o bem colocados a este respeito na \u00c1frica Sub-Saariana\u201d. <\/p>\n<p>O facto de os produtos e servi\u00e7os chineses terem virtualmente acesso ilimitado aos mercados africanos \u00e9 uma \u201ccontradi\u00e7\u00e3o\u201d, se se tomar em considera\u00e7\u00e3o as dif\u00edceis negocia\u00e7\u00f5es referentes a um acordo de parceria econ\u00f3mica (EPA) com a Uni\u00e3o Europeia, sustente Jauch. <\/p>\n<p>\u201cAquilo que est\u00e1 a ser promovido como com\u00e9rcio sul-sul s\u00e3o, de facto, pr\u00e1ticas altamente exploradoras. Os chineses t\u00eam a oportunidade de jogar este jogo a seu favor\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>WINDHOEK, 01\/06\/2009 &ndash; \u00c9 domingo, por volta das cinco horas da tarde, quando o carpinteiro Thomas Haimbodi deixa o trabalho. 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