{"id":5173,"date":"2009-06-09T13:48:55","date_gmt":"2009-06-09T13:48:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5173"},"modified":"2009-06-09T13:48:55","modified_gmt":"2009-06-09T13:48:55","slug":"reportagem-favela-substitui-muro-por-caminhos-ecologicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/06\/america-latina\/reportagem-favela-substitui-muro-por-caminhos-ecologicos\/","title":{"rendered":"REPORTAGEM: Favela substitui muro por caminhos ecol\u00f3gicos"},"content":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, 09\/06\/2009 &ndash; (Tierram\u00e9rica). A maior favela do Rio de Janeiro conseguiu frear a constru\u00e7\u00e3o de uma criticada muralha em troca de corredores ecol\u00f3gicos e recreativos entre esse assentamento e a floresta carioca.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_5173\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/425_construyendo_-eco_sendero_f.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5173\" class=\"size-medium wp-image-5173\" title=\"Come\u00e7am as obras dos ecocaminhos na Rocinha. - Fabiana Frayssinet\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/425_construyendo_-eco_sendero_f.jpg\" alt=\"Come\u00e7am as obras dos ecocaminhos na Rocinha. - Fabiana Frayssinet\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5173\" class=\"wp-caption-text\">Come\u00e7am as obras dos ecocaminhos na Rocinha. - Fabiana Frayssinet\/IPS<\/p><\/div>  Representantes da favela da Rocinha e do governo do Rio de Janeiro chegaram a acordo para substituir por caminhos ecol\u00f3gicos, parques de recrea\u00e7\u00e3o e muros baixos o pared\u00e3o que se tentava construir para conter a expans\u00e3o desta favela rumo \u00e0 floresta. A solu\u00e7\u00e3o pode ser estendida a outras favelas depois da pol\u00eamica levantada pela iniciativa original de muralhas, considerada uma tentativa de apartheid entre ricos e pobres desta cidade. Para chegar ao ponto mais alto da Rocinha, onde uma empresa come\u00e7a a construir os limites ecol\u00f3gicos, \u00e9 preciso ir de moto-t\u00e1xi, o transporte mais apto para circular nos estreitos e sinuosos caminhos destas comunidades.<\/p>\n<p>Quando os portugueses ocuparam estas terras, nos morros cariocas, como ao longo dos outros 16 Estados do leste do pa\u00eds, crescia a Mata Atl\u00e2ntica, um dos biomas de maior diversidade biol\u00f3gica do planeta. Hoje sobrevive apenas 7% de sua cobertura original. No cume da Rocinha, os barracos precariamente suspensos sobre o barranco, entre uma vegeta\u00e7\u00e3o ainda abundante, marcam o limite at\u00e9 onde cresceu, cortando e queimando \u00e1rvores, esta comunidade de aproximadamente 200 mil habitantes, uma das maiores favelas da Am\u00e9rica Latina. <\/p>\n<p>Com o objetivo declarado de frear esse desmatamento e evitar constru\u00e7\u00f5es em \u00e1reas de risco de desmoronamento, o governo do Estado do Rio de Janeiro, havia proposto a constru\u00e7\u00e3o de 15 quil\u00f4metros de muros de tr\u00eas metros de altura, em 14 favelas cariocas. Mas o projeto, que come\u00e7ou a ser concretizado com um pared\u00e3o de a\u00e7o e concreto na favela Santa Marta, despertou muita ira. O muro \u00e9 \u201cuma met\u00e1fora ofensiva que agride os moradores das favelas\u201d, disse ao Terram\u00e9rica Silvia Ramos, coordenadora do Centro de Estudos de Seguran\u00e7a e Cidadania (Cesc). Trata-se de \u201cuma esp\u00e9cie de jaula\u201d, descreveu o t\u00e9cnico em inform\u00e1tica Nadson Ribeiro, morador no morro Santa Marta. E suas grades s\u00e3o a pol\u00edcia que \u201cvigia o lugar constantemente\u201d, da parte baixa e do pared\u00e3o, l\u00e1 em cima, descreveu.<\/p>\n<p>Essa imagem se torna realidade na Rocinha.<\/p>\n<p>Enquanto um impressionante deslocamento policial destr\u00f3i nas \u00e1reas baixas os postos do com\u00e9rcio informal, no alto, entre as \u00e1rvores, agem os traficantes. A essa fuga estrat\u00e9gica, entre a espessa vegeta\u00e7\u00e3o, muitos atribuem a verdadeira raz\u00e3o de ser dos muros: cercar o tr\u00e1fico de drogas. O presidente da Empresa de Obras P\u00fablicas, \u00cdcaro Moreno, recha\u00e7ou a compara\u00e7\u00e3o com o apartheid. \u201cO limite era virtual e agora \u00e9 f\u00edsico. O que o Estado fez foi dizer \u2018se atravessar ou romper estar\u00e1 infringindo\u2019 o patrim\u00f4nio p\u00fablico\u201d, disse a t\u00edtulo de exemplo. Mas os moradores da Rocinha disseram n\u00e3o aos \u201cecolimites\u201d. Todo mundo \u201c\u00e9 separatista\u201d, disse em uma entrevista o presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Moradores da Rocinha, Antonio Ferreira de Melo. <\/p>\n<p>A mobiliza\u00e7\u00e3o desta comunidade, e da Federa\u00e7\u00e3o de Favelas do Rio de Janeiro, estabeleceu ao menos uma tr\u00e9gua. O governo aceitou a proposta da Rocinha de substituir os muros por uma combina\u00e7\u00e3o de trechos de trilhas ecol\u00f3gicas, com \u00e1reas de descanso para as pessoas que se deslocam com dificuldade, pistas para patins e bicicletas e pra\u00e7as com jogos infantis, alternados com trechos de muros de apenas 90 cent\u00edmetros de altura. Os pared\u00f5es altos somente ser\u00e3o erguidos em \u00e1reas com risco de deslizamento. A Associa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m prop\u00f4s colocar guardas florestais da comunidade para fiscalizar o respeito aos limites estabelecidos. <\/p>\n<p>Ocimar Santos, editor de conte\u00fado do site oficial da Rocinha, est\u00e1 satisfeito com a solu\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00e3o interromper\u00e1 o direito de ir e vir e o parque ecol\u00f3gico beneficiar\u00e1 a comunidade\u201d, afirmou. Em sua opini\u00e3o, a comunidade sabe que seu crescimento desordenado acarreta problemas, como a inefici\u00eancia de saneamento e da coleta de lixo. Mas a id\u00e9ia do muro \u201cn\u00e3o \u00e9 um s\u00edmbolo bom em parte alguma do mundo\u201d, acrescentou. Para o governador do Rio de Janeiro, S\u00e9rgio Cabral, os muros buscam \u201cproteger\u201d as comunidades, que em troca recebem do Estado benef\u00edcios como saneamento b\u00e1sico, educa\u00e7\u00e3o e urbaniza\u00e7\u00e3o. \u00c9 uma forma de esses investimentos, \u201cao longo do tempo, n\u00e3o se perderem com a expans\u00e3o descontrolada da comunidade\u201d, disse o governador, do Partido do Movimento Democr\u00e1tico Brasileiro, aliado do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. <\/p>\n<p>A d\u00favida \u00e9 se o acordo alcan\u00e7ado na Rocinha se estender\u00e1 \u00e0s demais favelas. As rea\u00e7\u00f5es ultrapassaram fronteiras. O jurista \u00c1lvaro Tirado Mej\u00edz, do Comit\u00ea de Direitos Econ\u00f4micos, Sociais e Culturais das Na\u00e7\u00f5es Unidas, questionou a \u201cdiscrimina\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica\u201d dos muros. Luisa, moradora da Rocinha, sintetiza o caso \u00e0 sua maneira: \u201cO muro n\u00e3o \u00e9 para separar \u00e1rvores, \u00e9 para separar os pobres\u201d, disse a mulher, nada convencida quanto aos caminhos ecol\u00f3gicos. \u201cAfirmam que \u00e9 um parque, mas l\u00e1 embaixo \u2013 na cidade de classe m\u00e9dia e alta \u2013 os parques ecol\u00f3gicos n\u00e3o s\u00e3o grades\u201d, ressaltou Luisa. <\/p>\n<p>A alarmante perda de Mata Atl\u00e2ntica contribuiu para a id\u00e9ia do muro, que havia sido proposta em outros governos. O Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atl\u00e2ntica, elaborado pela Funda\u00e7\u00e3o SOS Mata Atl\u00e2ntica e pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) revelou, no m\u00eas passado, que o Estado do Rio de Janeiro perdeu 176.714 hectares deste bioma desde 1985. Segundo o estudo, a taxa anual de desmatamento quase duplicou nos \u00faltimos tr\u00eas anos. Hoje, o Rio possui 18% das florestas que tinha. <\/p>\n<p>Os inc\u00eandios, a expans\u00e3o urbana e a ocupa\u00e7\u00e3o humana s\u00e3o as principais causas do desmatamento no Rio de Janeiro, disse ao Terram\u00e9rica a diretora da SOS Mata Atl\u00e2ntica, M\u00e1rcia Hirota. Mas a Funda\u00e7\u00e3o n\u00e3o acredita que a \u201cpress\u00e3o sobre a vegeta\u00e7\u00e3o nativa\u201d seja exclusiva das favelas. Tamb\u00e9m existe nos condom\u00ednios e casas de luxo, nos hot\u00e9is e pousadas, bem como em \u201coutros tipos de ocupa\u00e7\u00e3o que promovem a supress\u00e3o da cobertura nativa\u201d, afirmou M\u00e1rcia.<\/p>\n<p>Um estudo do municipal Instituto Pereira Passos mostra que metade das 750 favelas da cidade, nas quais vivem 1,5 milh\u00e3o de pessoas, duplicaram seu tamanho entre 1999 e 2004. Apertada entre as montanhas e o mar, a cidade e suas favelas, e tamb\u00e9m suas mans\u00f5es e seus bairros de classe m\u00e9dia, crescem em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 selva. M\u00e1rcia Hirota acredita que \u00e9 preciso conscientizar as pessoas \u201cque vivem nas \u00e1reas urbanas\u201d sobre a \u201cimport\u00e2ncia de proteger a floresta nativa\u201d. Al\u00e9m disso, \u00e9 preciso planejar a expans\u00e3o urbana e estabelecer um \u201ccontrole sistem\u00e1tico do poder p\u00fablico com a participa\u00e7\u00e3o da sociedade\u201d, acrescentou. Para Ramos, do Cesc, sem criar \u201cuma cultura ambiental\u201d de nada servir\u00e1 o muro.<\/p>\n<p>Muitos governos cariocas tentaram sem sucesso reflorestar as ladeiras das favelas, mesmo incluindo sua popula\u00e7\u00e3o na tarefa. H\u00e1 outros problemas dif\u00edceis. O Brasil tem d\u00e9ficit de oito milh\u00f5es de moradias, que afeta sobretudo tr\u00eas Estados do sudeste: Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e Minas Gerais. \u201cQuando o governo decide construir um muro \u00e9 porque n\u00e3o quer investir, por exemplo, em casas populares\u201d, disse ao Terram\u00e9rica o deputado estadual Marcelo Freixo, do opositor Partido Socialismo e Liberdade. Freixo acredita que o muro \u201c\u00e9 um verdadeiro absurdo\u201d, pelo qual, \u201cuma vez mais, o governo diz que as favelas s\u00e3o um problema\u201d. Seu prop\u00f3sito \u00e9 \u201ccontrolar as comunidades pobres\u201d e exibir esse controle \u00e0 \u201czona sul\u201d da cidade, onde vivem as classes m\u00e9dia e alta, para as quais, definitivamente, as autoridades \u201cgovernam\u201d, disse o deputado.<\/p>\n<p>* Este artigo \u00e9 parte de uma s\u00e9rie produzida pela IPS (Inter Press Service) e pela IFEJ (Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Jornalistas Ambientais) para a Alian\u00e7a de Comunicadores para o Desenvolvimento Sustent\u00e1vel (www.complusalliance.org).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>RIO DE JANEIRO, 09\/06\/2009 &ndash; (Tierram\u00e9rica). 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