{"id":5215,"date":"2009-06-22T17:28:24","date_gmt":"2009-06-22T17:28:24","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5215"},"modified":"2009-06-22T17:28:24","modified_gmt":"2009-06-22T17:28:24","slug":"mulheres-brasil-viuvas-oito-meses-por-ano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/06\/america-latina\/mulheres-brasil-viuvas-oito-meses-por-ano\/","title":{"rendered":"MULHERES-BRASIL: Vi\u00favas oito meses por ano"},"content":{"rendered":"<p>Ara\u00e7ua\u00ed, Minas Gerais, 22\/06\/2009 &ndash; Maria Vieira dos Santos praticamente criou sozinha seus seis filhos. Por mais de uma d\u00e9cada, seu marido esteve ausente cerca de oito meses por ano, para cortar cana-de-a\u00e7\u00facar em S\u00e3o Paulo.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_5215\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Maria_Vieira_dos_Santos_Banco_Setubal_Mario_OsavaIPS1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5215\" class=\"size-medium wp-image-5215\" title=\"Maria Vieira dos Santos - Mario Osava\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Maria_Vieira_dos_Santos_Banco_Setubal_Mario_OsavaIPS1.jpg\" alt=\"Maria Vieira dos Santos - Mario Osava\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5215\" class=\"wp-caption-text\">Maria Vieira dos Santos - Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>  A distante tarefa do campon\u00eas, 1.500 quil\u00f4metros ao sul, s\u00f3 terminou quando as penosas condi\u00e7\u00f5es de trabalho prejudicaram sua coluna vertebral. H\u00e1 oito anos foi sucedido pelo filho mais velho, de 27 anos, que trabalha na produ\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00facar e \u00e1lcool. Este ano outro, filho, de 17 anos, se incorporou ao trabalho.<\/p>\n<p>Cortar cana \u00e9 uma atividade reconhecida com extenuante e violadora de direitos trabalhistas. Mas, al\u00e9m disso, oculta um efeito perverso que afeta as fam\u00edlias dos cortadores.<\/p>\n<p>S\u00e3o homens que para ganhar o equivalente a US$ 500 mensais suportam uma migra\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria e um trabalho que exige bra\u00e7os fortes e que sejam h\u00e1beis com a foice.<\/p>\n<p>O envelhecimento precoce \u00e9 o sinal mais vis\u00edvel das m\u00faltiplas e extenuantes tarefas que realizam as mulheres de Banco de Set\u00fabal, uma comunidade rural do munic\u00edpio de Ara\u00e7ua\u00ed, que fica no norte de Minas Gerais.<\/p>\n<p>Quase todas suas 38 fam\u00edlias fornecem m\u00e3o-de-obra para a poderosa e distante ind\u00fastria da cana-de-a\u00e7\u00facar de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>A agricultura local \u201cs\u00f3 produz alguma colheita quando chove, h\u00e1 tr\u00eas anos tudo foi perdido e no ano passado s\u00f3 foi poss\u00edvel plantar muito pouco\u201d, por isso os homens t\u00eam de ir ao encontro da cana, disse \u00e0 IPS Maria dos Santos.<\/p>\n<p>Ara\u00e7ua\u00ed faz parte do Vale do Jequitinhonha, j\u00e1 considerado parte do semi-\u00e1rido nordeste brasileiro, a\u00e7oitado por freq\u00fcentes secas.<\/p>\n<p>\u201cEu cuidada de tudo, de plantar milho, feij\u00e3o e arroz, sozinha\u201d, contou Maria, um exemplo das mulheres que criam os filhos sozinhas e substituem o marido no cultivo, transporte e venda da colheita.<\/p>\n<p>Como muitas outras, Maria foi por longo tempo \u201csolu\u00e7\u00e3o de todos os problemas da casa\u201d, acumulando as tarefas tradicionalmente masculinas.<\/p>\n<p>Muitas vezes teve de realizar, mesmo gr\u00e1vida, esse monte de tarefas. \u00c9 um problema a mais para as mulheres de Banco de Set\u00fabal e outras comunidades fornecedoras de cortadores de cana e onde a maioria dos beb\u00eas nasce no final do ano.<\/p>\n<p>Al\u00e9m do esfor\u00e7o f\u00edsico, \u201co cora\u00e7\u00e3o fica apertado pela tristeza, pelo pranto, pela saudades\u201d, lamentou a mulher de 50 anos, que sempre viveu em Ara\u00e7ua\u00ed e j\u00e1 tem dois filhos casados e dois netos. Tamb\u00e9m sua m\u00e3e migrava para o interior de S\u00e3o Paulo para colher banana, recordou.<\/p>\n<p>Banco de Set\u00fabal fica a 18 quil\u00f4metros da cidade de Ara\u00e7ua\u00ed, cuja popula\u00e7\u00e3o urbana tamb\u00e9m emigra para cortar cana.<\/p>\n<p>Vidas intermitentes<\/p>\n<p>As cidade, de 36 mi habitantes, \u00e9 conhecida como a \u201cterra das vi\u00favas de maridos vivos\u201d. Milhares de homens abandonam suas fam\u00edlias entre fevereiro e abril para ir cortar cana. \u201cRetornam doentes, perdem a sa\u00fade por causa do p\u00f3, da fuma\u00e7a e das cinzas\u201d, contou Maria. S\u00e3o os efeitos do inc\u00eandio provocados nos canaviais para queimar a palha que atrapalha o corte, com graves consequ\u00eancias ambientais no entorno da monocultura. Em dezembro, as filas quilom\u00e9tricas de \u00f4nibus no acesso a Ara\u00e7ua\u00ed s\u00e3o o sinal de que os homens retornam, muitos com motocicletas rec\u00e9m-compradas com o dinheiro ganho, que tamb\u00e9m serve para dinamizar o com\u00e9rcio local.<\/p>\n<p>\u201cAs motos s\u00e3o o sonho dos jovens, que as querem potentes, porque aumentam sua chance de conquistar uma namorada\u201d, contou Viviane Neiva, coordenadora do Projeto Caminho das \u00c1guas, levado adiante pelo n\u00e3o-governamental Centro Popular de Cultura e Desenvolvimento (CPCD) para proteger o ambiente rural, especialmente os rios. Muitas mulheres aprenderam a dirigir moto diante da falta de outro transporte, sobretudo no campo, acrescentou.<\/p>\n<p>A migra\u00e7\u00e3o definitiva n\u00e3o \u00e9 comum em Ara\u00e7ua\u00ed, apesar da car\u00eancia de empregos. \u201cAqui \u00e9 muito bom, melhor s\u00f3 o c\u00e9u\u201d, justificou Ornelino de Souza, que provocou risos por sua \u00eanfase em uma reuni\u00e3o comunit\u00e1ria da qual a IPS participou e onde era um dos poucos homens.<\/p>\n<p>Antonia Neusa dos Santos, de 52 anos, duas filhas e um filho, migrou jovem para a cidade de S\u00e3o Paulo, onde sobreviveu com domestica e se casou, paradoxalmente, com outro morador de Ara\u00e7ua\u00ed.<\/p>\n<p>H\u00e1 12 anos decidiram \u201cvoltar para sempre\u201d \u00e0 sua terra. \u201cN\u00e3o me sentia parte de S\u00e3o Paulo, onde tudo \u00e9 bonito, c\u00f4modo, mas n\u00e3o me agrada\u201d, contou \u00e0 IPS. Al\u00e9m disso, \u201cestou muito ligada \u00e0 natureza, me sinto melhor aqui\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Mas o marido e o filho n\u00e3o escaparam do distante trabalho tempor\u00e1rio. \u201cTemos pouca terra, apenas uns quatro hectares\u201d, justificou Antonia.<\/p>\n<p>A consola saber que agora a cana \u00e9 cortada com mais seguran\u00e7a e equipamentos de prote\u00e7\u00e3o que permitem aos dois \u201cvoltarem bem de sa\u00fade\u201d. O marido, que \u201cn\u00e3o sei como ag\u00fcenta fumando tanto\u201d, s\u00f3 teve problemas menores.<\/p>\n<p>Afirmou que a \u201c\u00fanica solu\u00e7\u00e3o\u201d para reter as pessoas em Banco de Set\u00fabal s\u00e9ria uma fabrica de roupa, porque geraria muitos empregos, especialmente femininos. \u201cCada camisa precisa de v\u00e1rias mulheres para costurar suas partes\u201d, disse.<\/p>\n<p>Ornelino de Souza buscou outro caminho. Aos 50 anos e quatro filhos, teve de deixar a cana porque \u201cfiquei doente da coluna\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, decidiu colher banana em suas terras, gra\u00e7as \u00e0 \u201cben\u00e7\u00e3o de Deus\u201d de contar com \u00e1gua em um riacho pr\u00f3ximo. Uma praga quase destruiu a primeira planta\u00e7\u00e3o, mas o banco perdoou a d\u00edvida e pode manter-se com a \u201cbaixa produ\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>Seus filhos est\u00e3o em busca de cana e o mais velho j\u00e1 foi cortador. Mas neste ano n\u00e3o repetiu o trabalho, porque \u201cquando o sol esquenta o nariz sangra, e em primeiro lugar est\u00e1 a sa\u00fade\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Uma cooperativa para ficar<\/p>\n<p>Na vizinha comunidade de Alfredo Gra\u00e7a, suas 21 fam\u00edlias criaram uma cooperativa para produzir milho, feij\u00e3o, mandioca e hortali\u00e7as, que vendem na feira de Ara\u00e7ua\u00ed. Como resultado, a maioria dos homens do lugar deixou de migrar. Apenas cortam a cana que produzem pra fazer rapadura.<\/p>\n<p>Jos\u00e9 Cl\u00e1udio Francisco, por\u00e9m, se preparava para tomar o \u00f4nibus para Campos, norte do Rio de Janeiro, para cortar cana \u201cdurante seis ou sete meses\u201d. As terras em Banco de Set\u00fabal n\u00e3o produzem nada sem regar, disse. Mas a \u00e1gua escasseia, acrescentou.<\/p>\n<p>Com cinco filhos pequenos, o maior de 7 anos, Jos\u00e9 teme a mecaniza\u00e7\u00e3o. No Estado de S\u00e3o Paulo, maior produtor de cana do Brasil, a ind\u00fastria do a\u00e7\u00facar e do \u00e1lcool assumiu o compromisso de mecanizar a colheita at\u00e9 2017, para eliminar o inc\u00eandios nos canaviais. A press\u00e3o ambientalista tenta reduzir o prazo.<\/p>\n<p>\u201cEstaremos mal\u201d se cumprirem a meta, disse Jos\u00e9, sem perspectiva de outro tipo de emprego no futuro.<\/p>\n<p>O setor da cana representa 7,5% do produto interno bruto do Brasil, cerca de US$ 68 bilh\u00f5es, e 27% do PIB agr\u00edcola. Ao mesmo tempo, gera 800 mil empregos diretos, boa parte cortadores recrutados nas \u00e1reas mais pobres do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>As crian\u00e7as sofrem \u00e0 sua maneira a aus\u00eancia paterna. Perdem a referencia dos pais, \u201cn\u00e3o os reconhecem quando voltam para casa, os rejeitam e choram\u201d diante das tentativas de aproxima\u00e7\u00e3o, disse Edilucia Borges, coordenadora de aten\u00e7\u00e3o pr\u00e9-escolar do CPCD que atua em educa\u00e7\u00e3o, meio ambiente e desenvolvimento e Ara\u00e7ua\u00ed e outras cidades de Minas Gerais.<\/p>\n<p>Para amenizar o distanciamento dos pais e manter seus la\u00e7os afetivos com os filhos, o CPCD desenvolveu o Projeto das Cartas, que promove a troca de cartas, fotos e fitas de \u00e1udio. Assim, o pa\u00eds \u201cn\u00e3o parecer\u00e1 t\u00e3o estranho para as crian\u00e7as ao regressar\u201d, explicou. Apesar do afastamento durante a maior parte do ano, as fam\u00edlias de Banco de Set\u00fabal s\u00e3o est\u00e1veis, n\u00e3o h\u00e1 casos de separa\u00e7\u00e3o, nem quando se conhece o adult\u00e9rio por parte dos cortadores, assegurou Lina Barreto, cujo marido foi muitas vezes cortar cana, mas ficava fora \u201capenas tr\u00eas ou quatro meses\u201d por ano.<\/p>\n<p>H\u00e1 tr\u00eas anos a fam\u00edlia n\u00e3o se separa, porque conseguiu outras fontes de renda. Uma moenda que produz farinha de mandioca, a constru\u00e7\u00e3o de cisternas para coletar \u00e1gua de chuva, uma horta org\u00e2nica e planta\u00e7\u00e3o de arroz e feij\u00e3o produzem dinheiro suficiente. Al\u00e9m disso, tr\u00eas dos cinco filhos j\u00e1 s\u00e3o independentes. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ara\u00e7ua\u00ed, Minas Gerais, 22\/06\/2009 &ndash; Maria Vieira dos Santos praticamente criou sozinha seus seis filhos. Por mais de uma d\u00e9cada, seu marido esteve ausente cerca de oito meses por ano, para cortar cana-de-a\u00e7\u00facar em S\u00e3o Paulo. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/06\/america-latina\/mulheres-brasil-viuvas-oito-meses-por-ano\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12],"tags":[21,24],"class_list":["post-5215","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5215","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5215"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5215\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5215"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5215"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5215"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}