{"id":522,"date":"2005-04-21T00:00:00","date_gmt":"2005-04-21T00:00:00","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=522"},"modified":"2005-04-21T00:00:00","modified_gmt":"2005-04-21T00:00:00","slug":"direitos-humanos-mutilao-genital-atinge-mais-de-130-milhes-de-meninas-e-continua-a-existir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/04\/mundo\/direitos-humanos-mutilao-genital-atinge-mais-de-130-milhes-de-meninas-e-continua-a-existir\/","title":{"rendered":"Direitos Humanos: Mutila&ccedil;&atilde;o genital atinge mais de 130 milh&otilde;es de meninas e continua a existir"},"content":{"rendered":"<p>Freetown, 21\/04\/2005 &ndash; &quot;N&atilde;o &eacute; tarefa f&aacute;cil. &Agrave;s vezes sou vaiada e insultada. Em momentos cruciais me enviam para lugares onde a pr&aacute;tica &eacute; mais difundida&quot;, queixou-se Ann Marie Caulker, que lidera uma campanha para acabar com a mutila&ccedil;&atilde;o genital feminina em Serra Leoa. &quot;Aqui na capital (Freetown) a pr&aacute;tica n&atilde;o &eacute; muito difundida devido &agrave; natureza cosmopolita da cidade. Mas, no interior, predominantemente conservador, falar da mutila&ccedil;&atilde;o feminina em p&uacute;blico &eacute; quase um tabu&quot;, disse Caulker. Mais de 130 milh&otilde;es de meninas e mulheres de todo o mundo foram submetidas &agrave; mutila&ccedil;&atilde;o genital feminina, em sua grande maioria na &Aacute;frica, segundo a Equality Now (Igualdade J&aacute;), uma organiza&ccedil;&atilde;o defensora dos direitos humanos das mulheres, com sede em Nova York.<br \/> <!--more--> <br \/> A opera&ccedil;&atilde;o consiste na extirpa&ccedil;&atilde;o total ou parcial do clit&oacute;ris, em geral sem anestesia e em p&eacute;ssimas condi&ccedil;&otilde;es sanit&aacute;rias. Em algumas regi&otilde;es, tamb&eacute;m se pratica a infibula&ccedil;&atilde;o, que &eacute; a costura dos pequenos e grandes l&aacute;bios e suturar o orif&iacute;cio vaginal, deixando apenas uma pequena abertura para a sa&iacute;da do fluxo menstrual. No primeiro ato sexual, essa sutura &eacute; desfeita. A pr&aacute;tica prevalece em pa&iacute;ses da bacia do rio Nilo, como o Egito, onde 97% das mulheres casadas entre 15 e 49 anos foram mutiladas, segundo um estudo feito em 1995.<\/p>\n<p> A estrat&eacute;gia de Caulker &eacute; simples. Atrav&eacute;s de sua Associa&ccedil;&atilde;o Katanya para o Desenvolvimento da Mulher (KADWA), recrutou centenas de meninas de adolescentes entre 12 e 18 anos, principais alvos da mutila&ccedil;&atilde;o genital feminina, e as incorporou a centros de capacita&ccedil;&atilde;o onde aprendem a colher, tecer, bordar e fazer sab&atilde;o. Na realidade, se trata de uma estrat&eacute;gia para encobrir sua causa, porque falar abertamente contra a mutila&ccedil;&atilde;o pode gerar muita hostilidade. Entre uma aula e outra, Caulker organiza palestras sobre os efeitos prejudiciais dessa pr&aacute;tica para a sa&uacute;de f&iacute;sica e psicol&oacute;gica e aconselha as jovens a resistir a serem iniciadas na Sociedade Bondo, uma institui&ccedil;&atilde;o informal de transi&ccedil;&atilde;o entre a inf&acirc;ncia e idade adulta que muitos pol&iacute;ticos exaltam em um esfor&ccedil;o para conquistar votos.<\/p>\n<p> Boa parte das mulheres mutiladas sofre de fus&atilde;o labial, quistos e dores durante o ato sexual, problemas que costumam permanecer sem diagn&oacute;stico nem tratamento durante anos. Al&eacute;m disso, muitas meninas morrem pouco depois do procedimento devido a hemorragias incontrol&aacute;veis ou infec&ccedil;&otilde;es. O procedimento est&aacute; associado &agrave; inicia&ccedil;&atilde;o &agrave; vida adulta e, em geral, &eacute; feito por parteiras tradicionais e &quot;barbeiros da sa&uacute;de&quot;, com instrumentos toscos e sem anestesia. Muitos l&iacute;deres religiosos insistem em que a doutrina n&atilde;o exige a mutila&ccedil;&atilde;o genital feminina. L&iacute;deres crist&atilde;os condenam totalmente essa pr&aacute;tica, enquanto autoridades isl&acirc;micas deixam lugar &agrave; interpreta&ccedil;&atilde;o dos textos sagrados. <\/p>\n<p> Ainda n&atilde;o existe uma lei contra a mutila&ccedil;&atilde;o genital feminina em Serra Leoa. nem mesmo sobre os direitos da inf&acirc;ncia. Entretanto, o sofrimento das crian&ccedil;as na guerra civil que terminou h&aacute; cerca de tr&ecirc;s anos levou as autoridades a tomarem medidas. Milhares foram usadas como combatentes, violadas em massa, escravizadas ou mutiladas. O Minist&eacute;rio de G&ecirc;nero, Bem-Estar Social e Assuntos da Inf&acirc;ncia redigiu um projeto de lei para proteger o bem-estar infantil com ajuda do Fundo das Na&ccedil;&otilde;es Unidas para a Inf&acirc;ncia (Unicef).<\/p>\n<p> &quot;Uma parte do projeto trata de pr&aacute;ticas tradicionais como a mutila&ccedil;&atilde;o genital feminina, tatuagens e qualquer inscri&ccedil;&atilde;o no corpo contr&aacute;ria aos interesses da crian&ccedil;a. Estas praticas ser&atilde;o proibidas e quem as realizar ser&aacute; castigado&quot;, explicou Francis Murray Lahai, funcion&aacute;rio de prote&ccedil;&atilde;o da inf&acirc;ncia no minist&eacute;rio. Mas, o projeto j&aacute; gerou forte oposi&ccedil;&atilde;o. &quot;A mutila&ccedil;&atilde;o feminina &eacute; parte integrante da nossa cultura. N&atilde;o deve ser proibida, porque ajuda a preparar nossas jovens para o casamento e reduz a promiscuidade&quot;, afirmou Marie Bangura, de 24 anos.<\/p>\n<p> Segundo Bangura, a Sociedade Bondo e seus ritos cerimoniais &quot;inculcam nas jovens um sentido de pertin&ecirc;ncia e lhes ensinam a guardas segredos e serem disciplinadas&quot;. Mas, os opositores a essa pr&aacute;tica destacam o risco de complica&ccedil;&otilde;es de sa&uacute;de, e at&eacute; de morte. &quot;Inclusive o argumento de que reduz a promiscuidade &eacute; falso. Vimos mais promiscuidade em mulheres que foram mutiladas do que em outras que n&atilde;o foram. Creio que tudo &eacute; parte de uma lavagem cerebral&quot;, afirmou Dominic Sesay, ativista dos direitos da inf&acirc;ncia.<\/p>\n<p> Um grande problema enfrentado pelas ativistas &eacute; o alto &iacute;ndice de analfabetismo. Estima-se que 75% das&acute;mulheres do pa&iacute;s s&atilde;o analfabetas. Fora da capital, essa porcentagem &eacute; ainda mais alta, e o Unicef calcula que 90% das mulheres s&atilde;o submetidas &agrave; mutila&ccedil;&atilde;o. Os chefes de fam&iacute;lia costumam economizar seus ganhos de todo um ano na atividade agr&iacute;cola para a cerim&ocirc;nia de Bondo. &quot;A Sociedade Bondo &eacute; o que nos une como comunidade e mant&eacute;m nosso patrim&ocirc;nio tradicional. N&atilde;o podemos permitir que a destruam. Nos oporemos&quot;, disse &agrave; IPS a iniciadora Ya Ndigba Thula, de Makeni, a capital regional do norte do pa&iacute;s.<\/p>\n<p> A Sociedade Bondo e sua pr&aacute;tica de mutila&ccedil;&atilde;o genital feminina &eacute; utilizada freq&uuml;entemente como arma de campanha pol&iacute;tica. Pol&iacute;ticos de todos os partidos se esfor&ccedil;am para conquistar votos exaltando as virtudes dessa sociedade. Nas elei&ccedil;&otilde;es presidenciais de 2002, a candidata presidencial e ativista dos direitos da mulher, Zainab Bangura, sofreu uma derrota esmagadora porque foi acusada de fazer campanha contra a mutila&ccedil;&atilde;o genital feminina. Muitos acreditam que n&atilde;o existe suficiente vontade pol&iacute;tica para proibir de vez essa pr&aacute;tica. A ativista Mohamed Sankoh &eacute; uma das c&eacute;pticas. &quot;Faltam apenas dois anos para as elei&ccedil;&otilde;es. N&atilde;o vejo como os l&iacute;deres tomar&atilde;o iniciativas sobre esse assunto t&atilde;o sens&iacute;vel&quot;, afirmou. (IPS\/Envolverde)<\/p>\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Freetown, 21\/04\/2005 &ndash; &quot;N&atilde;o &eacute; tarefa f&aacute;cil. &Agrave;s vezes sou vaiada e insultada. Em momentos cruciais me enviam para lugares onde a pr&aacute;tica &eacute; mais difundida&quot;, queixou-se Ann Marie Caulker, que lidera uma campanha para acabar com a mutila&ccedil;&atilde;o genital feminina em Serra Leoa. &quot;Aqui na capital (Freetown) a pr&aacute;tica n&atilde;o &eacute; muito difundida devido &agrave; natureza cosmopolita da cidade. Mas, no interior, predominantemente conservador, falar da mutila&ccedil;&atilde;o feminina em p&uacute;blico &eacute; quase um tabu&quot;, disse Caulker. Mais de 130 milh&otilde;es de meninas e mulheres de todo o mundo foram submetidas &agrave; mutila&ccedil;&atilde;o genital feminina, em sua grande maioria na &Aacute;frica, segundo a Equality Now (Igualdade J&aacute;), uma organiza&ccedil;&atilde;o defensora dos direitos humanos das mulheres, com sede em Nova York.<br \/> <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2005\/04\/mundo\/direitos-humanos-mutilao-genital-atinge-mais-de-130-milhes-de-meninas-e-continua-a-existir\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":119,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-522","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-mundo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/522","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/119"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=522"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/522\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=522"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=522"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=522"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}