{"id":5243,"date":"2009-06-29T16:41:33","date_gmt":"2009-06-29T16:41:33","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5243"},"modified":"2009-06-29T16:41:33","modified_gmt":"2009-06-29T16:41:33","slug":"mulheres-argentina-escritoras-que-entram-em-cena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/06\/america-latina\/mulheres-argentina-escritoras-que-entram-em-cena\/","title":{"rendered":"MULHERES-ARGENTINA: Escritoras que entram em cena"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 29\/06\/2009 &ndash; A primeira novela de uma escritora argentina, narrada por uma personagem que foge do estere\u00f3tipo de literatura feminina, despertou as mais virulentas desclassifica\u00e7\u00f5es sexistas em \u00e2mbitos \u2013 a priori \u2013 insuspeitos desses preconceitos, com a cr\u00edtica liter\u00e1ria e os leitores instru\u00eddos.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_5243\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Pola_Oloixarac_CarolinaCampsIPS1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5243\" class=\"size-medium wp-image-5243\" title=\"Pola Oloixarac - Carolina Camps\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Pola_Oloixarac_CarolinaCampsIPS1.jpg\" alt=\"Pola Oloixarac - Carolina Camps\/IPS\" width=\"200\" height=\"133\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5243\" class=\"wp-caption-text\">Pola Oloixarac - Carolina Camps\/IPS<\/p><\/div>  A rea\u00e7\u00e3o provocada por Las Teorias Salvajes \u201c\u00e9 uma mostra de que na Argentina n\u00e3o existe o menor sotaque de corre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica quando se trata de mulheres, nem mesmo no \u00e2mbito cultural\u201d, denunciou \u00e0 IPS a jovem autora da novela, P\u00f3la Oloixarac.<\/p>\n<p>\u201cO livro gera viol\u00eancia verbal e agita\u00e7\u00e3o sexistas justamente porque n\u00e3o lida com temas associados com a \u201cliteratura feminina\u201d, mas faz cr\u00edtica sociol\u00f3gica com erudi\u00e7\u00e3o e ironia, que s\u00e3o valores supostamente masculinos\u201d, concluiu.<\/p>\n<p>O \u201ccaso P\u00f3la\u201d \u00e9 emblem\u00e1tico, mas n\u00e3o o \u00fanico. A professora de Letras da Universidade de Buenos Aires Elsa Drucaroff, autora de ensaios e novelas e cr\u00edtica da produ\u00e7\u00e3o de jovens escritores argentinos, explicou \u00e0 IPS que o esc\u00e2ndalo emerge quando uma autora \u201csalta sai dos bastidores\u201d.<\/p>\n<p>O estere\u00f3tipo diz que \u201ca escritora fala de si mesma e de seus amores\u201d, ironizou. Nesse esquema, tamb\u00e9m h\u00e1 uma literatura de mulheres independentes. \u00c9 a vers\u00e3o \u201cchick-lit\u201d (literatura de mo\u00e7as), que mostra mulheres glamorosa e aut\u00f4nomas, com seu paradigma de mercado na s\u00e9rie norte-americana \u201cSex and the City\u201d.<\/p>\n<p>Mas se as autoras fogem desse nicho em qualquer de suas vers\u00f5es, come\u00e7am as desqualifica\u00e7\u00f5es. \u201cN\u00e3o se leva a serio a literatura feminina\u201d, afirmou Drucaroff, \u201cquando \u00e9 boa, dizem que parece escrita por um homem\u201d.<\/p>\n<p>Para a especialista, os preconceitos sexistas no \u00e2mbito liter\u00e1rio agora s\u00e3o vergonhosos e se ocultam por tr\u00e1s de certa cr\u00edtica liter\u00e1ria, mas t\u00eam uma longa tradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Recordou que em 1939 o autor uruguaio Juan Carlos Onetti (1909-1994) escreveu que com as \u201cduplamente belas letras femininas\u201d ocorria algo curioso. \u201cAntes as mulheres se dedicavam quase exclusivamente \u00e0 poesia. Cantavam o amante, Deus, as \u00e1rvores, os rec\u00e9m-nascidos\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>\u201cCada comarca tinha sua poeta oficial e todos muito contentes\u201d, recordava Onetti com nostalgia, quando descobriu mulheres que \u201cn\u00e3o se conformavam\u201d com sonetos e escreviam \u201csobre Cristo, Marx, o Cosmos ou a t\u00e9cnica do autor do Bisonte de Altamira\u201d.<\/p>\n<p>Para Drucaroff, estes preconceitos continuam se manifestando, embora menos livremente. Agora se volta \u00e0 literatura de mulheres, desde a ind\u00fastria e desde a cr\u00edtica, e o castigo recai sobre as que resistem ao espartilho.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso da novela de Oloixarac. Mas, tamb\u00e9m o de Samanta Schweblin, Alejandra Laurencich ou Cec\u00edlia Szperling, para mencionar alguns nomes da nova narrativa argentina.<\/p>\n<p>Schweblin, ganhadora do Pr\u00eamio Casa das Am\u00e9ricas 2008 por seu livro de contos \u201cPajaros em la boca\u201d, recebeu em abril uma cr\u00edtica sexista de seu compatriota e escritor Patricio Prom, na revista peruana Etiqueta Negra.<\/p>\n<p>Ao comentar a visita da escritora \u00e0 Espanha, Prom escreveu: \u201cSchweblin abira os olhos e n\u00e3o dizia nada. Pareciam os olhos de um veado que v\u00ea como a noite se reparte nos focos de luz de um caminh\u00e3o que se dirige para ele e n\u00e3o pode se mover. Talvez compreenda que ali termina o que ocorria\u201d.<\/p>\n<p>Para Drucaroff, os contos de Schweblin s\u00e3o \u201co que h\u00e1 de melhor da nova narrativa\u201d. Em sua fic\u00e7\u00e3o, foge do estere\u00f3tipo. Mas Prom n\u00e3o pondera assim. \u201cSamanta j\u00e1 estava entre o que de melhor uma mulher havia escrito na Argentina nos \u00faltimos 10 anos, o que n\u00e3o era exatamente m\u00e9rito seu, mas culpa de suas colegas\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>A novela de Oloixarac, publicada por uma pequena editora no final do ano passado, esgotou a edi\u00e7\u00e3o em dois meses, mas, tamb\u00e9m inspirou cr\u00edticas furibundas. A maioria dos cr\u00edticos, segundo Drucaroff, confunde a narradora com a escritora, e ataca esta \u00faltima pelos desvarios da primeira.<\/p>\n<p>\u201cDizer que Oloixarac \u00e9 uma escritora de direita seria errado. N\u00e3o \u00e9 escritora\u201d, sentenciaram dois cr\u00edticos da revista Planeta apesar de dedicarem ao primeiro livro deste \u201cn\u00e3o-escritora\u201d cerca de 300 linhas. \u201c\u00c9 uma novela sem amor\u201d, reclamaram.<\/p>\n<p>Oloixarac explica porque acredita que a nova desperta rejei\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 deliberadamente pol\u00edtica, tem uma rela\u00e7\u00e3o forte com o saber, joga partidas simult\u00e2neas com diferentes disciplinas e reconstr\u00f3i as posturas da esquerda cultural\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Mas, n\u00e3o agrada a todos. No jornal Cr\u00edtica, o comentarista de seu livro foi demolidor. \u201cPobre P\u00f3la. \u00c9 bonita, virtuosa, mas continua escrevendo para os professores\u201d, afirmou. Outros, que valorizam seu trabalho, n\u00e3o puderam evitar entrever um homem escondido em sua literatura. \u201cUma Fogwill com saias\u201d, definiu um, em alus\u00e3o ao inovador escritor argentino Rodolfo Fogwill.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 nos blogs de leitores eruditos, escritores e estudantes de Letras que se d\u00e1 r\u00e9dea solta aos coment\u00e1rios mais repulsivos, que se potencializam diante das imagens de uma escritora que al\u00e9m de inteligente \u00e9 bonita e n\u00e3o esconde isso.<\/p>\n<p>Em um deles onde se p\u00fablica sua foto h\u00e1 dezenas de coment\u00e1rios inconvenientes. Um dos menos violentos diz, anonimamente: \u201ca esta (a escritora) proponho uma troca: 10 segundos de prazer por uma eternidade de silencio\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO que assombra \u00e9 que uma mulher tenha conseguido alcan\u00e7ar esse n\u00edvel de viol\u00eancia verbal, que domine o registro da ironia com essa liberdade. Suspeito que houve uma importante m\u00e3o corretora por tr\u00e1s\u201d, arriscou um leitor.<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 que uma mulher n\u00e3o possa ser ir\u00f4nica, mas n\u00e3o acredito que P\u00f3la tenha conseguido ser sem que algu\u00e9m lhe passasse as palavras\u201d, continuou. \u201cGeralmente, se uma minita (mulher no sentido pejorativo) se destaca na Faculdade de Filosofia e Letras, o pr\u00f3prio sistema acad\u00eamico baixa sua bola ela se vai, ou se abranda\u201d.<\/p>\n<p>Se deixa a faculdade \u2013 continuou o leitor \u2013 a espera a \u201cintranscend\u00eancia\u201d e se fica \u201cn\u00e3o tem outra op\u00e7\u00e3o a n\u00e3o ser calar muitas coisas para n\u00e3o perder seu lugar\u201d.<\/p>\n<p>Por fim, h\u00e1 aqueles que fazem um particular \u201creconhecimento\u201d a Oloixarac. \u201cConstruiu uma personagem de puta, esnobe, intelectual e com isso teve muito sucesso\u201d, disse um. Outro sugeriu: \u201cse \u00e9 verdade que ela fez tudo isso, deve-se admirar por seu instinto de trepadora\u201d.<\/p>\n<p>Os preconceitos do tipo que fazem crer que a mulher que faz literatura \u201cescreve como um homem\u201d tamb\u00e9m ca\u00edram sobre Cecilia Szperling, autora de \u201cSele\u00e7\u00e3o natural\u201d, que acaba de ser publicado em Londres. Um cr\u00edtico local elogiou a novela e concluiu que parecia escrita por um homem, contou a autora \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>\u201cNo mundo da literatura s\u00e3o poucas as \u201cpapisas\u201d, mulheres fortes, excepcionais, que alcan\u00e7am o reconhecimento de um homem\u201d, explicou. \u201cO sistema de consagra\u00e7\u00e3o \u00e9 hegem\u00f4nico, est\u00e1 dominado por homens e \u00e9 dif\u00edcil que deixem entrar uma mulher\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>\u201cComo em outros campos, na literatura h\u00e1 pouqu\u00edssimas mulheres que sem a marca de \u2018literatura feminina\u2019 conseguem reconhecimento. Para o mesmo m\u00e9rito se exige muitos mais esfor\u00e7os\u201d, assegurou.<\/p>\n<p>Szperling recordou outras autoras argentinas que no passado romperam esquemas, como Silvina Ocampo ou Alfonsina Storni, e foram ignoradas ou enfrentadas. Drucaroff somou-se a Ana Maria Sh\u00faa, cuja novela \u201cOs amores de Laurita\u201d, provocou, j\u00e1 nos anos 70, a confus\u00e3o narradora-autora que afeta as mulheres.  Sh\u00faa apresentou \u00e0 IPS outro \u00e2ngulo da evolu\u00e7\u00e3o dos temas das escritoras. \u201cAs mulheres t\u00eam sofrido, talvez at\u00e9 minha gera\u00e7\u00e3o, certa limita\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica em fun\u00e7\u00e3o da limita\u00e7\u00e3o de nossa experi\u00eancia do mundo\u201d, analisou.<\/p>\n<p>\u201cFomos, sobretudo, escritoras da porta para dentro. A inf\u00e2ncia, o amor, o erotismo, as rela\u00e7\u00f5es familiares: esse foi durante s\u00e9culos nossa experi\u00eancia do mundo e, portanto, tamb\u00e9m nosso tema\u201d, disse a premiada autora.<\/p>\n<p>As escritoras da nova guarda tentam romper a invisibilidade das que fogem do c\u00e2non estabelecido. Para isso ap\u00f3iam-se em editoras pequenas que se anima em publicar o novo, em blogs e outros canais alternativos de difus\u00e3o.<\/p>\n<p>Mas a batalha se antecipa \u00e1rdua. \u201cA cr\u00edtica nos encurrala, e a corre\u00e7\u00e3o pol\u00edtica faz com que as mulheres pare\u00e7am n\u00e3o ter chegado \u00e0 literatura\u201d, definou Szperling. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 29\/06\/2009 &ndash; A primeira novela de uma escritora argentina, narrada por uma personagem que foge do estere\u00f3tipo de literatura feminina, despertou as mais virulentas desclassifica\u00e7\u00f5es sexistas em \u00e2mbitos \u2013 a priori \u2013 insuspeitos desses preconceitos, com a cr\u00edtica liter\u00e1ria e os leitores instru\u00eddos. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/06\/america-latina\/mulheres-argentina-escritoras-que-entram-em-cena\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":129,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2],"tags":[19,21,24],"class_list":["post-5243","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","tag-arte-y-cultura","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5243","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/129"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5243"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5243\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5243"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5243"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5243"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}