{"id":5247,"date":"2009-06-30T10:44:25","date_gmt":"2009-06-30T10:44:25","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5247"},"modified":"2009-06-30T10:44:25","modified_gmt":"2009-06-30T10:44:25","slug":"direitos-africa-do-sul-xenofobia-continua-latente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/06\/africa\/direitos-africa-do-sul-xenofobia-continua-latente\/","title":{"rendered":"DIREITOS-\u00c1FRICA DO SUL: Xenofobia Continua Latente"},"content":{"rendered":"<p>CIDADE DO CABO, 30\/06\/2009 &ndash; &#8220;A minha preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que os meus filhos v\u00e3o ser escravos porque n\u00e3o t\u00eam nada. Estes estrangeiros v\u00eam para a \u00c1frica do Sul sem nada, mas amanh\u00e3 t\u00eam dinheiro, no terceiro dia j\u00e1 s\u00e3o donos de uma loja e no quarto dia t\u00eam um carro. Onde \u00e9 que estes estrangeiros arranjam dinheiro?\u201d. <!--more--> Os donos de pequenos neg\u00f3cios exprimem a sua frustra\u00e7\u00e3o contra os \u2018cidad\u00e3os estrangeiros\u2019 \u2013 entre eles muitos somalis \u2013 propriet\u00e1rios de lojas nos bairros de lata do pa\u00eds, o que levou diversos especialistas a avisar que a viol\u00eancia xen\u00f3foba podia aumentar. Homens de neg\u00f3cios de quatro comunidades pobres da Cidade do Cabo \u2013 Delft, Masiphumelele, Samora Machel e Gugulethu \u2013 realizaram diversas reuni\u00f5es no final de Maio e princ\u00edpios de Junho para discutirem formas de fazer desaparecer as lojas pertencentes a estrangeiros nas suas comunidades. Os encontros s\u00e3o similares aos que tiveram lugar h\u00e1 um ano nos bairros de lata de Atteridgville e Alexandra, em Gauteng, pouco antes de mais de 150.000 estrangeiros terem sido obrigados a abandonar as suas casas e neg\u00f3cios, durante uma onda de viol\u00eancia xen\u00f3foba que varreu o pa\u00eds, causando a morte de 62 pessoas e o espancamento e viola\u00e7\u00e3o de milhares de pessoas. No dia 14 de Junho deste ano, um homem n\u00e3o identificado entregou cartas a todas as lojas pertencentes a cidad\u00e3os somalis em Gugulethu, avisando que os comerciantes tinham at\u00e9 ao dia 20 de Junho para abandonarem a zona. As cartas, escritas \u00e0 m\u00e3o e fotocopiadas, alegadamente eram provenientes do F\u00f3rum Empresarial de Gugulethu. Apesar de alguns dos membros desta organiza\u00e7\u00e3o se terem distanciado desta mensagem, outros acusaram os donos das lojas somalis de terem a inten\u00e7\u00e3o de \u2018 eliminar\u2019 as lojas locais. &#8220;Os somalis querem oferecer os produtos mais baratos da \u00e1rea. Se virem que eu baixo os pre\u00e7os dos produtos conforme fazem, v\u00e3o procurar outra maneira de os venderem ainda mais baixo\u201d, afirmou a dona de uma loja, que n\u00e3o quis dar o seu nome durante a entrevista &#8220;Isto vai traduzir-se numa s\u00e9rie de problemas muito s\u00e9rios na minha zona. Se eu tivesse dinheiro, j\u00e1 tinha sa\u00eddo desta zona, porque n\u00e3o h\u00e1 paz. Aqueles rapazes da Som\u00e1lia vieram para aqui e criaram mais problemas\u201d, afirmou outro comerciante, que se identificou como \u2018Boyce\u2019. <\/p>\n<p>Acrescente-se os planos para remover os \u2018donos de lojas somalis\u2019 ao n\u00famero constante de ataques e assassinatos dirigidos contra \u2018cidad\u00e3os estrangeiros\u2019, e a mistura pode tornar-se letal, diz Loren Landau, directora da Unidade de Estudos de Migra\u00e7\u00f5es For\u00e7adas da Universidade de Witwatersrand. <\/p>\n<p>\u201cA viol\u00eancia contra os estrangeiros est\u00e1 rapidamente a fazer parte da pol\u00edtica habitual de alguns bairros de lata\u201d, disse Landau. <\/p>\n<p>Em Maio de 2008, mais de 150.000 cidad\u00e3os estrangeiros foram expulsos por uma onda de viol\u00eancia xen\u00f3foba que varreu o pa\u00eds, com milhares de pessoas a seram violadas ou mortas. <\/p>\n<p>Mas desde que a onda de xenofobia \u2018oficialmente reconhecida\u2019 terminou em Junho do ano passado, a pol\u00edcia deixou de registar as estat\u00edsticas oficiais de assassinatos causados pela xenofobia, afirmando que as mortes de cidad\u00e3os estrangeiros s\u00e3o resultado da taxa de crimes, em geral muito elevada, na \u00c1frica do Sul. <\/p>\n<p>Tal atitude ter\u00e1 provocado mais xenofobia, de acordo com a Associa\u00e7\u00e3o Somali da \u00c1frica do Sul.<\/p>\n<p>\u201cA cultura de impunidade est\u00e1 a aumentar. Quando os comerciantes somalis s\u00e3o assassinados, a pol\u00edcia nada faz. Existe a percep\u00e7\u00e3o de que, se os somalis forem mortos ou atacados, nada ir\u00e1 acontecer\u201d, disse o Coordenador da Associa\u00e7\u00e3o Somali da \u00c1frica do Sul no Cabo Ocidental, Hussein Omar.<\/p>\n<p>Os receios de Omar parecem ser confirmados pelos recentes acontecimentos \u2013 nas \u00faltimas duas semanas, dois jovens somalis que trabalhavam como empregados numa loja foram queimados at\u00e9 \u00e0 morte, um cidad\u00e3o do Zimbabu\u00e9 e outro do Bangladesh foram assassinados, tr\u00eas empregados de uma loja foram feridos a tiro em Delft e uma outra \u2018loja somali\u2019 foi queimada no sub\u00farbio de Khayelitsha, na Cidade do Cabo. <\/p>\n<p>Omar est\u00e1 a investigar o assassinato dos somalis que eram empregados de loja, Omar Josef e Hazim Amad, que morreram quando a sua loja \u2013 onde dormiam \u2013 foi incendiada \u00e0s duas da manh\u00e3.<\/p>\n<p>A pol\u00edcia local disse \u00e0 IPS que j\u00e1 tinha eliminado a xenofobia como causa do incidente, apesar da investiga\u00e7\u00e3o ainda estar em curso. Os residentes somalis na comunidade dizem que a loja foi regada com gasolina antes de ser incendiada, mas o investigador respons\u00e1vel pelo caso, o detective Eldoret van der Merwe, disse apenas que \u201cnesta altura n\u00e3o podemos dizer como o fogo come\u00e7ou\u201d. <\/p>\n<p>Em Gugulethu, um grupo de activistas local \u2013 a Campanha Contra a Expuls\u00e3o de Gugulethu \u2013 tentou durante tr\u00eas semanas convencer o F\u00f3rum Empresarial de Gugulethu a n\u00e3o dirigir a sua raiva contra os donos de lojas somalis e, em vez disso, perguntar ao governo porque \u00e9 que n\u00e3o faz mais para apoiar os pequenos neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>Mncedisi Twalo, da Campanha Contra a Expuls\u00e3o de Gugulethu, afirmou que, depois dos homens de neg\u00f3cios terem entregue as cartas com amea\u00e7as \u00e0s \u2018lojas somalis\u2019, fora obrigado a pedir \u00e0 pol\u00edcia uma garantia de protec\u00e7\u00e3o dos donos de lojas somalis. <\/p>\n<p>Desde essa altura, a pol\u00edcia organizou encontros entre os homens de neg\u00f3cios locais e os donos de lojas somalis. Os meios de informa\u00e7\u00e3o n\u00e3o foram autorizados a participar nestes encontros. <\/p>\n<p>Omar tem receio que as ac\u00e7\u00f5es de pequenos grupos de homens de neg\u00f3cios locais possam tornar-se um catalisador para que outras pessoas descarreguem as suas frustra\u00e7\u00f5es sobre os \u2018cidad\u00e3os estrangeiros\u2019.<\/p>\n<p>Landau afirma que, uma vez que as pessoas j\u00e1 aceitaram que \u00e9 leg\u00edtimo conspirar contra homens de neg\u00f3cios \u201cestrangeiros\u201d, a \u201cviol\u00eancia s\u00f3 vai aumentar\u201d.<\/p>\n<p> Medo e avers\u00e3o no Cabo Ocidental Os cidad\u00e3os estrangeiros que s\u00e3o propriet\u00e1rios de lojas n\u00e3o s\u00e3o os \u00fanicos a correrem perigo. John Kwigwasa chegou \u00e0 \u00c1frica do Sul h\u00e1 oito anos, depois de ter deixado a Rep\u00fablica Democr\u00e1tica do Congo. Foi-lhe concedido o estatuto jur\u00eddico de refugiado e n\u00e3o \u00e9 dono de nehuma loja, mas afirma que j\u00e1 foi atacado sete vezes desde 2002 \u2013 durante o ataque mais recente, em Gugulethu, no fim de Maio, foi ferido com um tiro na anca. Desde Maio, Kwigwasa tem vivido no campo de pessoas deslocadas de Blue Waters, que as autoridades da Cidade do Cabo querem encerrar. Uma vez que sabe que o campo n\u00e3o vai ficar aberto durante muito mais tempo, Kwigwasa tem estado \u00e0 procura de habita\u00e7\u00e3o alternativa para a sua fam\u00edlia. Disse \u00e0 IPS que \u201ca cidade est\u00e1 a for\u00e7ar a nossa reintegra\u00e7\u00e3o e, por isso, decidi arranjar um emprego e procurar habita\u00e7\u00e3o em Gugulethu. Estava como o meu amigo, Rajab Ramazani, quando um grupo de homens locais nos disse \u201cporque \u00e9 que voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o para o vosso pa\u00eds, voc\u00eas est\u00e3o a roubar os nossos empregos e a conduzir bons carros\u201d. Depois um deles deu-me um tiro na anca. \u201cLevaram o Rajab no carro e mantiveram-no fechado no porta-bagagens toda a noite. Levaram-no para umas vias f\u00e9rreas na manh\u00e3 seguinte. Quando estavam a decidir se o iam matar ou n\u00e3o, ele conseguiu fugir e foi nessa altura que lhe deram um tiro na perna\u201d, contou Kwigwasa. Kwigwasa e Rajab est\u00e3o a recuperar dos seus ferimentos da melhor forma poss\u00edvel no frio e chuvoso campo de Blue Waters.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CIDADE DO CABO, 30\/06\/2009 &ndash; &#8220;A minha preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 que os meus filhos v\u00e3o ser escravos porque n\u00e3o t\u00eam nada. Estes estrangeiros v\u00eam para a \u00c1frica do Sul sem nada, mas amanh\u00e3 t\u00eam dinheiro, no terceiro dia j\u00e1 s\u00e3o donos de uma loja e no quarto dia t\u00eam um carro. 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