{"id":5253,"date":"2009-06-30T16:43:55","date_gmt":"2009-06-30T16:43:55","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5253"},"modified":"2009-06-30T16:43:55","modified_gmt":"2009-06-30T16:43:55","slug":"brasil-mulheres-levam-a-paz-as-favelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/06\/america-latina\/brasil-mulheres-levam-a-paz-as-favelas\/","title":{"rendered":"BRASIL: Mulheres levam a paz \u00e0s favelas"},"content":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 30\/06\/2009 &ndash; \u00c9 um dia de tiroteio no Morro da Provid\u00eancia e somente se pode circular sem muito perigo na base do morro, um espa\u00e7o cotidiano que na cidade do Rio de Janeiro as mulheres das favelas tentam pacificar.  <!--more--><br \/>\n <a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Mujeres_Paz_favela_Retao_Diniz_Cortesia_Pronasci1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-5253\" title=\"\"Mulheres da paz\" - Cr\u00e9dito: Reato Diniz\/Cortes\u00eda Programa Nacional de Seguridad con Ciudadan\u00eda\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Mujeres_Paz_favela_Retao_Diniz_Cortesia_Pronasci1.jpg\" alt=\"\"Mulheres da paz\" - Cr\u00e9dito: Reato Diniz\/Cortes\u00eda Programa Nacional de Seguridad con Ciudadan\u00eda\" width=\"200\" height=\"134\" \/><\/a>  Alessandra da Cunha \u00e9 uma das 11 mil \u201cmulheres da paz\u201d recrutadas pelo governo para o Programa Nacional de Seguran\u00e7a com Cidadania, do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a.<\/p>\n<p>O plano busca \u201cdesenvolver atrav\u00e9s de mulheres l\u00edderes em suas comunidades os valores da cultura da paz, ou seja, a solu\u00e7\u00e3o de problemas comunit\u00e1rios sem uso da viol\u00eancia\u201d, explicou Sergio Andr\u00e9a, secret\u00e1rio-executivo de Assist\u00eancia Social do governo do Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>M\u00e3e solteira, sem apoio do pai de seu filho, que a abandonou antes do parto, Alessandra, como as demais mulheres de paz, n\u00e3o \u00e9 catedr\u00e1tica em viol\u00eancia. Mas, a sofre em todas suas formas como moradora dos bairros marginalizados do Brasil.<\/p>\n<p>As favelas as parte consubstancial das cidades brasileiras. No Rio de Janeiro, com 6.1 milh\u00f5es de habitantes, calcula-se que 1,5 milh\u00e3o vivem nas populosas favelas que em boa parte se espalham pelos morros.<\/p>\n<p>Nesses assentamentos a viol\u00eancia mais evidente \u00e9 derivada do narcotr\u00e1fico e suas consequ\u00eancias: muni\u00e7\u00e3o pesada entre bandos rivais, incurs\u00f5es policiais para combat\u00ea-la e abusos cometidos pelos dois lados do conflito.<\/p>\n<p>\u201cA toda hora h\u00e1 tiroteio, em hor\u00e1rio escolar, quando algu\u00e9m sai para trabalhar\u201d, contou \u00e0 IPS Alessandra, operadora de r\u00e1dio em uma cooperativa de taxistas.<\/p>\n<p>\u201cNesta guerra entre traficantes e policiais, infelizmente os moradores s\u00e3o os que sofrem as consequ\u00eancias e isso se reflete em nossa vida\u201d, lamentou.<\/p>\n<p>Impactos evidentes em seu filho de 6 anos que, quando come\u00e7a o tiroteio, \u201ctreme todo\u201d. Mas, muito mais sutis durante o crescimento, como uma agress\u00e3o formadora de uma cultura violenta.<\/p>\n<p>\u201cA viol\u00eancia para eles se resume em uma agress\u00e3o. A mente vem preparada para receber conte\u00fados que influem em sua vida, e crescem com a viol\u00eancia em suas cabe\u00e7as\u201d, disse Alessandra.<\/p>\n<p>O projeto come\u00e7ou em comunidades do Rio de Janeiro com altos \u00edndices de viol\u00eancia e escolheu a mulher, porque \u201cela \u00e9 cada vez mais central e importante na vida dessas comunidades\u201d, disse Andr\u00e9a.<\/p>\n<p>Mulheres como mantenedoras do lar, como impulsoras de melhorias comunit\u00e1rias, como \u201cguardi\u00e3s\u201d de seus filhos e dos idosos.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, sua fun\u00e7\u00e3o \u00e9 detectar jovens em situa\u00e7\u00e3o de risco e envi\u00e1-los a projetos governamentais de qualifica\u00e7\u00e3o profissional.<\/p>\n<p>Para isso recebem cursos de direitos humanos, t\u00e9cnicas de intermedia\u00e7\u00e3o e no\u00e7\u00f5es de justi\u00e7a, em troca de uma remunera\u00e7\u00e3o equivalente a US$ 80, por oito horas de dedica\u00e7\u00e3o semanais.<\/p>\n<p>Mas sua miss\u00e3o \u00e9 mais ambiciosa, explicou \u00e0 IPS Rita Lima, coordenadora de qualifica\u00e7\u00e3o profissional. Trata-se de criar \u201cuma cultura de paz\u201d para reduzir os \u00edndices de inseguran\u00e7a atrav\u00e9s da cidadania e n\u00e3o da repress\u00e3o policial.<\/p>\n<p>\u201cA paz em um lugar violento somente \u00e9 poss\u00edvel quando constru\u00edda por seus pr\u00f3prios habitantes\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio de outros, este projeto \u00e9 executado \u201cpelas mulheres que conhecem todos,que trocaram as fraldas dos que hoje s\u00e3o jovens, que recebem o vizinho que bate \u00e0 porta com um problema\u201d, contou Alessandra.<\/p>\n<p>Daniela Rocha tamb\u00e9m conhece de perto esses jovens.<\/p>\n<p>Pedreira e jogadora de futebol em seu tempo livre \u2013 esporte que muitas meninas da favela aprendem \u2013 os conhece dos jogos comunit\u00e1rios, onde n\u00e3o vacila em atirar-se na lama se necess\u00e1rio. \u201cMeu sonho \u00e9 n\u00e3o ver nenhum deles se drogando ou roubando nas ruas\u201d, contou, ainda transpirando ap\u00f3s uma partida.  Outras viol\u00eancias  Como \u201cembaixadoras de paz\u201d, as mulheres tamb\u00e9m orientam as v\u00edtimas de viol\u00eancia machista. \u201cNos contam que apanharam do marido e explicamos a elas que a lei sobre viol\u00eancia domestica as ampara\u201d, disse \u00e0 IPS Maria de Souza, av\u00f3 aposentada e \u201cmulher de paz\u201d.<\/p>\n<p>A viol\u00eancia domestica, sexual e verbal, segundo Alessandra, s\u00e3o comuns \u00e0s mulheres de todo o mundo. Ela mesma sofreu agress\u00f5es de seu ex-companheiro. \u201cMas, n\u00f3s sofremos um preconceito adicional, sermos faveladas\u201d, ressaltou.<\/p>\n<p>A portuguesa Tatiana Moura, do Observat\u00f3rio sobre G\u00eanero e Viol\u00eancia Armada do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, n\u00e3o v\u00ea a viol\u00eancia domestica como \u201cum elemento decisivo\u201d para entrar no trafico de drogas.<\/p>\n<p>\u201cS\u00e3o uma sucess\u00e3o de viol\u00eancias \u2013 econ\u00f4mica, de g\u00eanero ou social \u2013 que podem influir no envolvimento de mulheres e de homens na viol\u00eancia armada\u201d, disse \u00e0 IPS desde Coimbra.<\/p>\n<p>Em seu livro \u201cRostos invis\u00edveis, a viol\u00eancia armada\u201d, para o qual pesquisou por um ano e meio nas favelas do Rio de Janeiro, Tatiana aborda a quest\u00e3o da mulher como v\u00edtima e tamb\u00e9m com protagonista.<\/p>\n<p>\u201cA viol\u00eancia armada apareceu como uma forma de rea\u00e7\u00e3o a outros tipos de viol\u00eancias acumuladas\u201d, como abusos f\u00edsicos e psicol\u00f3gicos, e de \u201cviol\u00eancias estruturais e culturais\u201d, resumiu.  G\u00eanero e narcotr\u00e1fico  Muitos estudos abordam a participa\u00e7\u00e3o no tr\u00e1fico de jovens como os atendidos pelo projeto de mulheres de paz. Mas, poucos aprofundam sobre a participa\u00e7\u00e3o feminina.<\/p>\n<p>Tatiana Moura ressaltou, precisamente, a maneira \u201cseparada\u201d com que se pesquisa no Brasil a viol\u00eancia urbana e \u201cas viol\u00eancias de g\u00eanero\u201d.<\/p>\n<p>\u201cCom tend\u00eancia, o campo feminista se ocupa da viol\u00eancia contra as mulheres especificamente da viol\u00eancia domestica, e d\u00e1 pouca aten\u00e7\u00e3o a outras particularidades do universo da seguran\u00e7a p\u00fablica\u201d, disse.<\/p>\n<p>Por seu lado, os investigadores e ativistas em seguran\u00e7a e criminalidade \u201cmarginalizam as quest\u00f5es de g\u00eanero\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>\u201cTudo ocorre com se o fen\u00f4meno da viol\u00eancia estivesse dividido em dois polos independentes: o espa\u00e7o p\u00fablico, reservado aos homens \u2013 que s\u00e3o, de fato, os que mais matam e morrem por armas de fogo \u2013 e o mundo dom\u00e9stico, considerado o lugar por excel\u00eancia da vitimiza\u00e7\u00e3o feminina\u201d, disse a especialista.<\/p>\n<p>Tatiana foi mais al\u00e9m em seu estudo e estabeleceu, por exemplo, as motiva\u00e7\u00f5es das meninas e mulheres no tr\u00e1fico de drogas.<\/p>\n<p>Elas s\u00e3o \u201cnoivas dos traficantes\u201d e exercem outros papeis \u201cde base\u201d, como o transporte de armas e drogas, at\u00e9 outros de maior hierarquia, como o uso de armas de fogo.<\/p>\n<p>A pesquisa concluiu que \u201cnos papeis perif\u00e9ricos\u201d do tr\u00e1fico as motiva\u00e7\u00f5es subjacentes das mulheres e dos homens s\u00e3o semelhantes: falta de expectativas, exclus\u00e3o social e \u201cperspectiva da viol\u00eancia armada como mecanismo para obten\u00e7\u00e3o de bens de consumo\u201d.<\/p>\n<p>Mas, quando as mulheres assumem papeis \u201cprotagonistas\u201d nas redes do trafico tamb\u00e9m t\u00eam outras raz\u00f5es.<\/p>\n<p>\u201cMuitas vezes t\u00eam filhos, s\u00e3o vi\u00favas e buscam no tr\u00e1fico uma fonte de sustento\u201d, disse Tatiana. Mas, tamb\u00e9m, \u201ca maternidade pode \u00e0s vezes significar o abandono completo dessa vida criminosa\u201d, acrescentou. Cisleia Bento Rosa, outra mulher de paz, dedicou-se ao tr\u00e1fico para criar seus quatro filhos.<\/p>\n<p>Agora, como orientadora de jovens da comunidade, Rosa transmite sua experi\u00eancia.<\/p>\n<p>\u201cConto a eles o que passei e que isso n\u00e3o \u00e9 vida\u201d, contou, mostrando uma cicatriz do passado: a de um tiro no pesco\u00e7o que atravessou a omoplata e que a obriga a usar um dispositivo artificial para falar.<\/p>\n<p>Rosa se preocupa especialmente com os casos de mulheres agredidas ou humilhadas pela pol\u00edcia, que invade ilegalmente suas casas em busca de drogas ou suspeitos.<\/p>\n<p>\u201cDigo a elas como reagir quando os policiais enfiam o p\u00e9 nas portas\u201d, resumiu ao explicar a orienta\u00e7\u00e3o legal que oferece.<\/p>\n<p>Segundo Andr\u00e9a, o sucesso do projeto se baseia nessa participa\u00e7\u00e3o direta das mulheres em sua comunidade.<\/p>\n<p>\u201cSe diferencia de outros porque \u00e9 um projeto de dentro para fora, no sentido de que suas responsabilidades s\u00e3o da comunidade\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Silvia Ramos, coordenadora do universit\u00e1rio Centro de Estudos de Seguran\u00e7a e Cidadania, aprovou o projeto ser em grande escala, em v\u00e1rias comunidades metropolitanas.<\/p>\n<p>Mas, questionou a escassa retribui\u00e7\u00e3o que entrega aos jovens, cerca de US$ 50 mensais. A bolsa \u2013 disse \u2013 n\u00e3o representa um est\u00edmulo para jovens que, afastados do tr\u00e1fico, ficam \u201csem profiss\u00e3o, fora da escola e totalmente destreinados para o mercado de trabalho\u201d. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Rio de Janeiro, 30\/06\/2009 &ndash; \u00c9 um dia de tiroteio no Morro da Provid\u00eancia e somente se pode circular sem muito perigo na base do morro, um espa\u00e7o cotidiano que na cidade do Rio de Janeiro as mulheres das favelas tentam pacificar. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/06\/america-latina\/brasil-mulheres-levam-a-paz-as-favelas\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":75,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,11],"tags":[21,24],"class_list":["post-5253","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-politica","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5253","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/75"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5253"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5253\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5253"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5253"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5253"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}