{"id":5287,"date":"2009-07-14T12:51:19","date_gmt":"2009-07-14T12:51:19","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5287"},"modified":"2009-07-14T12:51:19","modified_gmt":"2009-07-14T12:51:19","slug":"zimbabue-o-dinheiro-primeiro-a-saude-em-segundo-lugar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/07\/africa\/zimbabue-o-dinheiro-primeiro-a-saude-em-segundo-lugar\/","title":{"rendered":"ZIMBABU\u00c9: &#39;O dinheiro primeiro, a sa\u00fade em segundo lugar&#39;"},"content":{"rendered":"<p>HARARE, 14\/07\/2009 &ndash; Com metade do seu corpo submergido num pequeno lago lamacento de cor avermelhada, Esther Nyarambi examina cuidadosamente a sua peneira de madeira, conhecida localmente por zamba. Depois de passar todo o dia a bater na rocha aur\u00edfera, ela tem esperan\u00e7a que os seus esfor\u00e7os sejam recompensados, nem que seja pela mais pequena pepita de ouro. <!--more--> Como acontece com a maior parte dos garimpeiros de ouro nas zonas de Nyamahumbe e Chishapa, no distrito de Shamva, rico em ouro e localizado na prov\u00edncia central zimbabueana de Mashonaland, Nyarambi adiciona despreocupadamente uma colher de merc\u00fario ao zamba, para extrair o metal precioso. <\/p>\n<p>Pouco sabe sobre o n\u00edvel de toxicidade do merc\u00fario e os enormes problemas de sa\u00fade a que se exp\u00f5e. Com as m\u00e3os desprotegidas, esta mulher de 26 anos mistura os ingredientes na peneira de madeira at\u00e9 que o merc\u00fario l\u00edquido come\u00e7a a envolver as pequenas part\u00edculas de p\u00f3 de ouro, formando uma pepita. <\/p>\n<p>O Dr. Cleopas Sibanda, especialista de sa\u00fade ocupacional, diz que o merc\u00fario destr\u00f3i as extremidades dos nervos e provoca mudan\u00e7as no estado de esp\u00edrito das pessoas. \u201cOs indiv\u00edduos expostos a este metal mostram sinais de irritabilidade, mudan\u00e7as no seu estado de esp\u00edrito, corpo nervoso e gengivas a sangrar. A incapacidade de se concentrarem tamb\u00e9m tem sido confirmada naqueles que est\u00e3o expostos a este metal\u201d, disse \u00e0 IPS.<\/p>\n<p>\u201cO merc\u00fario \u00e9 uma amea\u00e7a espec\u00edfica para as mulheres gr\u00e1vidas e para os seus b\u00e9bes ainda n\u00e3o nascidos\u201d. <\/p>\n<p>Desesperados para encontrarem ouro e tamb\u00e9m uma sa\u00edda para a pobreza, Nyarambi e os seus colegas garimpeiros n\u00e3o est\u00e3o preocupados com os potenciais riscos para a sa\u00fade. <\/p>\n<p>\u201c\u00c9 f\u00e1cil e r\u00e1pido usar o merc\u00fario quando se extrai o ouro em p\u00f3 do min\u00e9rio. Depois de se triturar as pedras que cont\u00eam o min\u00e9rio, o merc\u00fario torna o trabalho mais f\u00e1cil e remove todas as impurezas do ouro\u201d, explica Nyarambi. <\/p>\n<p>\u201cTenho ouvido dizer que causa problemas de sa\u00fade se a pessoa inalar o produto, mas n\u00e3o fa\u00e7o isso. S\u00f3 uso o merc\u00fario para juntar os pequenos fragmentos de ouro. Uso o merc\u00fario h\u00e1 cinco anos e nunca tive nenhum problema\u201d, acrescentou. <\/p>\n<p>Milhares de jovens pobres e desempregados foram para o distrito de Shamva, onde se diz que existem ricas jazidas de ouro aluvial, com a esperan\u00e7a de ficarem ricos. No passado, v\u00e1rios garimpeiros ilegais conseguiram acumular uma fortuna f\u00e1cil nesta zona e montaram neg\u00f3cios de transporte e venda a retalho com o dinheiro obtido com o ouro. <\/p>\n<p>Riscos para a sa\u00fade<\/p>\n<p>Apesar do lan\u00e7amento de uma opera\u00e7\u00e3o policial intitulada Opera\u00e7\u00e3o Chikorokoza Chapera (Opera\u00e7\u00e3o Acabar com a Extrac\u00e7\u00e3o IIegal) h\u00e1 dois anos, a pol\u00edcia n\u00e3o conseguiu travar os mineiros, ou makorokoza, como s\u00e3o chamados na l\u00edngua shona. Com uma grama de ouro a ser vendida por 20 d\u00f3lares, enquanto que a on\u00e7a, ou seja 23.3 gramas, \u00e9 vendida por valor superior a 900 d\u00f3lares no mercado internacional, os garimpeiros dizem que far\u00e3o tudo para encontrarem ouro. <\/p>\n<p>\u201cIsto \u00e9 o que se chama fazer dinheiro. O dinheiro est\u00e1 em primeiro lugar e a sa\u00fade em segundo. \u00c9 simples, dinheiro ou sa\u00fade\u201d, disse Pfimbikai Mate, um dos makorokoza que tem ganho a sua vida nos \u00faltimos seis anos a extrair ouro. <\/p>\n<p>Em Janeiro, o Gabinete das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Coordena\u00e7\u00e3o de Assuntos Humanit\u00e1rios (OCHA) afirmou que s\u00f3 seis por cento dos zimbabueanos est\u00e1 a trabalhar no sector formal, por compara\u00e7\u00e3o com os 30 por cento que trabalhavam neste sector em 2003. Esta acentuada queda deve-se principalmente \u00e0 situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f3mica inst\u00e1vel do pa\u00eds, juntamente com secas repetidas que causaram uma inseguran\u00e7a alimentar generalizada.<\/p>\n<p>Mate explica que os compradores de ouro privados no Zimbabu\u00e9 criaram um mercado para os garimpeiros atrav\u00e9s do contrabando do metal precioso para a China, \u00c1frica do Sul e Angola. Fornecem merc\u00fario aos garimpeiros para aumentar a produ\u00e7\u00e3o, sem lhes explicar os perigos para a sa\u00fade que est\u00e3o associados ao uso deste metal. <\/p>\n<p>Redes de contrabando<\/p>\n<p>O merc\u00fario est\u00e1 registado como subst\u00e2ncia altamente perigosa pela Ag\u00eancia de Gest\u00e3o do Meio Ambiente do Zimbabu\u00e9 (EMA). O Director da Ag\u00eancia, Phillip Manyaza, reconhece que, at\u00e9 agora, a ag\u00eancia falhou o seu objectivo de controlar e regular a importa\u00e7\u00e3o de merc\u00fario proveniente da \u00c1frica do Sul e da Europa, identificadas pelo Programa das Na\u00e7\u00f5es Unidas para o Ambiente como os principais pontos de origem do merc\u00fario usado no Zimbabu\u00e9. Acrescenta ainda que n\u00e3o tem sido f\u00e1cil aplicar a legisla\u00e7\u00e3o existente contra o uso pouco seguro e a importa\u00e7\u00e3o n\u00e3o autorizada do metal. <\/p>\n<p>A lei estipula que deve ser imposta uma pena de pris\u00e3o aos indiv\u00edduos e companhias que trazem o merc\u00fario para o pa\u00eds sem autoriza\u00e7\u00e3o, mas os contrabandistas facilmente importam esta subst\u00e2ncia t\u00f3xica, explicou. <\/p>\n<p>&#8220;Temos boa legisla\u00e7\u00e3o contra o uso de subst\u00e2ncias perigosas, mas a aplica\u00e7\u00e3o tem sido dif\u00edcil. A pol\u00edcia n\u00e3o tem conhecimentos especializados e n\u00e3o tem o equipamento necess\u00e1rio (nem ve\u00edculos suficientes) para fiscalizar o n\u00famero crescente de garimpeiros de ouro. \u00c9 um problema.\u201d admitiu Manyaza. <\/p>\n<p>A extrac\u00e7\u00e3o de ouro tamb\u00e9m tem um impacto negativo no meio ambiente. A alguns quil\u00f3metros do principal local de escava\u00e7\u00e3o, no distrito de Shamva, o Chefe Bushu, admnistrador cultural da \u00e1rea, afirma que casas inteiras t\u00eam desabado porque os mineiros arrancam solo e grandes pedregulhos \u00e0 procura do ouro, escavando t\u00faneis subterr\u00e2neos inst\u00e1veis. <\/p>\n<p>O meio ambiente devastado \u00e9 prova do trabalho dos makorokozas, trabalho esse que cria profundas crateras em resultado dos t\u00faneis desmoronados, que se transformam em armadilhas mortais para o gado e para os seres humanos. Os garimpeiros tamb\u00e9m s\u00e3o respons\u00e1veis pela destrui\u00e7\u00e3o de uma variedade de flora e fauna protegidas, al\u00e9m de deixarem o solo vulner\u00e1vel \u00e0 eros\u00e3o. <\/p>\n<p>De acordo com o PNUA, a minera\u00e7\u00e3o e a explora\u00e7\u00e3o de ouro em pequena escala \u00e9 a segunda maior fonte de polui\u00e7\u00e3o do meio ambiente pelo merc\u00fario a n\u00edvel mundial.<\/p>\n<p>At\u00e9 a culturalmente reverenciada figueira, cujo abate \u00e9 proibido na cultura shona visto que \u00e9 considerada local de habita\u00e7\u00e3o dos esp\u00edritos ancestrais, n\u00e3o tem sido poupada. O seu tronco \u00e9 usado para esculpir as peneiras de madeira, os mazamba.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>HARARE, 14\/07\/2009 &ndash; Com metade do seu corpo submergido num pequeno lago lamacento de cor avermelhada, Esther Nyarambi examina cuidadosamente a sua peneira de madeira, conhecida localmente por zamba. 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