{"id":5328,"date":"2009-07-23T17:21:44","date_gmt":"2009-07-23T17:21:44","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5328"},"modified":"2009-07-23T17:21:44","modified_gmt":"2009-07-23T17:21:44","slug":"agricultura-investir-nas-pessoas-a-licao-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/07\/america-latina\/agricultura-investir-nas-pessoas-a-licao-brasileira\/","title":{"rendered":"AGRICULTURA: Investir nas pessoas, a li\u00e7\u00e3o brasileira"},"content":{"rendered":"<p>Nova Russas, Cear\u00e1, 23\/07\/2009 &ndash; O nigeriano Kanayo Nwanze escolheu o Brasil para sua primeira visita oficial com presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agr\u00edcola (Fida).  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_5328\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/FidaNovaRussas_017_MarioOsavaIPS1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5328\" class=\"size-medium wp-image-5328\" title=\" - Mario Osava\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/FidaNovaRussas_017_MarioOsavaIPS1.jpg\" alt=\" - Mario Osava\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5328\" class=\"wp-caption-text\"> - Mario Osava\/IPS<\/p><\/div>  Ficou completamente satisfeito: foi a ocasi\u00e3o oportuna para confirmar pessoalmente o compromisso do presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva com a agricultura familiar. Al\u00e9m de conversar com membros do governo em Bras\u00edlia, Nwanze conheceu a realidade dos camponeses pobres e as transforma\u00e7\u00f5es em raz\u00e3o dos projetos apoiados pelo Fida no nordeste do Pa\u00eds.<\/p>\n<p>A pol\u00edtica de coopera\u00e7\u00e3o agr\u00edcola que o Brasil come\u00e7a a desenvolver, especialmente com a \u00c1frica, tamb\u00e9m interessa muito ao Fida, ag\u00eancia da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas especializada na pequena agricultura e na luta contra a fome. Nwanze concedeu esta entrevista \u00e0 IPS em sua visita a uma comunidade de agricultores familiares em Nova Russas, munic\u00edpio pobre de 30 mil habitantes no interior do semi-\u00e1rido Estado do Cear\u00e1.<\/p>\n<p>IPS- O que o Fida espera do Brasil em termos de transfer\u00eancia de tecnologia e de conhecimentos para a \u00c1frica?<\/p>\n<p>Nowanze- Primeiro, vamos estabelecer um crit\u00e9rio b\u00e1sico: o investimento na agricultura de minif\u00fandio familiar \u00e9 a mais crucial, a que d\u00e1 mais benef\u00edcios seguros, tanto no Brasil quanto na maior parte da \u00c1frica subsaariana. Estes investimentos s\u00e3o de duas a quatro vezes mais efetivos para reduzir a pobreza do que qualquer outro. Hoje, no Brasil, esse tipo de agricultura representa 70% dos produtores. Na \u00c1frica subsaariana, s\u00e3o cerca de 80%: \u00e0 raz\u00e3o de cinco pessoas por fam\u00edlia, estamos falando de aproximadamente 400 milh\u00f5es de pessoas. Isto \u00e9 mais do que a metade da popula\u00e7\u00e3o da \u00c1frica subsaariana, e produz 80% dos alimentos da regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Os \u00eaxitos que vemos aqui, a capacidade dos agricultores de se organizarem, a estrutura social que instalaram, o enfoque dirigido ao mercado, tudo isso \u00e9 facilmente aplic\u00e1vel no contexto africano. Representantes sul-africanos vieram ao Brasil em novembro passado. Os brasileiros ir\u00e3o \u00e0 \u00c1frica do Sul este m\u00eas. O Fida cumpre o papel de facilitador do interc\u00e2mbio de conhecimentos que o Brasil acumulou e que podem ser transferidos para qualquer parte do mundo. Espero que os governos africanos se d\u00eaem conta da import\u00e2ncia dos compromissos pol\u00edticos em seu mais alto n\u00edvel, e o Presidente Lula \u00e9 exemplar nesse sentido. Ele nos disse pessoalmente, quando o visitamos em Bras\u00edlia, que investir nas pessoas e no minif\u00fandio consegue tecer a mais sustent\u00e1vel das redes de seguridade social.<\/p>\n<p>IPS- O que pode dizer do conceito brasileiro de agricultura familiar? O senhor adotou esse conceito no Fida?<\/p>\n<p>Nowanze- N\u00e3o \u00e9 um conceito: \u00e9 uma simples pr\u00e1tica. No Brasil se chama agricultura familiar, e isso equivale a minif\u00fandio agr\u00edcola, a agricultura de pequena escala.<\/p>\n<p>IPS- Mas o fato de no Brasil se falar de agricultura familiar e n\u00e3o de agricultura de pequena escala d\u00e1 uma id\u00e9ia de comunidade.<\/p>\n<p>Nowanze- \u00c9 o mesmo. As pequenas propriedades africanas est\u00e3o localizadas umas junto das outras. E isso lhes d\u00e1 maiores possibilidades de \u00eaxito, porque n\u00e3o se trata de produtores individuais. Nesse esfor\u00e7o comunit\u00e1rio se integram os valores familiares, e no processo tamb\u00e9m se percebe a agricultura como neg\u00f3cio, como criadora de empregos, como produtora de riqueza econ\u00f4mica. N\u00e3o \u00e9 uma simples fonte de alimento para a fam\u00edlia.<\/p>\n<p>IPS- Quais li\u00e7\u00f5es deixa a crise econ\u00f4mica no plano da seguran\u00e7a alimentar?<\/p>\n<p>Nowanze- A primeira, e espero que o mundo a tenha aprendido, \u00e9 que n\u00e3o se pode reduzir o investimento na agricultura. Com a carestia de 2007, houve dist\u00farbios em todo o mundo, do Egito ao Haiti. E isso foi consequ\u00eancia do desinvestimento, tanto em n\u00edvel internacional quanto nacional. A porcentagem da ajuda oficial ao desenvolvimento destinada \u00e0 agricultura caiu de 20% em 1980 para menos de 5% em 2007. O investimento dos governos nacionais caiu de 14% para menos de 4%. Enquanto isso subiam os pre\u00e7os do petr\u00f3leo e dos fertilizantes. Os agricultores n\u00e3o tinham acesso aos insumos, que s\u00e3o caros. Assim, veio a crise. A agricultura est\u00e1 nas \u00faltimas paginas da agenda, e tudo mostra que \u00e9, na realidade, a coluna vertebral do crescimento econ\u00f4mico de qualquer na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>IPS- Ent\u00e3o, a prioridade deve ser a pequena agricultura ou a agricultura em geral?<\/p>\n<p>Nowanze- Ambas. Devemos investir em agricultura. Nas comunidades onde h\u00e1 minif\u00fandios, devemos investir neles. \u00c9 preciso gerar oportunidades para elas, as vincular com o setor privado. Devemos fazer com os pequenos produtores o mesmo que fazemos com os grandes estabelecimentos. Os investimentos em agricultura n\u00e3o pode parar, porque tudo continua crescendo. N\u00e3o podemos deixar de investir no setor por terem baixado os pre\u00e7os e pensarmos que n\u00e3o precisamos produzir mais alimentos. Me parece que o mundo se deu conta de que a inseguran\u00e7a alimentar pode derivar em inseguran\u00e7a internacional.<\/p>\n<p>IPS- Qual opapel das negocia\u00e7\u00f5es da Organiza\u00e7\u00e3o Mundial do Com\u00e9rcio? Deve haver acordo? Eliminar os subs\u00eddios seria bom para os pa\u00edses pobres<\/p>\n<p>Nowanze- Naturalmente, as negocia\u00e7\u00f5es devem ser conclu\u00eddas. Com com\u00e9rcio justo, com o fim das barreiras internacionais ao interc\u00e2mbio&#8230; \u00c0 maioria dos pa\u00edses em desenvolvimento se diz para n\u00e3o subsidiarem seus agricultores, mas sabemos, ao mesmo tempo, quanto gastam as na\u00e7\u00f5es ricas em subs\u00eddios para seus produtores. Por que a dicotomia? Os subs\u00eddios s\u00e3o bons para a Europa, s\u00e3o bons para a \u00c1frica e para o Brasil. Mas os subs\u00eddios de sucesso s\u00e3o os pequenos. Os subs\u00eddios inteligentes. Como fez Malawi com o milho: o governo ajuda os agricultores e lhes facilita o acesso ao mercado e \u00e0 tecnologia com incentivo ao crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n<p>IPS- H\u00e1 conflito entre biocombust\u00edveis e alimentos? Nowanze- H\u00e1 quanto tempo o Brasil produz biocombustivel? Vinte e cinco anos?<\/p>\n<p>IPS- Trinta anos.<\/p>\n<p>Nowanze- Trinta anos. H\u00e1 conflito? N\u00e3o. N\u00e3o se pode dizer que nada seja ruim por si mesmo. O problema \u00e9 como se faz. Se uma \u00e1rea onde se planta alimento, milho, por exemplo, come\u00e7ar a ser usada para produzir biocombust\u00edvel, se reduz o acesso ao gr\u00e3o. Provoca-se um encarecimento artificial. Quando em terras agr\u00edcolas de pa\u00edses pobres se come\u00e7a a produzir biocombust\u00edveis, seus governos sair\u00e3o a mendigar comida e sobreviver\u00e3o apenas atrav\u00e9s da assist\u00eancia.<\/p>\n<p>O que tamb\u00e9m est\u00e1 em quest\u00e3o \u00e9 a viabilidade econ\u00f4mica. O Brasil, por exemplo, plantou cana-de-a\u00e7\u00facar em terras que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o eram agr\u00edcolas. Isso foi economicamente vi\u00e1vel e o pre\u00e7o do a\u00e7\u00facar n\u00e3o foi afetado. \u00c9 diferente se a Europa decidir aumentar em 10% sua produ\u00e7\u00e3o de biocombust\u00edveis, pois produzir\u00e1 um litro com um gasto de \u00e1gua 10 vezes superior ao que consome para produzir um litro de combust\u00edvel f\u00f3ssil. Por isso, os biocombust\u00edveis n\u00e3o s\u00e3o um erro, mas pode ser errado o contexto no qual se investe neles.<\/p>\n<p>IPS- A agricultura familiar adota cada vez mais o que no Brasil se chama agroecologia. O que pensa dessa modalidade?<\/p>\n<p>Nowanze- Basicamente, o termo agroecologia, como empregado no Brasil, significa agricultura org\u00e2nica, praticada sem pesticidas ou inseticidas qu\u00edmicos. Por que uma comunidade deveria us\u00e1-los se carece de recursos para compr\u00e1-los devido ao seu pre\u00e7o alto? Mas, devemos situar os argumentos em seu devido contexto. Se existe a possibilidade, seja no Brasil ou na \u00c1frica, de produzir alimentos org\u00e2nicos atrav\u00e9s da agricultura familiar e de obter bons pre\u00e7os, devido \u00e0 demanda do Norte, por que n\u00e3o faz\u00ea-lo, dessa forma gerando riqueza?<\/p>\n<p>\u00c9 simples: o pre\u00e7o dos fertilizantes e dos inseticidas qu\u00edmicos \u00e9 alto, o do combust\u00edvel sobe. Quem pagar\u00e1 o custo de uma comunidade agr\u00edcola familiar? Para estes camponeses, \u00e9 mais eficiente cultivar sem produtos qu\u00edmicos. Mas, em um pa\u00eds onde apenas 2% dos habitantes s\u00e3o agricultores e os sal\u00e1rios n\u00e3o s\u00e3o altos, s\u00e3o necess\u00e1rios outros enfoques para produzir alimentos.<\/p>\n<p>IPS- Falemos de cultivos geneticamente modificados&#8230;<\/p>\n<p>Nowanze- H\u00e1 cerca confus\u00e3o com o uso desse termo. Quando transferimos genes de uma esp\u00e9cie para outra \u2013 de um animal para um vegetal, por exemplo \u2013 falamos de organismos transg\u00eanicos. \u00c9 uma coisa distinta. N\u00e3o esque\u00e7amos que a medicina usa organismos geneticamente modificados para produzir vacinas h\u00e1 muito tempo. Meu corpo, seu corpo, t\u00eam esses organismos por raz\u00f5es sanit\u00e1rias.<\/p>\n<p>A agricultura tem problemas que n\u00e3o podem ser resolvidos com enfoques tradicionais. H\u00e1 \u00e1reas com secas freq\u00fcentes cujos produtores n\u00e3o podem plantar cultivos resistentes a elas. Nesses casos, a \u00fanica possibilidade \u00e9 apelar para os transg\u00eanicos: h\u00e1 um problema, e nesse caso a tecnologia \u00e9 a \u00fanica ferramenta. Agora, nem 5% das terras agr\u00edcolas da \u00c1frica s\u00e3o irrigadas, e a maioria delas fica no Egito, n\u00e3o na regi\u00e3o subsaariana.<\/p>\n<p>Os agricultores africanos usam oito quilos de fertilizante por hectare, quando os asi\u00e1ticos usam apenas 1,2 quilo. Se n\u00e3o explorarem tecnologias simples, que j\u00e1 existem, por que teriam de recorrer aos transg\u00eanicos? Coloquemos o cavalo \u00e0 frente da carro\u00e7a, n\u00e3o atr\u00e1s. Ali onde o \u00fanico recurso poss\u00edvel \u00e9 o uso de organismos geneticamente modificados&#8230; devem ser usados. Mas, n\u00e3o s\u00e3o a solu\u00e7\u00e3o par \u00e0 crise alimentar, e sim para um problema particular: o das pestes que se tornam totalmente resistentes aos pesticidas qu\u00edmicos. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nova Russas, Cear\u00e1, 23\/07\/2009 &ndash; O nigeriano Kanayo Nwanze escolheu o Brasil para sua primeira visita oficial com presidente do Fundo Internacional para o Desenvolvimento Agr\u00edcola (Fida). <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/07\/america-latina\/agricultura-investir-nas-pessoas-a-licao-brasileira\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,12,5,4],"tags":[21],"class_list":["post-5328","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-desenvolvimento","category-economia","category-mundo","tag-metas-do-milenio"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5328","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5328"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5328\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5328"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5328"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5328"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}