{"id":5336,"date":"2009-07-27T11:51:49","date_gmt":"2009-07-27T11:51:49","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5336"},"modified":"2009-07-27T11:51:49","modified_gmt":"2009-07-27T11:51:49","slug":"africa-austral-cheias-interromper-o-ciclo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/07\/africa\/africa-austral-cheias-interromper-o-ciclo\/","title":{"rendered":"\u00c1FRICA AUSTRAL: Cheias &#8211; interromper o ciclo"},"content":{"rendered":"<p>LUANDA, 27\/07\/2009 &ndash; O quarto maior rio em \u00c1frica, o poderoso rio Zambeze, serve de sustento a 32 milh\u00f5es de pessoas, desde a Z\u00e2mbia no interior, at\u00e9 Mo\u00e7ambique no Oceano \u00cdndico. Mas as suas ben\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m podem ser uma maldi\u00e7\u00e3o. <!--more--> As altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas s\u00e3o apontadas como sendo respons\u00e1veis pelo aumento da precipita\u00e7\u00e3o ao longo dos 2.574 quil\u00f3metros do rio atrav\u00e9s de Angola, Z\u00e2mbia, Botsuana, Namibia, Zimbabu\u00e9 e Mo\u00e7ambique. <\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, centenas de milhares de pessoas perderam as suas casas, o seu gado e o seu sustento, causando uma grande inseguran\u00e7a alimentar, o aumento de doen\u00e7as transmitidas pela \u00e1gua, e a degrada\u00e7\u00e3o ambiental a longo prazo, numa \u00e1rea que j\u00e1 est\u00e1 profundamente afectada por elevados n\u00edveis de VIH e pela pobreza associada a essa situa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Contar os custos<\/p>\n<p>O in\u00edcio de 2009 testemunhou algumas das piores cheias na hist\u00f3ria desta regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Na Nam\u00edbia, mais de 100 pessoas morreram e 55.000 ficaram desalojadas, tendo 350.000 perdido os seus meios de subsist\u00eancia, o que levou o governo a declarar as cheias uma \u201ccat\u00e1strofe nacional\u201d. <\/p>\n<p>Na Z\u00e2mbia, onde as chuvas anuais aumentarem de 900 mm para 1.300 mm nos \u00faltimos anos, as comunidades que julgavam poder calcular quando deviam abandonar as plan\u00edcies inund\u00e1veis foram agora apanhadas de surpresa. Este ano, dezenas de milhares de pessoas ficaram sem casa e as cheias, que destru\u00edram as colheitas, s\u00e3o descritas como as piores em 150 anos. <\/p>\n<p>E em Angola, ainda a recuperar da guerra civil que durou tr\u00eas decadas e que terminou em 2002, mais de 222.000 fam\u00edlias ficaram sem casa devido \u00e0s cheias que destru\u00edram casas, afundaram estradas e arruinaram 228 hectares de colheitas, al\u00e9m de serem respons\u00e1veis pela morte de cabras, vacas e gado. <\/p>\n<p>Comunidades vulner\u00e1veis <\/p>\n<p>Uma equipa da Cruz Vermelha brit\u00e2nica enviada para a prov\u00edncia do Moxico, no sudoeste de Angola, encontrou pessoas a viverem em condi\u00e7\u00f5es desesperadas, com acesso limitado a alimentos e medicamentos, ap\u00f3s terem perdido as suas colheitas devido \u00e0s cheias, e tendo pouca esperan\u00e7a de poder recome\u00e7ar a sua vida sem ajuda externa. <\/p>\n<p>Linda Hitchcox disse \u00e0 IPS: &#8220;Esta prov\u00edncia ainda est\u00e1 muito afectada pela guerra. \u00c9 um ambiente selvagem, as pessoas vivem uma exist\u00eancia de subsist\u00eancia e do que podem recolher, dependendo da pesca rudimentar para poderem sobreviver cada dia que passa. Agora perderam as suas casas, o seu meio de subsist\u00eancia e o seu gado.\u201d<\/p>\n<p>\u201cN\u00e3o \u00e9 que as pessoas n\u00e3o saibam que \u00e9 perigoso viver perto do rio \u2013 claro que sabem isso \u2013 mas escolheram viver nesses locais porque o seu modo de vida \u00e9 muito vulner\u00e1vel. Precisam de viver perto de solos f\u00e9rteis para cultivarem os seus alimentos e estarem perto da \u00e1gua para pescar. <\/p>\n<p>Como se verificou na Z\u00e2mbia, por exemplo, os ciclos tradicionais de chuva e per\u00edodos de seca j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o previs\u00edveis e os sistemas de alerta existentes usados pelas comunidades n\u00e3o s\u00e3o suficientes para proteger aqueles que vivem na regi\u00e3o da bacia do Zambeze.<\/p>\n<p> Encontrar solu\u00e7\u00f5es <\/p>\n<p>Numa tentativa de lidar com o impacto das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas e os seus efeitos nestas comunidades, a Federa\u00e7\u00e3o Internacional das Sociedades da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho criaram a Iniciativa transfronteiri\u00e7a da Bacia do Rio Zambeze (ZRBI). <\/p>\n<p>Concebida em 2008 e lan\u00e7ada no m\u00eas passado, o objectivo da ZRBI \u00e9 aplicar a gest\u00e3o de cat\u00e1strofes a longo prazo a esta regi\u00e3o.<\/p>\n<p>A iniciativa inclui os seis pa\u00edses por onde passa o Zambeze, tendo o Malaui tamb\u00e9m sido inclu\u00eddo, visto que o rio Shire, um dos maiores tribut\u00e1rios do Zambeze, est\u00e1 regularmente sujeito a contracorrentes e a subsequentes cheias. <\/p>\n<p>Uma iniciativa transfronteiri\u00e7a semelhante, que inclui as Sociedades da Cruz Vermelha do Qu\u00e9nia, Uganda e Tanz\u00e2nia, tem sido posta em pr\u00e1tica e testada desde 2003 nas costas do Lago Vit\u00f3ria, na \u00c1frica Oriental. <\/p>\n<p>\u201cNos \u00faltimos anos, assistimos a um aumento dram\u00e1tico do n\u00famero de cheias ao longo da bacia do rio\u201d, explicou Farid Abdulkadir, coordenador de gest\u00e3o de cat\u00e1strofes da FICV na \u00c1frica Austral. <\/p>\n<p>Interromper o ciclo<\/p>\n<p>\u201cPara muitas comunidades, estes acontecimentos s\u00e3o agora crises anuais, deixando-as num ciclo quase perp\u00e9tuo de desastres, desloca\u00e7\u00f5es e recupera\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>\u201cO objectivo da iniciativa do Zambeze \u00e9 interromper este ciclo, ajudar as comunidades a estarem preparadas para estas cat\u00e1strofes e encoraj\u00e1-las a tomarem medidas no sentido de reduzir o impacto devastador que este ciclo tem sobre as suas vidas\u201d. <\/p>\n<p>Um aspecto da iniciativa \u00e9 o planeamento a longo prazo, a implementa\u00e7\u00e3o de sistemas robustos de alertas precoces e a cria\u00e7\u00e3o de uma abordagem mais integrada em toda a regi\u00e3o entre os volunt\u00e1rios da Cruz Vermelha e as diversas delega\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Karen Hvid, representante da FICV em Angola, afirmou: \u201cA quest\u00e3o mais importante consiste em proporcionar \u00e0s comunidades as ferramentas necess\u00e1rias para reagirem atempadamente aos perigos e inform\u00e1-las como devem reagir durante as primeiras 48 horas antes da ajuda chegar\u201d. <\/p>\n<p>\u201cSe uma comunidade conhecer as suas vulnerabilidades e a sua capacidade, pode aprender a ajudar-se a si mesma\u201d. <\/p>\n<p>Acrescentou que mesmo as ferramentas b\u00e1sicas, como tambores e bandeiras a cores, podem ajudar as pessoas a transmitirem informa\u00e7\u00e3o sobre o perigo e salvar vidas. <\/p>\n<p>Os levantamentos efectuados pelas delega\u00e7\u00f5es da Cruz Vermelha na regi\u00e3o constataram que as cheias, a subsequente desloca\u00e7\u00e3o de pessoas e a perda de colheitas t\u00eam causado vulnerabilidades extremas a n\u00edvel social, econ\u00f3mico e psicol\u00f3gico e ainda no campo da sa\u00fade. <\/p>\n<p>Estas vulnerabilidades devem-se a uma s\u00e9rie de factores, incluindo a falta de \u00e1gua pot\u00e1vel e infraestruturas de saneamento, a exist\u00eancia de \u00e1gua estagnada, que faz aumentar as doen\u00e7as transmitidas pela \u00e1gua como a c\u00f3lera e a uma maior reprodu\u00e7\u00e3o de mosquitos, causando mais mal\u00e1ria, a depend\u00eancia do milho, com poucas fontes alternativas de rendimento, uma maior inseguran\u00e7a alimentar, n\u00edveis mais elevados de VIH e SIDA, um elevado n\u00famero de agregados familiares liderados por mulheres, e at\u00e9 mesmo uma invas\u00e3o de crocodilos e hipop\u00f3tamos devido a elevados n\u00edveis de \u00e1gua. <\/p>\n<p>A ideia \u00e9 resolver estes assuntos em conjunto e n\u00e3o isoladamente, antes e n\u00e3o depois da ocorr\u00eancia das cheias. <\/p>\n<p>O processo come\u00e7a com a cria\u00e7\u00e3o de mapas dos perigos que afectam as comunidades, por forma a melhor compreender os riscos, a gest\u00e3o de cat\u00e1strofes para saber reagir \u00e0s cheias e a forma\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria a n\u00edvel de sa\u00fade e saneamento, com vista a reduzir a propaga\u00e7\u00e3o de doen\u00e7as provocada pelo elevado n\u00edvel das \u00e1guas. <\/p>\n<p>Depois h\u00e1 a melhoria da conserva\u00e7\u00e3o dos alimentos p\u00f3s-colheita para as culturas que sobrevivem, a informa\u00e7\u00e3o sobre a protec\u00e7\u00e3o dos solos, os viveiros de sementes, a diversifica\u00e7\u00e3o de colheitas e a forma\u00e7\u00e3o sobre a nutri\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>As quest\u00f5es ambientais tamb\u00e9m s\u00e3o extremamente importantes e a ideia \u00e9 envidar esfor\u00e7os no sentido de impedir a degrada\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o a longo prazo atrav\u00e9s da planta\u00e7\u00e3o de \u00e1rvores, a fim de reduzir a desfloresta\u00e7\u00e3o e a subsequente eros\u00e3o dos solos. <\/p>\n<p>O objectivo da ZRBI \u00e9 beneficiar directamente 235.800 pessoas, na sua maioria mulheres e crian\u00e7as, durante um periodo de tr\u00eas anos. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se prev\u00ea que outras 464.000 pessoas que vivem nos distritos pr\u00f3ximos mais afectados beneficiem indirectamente de um programa de forma\u00e7\u00e3o sobre sistemas de alerta precoce, prepara\u00e7\u00e3o para lidar com cat\u00e1strofes e medidas de preven\u00e7\u00e3o contra a mal\u00e1ria e o VIH. Este programa dever\u00e1 abarcar 700.000 pessoas. <\/p>\n<p>\u00c9 claro que tais iniciativas n\u00e3o s\u00e3o baratas e a FICV apela agora a fundos no valor de oito milh\u00f5es de dol\u00e1res para financiar o seu trabalho. <\/p>\n<p>Segundo a organiza\u00e7\u00e3o, esta ajuda em dinheiro tem um impacto humanit\u00e1rio multiplicado por quatro se for empregue antes da cat\u00e1strofe e n\u00e3o depois, numa opera\u00e7\u00e3o de ajuda n\u00e3o ponderada. <\/p>\n<p>Tamb\u00e9m espera que o Zambeze possa um dia atingir o seu potencial em diversas \u00e1reas como turismo, artesanato, interc\u00e2mbio cultural, com\u00e9rcio transfronteiri\u00e7o, produ\u00e7\u00e3o de electricidade e conserva\u00e7\u00e3o do meio ambiente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>LUANDA, 27\/07\/2009 &ndash; O quarto maior rio em \u00c1frica, o poderoso rio Zambeze, serve de sustento a 32 milh\u00f5es de pessoas, desde a Z\u00e2mbia no interior, at\u00e9 Mo\u00e7ambique no Oceano \u00cdndico. 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