{"id":5400,"date":"2009-08-13T15:09:31","date_gmt":"2009-08-13T15:09:31","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5400"},"modified":"2009-08-13T15:09:31","modified_gmt":"2009-08-13T15:09:31","slug":"paraguai-meninas-dao-as-costas-a-exploracao-sexual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/08\/america-latina\/paraguai-meninas-dao-as-costas-a-exploracao-sexual\/","title":{"rendered":"PARAGUAI: Meninas d\u00e3o as costas \u00e0 explora\u00e7\u00e3o sexual"},"content":{"rendered":"<p>Assun\u00e7\u00e3o, 13\/08\/2009 &ndash; Claudia* tinha 13 anos quando chegou \u00e0 capital do Paraguai procedente de uma pequena localidade rural. Apenas algumas semanas depois perambulava pelas ruas centrais de Assun\u00e7\u00e3o, v\u00edtima de explora\u00e7\u00e3o sexual.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_5400\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/feria_cortesiaLunaNueva1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5400\" class=\"size-medium wp-image-5400\" title=\" - Cortes\u00eda del Grupo Luna Nueva.\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/feria_cortesiaLunaNueva1.jpg\" alt=\" - Cortes\u00eda del Grupo Luna Nueva.\" width=\"200\" height=\"171\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5400\" class=\"wp-caption-text\"> - Cortes\u00eda del Grupo Luna Nueva.<\/p><\/div>  Sua hist\u00f3ria repete a de outras tantas meninas e adolescentes que diariamente caem nas redes do com\u00e9rcio sexual de menores no Paraguai, um dos pa\u00edses latino-americanos onde mais prospera este crime.<\/p>\n<p>Claudia deixara para tr\u00e1s uma fam\u00edlia desestruturada e afundada na pobreza, incentivada por sua irm\u00e3 mais velha que vivia em Assun\u00e7\u00e3o. Mas as promessas de uma vida melhor evaporaram rapidamente e a falta de recursos e prote\u00e7\u00e3o a levaram para as ruas.<\/p>\n<p>Ali foi encontrada pelas educadoras da organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o-governamental Grupo Luna Nueva, dedicada a dar aten\u00e7\u00e3o a meninas e adolescentes v\u00edtimas de explora\u00e7\u00e3o sexual. \u201cA abordagem foi muito dif\u00edcil, porque Claudia tinha uma liga\u00e7\u00e3o especial com a irm\u00e3, que j\u00e1 exercia o trabalho sexual h\u00e1 algum tempo\u201d, disse \u00e0 IPS Nidia Rios, educadora da Luna Nueva.<\/p>\n<p>A organiza\u00e7\u00e3o conta com uma equipe que identifica meninas e adolescentes em situa\u00e7\u00e3o de risco. \u201cNossa tarefa \u00e9 entrar em contato com elas e criar um v\u00ednculo de confian\u00e7a, para depois lhes mostrar a proposta da Luna Nueva\u201d, disse Erika Almeida, respons\u00e1vel pela equipe.<\/p>\n<p>Claudia aceitou ir para o abrigo da organiza\u00e7\u00e3o e iniciou a primeira etapa do processo, denominado Kunu\u2019u (mimar, em l\u00edngua guarani). Nesta etapa \u00e9 feito um estudo psicol\u00f3gico, identifica-se os v\u00ednculos familiares e avalia-se a situa\u00e7\u00e3o escolar. Com tudo isto \u00e9 estabelecido um diagn\u00f3stico geral, as prioridades na aten\u00e7\u00e3o e um plano de trabalho individualizado para cada menor resgatada, que dura v\u00e1rios meses.<\/p>\n<p>As resgatadas podem viver no abrigo com seus filhos, quanto os t\u00eam, ou seguir o programa como externas. O \u00fanico requisito \u00e9 deixar de se prostituir e, em troca, recebem apoio psicol\u00f3gico, integram-se a um trabalho social e participam de uma din\u00e2mica que as motiva a se expressarem. Quando chegam, muitas n\u00e3o sabem ler nem escrever, e o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m lhes d\u00e1 novas oportunidades e uma nova rela\u00e7\u00e3o com seu contexto.<\/p>\n<p>Claudia retomou seus estudos e restaurou paulatinamente a rela\u00e7\u00e3o com seus pa\u00eds e irm\u00e3os, algo a que resistia por ter sido muito maltratada em sua casa. \u201cO maior problema \u00e9 que as fam\u00edlias est\u00e3o desestruturadas e n\u00e3o ajudam neste processo. As jovens sentem-se sozinhas, precisam de afeto, mas ningu\u00e9m o d\u00e1\u201d, disse R\u00edos.<\/p>\n<p>A possibilidade de abandonar o programa sempre est\u00e1 presente, em algumas ocasi\u00f5es promovida pelas pr\u00f3prias fam\u00edlias, afundadas na pobreza a na perda de valores. \u201cMuitas vezes as fam\u00edlias, diante de suas necessidades, consideram natural a quest\u00e3o da explora\u00e7\u00e3o como uma fonte de renda, por isso as jovens se veem obrigadas a abandonar o programa\u201d, explicou Rios.<\/p>\n<p>Os educadores da Luna Nueva percorrem dia e noite as ruas das \u00e1reas onde se exerce a prostitui\u00e7\u00e3o em Assun\u00e7\u00e3o e nos munic\u00edpios vizinhos, sem esquecer o terminal de \u00f4nibus, as centrais de caminhoneiros e o mercado central. Almeida explicou que as meninas que trabalham no mercado como vendedoras, vendem seus produtos em troca de favores sexuais. Outras vezes, a contrata\u00e7\u00e3o de menores para servi\u00e7o dom\u00e9stico serve como \u201cpano de fundo\u201d para a posterior explora\u00e7\u00e3o sexual, conforme descobriu a organiza\u00e7\u00e3o em um estudo feito em mar\u00e7o.<\/p>\n<p>Os educadores informam \u00e0s exploradas sobre o programa e como podem participar, al\u00e9m de realizar campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o e preven\u00e7\u00e3o sobre sa\u00fade sexual e reprodutiva. \u201cSe n\u00e3o querem vir, procuramos manter o v\u00ednculo, apoiando-as com atividades concretas\u201d, ressaltou Almeida.<\/p>\n<p>O programa da Luna Nueva acolhe meninas e adolescentes de 11 a 17 anos desde 1995, quando as autoridades da capital tentaram retirar das ruas as trabalhadoras sexuais, em um pa\u00eds onde o exerc\u00edcio da prostitui\u00e7\u00e3o \u00e9 legal depois dos 18 anos. \u201cUm grupo de mulheres organizadas apoiou essas trabalhadoras e assim conseguiram identificar entre elas um grande n\u00famero de meninas e adolescentes\u201d, contou \u00e0 IPS Raquel Fern\u00e1ndez, coordenadora geral da Luna Nueva.<\/p>\n<p>Essa foi a origem de uma organiza\u00e7\u00e3o nascida para promover os direitos das meninas e adolescentes em situa\u00e7\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o sexual. Em 2008, a organiza\u00e7\u00e3o apoiou 36 meninas e adolescentes e 14 filhos, e, dessas, 24 com seus 11 filhos se mant\u00eam no programa.<\/p>\n<p>Dados de um esc\u00e2ndalo<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 n\u00fameros oficiais sobre quantas meninas ou adolescentes s\u00e3o v\u00edtimas do com\u00e9rcio sexual no Paraguai, mas um informe especial do Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (Unicef) mostrou, em 2005, os graus de esc\u00e2ndalo que esse crime alcan\u00e7a no pa\u00eds.<\/p>\n<p>Duas em cada tr\u00eas trabalhadoras sexuais s\u00e3o menores no Paraguai, onde a venda de meninas, a prostitui\u00e7\u00e3o infantil e a utiliza\u00e7\u00e3o de menores em pornografia s\u00e3o \u201ctang\u00edveis e frequentes\u201d e as v\u00edtimas s\u00e3o iniciadas no com\u00e9rcio entre os 12 e 13 anos. Quase todas as exploradas em Assun\u00e7\u00e3o procedem do interior e romperam seus la\u00e7os familiares ap\u00f3s sofrerem abusos sexuais ou f\u00edsicos.<\/p>\n<p>O Unicef detalhou que 98% das meninas exploradas recebem entre US$ 6 e US$ 10 para cada \u201cservi\u00e7o\u201d. Durante sua visita ao Paraguai, em 2004, o relator especial sobre a Prostitui\u00e7\u00e3o Infantil, Juan Miguel Petit, disse estar \u201ccomovido\u201d pelos muitos testemunhos de meninas de pouca idade que se prostitu\u00edam por um d\u00f3lar ou por um prato de comida.<\/p>\n<p>E a explora\u00e7\u00e3o sexual infantil n\u00e3o se limita a Assun\u00e7\u00e3o. Estende-se por todo o pa\u00eds e ganha caracter\u00edsticas de drama em Ciudad del Este, capital do departamento de Alto Paran\u00e1 e epicentro da Tr\u00edplice Fonteira, onde o Paraguai se encontra com Brasil e Argentina, uma zona associada a atividades il\u00edcitas de todo tipo.<\/p>\n<p>A Organiza\u00e7\u00e3o Internacional do Trabalho fez, em 2002, um estudo em Ciudad del Este no qual registrou 650 trabalhadoras sexuais. Destas, 250 eram meninas e adolescentes v\u00edtimas do com\u00e9rcio sexual e do interligado crime organizado. A magnitude do problema levou a OIT a criar ali um centro especial para estas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o sexual comercial de meninos, meninas e adolescentes se nutre no Paraguai de quatro fatores que se retroalimentam: pobreza, desigualdade, exclus\u00e3o social e dominante cultura patriarcal, segundo o Centro Latino-Americano para Especialistas em Explora\u00e7\u00e3o Infantil e Adolescente, criado em 2006 ap\u00f3s um primeiro f\u00f3rum regional sobre o crime.<\/p>\n<p>O Paraguai \u00e9 um dos pa\u00edses com maior pobreza da Am\u00e9rica Latina. De seus 6,1 milh\u00f5es de habitantes, 28% sobrevivem com menos de um d\u00f3lar por dia e 36% vivem em situa\u00e7\u00e3o de pobreza.<\/p>\n<p>Este ano, a Secretaria Nacional da Inf\u00e2ncia e Adolesc\u00eancia (SNNA) resgatou do semiabandono o Plano Nacional de Preven\u00e7\u00e3o e Erradica\u00e7\u00e3o da Explora\u00e7\u00e3o Sexual de Meninas, Meninos e Adolescentes, lan\u00e7ado em 2003. Celeste Oudin, diretora de Planejamento do SNNA, explicou \u00e0 IPS que o plano pretende ajudar a fazer com que as institui\u00e7\u00f5es d\u00eaem aten\u00e7\u00e3o ao problema e impulsionar medidas focadas nos direitos das v\u00edtimas.<\/p>\n<p>At\u00e9 agora, a SNNA n\u00e3o conta com um programa de interven\u00e7\u00e3o direta diante de um crime que n\u00e3o desperta o esperado rep\u00fadio social. Mas articula sua tarefa com organiza\u00e7\u00f5es como a Luna Nueva e o sistema de Justi\u00e7a. Oudin admitiu que \u00e9 dif\u00edcil enfrentar um problema cuja solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa apenas por tirar das ruas as menores exploradas e menos ainda por sua pris\u00e3o, quando, por exemplo, \u201cn\u00e3o se prende os clientes e os exploradores\u201d. Para ela, a explora\u00e7\u00e3o existe porque h\u00e1 uma demanda dos que buscam ter rela\u00e7\u00f5es sexuais com menores de idade, por isso se deve chegar at\u00e9 os exploradores e clientes, e isso exige a\u00e7\u00f5es m\u00faltiplas e interdisciplinares.<\/p>\n<p>Mas a coordenadora da Luna Nueva, Raquel Fern\u00e1ndez, se mostra otimista quanto \u00e0 possibilidade de concretizar uma pol\u00edtica p\u00fablica eficaz contra o flagelo, com base na vontade pol\u00edtica e no trabalho comum de institui\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e privadas.<\/p>\n<p>Claudia mostra tamb\u00e9m um caminho de esperan\u00e7a. Sete anos ap\u00f3s sua chegada a Assun\u00e7\u00e3o, estuda enfermagem, est\u00e1 socialmente inserida e vive com uma tia perto da capital, depois de passar quatro anos dentro do programa que a ajudou a aprender que outra vida era poss\u00edvel.<\/p>\n<p>Para as educadoras, a adolescente deixou tudo de lado e resistiu \u00e0s persistentes press\u00f5es de seu maior afeto, sua irm\u00e3, para que voltasse \u00e0s ruas. Custou muito recompor sua autoestima e seus la\u00e7os familiares, mas agora mant\u00e9m contato com seus pais e tamb\u00e9m os visita. \u201cTodo um triunfo e um exemplo\u201d, disseram.<\/p>\n<p>* O sobrenome n\u00e3o \u00e9 citado a pedido da fonte.<\/p>\n<p> (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assun\u00e7\u00e3o, 13\/08\/2009 &ndash; Claudia* tinha 13 anos quando chegou \u00e0 capital do Paraguai procedente de uma pequena localidade rural. 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