{"id":5421,"date":"2009-08-19T09:33:07","date_gmt":"2009-08-19T09:33:07","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5421"},"modified":"2009-08-19T09:33:07","modified_gmt":"2009-08-19T09:33:07","slug":"per-a-realidade-chegou-e-preciso-ouvir-as-vozes-das-mulheres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/08\/africa\/per-a-realidade-chegou-e-preciso-ouvir-as-vozes-das-mulheres\/","title":{"rendered":"PeR : A realidade chegou: \u00c9 preciso ouvir as vozes das mulheres"},"content":{"rendered":"<p>KIGALI, 19\/08\/2009 &ndash; Cinquenta e seis por cento dos deputados do Ruanda s\u00e3o mulheres, o que demonstra o papel activo que as mulheres t\u00eam desempenhado na reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds desde o genoc\u00eddio de 1994. <!--more--> Odette Nyiramilimo, que foi Ministra dos Assuntos Sociais do Ruanda entre 2000 e 2003, e senadora entre 2003 e 2008, atribui a forte presen\u00e7a das mulheres ruandesas no Governo \u00e0 exist\u00eancia de um meio ambiente que apoia a discrimina\u00e7\u00e3o positiva no Ruanda. <\/p>\n<p>Acredita que a Quarta Confer\u00eancia Mundial sobre as Mulheres em Beijing, em 1995, exerceu uma influ\u00eancia crucial sobre as mulheres ruandesas, juntamente com o firme compromisso do Presidente Paul Kagame, que tornou claro que os direitos das mulheres s\u00e3o tamb\u00e9m direitos humanos e que o desenvolvimento n\u00e3o seria poss\u00edvel se se deixasse para tr\u00e1s 52 por cento da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segue-se um resumo da entrevista:<\/p>\n<p>IPS: Muitos pa\u00edses fazem discursos e leis e apresentam quotas visando aumentar a participa\u00e7\u00e3o das mulheres no governo, mas continuam a falhar na implementa\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 que motivou e sustentou os esfor\u00e7os do Ruanda para atingir a paridade do g\u00e9nero na legislatura? <\/p>\n<p>Odette Nyiramilimo: Posso dizer que \u00e9 a sede de desenvolvimento. Se mais de metade da popula\u00e7\u00e3o ficar para tr\u00e1s, estou convencida que haveria fracasso. <\/p>\n<p>Outra raz\u00e3o \u00e9 que, depois do genoc\u00eddio, as mulheres desempenharam um grande papel na reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. As mulheres trabalharam diligentemente e tomaram conta dos orf\u00e3os, uniram as comunidades, o que levou toda a gente a verificar que eram um elemento-chave. Depois disso, apercebemo-nos que era preciso ouvir as vozes das mulheres. <\/p>\n<p>IPS: Quais s\u00e3o alguns dos principais desafios que a senhora encontrou no seu percurso e como \u00e9 que os ultrapassou? <\/p>\n<p>ON: Para que as mulheres participem plenamente em posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, o maior desafio s\u00e3o as pr\u00f3prias mulheres. Elas n\u00e3o foram treinadas para serem pol\u00edticas, nem sequer para serem l\u00edderes em qualquer esfera, o que ficou muito claro durante os periodos eleitorais. N\u00e3o se via uma \u00fanica mulher a cadidatar-se a qualquer posi\u00e7\u00e3o. Mas hoje as mulheres chegaram \u00e0 conclus\u00e3o que t\u00eam de fazer parte do processo de desenvolvimento. <\/p>\n<p>O outro desafio s\u00e3o os homens. Eles n\u00e3o compreendem que uma mulher pode ser uma l\u00edder. Pensam que as mulheres estariam melhor se ficassem em casa a cuidar das fam\u00edlias ou a fazer trabalho social como enfermeiras ou professoras &#8230; mas hoje em dia j\u00e1 percebem, porque j\u00e1 viram o que as mulheres conseguem fazer. J\u00e1 conheceram a lideran\u00e7a das mulheres. <\/p>\n<p>O outro desafio s\u00e3o as barreiras sociais, especialmente quando as mulheres sentem que t\u00eam de deixar os homens liderar. Uma mulher que \u00e9 o centro da fam\u00edlia tem um tempo limitado para estar no escrit\u00f3rio, para procurar informa\u00e7\u00e3o lendo jornais ou ouvindo as not\u00edcias. Tem outras responsabilidades, como tomar conta dos filhos e do marido. <\/p>\n<p>Mas tem havido algumas mudan\u00e7as na atitude dos homens, que agora compreendem que tamb\u00e9m eles precisam de ser pr\u00f3-activos no que diz respeito a tomar conta das suas fam\u00edlias, por compara\u00e7\u00e3o ao que se passava h\u00e1 alguns anos. <\/p>\n<p>Diria que o desafio que as mulheres enfrentam hoje \u00e9 equilibrar as suas carreiras e fam\u00edlias; o ser l\u00edder \u2013 especialmente como mulheres \u2013 tem de come\u00e7ar em casa. N\u00e3o podemos abandonar os nossos deveres como mulheres e m\u00e3es e, por isso, precisamos de aprender a delicada arte do equil\u00edbrio. Na maior parte dos casos, o fracasso em casa pode ser interpretado como fraqueza ou lideran\u00e7a incapaz. <\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 altura dos homens deixarem de ver as mulheres como rivais para as verem como parceiras. Como mulheres, ainda sentimos a hostilidade de alguns colegas masculinos. Alguns come\u00e7aram a sentir-se amea\u00e7ados devido ao elevado n\u00famero de mulheres no parlamento e come\u00e7aram a exigir a mudan\u00e7a da legisla\u00e7\u00e3o, afirmando que as mulheres n\u00e3o devem receber tratamento especial nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es. <\/p>\n<p>Mas estamos a lutar pela mesma causa: o desenvolvimento do nosso pa\u00eds. \u00c9 isso que deviam compreender.<\/p>\n<p>Estes s\u00e3o os maiores desafios. Reconhecemos que ainda n\u00e3o atingimos os nossos objectivos e que ainda h\u00e1 muito a fazer para conseguir igualdade para todos. O nosso objectivo \u00e9 colocarmos 30 por cento de mulheres em todos os sectores, com\u00e9rcio, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade, etc.<\/p>\n<p>IPS: Como \u00e9 que conseguiram o que j\u00e1 alcan\u00e7aram? Como \u00e9 que conseguiram encorajar as mulheres e convencer os homens que tamb\u00e9m as mulheres podem ser l\u00edderes? <\/p>\n<p>ON: Primeiro formulando leis que deram mais direitos \u00e0s mulheres. Em 1999, aprov\u00e1mos a lei sobre a heran\u00e7a que, pela primeira vez, deu as mulheres o direito de herdar terra das suas fam\u00edlias. Depois disso, foram promulgadas diversas outras leis que permitiram \u00e0s mulheres exprimir as suas opini\u00f5es.<\/p>\n<p>Em 2003, a nova constitui\u00e7\u00e3o atribuiu 30 por cento das posi\u00e7\u00f5es de destaque \u00e0s mulheres, que acabaram por ficar com 48 por cento dos lugares no parlamento, um esfor\u00e7o que encorajou as mulheres a participarem na pol\u00edtica, desde o governo local at\u00e9 \u00e0s posi\u00e7\u00f5es mais elevadas. <\/p>\n<p>As associa\u00e7\u00f5es femininas como o Clube da Uni\u00e3o, o Grupo das Mulheres L\u00edderes do Ruanda, e o F\u00f3rum Parlamentar das Mulheres do Ruanda, tamb\u00e9m desempenharam um papel importante, ao sensibilizarem as mulheres no sentido de uma maior participa\u00e7\u00e3o. Os seus membros, as mulheres em posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a, tamb\u00e9m organizaram confer\u00eancias destinadas a mulheres e raparigas. Fomos \u00e0s escolas, fal\u00e1mos nas associa\u00e7\u00f5es e em encontros p\u00fablicos, com os orientadores de opini\u00f5es, al\u00e9m de diversos outros indiv\u00edduos &#8230;. Ainda \u00e9 um processo em evolu\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Um bom exemplo \u00e9 a iniciativa orientada pela Primeira Dama, denominada Funda\u00e7\u00e3o Imbuto, que oferece pr\u00e9mios \u00e0s raparigas com as melhores notas nas escolas prim\u00e1rias e secund\u00e1rias. As mulheres em posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a s\u00e3o convidadas por esta organiza\u00e7\u00e3o a encorajarem as raparigas n\u00e3o s\u00f3 a obterem bons resultados nas aulas, mas tamb\u00e9m fora delas, o que tem um impacto tremendo na mudan\u00e7a de mentalidades. <\/p>\n<p>IPS: J\u00e1 h\u00e1 algum tempo que a senhora e outras mulheres est\u00e3o em posi\u00e7\u00f5es de poder. Que mudan\u00e7as introduziram no parlamento e no governo e como que \u00e9 que essas mudan\u00e7as se traduziram em melhorias gerais para as mulheres ruandesas? <\/p>\n<p>ON: Em primeiro lugar, a mudan\u00e7a da mentalidade segundo a qual as mulheres devem sempre desempenhar um papel secund\u00e1rio. A cultura ruandesa \u2013 assim como a cultura africana \u2013 geralmente coloca a mulher em segundo lugar, depois do homem. <\/p>\n<p>Isto agora mudou. As mulheres agora t\u00eam confian\u00e7a pr\u00f3pria e acreditam que podem ser pol\u00edticas, mulheres de neg\u00f3cios e cientistas. Um n\u00famero significativo de mulheres est\u00e1 a fazer um bom trabalho, influenciando o resto da popula\u00e7\u00e3o. <\/p>\n<p>Hoje \u00e9 mais f\u00e1cil \u00e0s mulheres terem acesso a empr\u00e9stimos banc\u00e1rios \u2013 o que n\u00e3o era poss\u00edvel h\u00e1 alguns anos. Na minha experi\u00eancia pessoal, n\u00e3o consegui obter um empr\u00e9stimo banc\u00e1rio simplesmente por ser mulher!<\/p>\n<p>O n\u00famero de raparigas e mulheres em institui\u00e7\u00f5es de ensino terci\u00e1rio aumentou. Em particular, o n\u00famero das que estudam ci\u00eancias e tecnologia aumentou substancialmente por compara\u00e7\u00e3o a anos anteriores. <\/p>\n<p>IPS: A que n\u00edvel \u00e9 que diria que as mulheres conseguiram influenciar mais o governo?<\/p>\n<p>ON: Diria a n\u00edvel nacional, porque \u00e9 o n\u00edvel que tem mais potencial em termos de resultados tang\u00edveis. Um bom exemplo \u00e9 a aprova\u00e7\u00e3o de leis cruciais: a lei da heran\u00e7a, a lei contra a viol\u00eancia baseada no g\u00e9nero, a import\u00e2ncia da inclus\u00e3o do g\u00e9nero no or\u00e7amento, para mencionar s\u00f3 algumas. <\/p>\n<p>As mulheres em posi\u00e7\u00f5es de lideran\u00e7a acreditam que a cont\u00ednua press\u00e3o a favor da igualdade do g\u00e9nero \u00e9 necess\u00e1ria a todos os n\u00edveis, particularmente a n\u00edvel popular, sendo tamb\u00e9m necess&#1660;ria a educa\u00e7\u00e3o dos nossos colegas sobre a import\u00e2ncia do envolvimento das mulheres, em p\u00e9 de igualdade, no processo de desenvolvimento da nossa na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>KIGALI, 19\/08\/2009 &ndash; Cinquenta e seis por cento dos deputados do Ruanda s\u00e3o mulheres, o que demonstra o papel activo que as mulheres t\u00eam desempenhado na reconstru\u00e7\u00e3o do pa\u00eds desde o genoc\u00eddio de 1994. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/08\/africa\/per-a-realidade-chegou-e-preciso-ouvir-as-vozes-das-mulheres\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":73,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-5421","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5421","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/73"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5421"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5421\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5421"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5421"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5421"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}