{"id":5423,"date":"2009-08-19T09:45:15","date_gmt":"2009-08-19T09:45:15","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5423"},"modified":"2009-08-19T09:45:15","modified_gmt":"2009-08-19T09:45:15","slug":"saude-africa-do-sul-andando-de-bicicleta-e-curando","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/08\/africa\/saude-africa-do-sul-andando-de-bicicleta-e-curando\/","title":{"rendered":"SA\u00daDE-\u00c1FRICA DO SUL: andando de bicicleta e curando"},"content":{"rendered":"<p>CIDADE DO CABO, 19\/08\/2009 &ndash; Todas as manh\u00e3s durante a semana, uma elegante prociss\u00e3o sai dos escrit\u00f3rios da MaAfrika Tikkun, uma ONG em Delft, na Cidade do Cabo, atravessa \u00e0s sacudidelas e trope\u00e7\u00f5es os port\u00f5es da entrada de cascalho, para depois chegar ao alcatr\u00e3o e se espalhar por todos os cantos do bairro. <!--more--> \u201cAquelas pessoas, elas s\u00e3o mos kwaai jong (muito fixes) \u2013 agora andam de bicicleta&#8230; \u201c diz um transeunte com inveja. <\/p>\n<p>Numa zona retratada pela imprensa como dominada pelo crime, triste e desesperada, os trabalhadores de sa\u00fade da MaAfrika Tikkun percorrem as ruas, entre barracas e casas, sem qualquer receio, nas suas pretas e elegantes bicicletas com uma \u00fanica velocidade \u2013 as Africabikes \u2013, levando cestos de arame e sacolas cheias de material necess\u00e1rio a cuidados domicili\u00e1rios. <\/p>\n<p>\u201cAs pessoas dizem que parece uma bicicleta do passado\u201d, diz Esmeralda Piers. que trabalha como prestadora de assist\u00eancia domicili\u00e1ria desde 2006. \u201cToda a gente quer uma. Amarramos as nossas bicicletas, mas as pessoas olham para elas quase como se fossem bicicletas \u2018ambul\u00e2ncias\u2019 e por isso n\u00e3o as roubam.\u201d<\/p>\n<p>Piers \u00e9 uma das 108 trabalhadores de sa\u00fade da MaAfrika Tikkun que receberam uma bicicleta no final de 2008, tendo estas bicicletas sido doadas pelo projecto BikeTown Africa, sediado nos Estados Unidos. O objectivo do projecto \u00e9 entregar mais 1.000 bicicletas a trabalhadores de sa\u00fade em 2009. <\/p>\n<p>Os prestadores de cuidados de sa\u00fade fazem visitas domicili\u00e1rias, tratam das feridas e asseguram que as pessoas com doen\u00e7as cr\u00f3nicas (como tuberculose, diabetes, VIH e SIDA) tomam os medicamentos. Tamb\u00e9m acompanham o crescimento e a sa\u00fade de beb\u00e9s rec\u00e9m-nascidos. <\/p>\n<p>Piers vive em Delft h\u00e1 19 anos e, como a maior parte dos prestadores de cuidados de sa\u00fade, costumava andar a p\u00e9 de paciente em paciente. \u201c\u00c9 lento e cansativo e, \u00e0s vezes, \u00e9 preciso correr-se de um paciente para outro\u201d, afirmou. \u201cSe usarmos um t\u00e1xi, temos de pagar do nosso pr\u00f3prio bolso.\u201d<\/p>\n<p>O governo nacional sul africano paga um ordenado a prestadores de cuidados domicili\u00e1rios para visitarem quatro a dez pacientes por dia no m\u00ednimo (dependendo do n\u00edvel de tratamento necess\u00e1rios). Mas, \u00e0s vezes, estes prestadores de cuidados de sa\u00fade n\u00e3o conseguem ver toda a gente, segundo Beryl van den Heever, respons\u00e1vel pela equipa da MaAfrika Tikkun. \u201cPode levar muito tempo para lavar e ouvir um s\u00f3 paciente. Por vezes, os prestadores de cuidados de sa\u00fade s\u00f3 conseguem examinar correctamente cinco pessoas\u201d.<\/p>\n<p>\u201cAgora, examinam 8-12 pessoas por dia, passam mais tempo com os pacientes e podem responder a emerg\u00eancias mais rapidamente&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Os servi\u00e7os de sa\u00fade baseados nas comunidades, que incluem a assist\u00eancia domicili\u00e1ria, desempenham um importante papel na melhoria da sa\u00fade p\u00fablica e na redu\u00e7\u00e3o da press\u00e3o exercida sobre as institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, afirma Faiza Steyn, directora de comunica\u00e7\u00f5es do Departamento de Sa\u00fade Provincial do Cabo Ocidental. <\/p>\n<p>S\u00f3 no Cabo Ocidental houve um aumento de 83 por cento no n\u00famero de prestadores de cuidados de sa\u00fade recrutados por organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o governamentais no ano passado. Durante este periodo, prestaram assist\u00eancia domicili\u00e1ria a mais de 24.000 pessoas. <\/p>\n<p>Os prestadores de assist\u00eancia domicili\u00e1ria trabalham sobretudo em tr\u00eas \u00e1reas: aquilo a o que o departamento de sa\u00fade intitula de hospitaliza\u00e7\u00e3o ambulat\u00f3ria, ou seja, os pacientes que j\u00e1 tiveram alta do hospital mas que ainda precisam de tratamento; o acompanhamento da ingest\u00e3o da medica\u00e7\u00e3o, especialmente no que diz respeito a doen\u00e7as cr\u00f3nicas, tuberculose, diabetes, hipertens\u00e3o e doen\u00e7as do foro psiqui\u00e1trico; e campanhas de educa\u00e7\u00e3o de sa\u00fade. <\/p>\n<p>Charles Rosant, que trabalha h\u00e1 tr\u00eas meses como prestador de cuidados domicili\u00e1rios, afirma que j\u00e1 visitou um paciente que n\u00e3o tinha comida nenhuma em casa. \u201cComo \u00e9 que lhe posso pedir que tome os medicamentos se n\u00e3o tem comida?\u201d<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 a capacidade de poder ajudar os outros que me faz levantar todas as manh\u00e3s\u201d, disse Rosant, montando a sua bicicleta para se dirigir \u00e0 loja mais pr\u00f3xima para comprar p\u00e3o para o seu paciente. \u201cSe andasse a p\u00e9, s\u00f3 poderia visit\u00e1-lo novamente no dia seguinte.\u201d<\/p>\n<p>Noutra ocasi\u00e3o, a equipa de Delft conseguiu arranjar prestadores de cuidados adicionais quando precisaram usar uma \u2018ambul\u00e2ncia provis\u00f3ria\u2019 para levar um paciente para o hospital. \u201cSe n\u00e3o fosse assim, n\u00e3o ter\u00edamos conseguido juntar tantas pessoas t\u00e3o rapidamente\u201d, afirmou Piers. <\/p>\n<p>Mas n\u00e3o se movimentam de forma t\u00e3o r\u00e1pida que n\u00e3o podem parar e conversar, e continuar a fazer parte da comunidade. \u201cAndamos suficientemente devagar para dar \u00e0s pessoas a oportunidade de sairem das suas casas e fazerem perguntas\u201d, disse Piers. \u201cPodemos ainda dar conselhos enquanto nos movimentamos\u201d. <\/p>\n<p>Em termos de energia gasta ao longo de uma certa dist\u00e2ncia, um ciclista fortuito pode percorrer uma dist\u00e2ncia quatro vezes superior por compara\u00e7\u00e3o \u00e0quela que consegue fazer a p\u00e9, podendo tamb\u00e9m transportar um n\u00famero de mercadorias cinco vezes superior, afirmou Bradley Schroeder, da BikeTown Africa. Em termos de velocidade, o esfor\u00e7o despendido para se andar a p\u00e9 quatro quil\u00f3metros por hora \u00e9 o mesmo que se gasta para se andar de bicicleta 16 quil\u00f3metros por hora. As bicicletas tamb\u00e9m t\u00eam os custos operacionais mais baixos de todos os meios de transporte. <\/p>\n<p>Dezasseis quil\u00f3metros \u00e9 a dist\u00e2ncia m\u00e9dia que Trudy Makerman faz todos os dias, para completar a sua ronda como prestadora de cuidados de sa\u00fade, o que inclui a desloca\u00e7\u00e3o de sua casa, a movimenta\u00e7\u00e3o de um paciente para outro paciente, e o regresso a casa. <\/p>\n<p>Makerman \u00e9 uma trabalhadora de sa\u00fade no distrito frut\u00edfero de Robertson, no Cabo Ocidental. Juntamente com Stoffel Klein e Nicolene Reque, da Associa\u00e7\u00e3o de Desenvolvimento Rural de Robertson, desloca-se dist\u00e2ncias bastante longas \u2013 10-20 quil\u00f3metros \u2013 em estradas de cascalho \u00edngremes, para examinar crian\u00e7as pequenas e pessoas com doen\u00e7as cr\u00f3nicas. <\/p>\n<p>Em Novembro de 2008, a Associa\u00e7\u00e3o aceitou uma entrega de bicicletas do programa do governo nacional intitulado Shova Kalula. Desde ent\u00e3o, a equipa tem conseguido visitar entre 500 a 550 pacientes por m\u00eas (e passar mais tempo com cada um deles \u2013 visto que n\u00e3o t\u00eam de andar a p\u00e9, a correr, de fazenda em fazenda), comparado aos 100 a 200 pacientes examinados quando o grupo tinha de andar a p\u00e9. <\/p>\n<p>\u201cAndar a p\u00e9 at\u00e9 l\u00e1 n\u00e3o era o maior problema\u201d, disse Makerman. \u201cEra antes o eindpad [o regresso a p\u00e9] quando estava calor. (O dia de trabalho come\u00e7a \u00e0s oito da manh\u00e3 e acaba \u00e0s 12:30). Est\u00e1vamos cansados devido ao trabalho realizado at\u00e9 essa altura. Eu precisava de descansar antes de visitar o paciente seguinte . Nem sempre tinha a energia necess\u00e1ria para estar com eles.\u201d<\/p>\n<p>A bicicleta tamb\u00e9m lhe permite sair de casa mais tarde de manh\u00e3 e regressar a casa mais cedo, o que lhe d\u00e1 mais tempo para estar com a fam\u00edlia (e consigo pr\u00f3pria). <\/p>\n<p>\u201cA minha bicicleta \u00e9 mesmo certa para mim\u201d, disse Makerman. \u201cAs pessoas podem dizer que j\u00e1 sou muito velha (tem 43 anos) e perguntar porque \u00e9 que eu n\u00e3o arranjo um autom\u00f3vel. Mas, para mim, a bicicleta ajuda-me a evitar o stress. \u00c9 bom para mim e \u00e9 bom para os meus pacientes. Todos os trabalhadores de sa\u00fade deviam ter uma!\u201d<\/p>\n<p>Piers tamb\u00e9m encontrou um benef\u00edcio pessoal na sua bicicleta. \u201cVou ter com os meus amigos e primos em Belhar, em Belville, fa\u00e7o compras e falo com os meus primos &#8230; cada vez que isso acontece, poupo pelo menos 30 Randes ($3.50) que teriam de ser pagos aos t\u00e1xis.\u201d<\/p>\n<p>Leva os filhos com ela, mas s\u00f3 na sua bicicleta mais velha. \u201cOs meus filhos de nove e seis anos de idade conseguem andar na bicicleta, mas eu n\u00e3o uso a minha bicicleta de trabalho para isso.\u201d <\/p>\n<p>\u201cMas sabem, n\u00e3o \u00e9 a quest\u00e3o da bicicleta\u201d, disse Piers, sem se aperceber que estava a repetir o t\u00edtulo de uma famosa biografia. \u201cAlgumas pessoas querem ser prestadores de cuidados porque v\u00e3o receber uma bicicleta, mas para n\u00f3s, a bicicleta \u00e9 a cereja em cima do bolo. Quando algu\u00e9m me agradece por ter feito um bom trabalho, sei porque \u00e9 que estou a fazer este trabalho. E a bicicleta ajuda-me a faz\u00ea-lo melhor.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CIDADE DO CABO, 19\/08\/2009 &ndash; Todas as manh\u00e3s durante a semana, uma elegante prociss\u00e3o sai dos escrit\u00f3rios da MaAfrika Tikkun, uma ONG em Delft, na Cidade do Cabo, atravessa \u00e0s sacudidelas e trope\u00e7\u00f5es os port\u00f5es da entrada de cascalho, para depois chegar ao alcatr\u00e3o e se espalhar por todos os cantos do bairro. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/08\/africa\/saude-africa-do-sul-andando-de-bicicleta-e-curando\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":655,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3],"tags":[],"class_list":["post-5423","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5423","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/655"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5423"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5423\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}