{"id":5433,"date":"2009-08-20T16:22:08","date_gmt":"2009-08-20T16:22:08","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5433"},"modified":"2009-08-20T16:22:08","modified_gmt":"2009-08-20T16:22:08","slug":"direitos-humanos-africa-justica-insensivel-a-violencia-de-genero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/08\/africa\/direitos-humanos-africa-justica-insensivel-a-violencia-de-genero\/","title":{"rendered":"DIREITOS HUMANOS-\u00c1FRICA: justi\u00e7a insens\u00edvel \u00e0 viol\u00eancia de g\u00eanero"},"content":{"rendered":"<p>Nair\u00f3bi, 20\/08\/2009 &ndash; Cada dia, milhares de mulheres s\u00e3o v\u00edtimas da viol\u00eancia de g\u00eanero na \u00c1frica, mas muitas n\u00e3o procuram a justi\u00e7a porque sentem medo e vergonha diante de um sistema insens\u00edvel \u00e0 sua situa\u00e7\u00e3o <!--more--> Os dois filhos de Florence Mukambi morreram queimados em suas camas e ela ficou desfigurada e na mis\u00e9ria depois que dois jovens de uma etnia rival incendiaram a cabana onde vivam nos arredores de Nair\u00f3bi. Os tr\u00eas foram v\u00edtimas da viol\u00eancia inter\u00e9tnica que come\u00e7ou nesse pa\u00eds ap\u00f3s as disputadas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de dezembro e que causou a morte de um milh\u00e3ode pessoas e 350 mil refugiados internos.<\/p>\n<p>Mukambi ainda reside no bairro de Kibera, um enorme assentamento de cabanas constru\u00eddo poucos quil\u00f4metros a sudoeste de Nair\u00f3bi em um terreno onde se joga o lixo da \u00e1rea. Mais de um milh\u00e3o de pessoas vivem ali, sem saneamento e em contato com fezes humanas e de animais lan\u00e7adas pelos esgotos, p\u00f3 e cinzas. O motivo do ataque incendi\u00e1rio foi a origem \u00e9tnica de Mukambi e seus filhos, todos kikuyus, enquanto a maioria da popula\u00e7\u00e3o de Biera \u00e9 de origem luo. \u201cS\u00e3o estes que engendram nossos inimigos\u201d, gritaram seus atacantes. A tens\u00e3o entre as duas etnias aumentou depois que Mwai Kibaki, tamb\u00e9m kikuyu, foi declarado vencedor nas elei\u00e7\u00f5es de 2008 contra Raila Odinga, um luo.<\/p>\n<p>Nesse dia, como de costume, Mukambi havia comprado bananas doces para revender e conseguir dinheiro para pagar a escola dos filhos. Nunca imaginou que seria o \u00faltimo dia em que veria com vida sua filha de 11 anos e seu filho de oito. Mukambi j\u00e1 n\u00e3o pode trabalhar porque tem a m\u00e3o direita queimada gravemente e perdeu as orelhas. Os canais auditivos est\u00e3o cobertos por pele que se regenera e acumula sem cessar. \u201cN\u00e3o posso ouvir nem trabalhar para comer. E meus filhos, que poderiam cuidar de mim, est\u00e3o mortos\u201d, conta entre l\u00e1grimas.<\/p>\n<p>Mukambi necessita de enxertos de pele e cirurgia corretiva, explicou Carol Ogengo, diretora-executiva da organiza\u00e7\u00e3o Tomorrow\u2019s Child Initiative, que a ajuda. A organiza\u00e7\u00e3o se interessou por seu caso quando Mukambi recorreu a ela para denunciar a morte dos filhos. \u201cO caso dela n\u00e3o se enquadraria em nosso esquema, mas nos comoveu o trauma que sofreu com a morte dos filhos\u201d, disse Ogengo. Mas Mukambi \u00e9 apenas a ponta do iceberg.<\/p>\n<p>Milhares de mulheres, tanto no Qu\u00eania como em muitos pa\u00edses africanos, vivem a viol\u00eancia diariamente, e n\u00e3o apenas por parte de estranhos, mas muitas vezes a partir de seus entes queridos. No Centro de Recupera\u00e7\u00e3o da Viol\u00eancia de G\u00eanero (GVRC), vinculado ao Hospital de Mulheres de Nair\u00f3bi Teresa Omondi, recebe casos de todo tipo, como \u201cviola\u00e7\u00f5es, ataques sexuais que incluem penetra\u00e7\u00e3o nas \u00e1reas genitais com dedos e paus, e inclusive crian\u00e7as obrigadas a praticar sexo oral\u201d. Desde sua cria\u00e7\u00e3o em 2001, o centro recebeu mais de 14 mil casos, 49% tendo como v\u00edtimas mulheres, 45% meninos e meninas e 6% homens. A todos \u00e9 oferecido tratamento, assessoramento e ajuda para que recorram aos \u00f3rg\u00e3os de justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Omondi, advogada, expressa sua desilus\u00e3o pela forma como se lida com os casos de viol\u00eancia dom\u00e9stica. Embora a lei estabele\u00e7a que todo m\u00e9dico habilitado pode apresentar um relat\u00f3rio como evid\u00eancia perante os tribunais, em muitos casos os m\u00e9dicos do Estado apresentam informes contradit\u00f3rios que livram o acusado. \u201cMe pergunto se isto n\u00e3o \u00e9 uma conspira\u00e7\u00e3o para brutalizar as mulheres\u201d, disse Omondi, e acrescenta que as mulheres procuram muito mais tratamento m\u00e9dico do que assist\u00eancia legal. \u201cAlgumas s\u00f3 querem ser tratadas para se sentirem bem e esquecerem o assunto\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Carol Njeri, m\u00e9dica do centro, diz que em um dia normal recebe de tr\u00eas a quatro casos de viola\u00e7\u00e3o em seu plant\u00e3o de seis horas. Como cada turno tem tr\u00eas m\u00e9dicos, ela atenderia apenas um ter\u00e7o das v\u00edtimas. Omondi acredita que as mulheres temem recorrer \u00e0 justi\u00e7a nos casos de viol\u00eancia de g\u00eanero porque os atacantes costumam ser pessoas que conhecem. \u201cNa maioria das vezes trata-se do pai, tio, primo, vizinho, dono da loja\u201d, disse. Essa situa\u00e7\u00e3o, junto com a animosidade do sistema judicial, inibe muitas v\u00edtimas.<\/p>\n<p>A diretora-executiva da Associa\u00e7\u00e3o de Mulheres Advogadas do Qu\u00eania (Fida), Patricia Nyaundi, diz que ainda falta muito para se fazer justi\u00e7a com as milhares de v\u00edtimas de viol\u00eancia de g\u00eanero. Calcula-se que mais de mil mulheres foram violadas e atacadas em janeiro e fevereiro de 2008, depois das elei\u00e7\u00f5es. Nyaundi falou a jornalistas da \u00c1frica oriental e austral em um painel sobre como informar a viol\u00eancia de g\u00eanero, organizado em Nair\u00f3bi pelo escrit\u00f3rio regional da IPS (Inter Press Service). Assegura que muitas mulheres preferem n\u00e3o denunciar a viol\u00eancia para n\u00e3o passar vergonha. Todo o sistema judicial, da pol\u00edcia aos tribunais, \u00e9 insens\u00edvel ao g\u00eanero, ressalta Nyaundi.<\/p>\n<p>\u201cQuando se faz a den\u00fancia na delegacia o policial pergunta por que estava na rua t\u00e3o tarde. No tribunal acontece o mesmo. Sente-se que a mesma viol\u00eancia acontece de novo\u201d, conta Nyaundi. \u201cE como enfrentar a justi\u00e7a quando se tem problemas mentais, ou \u00e9 surda, etc?\u201d, acrescenta. Nyaundi defendeu a cria\u00e7\u00e3o de um fundo de ajuda \u00e0s v\u00edtimas da viol\u00eancia de g\u00eanero que lhes permite recorrer \u00e0 justi\u00e7a. \u201cEste pa\u00eds tem riqueza para criar um fundo para ajudar 20 mil v\u00edtimas de viol\u00eancia de g\u00eanero por m\u00eas\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>A ativista prop\u00f5e que nos casos de viol\u00eancia contra crian\u00e7as haja intermedi\u00e1rios para evitar que as v\u00edtimas se enfrentem com seus algozes na mesma sala. Isso seria outra forma de tortura e intimida\u00e7\u00e3o, acrescentou.<\/p>\n<p> (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nair\u00f3bi, 20\/08\/2009 &ndash; Cada dia, milhares de mulheres s\u00e3o v\u00edtimas da viol\u00eancia de g\u00eanero na \u00c1frica, mas muitas n\u00e3o procuram a justi\u00e7a porque sentem medo e vergonha diante de um sistema insens\u00edvel \u00e0 sua situa\u00e7\u00e3o <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/08\/africa\/direitos-humanos-africa-justica-insensivel-a-violencia-de-genero\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":106,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[3,6,11],"tags":[21,24],"class_list":["post-5433","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-africa","category-direitos-humanos","category-politica","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5433","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/106"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5433"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5433\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5433"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5433"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5433"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}