{"id":5438,"date":"2009-08-21T17:19:02","date_gmt":"2009-08-21T17:19:02","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5438"},"modified":"2009-08-21T17:19:02","modified_gmt":"2009-08-21T17:19:02","slug":"bolivia-mulheres-de-etnia-aymaras-sofrem-com-muitas-tarefas-e-poucos-direitos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/08\/america-latina\/bolivia-mulheres-de-etnia-aymaras-sofrem-com-muitas-tarefas-e-poucos-direitos\/","title":{"rendered":"BOLIVIA: Mulheres de etnia aymaras sofrem com muitas tarefas e poucos direitos"},"content":{"rendered":"<p>Calamarca, Bol\u00edvia, 21\/08\/2009 &ndash; Entre os aymaras da Bol\u00edvia, as adolescentes s\u00f3 adquirem a condi\u00e7\u00e3o plena de mulher perante sua comunidade quando demonstram uma grande laboriosidade e conhecimento de tarefas ancestrais.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_5438\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Mujeres_Delfina_Laura_Flavia_Amaru_FranzChavezIPS1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5438\" class=\"size-medium wp-image-5438\" title=\" - Franz Ch\u00e1vez\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Mujeres_Delfina_Laura_Flavia_Amaru_FranzChavezIPS1.jpg\" alt=\" - Franz Ch\u00e1vez\/IPS\" width=\"200\" height=\"134\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5438\" class=\"wp-caption-text\"> - Franz Ch\u00e1vez\/IPS<\/p><\/div>  Mas, essa mesma condi\u00e7\u00e3o lhes nega direitos, justi\u00e7a e acesso \u00e0 lideran\u00e7a comunit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o resultado de uma pesquisa sobre a vida das mulheres do Altiplano boliviano que retrata uma realidade pouco conhecida, como terem de provar que sabem acumular a administra\u00e7\u00e3o da casa, a educa\u00e7\u00e3o dos filhos, a elabora\u00e7\u00e3o de artesanatos e o trabalho junto ao homem na agricultura, entre outras tarefas. \u201cValoriza-se muito o car\u00e1ter laborioso das mulheres nas comunidades. \u00c9 considerada fraca a que s\u00f3 fica em casa cuidando do \u2018wawa\u2019 (filho) e cozinhando\u201d, disse \u00e0 IPS a linguista Filomena Nina Harcacho, que dirigiu o estudo \u201cPor tr\u00e1s das lentes com que se olha: Mulheres do Altiplano, ordens normativas e interliga\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O estudo, promovido pela organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o governamental Coordenadora da Mulher, colheu depoimentos em seis comunidades originais e evidenciou que a passagem de adolescente para mulher tamb\u00e9m exige que a jovem tenha conhecimentos sobre pastoreio, tecer manualmente, usar ervas medicinais e praticar ritos e cerim\u00f4nias.<\/p>\n<p>A popula\u00e7\u00e3o de l\u00edngua aymara na Bol\u00edvia representa 1,7 milh\u00e3o dos 10 milh\u00f5es de habitantes do pa\u00eds e se concentra na regi\u00e3o do Altiplano que se estende no oeste do territ\u00f3rio, entre as montanhas mais altas da Cordilheira dos Andes.<\/p>\n<p>A cultura aymara \u00e9 a segunda em import\u00e2ncia neste pa\u00eds, depois da qu\u00e9chua que se expande desde as zonas montanhosas at\u00e9 os vales centrais e que re\u00fane mais de 2,5 milh\u00f5es de pessoas, segundo o censo de 2001. \u201cA hierarquia masculino-feminina \u00e9 produto da superioridade do homem em termos de for\u00e7a f\u00edsica. Mas, o outro lado desta interpreta\u00e7\u00e3o \u00e9 que a for\u00e7a bruta \u00e9 associada com o trabalho masculino, enquanto a capacidade de trabalho das mulheres se baseia na for\u00e7a mais sutil do conhecimento, da mem\u00f3ria e da habilidade\u201d, disse a linguista aymara.<\/p>\n<p>Delfina Laura, de 82 anos que nasceu em uma fam\u00edlia qu\u00e9chua mas h\u00e1 34 anos vive dentro da cultura aymara, contou \u00e0 IPS em Calamarca, povoado do Altiplano 60 quil\u00f4metros ao sul de La Paz e a quatro mil metros de altitude, o quanto a mulher aymara evoluiu nos \u00faltimos anos. \u201cAgora, s\u00e3o bem espertas, antes eram tontas\u201d, disse, para descrever as aymaras atuais como h\u00e1beis comerciantes de batata, \u201cchu\u00f1o\u201d (batata desidratada), vacas e ovelhas. \u201cAo contr\u00e1rio dos homens, que acabam gastando o dinheiro em bebida, as aymaras cuidam e o administram para comprar alimentos e multiplicar a renda\u201d, disse Laura na barraca de refrescos, biscoitos e balas que tem em uma pra\u00e7a do povoado, depois de estender um couro de ovelha com l\u00e3 amaciada como assento para seu h\u00f3spede.<\/p>\n<p>\u201cHoje as mulheres podem estudar e se formar, e isso lhes d\u00e1 for\u00e7a\u201d, disse, acrescentando, no \u00fanico momento em que perdeu o sorriso, que ela n\u00e3o aprendeu a ler e escrever porque seus pa\u00eds a abandonaram com quatro anos aos cuidados de uma av\u00f3.<\/p>\n<p>Laura perdeu o marido e dois filhos h\u00e1 60 anos e ent\u00e3o dedicou-se \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o de comerciante para sobreviver de forma independente, percorrendo por longo tempo feiras camponesas, onde ainda predomina a troca de produtos, at\u00e9 se instalar em Calamarca (povoado de pedra, em l\u00edngua aymara), com cerca de dois mil habitantes.<\/p>\n<p>Flavia Amaru administra um terreno familiar de 1,5 hectare e \u00e9 especialista em cultivos e cria\u00e7\u00e3o de animais dom\u00e9sticos. Veste saias, manta e chap\u00e9u ao estilo das mulheres de Calamarca, mas se difere da m\u00e9dia por ter t\u00edtulo de t\u00e9cnica superior em agropecu\u00e1ria, com especialidade em zootecnia. \u201cPor minha fam\u00edlia, meu lar e minhas tr\u00eas filhas\u201d, respondeu \u00e0 IPS com um sorriso triste, ao ser perguntada por que n\u00e3o chegou a obter o diploma de engenheira.<\/p>\n<p>Amaru, mulher de um engenheiro agr\u00f4nomo, preferiu n\u00e3o se estender em sua decis\u00e3o de ceder ao seu marido o privil\u00e9gio de ostentar o t\u00edtulo acad\u00eamico superior e se conformar com um grau t\u00e9cnico, para evitar inc\u00f4modos e conflitos familiares.<\/p>\n<p>Mas a maior carga de trabalho cabe a ela, em jornadas que come\u00e7am \u00e0s seis da manh\u00e3, em uma zona andina onde as temperaturas baixam de madrugada a menos de zero graus cent\u00edgrados. A ela corresponde cuidar das filhas, que estudam na escola local, de sua casa, da comida e de atender a \u201cchacra\u201d (fazenda) familiar.<\/p>\n<p>Na chacra, dedicada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de \u201cplantines\u201d (mudas) de verduras e \u00e0 pecu\u00e1ria, dirige tudo e trabalha mais do que seus tr\u00eas empregados, embora ressalte que o chefe \u00e9 seu marido. Suas jornadas se prolongam por 15 e at\u00e9 17 horas na \u00e9poca da colheita. Amaru admitiu que a \u00fanica recompensa para ela de tanto esfor\u00e7o \u00e9 \u201ca satisfa\u00e7\u00e3o de uma boa produ\u00e7\u00e3o\u201d, mas explicou que \u201cessa \u00e9 a vida da mulher, nada mais\u201d.<\/p>\n<p>Suportar \u00e9 a norma De fato, nas centenas de entrevistas feitas com as mulheres aymaras por Nina Huarcacho, a palavra \u201csuportar\u201d foi uma das mais repetidas na hora de resumir qual a sua obriga\u00e7\u00e3o, segundo as tradi\u00e7\u00f5es e normas que regem suas comunidades, inclusive quando o que precisam aguentar s\u00e3o abusos e maus tratos.<\/p>\n<p>Para Amaru, a viol\u00eancia \u00e9 pr\u00f3pria de \u201ctodo lar\u201d e descartou que, salvo exce\u00e7\u00f5es, as aymaras recorram \u00e0 justi\u00e7a comunit\u00e1ria porque os encarregados de aplic\u00e1-la sempre ser\u00e3o homens, que conhecem os maridos e se sentir\u00e3o mais pr\u00f3ximos de sua posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O acesso a terra est\u00e1, em geral, vedado \u00e0s aymaras, que herdam apenas os utens\u00edlios e bens m\u00f3veis, enquanto os im\u00f3veis correspondem ao homem. Somente quando s\u00e3o filhas \u00fanicas podem ficar na casa paterna ao se casar, mas ser\u00e1 o marido quem administrar\u00e1 a terra de seus pa\u00eds.<\/p>\n<p>A nova Constitui\u00e7\u00e3o boliviana reconhece no artigo 304 o exerc\u00edcio da jurisdi\u00e7\u00e3o ind\u00edgena e camponesa para aplicar justi\u00e7a e resolver conflitos dentro da comunidade. Mas, falta uma lei que regulamente este princ\u00edpio, que deve conviver com o da igualdade de g\u00eanero, tamb\u00e9m consagrado na Carta Magna.<\/p>\n<p>Nina Huarcacho confirmou que as entrevistadas \u201cdizem n\u00e3o conhecer muito de justi\u00e7a comunit\u00e1ria\u201d, e menos ainda sabem com a justi\u00e7a comum pode apoiar seus direitos espec\u00edficos de g\u00eanero. Gostariam de conhecer seus direitos, mas, \u201ctamb\u00e9m dizem, por exemplo, que \u00e9 preciso assumir a vida como ela \u00e9 e que suportar a viol\u00eancia \u00e9 parte da condi\u00e7\u00e3o de mulher\u201d, explicou.<\/p>\n<p>Algumas entrevistadas consideram que o castigo para o homem \u00e9 que \u201cse estou maltratada (apanhei), o marido tenha que me amparar e cuidar de mim\u201d, contou. A mulher camponesa, na maioria dos casos, \u201cn\u00e3o constr\u00f3i sua concep\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a, o meio constr\u00f3i para ela. Esse meio social leva a perceber o bom e o mau, constr\u00f3i seus valores e sua cultura\u201d, disse \u00e0 IPS a advogada Adriana R\u00edos, especialista em vincula\u00e7\u00e3o entre g\u00eanero e justi\u00e7a.<\/p>\n<p>Portanto, \u201cas expectativas da mulher aymara para obter apoio na defesa de seus direitos pessoais na comunidade s\u00e3o existentes, ainda mais porque a comunidade expulsou os tribunais ordin\u00e1rios e administra justi\u00e7a diretamente\u201d, afirmou.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a falta de instrumentos e conhecimentos jur\u00eddicos b\u00e1sicos impossibilitam uma boa aplica\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a comunit\u00e1ria, disse \u00e0 IPS o respons\u00e1vel pela Defensoria da Inf\u00e2ncia e Adolesc\u00eancia em Calamarca, Santos Mamani.<\/p>\n<p>De fato, este defensor viu-se for\u00e7ado por v\u00e1rios vazios existentes a assumir tarefas como concilia\u00e7\u00e3o familiar de juiz de paz, enquanto tenta contornar o desconhecimento sobre os direitos da mulher com cursos especiais de capacita\u00e7\u00e3o e sensibiliza\u00e7\u00e3o. Mamani atende em seu escrit\u00f3rio municipal casos de Calamarca e de remotas comunidades do munic\u00edpio, que em sua maioria se referem a problemas matrimoniais e familiares e abandono dos filhos.<\/p>\n<p>O estudo conclui que na maioria das comunidades os depoimentos mostraram que o papel da mulher \u201c\u00e9, antes de tudo, ser acompanhante de seu par masculino como um ornamento simb\u00f3lico que legitima o discurso de paridade, mas sem que o assuma com forma alternativa de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica\u201d<\/p>\n<p> (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Calamarca, Bol\u00edvia, 21\/08\/2009 &ndash; Entre os aymaras da Bol\u00edvia, as adolescentes s\u00f3 adquirem a condi\u00e7\u00e3o plena de mulher perante sua comunidade quando demonstram uma grande laboriosidade e conhecimento de tarefas ancestrais. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/08\/america-latina\/bolivia-mulheres-de-etnia-aymaras-sofrem-com-muitas-tarefas-e-poucos-direitos\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":83,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,6,11],"tags":[21,24],"class_list":["post-5438","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-direitos-humanos","category-politica","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5438","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/83"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5438"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5438\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5438"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5438"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5438"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}