{"id":5440,"date":"2009-08-21T17:28:32","date_gmt":"2009-08-21T17:28:32","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5440"},"modified":"2009-08-21T17:28:32","modified_gmt":"2009-08-21T17:28:32","slug":"migracoes-portugal-um-duvidoso-caminho-para-o-paraiso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/08\/direitos-humanos\/migracoes-portugal-um-duvidoso-caminho-para-o-paraiso\/","title":{"rendered":"MIGRA\u00c7\u00d5ES-PORTUGAL: um duvidoso caminho para o para\u00edso"},"content":{"rendered":"<p>Lisboa, 21\/08\/2009 &ndash; Cerca de 200 milh\u00f5es de pessoas, 3% da popula\u00e7\u00e3o mundial, vivem e tentam ser felizes fora de seu pa\u00eds de origem, um sonho que costuma ser truncado por m\u00e1fias do tr\u00e1fico de pessoas e empres\u00e1rios inescrupulosos, viol\u00eancia, extors\u00e3o, desconto no sal\u00e1rio, trabalho de sol a sol, fome e medo s\u00e3o o p\u00e3o cotidiano de muitos imigrantes em pa\u00edses com longa tradi\u00e7\u00e3o de emigra\u00e7\u00e3o secular sustentada, como Espanha, It\u00e1lia, Gr\u00e9cia e Portugal. <!--more--> Na aldeia de Selmes, comarca de Vidigueira, na regi\u00e3o meridional de Alentejo, trabalhadores romenos e tailandeses foram levados at\u00e9 ali pro uma empresa de trabalho tempor\u00e1rio que lhes prometeu um para\u00edso. Por tr\u00e1s da m\u00e1scara da empresa Pivo-Constantin-Daniel se encontra um romeno cuja identidade n\u00e3o se revela pelo segredo do processo judicial, que mantinha em situa\u00e7\u00e3o de semi-escravid\u00e3o 11 trabalhadores sem documenta\u00e7\u00e3o, contra os quais frequentemente praticava atos de viol\u00eancia f\u00edsica, segundo o testemunho de habitantes de Selmes. A \u00fanica informa\u00e7\u00e3o dada pela promotoria \u00e9 que se trata de um criminoso com extenso prontu\u00e1rio na Rom\u00eania por traficar m\u00e3o-de-obra para outros pa\u00edses europeus e sobre quem pesa um pedido de captura internacional.<\/p>\n<p>Os 11 trabalhadores, tamb\u00e9m deviam se levantar entre tr\u00eas e quatro horas da madrugada para trabalharem 12 horas em fazendas agr\u00edcolas distantes mais de 50 quil\u00f4metros e regressar ao cair da noite para dormirem em caixas de papel\u00e3o em uma casa toda bagun\u00e7ada.<\/p>\n<p>Os fatos se tornaram p\u00fablicos quando Joaquina Coelho, dona do Refugio de S\u00e3o Gabriel, a cantina da aldeia, relatou que no come\u00e7o deste m\u00eas dois romenos \u201cfamintos, descal\u00e7os e muito sujos\u201d lhe pediram atrav\u00e9s de sinais permiss\u00e3o para comer os restos dos pratos deixados por seus clientes. A chegada da pol\u00edcia fez com que os 11 ocupantes da casa fugissem, dois deles para a vizinha localidade de Moura, onde acabaram se apresentando \u00e0 pol\u00edcia local, pedindo para retornarem ao seu pa\u00eds.<\/p>\n<p>Pivo-Constantin-Daniel j\u00e1 foi not\u00edcia em junho, quando na localidade de Ferreira do Alentejo um trabalhador morreu no acidente do ve\u00edculo em que viajava com outros sete romenos sem documentos. A empresa na \u00e9poca apareceu como intermedi\u00e1ria de trabalho agr\u00edcola em fazendas da regi\u00e3o. O motorista do ve\u00edculo, Iacon Beleci, sob o impacto da morte de seu sobrinho no acidente, decidiu falar. As pessoas se calam por desespero e medo em que vivem, disse.<\/p>\n<p>Al\u00e9m das repres\u00e1lias das redes de traficantes de pessoas, Beleci afirmou que h\u00e1 \u201coutro medo maior\u201d, a interven\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia portuguesa contra os sem documentos, qualificados de ilegais pelas autoridades da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia. A maioria dos imigrantes deseja ter todos os papeis em ordem para se livrarem de pessoas que os obrigam a ter um emprego sem direitos e a ceder boa parte de seu sal\u00e1rio, que gira em torno do m\u00ednimo nacional de US$ 650 por m\u00eas, mas pelo qual devem trabalhar at\u00e9 12 horas di\u00e1rias, seis a sete dias por semana.<\/p>\n<p>A crise econ\u00f4mica que come\u00e7ou a ser sentida com maior rigor a partir de meados de 2008 marcou uma not\u00f3ria deteriora\u00e7\u00e3o na atitude dos empregadores portugueses em rela\u00e7\u00e3o aos imigrantes, disse \u00e0 IPS o engenheiro eletr\u00f4nico ucraniano Yuriv Zvozil, de 35 anos. Desde que emigrou para Portugal em 1997, Zvozil s\u00f3 conseguiu trabalhar como oper\u00e1rio da constru\u00e7\u00e3o civil. \u201cTive de aprender o of\u00edcio de pedreiro e iniciar uma nova vida\u201d, contou este especialista em \u00f3ptica de alta precis\u00e3o. Na \u00e9poca havia grandes obras em andamento, como a Exposi\u00e7\u00e3o Mundial de Lisboa 1998, a ponte Vasco da Gama, a maior da Europa com 17,8 quil\u00f4metros, autopistas, pr\u00e9dios, esta\u00e7\u00f5es de metr\u00f4, \u201ce os portugueses n\u00e3o davam conta de realiz\u00e1-las\u201d.<\/p>\n<p>Hoje a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 outra. Mas, \u201centre os portugueses das classes populares n\u00e3o vejo, como em outros pa\u00edses da UE, a chamada luta entre pobres\u201d, afirmou Svozil. Por outro lado, \u201csabendo das dificuldades, muitos empres\u00e1rios e propriet\u00e1rios de edif\u00edcios se aproveitam e oferecem sal\u00e1rios miser\u00e1veis para trabalhos duros e dif\u00edceis\u201d, acrescentou. \u201cO que n\u00e3o se deve aceitar \u00e9 trabalhar por centavos, como aconteceu h\u00e1 alguns dias, quando a dona de uma escola da Quinta da Marinha (um dos setores mais elegantes do distrito de Lisboa) queria que restaur\u00e1ssemos e pint\u00e1ssemos as instala\u00e7\u00f5es praticamente de gra\u00e7a ou, no m\u00e1ximo, por um prato de comida\u201d.<\/p>\n<p>Muitos empres\u00e1rios, especialmente do grande agroneg\u00f3cio de Alentejo, desejam substituir a m\u00e3o-de-obra europeia, dos ex-pa\u00edses socialistas, e tamb\u00e9m a brasileira por diaristas \u201cmais produtivos\u201d como tailandeses e vietnamitas. Traz\u00ea-los para Portugal cabe \u00e0 empresa israelense DFRM-International Services, que j\u00e1 colocou cerca de 300 trabalhadores desses dois pa\u00edses asi\u00e1ticos em hortas e planta\u00e7\u00f5es frut\u00edferas do distrito de Odemira. Manuel Candeias, gerente de uma empresa de trabalho tempor\u00e1rio, revela que os empres\u00e1rios agr\u00edcolas de Alentejo insistem em dizer que \u201cn\u00e3o queremos mais portugueses, brasileiros ou romenos, mas tailandeses\u201d. A porta-voz da DFRM, Rute Silva, explicou este entusiasmo pelo fato de \u201cum tailand\u00eas trabalhar o equivalente a dois europeus, s\u00e3o muito mais r\u00e1pidos\u201d e em seu pa\u00eds de origem \u201ct\u00eam apenas dois dias de f\u00e9rias pro ano\u201d. Assim, est\u00e3o acostumados a tarefas sem interrup\u00e7\u00f5es, em troca de baixa remunera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Apesar da necessidade da necessidade de imigra\u00e7\u00e3o da UE, pouco a pouco o bloco aumenta a altura do muro de conten\u00e7\u00e3o. Em 2008, a Uni\u00e3o Europ\u00e9ia aprovou novo acordo migrat\u00f3rio que prev\u00ea a expuls\u00e3o de estrangeiros considerados \u201cilegais\u201d e sua deten\u00e7\u00e3o por at\u00e9 18 meses. A determina\u00e7\u00e3o, que pode ser aplicada com varia\u00e7\u00f5es em cada pa\u00eds, foi criticada por associa\u00e7\u00f5es de defesa dos imigrantes, que acusam o bloco de violar os direitos humanos, apesar de sua crescente necessidade demogr\u00e1fica e econ\u00f4mica de estrangeiros.<\/p>\n<p>Segundo um informe de novembro de 2008 do Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Popula\u00e7\u00e3o, em 2050 Portugal ter\u00e1 perdido 700 mil habitantes, ou 6,5% de sua popula\u00e7\u00e3o atual. Por este motivo de conveni\u00eancia nacional, este pa\u00eds n\u00e3o aplica m\u00e3o de ferro \u00e0 imigra\u00e7\u00e3o. Em junho, a Gr\u00e9cia aprovou uma nova legisla\u00e7\u00e3o que permite \u00e0 pol\u00edcia prender os ilegais e mant\u00ea-los detidos por at\u00e9 um ano, em lugar dos tr\u00eas meses indicados anteriormente, e aumenta de um par 10 anos a pena para o crime de tr\u00e1fico de pessoas. A Fran\u00e7a, por sua vez, optou pela chamada \u201cimigra\u00e7\u00e3o escolhida\u201d, que cria obst\u00e1culos para pedidos de asilo pol\u00edtico e de reagrupamento familiar, ao impor a obrigatoriedade de os imigrantes falarem franc\u00eas e conhecerem os valores republicanos do pa\u00eds.<\/p>\n<p>A lei mais dura se aplica na It\u00e1lia, onde a imigra\u00e7\u00e3o passou a ser um crime punido com reclus\u00e3o e que obriga os italianos a denunciarem e n\u00e3o dar abrigo aos estrangeiros ilegais, sob pena de tamb\u00e9m serem condenados \u00e0 pris\u00e3o. O professor universit\u00e1rio Vital Moreira, um dos autores da Constitui\u00e7\u00e3o portuguesa, considera a decis\u00e3o italiana como uma \u201cclara regress\u00e3o em termos de civiliza\u00e7\u00e3o, que vai contra tudo aquilo que \u00e9 a ess\u00eancia da Uni\u00e3o Europ\u00e9ia\u201d.<\/p>\n<p> (IPS\/Envolverde)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lisboa, 21\/08\/2009 &ndash; Cerca de 200 milh\u00f5es de pessoas, 3% da popula\u00e7\u00e3o mundial, vivem e tentam ser felizes fora de seu pa\u00eds de origem, um sonho que costuma ser truncado por m\u00e1fias do tr\u00e1fico de pessoas e empres\u00e1rios inescrupulosos, viol\u00eancia, extors\u00e3o, desconto no sal\u00e1rio, trabalho de sol a sol, fome e medo s\u00e3o o p\u00e3o cotidiano de muitos imigrantes em pa\u00edses com longa tradi\u00e7\u00e3o de emigra\u00e7\u00e3o secular sustentada, como Espanha, It\u00e1lia, Gr\u00e9cia e Portugal. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/08\/direitos-humanos\/migracoes-portugal-um-duvidoso-caminho-para-o-paraiso\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":256,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[6,11],"tags":[18],"class_list":["post-5440","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-direitos-humanos","category-politica","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5440","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/256"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5440"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5440\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5440"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5440"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5440"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}