{"id":5468,"date":"2009-08-28T17:13:17","date_gmt":"2009-08-28T17:13:17","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5468"},"modified":"2009-08-28T17:13:17","modified_gmt":"2009-08-28T17:13:17","slug":"mulheres-america-latina-quando-emigrar-e-sair-pelo-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/08\/america-latina\/mulheres-america-latina-quando-emigrar-e-sair-pelo-mundo\/","title":{"rendered":"MULHERES-AM\u00c9RICA LATINA: Quando emigrar \u00e9 sair pelo mundo"},"content":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 28\/08\/2009 &ndash; Natividad Obeso tem v\u00e1rias vidas. Houve um tempo em que vivia em seu pa\u00eds natal, Peru, como pr\u00f3spera empres\u00e1ria e m\u00e3e de quatro filhos. Houve outro tempo no qual sobreviveu perambulando sozinha e sem dinheiro pelas ruas da capital Argentina, fugindo de uma persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que nunca entendeu  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_5468\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/NatividadObeso_MarcelaValenteIPS1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5468\" class=\"size-medium wp-image-5468\" title=\"Natividad Obeso - Marcela Valente\/IPS\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/NatividadObeso_MarcelaValenteIPS1.jpg\" alt=\"Natividad Obeso - Marcela Valente\/IPS\" width=\"200\" height=\"150\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5468\" class=\"wp-caption-text\">Natividad Obeso - Marcela Valente\/IPS<\/p><\/div>  E houve, felizmente, um tempo da desforra, que a transformou em uma defensora dos direitos das mulheres emigrantes no mundo. Brigando pro elas, quase sem se dar conta, Obeso chegou a ser relatora das Na\u00e7\u00f5es Unidas em Nova York no Di\u00e1logo de Alto N\u00edvel sobre Migra\u00e7\u00e3o Internacional e Desenvolvimento.<\/p>\n<p>Segundo v\u00e1rios organismos internacionais, nos \u00faltimos anos o n\u00famero de mulheres que emigram cresceu mais do que o de homens. Na Argentina chegou uma onda de bolivianos, paraguaios e peruanos na d\u00e9cada de 90 e a maioria era de mulheres sozinhas. Em um caf\u00e9 de Buenos Aires, Obeso se desculpou com a IPS porque em seguida chegaram outras mulheres. Procedem de Peru, Col\u00f4mbia, Paraguai, Venezuela. N\u00e3o mais a solid\u00e3o daqueles primeiros tempos longe de seu pa\u00eds, quando se cansava pelas ruas vendendo doces e sonhando acordada que abra\u00e7ava seus filhos.<\/p>\n<p>Em 1993, Obeso viva com quatro filhos menores de 11 anos no departamento de Cajamarca, norte do Peru. Era dona de uma distribuidora de cerveja e candidata \u00e0 prefeitura de sua cidade, embora nunca tenha vencido. Em um dia desse ano, quando o presidente era Alberto Fujimori (1990-2000), um policial amigo lhe mostrou uma ordem de pris\u00e3o emitida contra ela. Apesar de ser v\u00edtima do grupo armado Sendero Luminoso, que a obrigava a pagar uma contribui\u00e7\u00e3o mensal e inclusive chegou a seq\u00fcestr\u00e1-la, a justi\u00e7a a acusava de terrorista e Obeso deve de fugir do pa\u00eds. Em quest\u00e3o de horas deixou os filhos com sua m\u00e3e e partiu rumo \u00e0 Argentina, \u201ca Europa da Am\u00e9rica Latina\u201d, acreditava na \u00e9poca.<\/p>\n<p>\u201cFoi t\u00e3o diferente do que eu imaginava\u201d, recorda agora, aos 48 anos. Trabalhou como vendedora ambulante e como empregada dom\u00e9stica. Viveu em pens\u00f5es, dividiu quartos com outras pessoas. Demorou cinco anos para voltar a abra\u00e7ar seus filhos, que agora frequentam a universidade p\u00fablica na Argentina gra\u00e7as a uma lei que ela mesma exigiu que fosse sancionada. Obeso \u00e9 fundadora e presidente da Associa\u00e7\u00e3o Mulheres Unidas Migrantes e Refugiadas na Argentina (Amumra) e j\u00e1 percorreu cerca de 20 pa\u00edses para fazer ouvir a foz daquelas que s\u00e3o for\u00e7adas a emigrar em busca, diz, de \u201cuma melhor qualidade de vida para suas fam\u00edlias\u201d.<\/p>\n<p>IPS &#8211; Como chegou \u00e0 Argentina?<\/p>\n<p>Natividad Obeso &#8211; Sou de Cajabamba, uma prov\u00edncia da serra norte, no departamento de Cajamarca. Vim em 1994 fugindo do Peru porque me acusaram de terrorista. A Argentina n\u00e3o pedia visto e era considerada a Europa da Am\u00e9rica Latina, ent\u00e3o vim. Mas o que encontrei foi t\u00e3o diferente&#8230;<\/p>\n<p>IPS &#8211; O que deixou para tr\u00e1s?<\/p>\n<p>NO &#8211; Tudo. Viajei sozinha. Minha m\u00e3e, meus quatro filhos, meus irm\u00e3os. Eu era m\u00e3e solteira e meus filhos ficaram com minha m\u00e3e. Tinham entre 4 e 11 anos. Eu era empresaria, tinha uma distribuidora da cerveja Pilsen Trujillo. Viv\u00edamos muito bem.<\/p>\n<p>IPS &#8211; E o que foi pior nos primeiros anos no pa\u00eds onde chegou?<\/p>\n<p>NO &#8211; O vazio. N\u00e3o ter ningu\u00e9m. O migrante \u00e9 o ser mais indefeso que h\u00e1 sobre a terra. Mas eu tirei for\u00e7as de onde n\u00e3o tinha para n\u00e3o virar v\u00edtima.<\/p>\n<p>IPS &#8211; O que fez quando chegou?<\/p>\n<p>NO &#8211; Vim de \u00f4nibus com outros peruanos. Acreditava que nos deixariam no Hotel Sheraton. Mas, me deixaram em uma f\u00e1brica ocupada. Os migrantes dessa \u00e9poca eram puro sofrimento. Cheguei com dinheiro para me estabelecer, mas por n\u00e3o ter informa\u00e7\u00e3o nem uma m\u00e3o amiga, se vai direto para a pobreza. Fui vendedora ambulante. Vendia chocolate na rua. Trabalhei por horas como empregada dom\u00e9stica. Sem dormir no servi\u00e7o. Luto para que nenhuma mulher trabalhe com dom\u00e9stica que dorme no local de trabalho. Depois montei um locut\u00f3rio (local para chamadas telef\u00f4nicas) e cada peruana que falava com seus filhos era uma punhalada no meu cora\u00e7\u00e3o. Eu era uma delas. Havia perambulado por essas ruas sonhando que abra\u00e7ava meus filhos.<\/p>\n<p>IPS &#8211; Como foi sua experi\u00eancia trabalhando como dom\u00e9stica?<\/p>\n<p>NO &#8211; Trabalhei para uma senhora que me considerava uma filha. Em um 25 de Maio (feriado nacional) n\u00e3o fui trabalhar. No dia seguinte, de maneira prepotente, me perguntou por que havia faltado e respondi que n\u00e3o fui por ser feriado. Ela me disse: \u201cAs empregadas dom\u00e9sticas n\u00e3o t\u00eam feriado\u201d. Isso me marcou. Decidi que nunca mais faria esse trabalho. Ent\u00e3o veio um irm\u00e3o e montei o locut\u00f3rio. Vinham muitas peruanas e paraguaias que eram trabalhadoras do lar. N\u00e3o gosto de dizer dom\u00e9sticas.<\/p>\n<p>IPS &#8211; A emigra\u00e7\u00e3o se transformou em um fen\u00f4meno essencialmente feminino?<\/p>\n<p>NO &#8211; A migra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno. \u00c9 uma experi\u00eancia. Uma realidade que se vive cotidianamente. N\u00e3o gostamos de falar em fen\u00f4meno, como se fosse um desastre natural ou algo do tipo. Sa\u00edmos de nossos pa\u00edses em busca de melhor qualidade de vida para nossas fam\u00edlias, melhor educa\u00e7\u00e3o para nossos filhos. E nos encontramos com pol\u00edticas migrat\u00f3rias desumanas, xen\u00f3fobas.<\/p>\n<p>IPS &#8211; E nessa experi\u00eancia, nota que as mulheres est\u00e3o sendo protagonistas?<\/p>\n<p>NO &#8211; Sim, de 1990 em diante a migra\u00e7\u00e3o ficou feminina. Os homens t\u00eam medo de sair e n\u00e3o encontrar trabalho e elas tomaram impulso. As mulheres fazem o que for para conseguir dinheiro para a fam\u00edlia. O homem n\u00e3o. Se entrega \u00e0 solid\u00e3o&#8230; \u00e0 d\u00f3 de si mesmo&#8230;<\/p>\n<p>IPS &#8211; \u00c9 diferente o compromisso delas no envio de dinheiro?<\/p>\n<p>NO &#8211; Naturalmente. As mulheres t\u00eam uma responsabilidade que jamais ir\u00e3o nos tirar, que \u00e9 a de nossos filhos. N\u00f3s podemos deixar nossos maridos, mas n\u00e3o nossos filhos. Ningu\u00e9m toca neles. Mais ainda se somos migrantes. Podem fazer o que quiserem, podemos suportar atropelos, discrimina\u00e7\u00e3o, solid\u00e3o, mas, se tocam em um de nossos filhos, os defendemos com unhas e dentes.<\/p>\n<p>IPS &#8211; Quando p\u00f4de ver seus filhos?<\/p>\n<p>NO &#8211; Depois de cinco anos. E a\u00ed come\u00e7aram as dificuldades para o acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tanto no prim\u00e1rio, que eram mais flex\u00edveis, mas no secund\u00e1rio e na universidade, cujo acesso era imposs\u00edvel. Meu filho de 16 anos chorava porque ap\u00f3s tantos anos volt\u00e1vamos a estar juntos, mas ele n\u00e3o podia estudar como queria. Ent\u00e3o, bati na porta de todos os \u00f3rg\u00e3os que trabalhavam com imigrantes, e nada. Tive de lutar com deputados e senadores at\u00e9 conseguirmos uma lei de acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o pelos imigrantes. Quando conseguimos, muitas vieram me ver. Eu lhes disse \u201cperfeito, mas n\u00e3o vou trabalhar sozinha\u201d. Em 2003 tivemos os primeiros 41 jovens migrantes na universidade. E criamos a Amumra.<\/p>\n<p>IPS &#8211; Quais s\u00e3o hoje os maiores problemas que as imigrantes enfrentam?<\/p>\n<p>NO &#8211; O abuso das autoridades consulares e os maus-tratos por parte de muitos empregadores.<\/p>\n<p>IPS &#8211; Em quais setores se emprega mulheres?<\/p>\n<p>NO &#8211; Agora se conseguiu mais autonomia. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 tantas mulheres trabalhando como domesticas que dormem no emprego. Trabalham por hora em casas de fam\u00edlia e depois, por exemplo, vendem coisas na rua.<\/p>\n<p>IPS &#8211; E continuam enviando dinheiro?<\/p>\n<p>NO &#8211; Sim. Ficam com um m\u00ednimo para sobreviver. Mas desde 2001 muitas trouxeram a fam\u00edlia e j\u00e1 n\u00e3o precisam enviar.<\/p>\n<p>IPS &#8211; O que ficou com experi\u00eancia desta imigra\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>NO &#8211; Uma profunda mudan\u00e7a em minha pessoa. Gra\u00e7as a muitos professores e professoras daqui que me apoiaram. Quando viram qual era minha luta, apontaram os erros com cr\u00edticas. Dou gra\u00e7as a Deus por n\u00e3o ter sido eleita prefeita no Peru, porque \u00e9 preciso sair de nosso pa\u00eds para se saber o que ocorre de fato em nossa terra. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Buenos Aires, 28\/08\/2009 &ndash; Natividad Obeso tem v\u00e1rias vidas. 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