{"id":5475,"date":"2009-08-31T17:34:53","date_gmt":"2009-08-31T17:34:53","guid":{"rendered":"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/?p=5475"},"modified":"2009-08-31T17:34:53","modified_gmt":"2009-08-31T17:34:53","slug":"mulheres-america-latina-bicentenario-e-as-heroinas-da-independencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/08\/america-latina\/mulheres-america-latina-bicentenario-e-as-heroinas-da-independencia\/","title":{"rendered":"MULHERES-AM\u00c9RICA LATINA: Bicenten\u00e1rio e as hero\u00ednas da independ\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p>Caracas, 31\/08\/2009 &ndash; Juana Azurduy ou Manuela S\u00e1enz, Bartolina Sisa ou Gertrudis Bocanegra, Luisa C\u00e1ceres ou Policarpa Salavarrieta, as hero\u00ednas testemunham a participa\u00e7\u00e3o feminina na luta pela independ\u00eancia americana da Espanha, fa\u00e7anha cujo bicenten\u00e1rio come\u00e7a a ser comemorado este ano na Am\u00e9rica Latina.  <!--more--><br \/>\n <div id=\"attachment_5475\" style=\"width: 210px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Manuela_Saenz_gobiernovzla1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-5475\" class=\"size-medium wp-image-5475\" title=\" - Cortes\u00eda del gobierno de Venezuela.\" src=\"http:\/\/www.ipsnoticias.net\/portuguese\/fotos\/Manuela_Saenz_gobiernovzla1.jpg\" alt=\" - Cortes\u00eda del gobierno de Venezuela.\" width=\"200\" height=\"200\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-5475\" class=\"wp-caption-text\"> - Cortes\u00eda del gobierno de Venezuela.<\/p><\/div>  Mas, por sua vez, encarnam o solapamento pol\u00edtico e historiogr\u00e1fico do papel da mulher, que maci\u00e7amente combateu ou sofreu nesse processo de um quarto de s\u00e9culo, ente 1809 e 1824.<\/p>\n<p>No dia 14 de julho, a presidente da Argentina, Cristina Fern\u00e1ndez promoveu post-mortem ao grau de general a tenente-coronel Juana Azurduy (1780-1862 &#8211; foto), que perdeu cinco de seus seis filhos enquanto guerreava pela independ\u00eancia do Alto Peru, hoje Bol\u00edvia, dependente de Buenos Aires ao final do per\u00edodo colonial.<\/p>\n<p>Dois anos antes, o presidente equatoriano, Rafael Correa, promoveu tamb\u00e9m a general Manuela S\u00e1nez (1797-1856), a chamada \u201camante imortal\u201d de Simon Bol\u00edvar (1783-1830) e coronel do ex\u00e9rcito libertador, ao comemorar um anivers\u00e1rio da batalha de Pichincha (1822), da qual participou essa hero\u00edna nascida em Quito.<\/p>\n<p>\u201cIsso \u00e9 pol\u00edtica, n\u00e3o \u00e9 hist\u00f3ria\u201d, disse \u00e0 IPS In\u00e9s Quintero, vice-diretora da Academia Venezuelana da Hist\u00f3ria. \u201cN\u00e3o se valoriza o papel da mulher no processo de independ\u00eancia dando mais um t\u00edtulo a uma delas, isso n\u00e3o tem sentido, porque a hist\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 para presta\u00e7\u00e3o de contas\u201d, acrescentou.<\/p>\n<p>Segundo a acad\u00eamica, o que ocorre \u00e9 que \u201cna medida em que o tema feminino rende dividendos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 visibilidade que demandam as mulheres, existem alguns \u00edcones, as hero\u00ednas, que se incorporam como parte do discurso para se conseguir aten\u00e7\u00e3o para a quest\u00e3o da mulher\u201d.<\/p>\n<p>Para Sara Beatriz Guardi\u00e3, do peruano Centro de Estudos de Mulher na Hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina, \u201c\u00e9 poss\u00edvel notar uma mudan\u00e7a do discurso diante da import\u00e2ncia que ganhou nas \u00faltimas d\u00e9cadas o estudo da presen\u00e7a da mulher na hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>A tend\u00eancia se encaixa com as comemora\u00e7\u00f5es do \u201cciclo bicenten\u00e1rio\u201d, uma comemora\u00e7\u00e3o que come\u00e7ou este ano com evoca\u00e7\u00f5es dos gritos libert\u00e1rios de 1809 em Quito e La Paz e que seguir\u00e1 nos pr\u00f3ximos anos recordando declara\u00e7\u00f5es e batalhas.<\/p>\n<p>Esse processo e o sangrento confronto que o marcou despontaram com movimentos precursores, alguns com ineg\u00e1vel presen\u00e7a feminina e com uma cota de hero\u00ednas que algumas vezes destaca e outras solapa a historiografia oficial.<\/p>\n<p>\u00c9 o caso de Micaela Bastidas (1745-1781), esposa de T\u00fapac Amaru II (Jos\u00e9 Gabriel Condorcanqui, 1738-1781) e sua companheira na rebeli\u00e3o que encabe\u00e7ou no Peru. Foram executados no mesmo dia, com a menos conhecida Tomasa Condemayta, capit\u00e3 de um batalh\u00e3o de mulheres que ganhou batalhas contra as for\u00e7as espanholas.<\/p>\n<p>Ou e Bartolina Sisa (1753-1782), hero\u00edna aymara e mulher de T\u00fapac Katar\u00ed (Juli\u00e1n Apaza, 1750-1781), que mobilizou 40 mil ind\u00edgenas contra o poder espanhol em Alto Peru.<\/p>\n<p>Sisa comandou batalh\u00f5es e demonstrou dotes de estrategista ao sitiar as cidades de Sorata e La Paz. Vencido o movimento, ela foi cruelmente humilhada e torturada antes de ser enforcada.<\/p>\n<p>\u201cDepois, os criollos (Brancos) conquistaram a independ\u00eancia, indispens\u00e1vel para o desenvolvimento de seus interesses, e as fa\u00e7anhas emancipadoras dirigidas pro \u00edndios foram minimizadas e esquecidas, apesar de terem sacudido as bases do sistema colonial\u201d, diz Guardi\u00e3 em seu ensaio \u201cAs mulheres e a recupera\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria\u201d.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, \u201ca participa\u00e7\u00e3o destas mulheres foi apagada, com se o fato de ser mulher e morrer pela p\u00e1tria n\u00e3o tivesse os mesmos significados e a mesma dimens\u00e3o que as a\u00e7\u00f5es dos her\u00f3is, todos masculinos, de nossa hist\u00f3ria\u201d, disse a acad\u00eamica peruana.<\/p>\n<p>As mulheres de novo se destacaram quando se tramou a independ\u00eancia, como Manuela Ca\u00f1izares (1769-1815), anfitri\u00e3 dos conspiradores que deram o grito de quito em 1809, ou Maria Ignacia Rodr\u00edguez (1765-1817), animadora dos patriotas no M\u00e9xico.<\/p>\n<p>Gertrudis Bocanegra (1765-1817) tramou uma rede de insurgentes mexicanos. Capturada por espanh\u00f3is negou-se a delat\u00e1-los, apesar das torturas, e morreu fuzilada pelos realistas, como eram chamadas as for\u00e7as que respondiam \u00e0 metr\u00f3pole europ\u00e9ia.<\/p>\n<p>Empurraram pa\u00eds, filhos, irm\u00e3os, maridos ou noivos para que abra\u00e7assem a causa, como a chilena Javiera Carrera (1781-1862), advers\u00e1ria dentro do campo patriota do pr\u00f3cer Bernardo OHiggins, ou a neogranadina (colombiana) Policarpa Salavarrieta, grande lutadora clandestina, fuzilada em Bogot\u00e1 em 1817, junto com seu noivo, Alejo Sabara\u00edn.<\/p>\n<p>A hero\u00edna venezuelana mais conhecida \u00e9 Luisa C\u00e1ceres (1799-1866), mulher do general Juan Bautista Arismendi, a quem quiseram dobrar submetendo a jovem gr\u00e1vida a uma atroz pris\u00e3o entre 1814 e 1816, que a fez perder um filho, e depois com seu desterro.<\/p>\n<p>Na mil\u00edcia destacaram-se figuras como Azurduy, participante de guerrilhas e importantes batalhas com as de Ayohuma (1813), Potos\u00ed e La Laguna (1816), na qual foi ferida e seu morreu seu marido, Manuel Padilla, quando ia em seu socorro.<\/p>\n<p>S\u00e1enz, participante da batalha de Pichinca, ap\u00f3s a qual os ex\u00e9rcitos colombianos entraram no Peru, acompanhou Bol\u00edvar em suas campanhas e tarefas pol\u00edticas, e ap\u00f3s impedir seu assassinato por opositores em Bogot\u00e1 em 1828 come\u00e7ou a ser chamada de \u201clibertadora do libertador\u201d.<\/p>\n<p>Mas, em toda a guerra participaram muitas outras mulheres, integradas aos ex\u00e9rcitos, na retaguarda, na log\u00edstica (as \u201csoldaderas\u201d) e como combatentes. O falecido historiador venezuelano Vin\u00edcio Romero recordou \u00e0 IPS que na batalha de Carabobo (1821) muito provavelmente morreram dezenas de mulheres, de um e outro lado.<\/p>\n<p>No M\u00e9xico houve importante participa\u00e7\u00e3o de mulheres entre as tropas, bem como no ex\u00e9rcito colombiano (as da hoje Col\u00f4mbia, Equador, Panam\u00e1 e Venezuela) e na subregi\u00e3o andina foram incorporadas unidades ind\u00edgenas, incluindo mulheres, \u00e0s tarefas da guerra.<\/p>\n<p>Milhares de ind\u00edgenas acompanharam, por exemplo, o general argentino Juan Alvarez de Arenals (1770-1831), lugar-tenente de Jos\u00e9 de San Mart\u00edn (1778-1850) durante sua campanha pela serra peruana em 1819-1820.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria que n\u00e3o ama as mulheres<\/p>\n<p>\u201cHouve apenas uma \u00fanica guerra que n\u00e3o contou com participa\u00e7\u00e3o feminina\u201d, escreveu o jornalista e novelista sueco Stieg Larsson (1955-2005) como abertura da \u00faltima parte de sua trilogia \u201cMillennium\u201d, que acaba de ser lan\u00e7ada em castelhano.<\/p>\n<p>Como exemplo, o autor de fen\u00f4meno liter\u00e1rio do momento mencionou que na guerra civil norte-americana (1861-1865) \u201cestima-se que combateram 600 mulheres. O fizeram disfar\u00e7adas de homens\u201d.<\/p>\n<p>Em uma reflex\u00e3o que bem pode aplicar-se \u00e0 fa\u00e7anha emancipadora americana, Larsson diz: \u201cAos livros de hist\u00f3ria sempre foi dif\u00edcil falar das mulheres que n\u00e3o respeitam a fronteira que existe entre os sexos. E em nenhum outro momento essa fronteira \u00e9 t\u00e3o n\u00edtida como quando se trata da guerra e do uso das armas\u201d.<\/p>\n<p>Por isso, para Quintero, \u201ca compreens\u00e3o do processo n\u00e3o aponta para a excepcionalidade, para a hero\u00edna, mas para entender que a din\u00e2mica hist\u00f3rica incorpora todos os atores em fun\u00e7\u00e3o de sua condi\u00e7\u00e3o quando esses acontecimentos ocorrem\u201d.<\/p>\n<p>\u201cFora do c\u00f3digo her\u00f3ico ou de exce\u00e7\u00e3o se poder\u00e1 compreender o que significou a participa\u00e7\u00e3o feminina. Por exemplo, que os ex\u00e9rcitos admitissem a necess\u00e1ria incorpora\u00e7\u00e3o das mulheres, mas que as constitui\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que se seguiram ao seu esfor\u00e7o n\u00e3o lhes reconhecesse participa\u00e7\u00e3o nos assuntos do poder\u201d, disse Quintero.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio aprender que \u201cas mulheres guerrearam, mas tamb\u00e9m fugiram, se esconderam, sofreram, semearam, cuidaram de casas, fam\u00edlias e propriedades, amaram, criaram os filhos e enviuvaram, e tamb\u00e9m estiveram do lado contr\u00e1rio, como as esquecidas realistas\u201d, acrescentou Quintero.<\/p>\n<p>A historiadora \u00e9 autora de uma biografia de Maria Antonio Bol\u00edvar, irm\u00e3 do libertador e partid\u00e1ria da coroa espanhola.<\/p>\n<p>Gardia afirmou que \u201ca tend\u00eancia que prevalece no estudo da hist\u00f3ria desqualifica como objeto de estudo o \u00e2mbito da vida cotidiana e, portanto, as mulheres que atuaram principalmente nesse espa\u00e7o. Por\u00e9m, a vida cotidiana est\u00e1 no centro do acontecer hist\u00f3rico\u201d.<\/p>\n<p>Para Quintero, \u201cquando se estabelece dist\u00e2ncia entre a realidade e seres excepcionais, como S\u00e1enz, n\u00e3o se valoriza na historiografia o papel da mulher mas o significado de uma hero\u00edna a partir do c\u00f3digo patri\u00f3tico de que elabora o discurso\u201d.<\/p>\n<p>\u201cMas isso n\u00e3o tem consequ\u00eancias sobre o significado da mulher na hist\u00f3ria, nem sobre a vida feminina, nem sobre os problemas da mulher contempor\u00e2nea\u201d, acrescentou. IPS\/Envolverde<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Caracas, 31\/08\/2009 &ndash; Juana Azurduy ou Manuela S\u00e1enz, Bartolina Sisa ou Gertrudis Bocanegra, Luisa C\u00e1ceres ou Policarpa Salavarrieta, as hero\u00ednas testemunham a participa\u00e7\u00e3o feminina na luta pela independ\u00eancia americana da Espanha, fa\u00e7anha cujo bicenten\u00e1rio come\u00e7a a ser comemorado este ano na Am\u00e9rica Latina. <a href=\"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/2009\/08\/america-latina\/mulheres-america-latina-bicentenario-e-as-heroinas-da-independencia\/\" class=\"more-link\">Continue Reading <span class=\"meta-nav\">&rarr;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[2,11],"tags":[21,24],"class_list":["post-5475","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-america-latina","category-politica","tag-metas-do-milenio","tag-mulheres"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5475","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5475"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5475\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5475"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5475"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.ipsnews.net\/portuguese\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5475"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}